quinta-feira, 30 de setembro de 2010

sabe do que tenho saudade? de quando a gente se enfia debaixo do cobertor. fico abismado como pode a terra ter tanta pirâmide, tanta fábrica de cerveja, tanto estádio de futebol coberto, tanta ilha nudista, tanto vulcão, e tudo que é legal se resumir debaixo da penugem de um cobertor quadriculado, mordendo seu queixo, te incomodando com beliscões, brincando de vulcões íntimo-particulares com aquele meu ar de sabichão, se é que me entende. entende, entende.

- Gabito Nunes in Sabe do que sinto saudade

ser feliz é para se conseguir o quê?

- Clarice Lispector
com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? me fazer feliz. olha que desgraça. o moço quer me fazer feliz. e acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. e tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. o moço quer me fazer feliz. veja se pode.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

pega de surpresa
pela tua indiscrição,
vejo que convivi todo o tempo
com morcegos no forro do telhado.
tolero o que desconheço.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias

Eu, como um bom capricorniano


"é sentir saudade de quem já se foi e de quem nem chegou. é querer temendo, é tremer por querer demais." Isa G.

eu, como um bom capricorniano, odeio tumulto. acho que tudo tem que ter uma certa ordem, se não vira bagunça né? por vezes sou muito seletivo, e de tanto escolher, acabo sendo escolhido. acabei sendo escolhi pelo amor, creio eu, e isso é tremendamente constrangedor. eu que via beleza em corpos fortes, acabei me apaixonando por um cara de 1,75 de altura, poucos centímetros maior que eu, magro e sendentário. como essa vida engana. ah se eu ousasse escrever um texto sobre vida. ela já passou a perna em mim tantas vezes que aprendi – na marra – a ser um pouco masoquista. quem nunca apanhou da vida?
ele, como um bom escorpiano, odeia dar muitas satisfações sobre quem é. esse mistério é o que me mantém mais preso a ele. em breve vamos estar em escorpião, certo que acabamos de começar o ciclo de libra, mas não falta muito. pode não parecer, mas esses escorpianos, são ultra românticos, e podem surpreender. me mostre um escorpiano que sabe perder, porque não existe. sempre sai e me deixa falando sozinho, sai como ganhador ainda. que ódio.
são dois extremos e disso eu não tenho dúvida. sei que gosta do meu jeito de não te entregar a vitória de bandeja, você gosta de lutar pra conseguir o que quer. teu signo me chama demais atenção, o signo juntou com você, aí já era. tem como não se apaixonar? sinto sua falta, e te amo muito viu? o coração só pulsa forte quando você não está aqui, e acho que é por isso, que você deixa de acreditar no meu amor às vezes. ouviu? pulsou.

- Douglas Lenon
28 de setembro de 2010

parabéns, senhor Bambino 22 anos e 11 meses, essa maldita mania de
contar os meses e que te fez rir quando te contei da primeira vez.
ela não foi amoral. ela foi aquilo que fez: viveu um outro, tendo um outro, em busca de si mesma, fazendo para isso – e há outro jeito? loucuras têm de ser feitas; não para magoar alguém, mas para que haja algum sentido nesse existir. loucuras como as poesias. é preciso se viver poeticamente, e isso nada mais é do que abolir todos os códigos que regulamentam a nossa vida. aquilo que deve ser não existe. existe o bom gosto. existe a elegância. existem maneiras. mas não existem certezas. daí, quem é que pode julgar?

- Fernanda Young in Aritmética

terça-feira, 28 de setembro de 2010

não consigo ser verdadeiro o tempo todo. mas você me saca, eu sei.

- Caio Fernando Abreu
o corpo em movimento chama pra dentro.

- Martha Medeiros in Refúgio móvel pertencente a obra "Non-stop"

entendo porque ele não tem vontade de trabalhar, porque bebe tanto e dorme na poltrona; porque sempre parece distraído, e é tão fácil gostar dele. é fácil gostar de quem não se finge de forte, e se entrega à fraqueza para ser mais real.

- Lya Luft in O ponto cego

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

nos primeiros dias, não houve jeito de aquela melancolia passar. mas depois ele acabou entendendo que melhor seria aproveitar os dias e continuar fazendo as coisas que a gente mais gostava. “vamos brincar de carpe diem”, eu dizia. “lembra do arcadismo, das poesias arcádicas que exaltavam a vida no campo. e do movimento carpe diem, que pregava que os homens deveriam aproveitar cada dia como se fosse o único e ser feliz agora?”. e foi isso que fizemos.

- Valéria Piassa Polizzi in Depois daquela viagem
e no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.

- Tati Bernardi

Das coisas boas da vida


definitivamente meu lugar não é longe daqui, nem longe de você. nem me imaginei em não gostar "das coisas boas da vida", lugares fantásticos, pessoas lindas, música boa. acho que faço parte das pessoas caretas. gosto de passar as noites com você.
prefiro um zilhão de vezes estar deitado na cama contigo, do que sair por aí dançar, eu que pensava totalmente ao contrário até ontem de manhã. não existe nada melhor do que me esquentar nos teus pêlos quentinhos e acariciá-los até arrepiar. trocaria sem dúvidas alguma qualquer corpo exuberante – barriga tanquinho, costas largas, braços fortes – pela tua barriguinha de chope, tua risada alta, teus braços finos me envolvendo toda as noites da minha vida.
onde eu quero chegar? eu quero chegar em alguém que goste de fazer o que eu gosto de fazer, não precisa necessariamente ser tudo se não enjoa, é claro. mas quero alguém que esteja disposto a fazer loucuras pra me fazer feliz. não precisa me agradar sempre, até porque não sou muito fã de flores em dias especiais, nem nada do tipo. pode até ser vulgar escrevendo, mas sou adepto do bom sexo naquele domingo chuvoso, frio, embaixo do edredom.
eu sou louco por você, porque você combina com o meu jeito de falar, com o meu jeito de dançar, de encaixar, com o tapete da minha sala, com a cortina da cozinha, com a cama do meu quarto. de todas as coisas boas da vida, você está bem perto de ser a melhor, aliás, é a melhor.

- Douglas Lenon
26 de setembro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

mas parei de falar. vou buscar um chá e te observar trabalhando nas planilhas do seu computador mais um pouco, mesmo sendo nós uma dupla de péssimos planejadores. mas antes que seja tarde, me promete uma coisa: que não vai rir se acaso me fizer chorar. ok. pra que não seja mais uma vez tudo igual, que seja do seu jeito.

- Gabito Nunes in Que seja do seu jeito
ao andar contigo,
eu ria à toa,
a música já tinha
nossa respiração.
como uma cordilheira,
a tempestade sobrevoava
a esponja do verde,
sem derramar relâmpagos.
ao andar contigo,
eu me invejava.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias
ajeitaria o rosto da melhor maneira possível, como se o sentimento novo (e no entanto tão antigo) fosse algo a esconder. porque ele não queria surpreender nem chocar nem ferir. pertencia àquela estranha espécie de pessoas que flutuam pelo mundo, sutis, evitando esbarrar em qualquer coisa. não se sabia se procedia assim por simples delicadeza ou para defender-se. o fato é que era assim.

- Caio Fernando Abreu

sábado, 25 de setembro de 2010


“jamais deixe qualquer zé mané fazer você aguardar telefonemas, para depois ceder às desculpas dele, admitindo ser pega numa esquina sórdida e levada, quase abaixada, no carro do cara, até um motelzinho xexelento no cu do Judas, e ainda por cima não gozar! ah, um pouco mais de criatividade, meu caro! um pouco mais de hombridade! vá fotografar cu de puta para a Playboy e tocar uma reprimida bronha antes de dormir! eu sou um lírio! eu sou um lírio do campo! eu leio o mesmo poema há cinco anos antes de dormir! eu não quero que se casem comigo! eu não quero dinheiro de ninguém! eu não peço nada que nenhuma outra mulher apaixonada não peça! um cineminha, uma surpresa, um telefonema inesperado! o homem que não for capaz de, inteligentemente, fazer de tudo para agradar você, não merece seu afeto. e seu afeto é uma delícia. porque é livre. a sua boceta é uma delícia. e nunca sofre por esse merda, que se acha o fodão só por ser fotógrafo! cague para ele!”.

- Fernanda Young in Aritmética
escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.

- Clarice Lispector in Água Viva
avançar envolve progresso. avança-se não só em relação ao tempo, mas também em relação ao meio em que se vive, aos conceitos que nos são impostos. avançando, nossa percepção do mundo é ampliada, nossa história de vida acaba se justificando e nos preparando para o que vem mais adiante. daqui, deste posto avançado em que me encontro, posso dizer que a gente ama muitas vezes e que a vida tem mais portas do que parece. nem todas chaveadas. algumas, inclusive, entreabertas.

- Martha Medeiros in Idade avançada pertencente a obra "Non-stop"

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Me coloco no seu lugar


deitado na cama eu viajo em pensamentos, fecho os olhos pra tentar entender mais esse mundo louco o qual nós fomos jogados, todos nós. e se eu não tivesse nem aí para nada, e se nós trocássemos de lugar. eu seria o insensível, imaturo, lindo, arrogante, impulsivo, prepotente, melhor do mundo. e você seria o preocupado, educado, amoroso, meu, só meu.
se os personagens trocassem de fala, quem sabe eu não tenha feito o mesmo que você fez, quem sabe eu tenha ficado, quem sabe eu tenha tentado mudar. quem sabe se você tivesse no meu lugar você não teria desistido cedo, não teria tentado mais, teria procurado não entender e deixar rolar. quem sabe a gente poderia ter dado certo.
eu que só sei colocar a culpa na vida, e em mim, hoje coloco a culpa em você. porque você não se colocou no meu lugar, porque você não pensou em mim, porque se quer pensou que eu poderia vir a sofrer, esqueceu de ficar, eu que precisava tanto do teu colo, da tua mão quente no meu rosto frio.
moral da história, é que falta sentir prazer em ser quem a gente é, porque eu sinto. sinta prazer de estar aqui comigo, conversando comigo, brincando comigo, passando a mão na minha nuca, dizendo no meu ouvido que você é assim, mas que vai melhorar, que por mim você vai estar aqui sempre, que por mim você não vai sumir mais, que por mim o teu amor vai se transformar em nosso amor.

- Douglas Lenon
22 de setembro de 2010
fiz um pacto e executei os rituais, mas começo a ver que mais do que narrei estou sendo narrado: pois não parei simplesmente de crescer. estou mudando de muitas formas. minha altura continua a mesma, mas por dentro eu ainda cresço.
um dia não vou mais caber em mim? vou explodir ou, como cobra troca de pele, eu trocarei de máscaras? é isso que fazem os adultos com os quais não quero me parecer?

- Lya Luft in O ponto cego
Deb: — ele se apaixonou. se casou. formou uma família. tudo o que ele queria desde criança. uma casa normal. (risos entre os dois) por que você tem tanto problema com isso? eu direi o porquê, você não tem. seu problema é que ele te deixou. ele te deixou e seguiu em frente. só ele seguiu. você e ele fizeram escolhas diferentes, isso é tudo. isso não quer dizer que vocês não continuam se amando.
Bryan: — ele não fala comigo.
Deb: — então fale você com ele.

- Queer as Folk
5ª temporada, episódio 9

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

eu quero parar com tudo isso, ele é um menino que não pode acompanhar minha louca linha de raciocínio meio poeta, meio neurótica, meio madura. eu quero colocar um fim neste tormento de desejar tanto quem ainda tem tanto para desejar por aí. e aí eu me pergunto: pra quê? se está tão bom, se é tão simples...

- Tati Bernardi

depois de pegar essa mania besta de querer voltar no tempo ou desejar que ele passe logo, eu queria que o tempo pudesse parar só dessa vez. quem acredita nessa coisa de que nada dura pra sempre, nunca se apaixonou de verdade e não conheceu a estabilidade perturbadora do caos.

- Gabito Nunes in Que seja do seu jeito
me espera amor, que eu estou chegando; depois do inverno, a vida em cores; me espera amor, nossa temporada das flores. ♪

- Milena Monteiro
Temporada das flores

primavera, a mais linda das estações, que seja proveitosa pra mim, pra nós.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

há homens que comem e limpam
o suor ao mesmo tempo.
há homens que têm paz ao mastigar.
há homens que transam, tombam no canto
e resmungam sonhando.
há homens inflamáveis,
movidos a querosena e ódio.
há pensamentos que a gente não esquece
e não recorda.
a fidelidade pode ser cansaço.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias

Faltar, perder, sentir...


porque sempre esses verbos – faltar, perder e sentir – não possuem conjugação, na verdade acho que não são nem verbos, porque não é uma ação, falta ação, é diferente. os verbos se fundem também, é impressionante a sincronia, "sinto sua falta", "sinto que te perdi", você vê ação nisso? eu vejo falta de ação.
o pior não é que são verbos sem ações, é que são singulares, a perda é só sua. a falta é só sua. o sentimento é só seu. não existe sentir faltar juntos, perder juntos. certo que existe perder-se juntos, mas aí tem o auxílio do "se", e que auxílio. se falta é verbo, o que é saudade então? eu também não sei, só sei sentir.
eu não queria ir dormir hoje assim, sentindo falta do que perdi. precisa ser muito bom pra conseguir unir os três verbos inativos. eu sei fazer rima, eu sei fazer lógica, eu sei te fazer feliz, mas não sei não sentir falta de você. essa vida não passa de um conto do vigário, onde as pessoas passam dizendo que a vida ensina muita coisa, ensina praticamente tudo, que a vida tem o auxílio do tempo, e que o tempo tem o auxílio do esquecimento. e eu fico aqui pensando, quando será que essa vida vai chegar aqui, pro tempo passar e eu esquecer.

- Douglas Lenon
20 de setembro de 2010
ela pega o rosto cansado de Rigel entre as mãos, emocionada com a beleza que vê. um homem, à sua maneira, correto. um homem. isso. ela consegue enxergar um homem naquele rosto.

- Fernanda Young in Aritmética

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dia 13 - Um dia muito especial

será que existe um dia especial? porque não sei se vivi realmente um dia em que eu possa chamar de especial, eu não sei se existe alguma tabela, não sei, que diga que para um dia ser especial é necessário que: tenha abraçado o seu amor, tenha almoçando com a família, passado em uma prova importante. são vários dias importantes no ano, e nesse momento não consigo recordar algum dia que tenha me feito sentir especial, eu prefiro fazer alguém se sentir especial do que me sentir especial, nunca fui muito narcisista. não posso dizer quando tive um dia especial, mas posso dizer o que virá a ser um dia especial pra mim.
um dia especial vai ser quando eu passar no vestibular, me formar, ser um profissional – psicólogo ou bibliotecário – dúvida cruel, sério acho que escolher o que vai ser daqui pra frente é mais difícil do que ser testado. um dia especial vai ser quando eu tiver minha casinha, meu cantinho, meu aconchego. aí sim vai ser um dia especial, ô se vai. um dia especial vai ser quando eu me apaixonar outra vez, quando um outro amor bater aqui na porta desse coração surrado. um dia especial vai ser quando esse mundo andar mais para frente do que para trás, e não vai ser só um dia especial pra mim não, vai ser um dia especial para nós. é do pensamento singular que nasce a pluralidade. e tenho dito.

queria dizer que estou indo dormir muito feliz da vida,
mês passado o blog teve quase 10.000 visualizações e
que vocês são uns lindos e lindas por virem aqui, haha.
esse blog ultimamente anda meio plural né?
ele me olhava triste. eu não suportava seu olhar triste a lembrar-me das vezes todas que o tinha procurado inutilmente pelas ruas sem encontrá-lo. agora que o encontrava já não o procurava. e um encontro sem procura era tão inútil quanto uma procura sem encontro.

- Caio Fernando Abreu

se eu fosse eu, não providenciaria almoço nem jantar, comeria quando tivesse fome, dormiria quando tivesse sono, e isso seria lá pelas nove da noite, quando cai minha chave-geral. acordaria então às cinco, com toda a energia do mundo, para recepcionar o sol com um sorriso mais iluminado que o dele, e caminharia a cidade inteira, até perder o rumo de casa, até encontrar o rumo de dentro.
se eu fosse eu, não evitaria dizer palavrões, não iria em missa de sétimo dia, não fingiria sentir certas emoções que não sinto, nem fingiria não sentir certas raivas que disfarço, certos soluços que engulo. se eu fosse eu, precisaria ser sozinha.
se eu fosse eu, agiria como gata no cio, diria muito mais sim.
se eu fosse eu, falaria muito, muito menos.
e menos mal que sou eu na maior parte do dia e da noite, que sou eu mesma quando escrevo e choro, quando rio e sonho, quando ofendo e peço perdão. sou eu mesma quando acerto e erro, e faço isso no espaço de poucas horas, mal consigo me acompanhar. se eu fosse indecentemente eu, aquele eu que refuta a Bíblia e a primeira comunhão, aquele eu que não organiza sua trajetória e se deixa levar pela intuição, aquele eu que prescinde de qualquer um, de qualquer sim e não, enlouqueceria, eu.

- Martha Medeiros in Se eu fosse eu pertencente a obra "Non-stop"

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

— agora olhe para o rio, para as árvores, para os pássaros, olhe para toda a natureza a sua volta. e imagine até o que você não consegue ver, os peixes dentro do rio, as formigas no chão, os insetos nas flores... e pense que tudo isso está vivo, vivo sobre a terra. pense profundamente nisso.

- Valéria Piassa Polizzi in Depois daquela viagem

achei esse trecho totalmente tocante no livro,
não sei como dizer mais me chamou muito atenção.
chega de sorrir para o que não me contenta e me cobrar paciência com um profundo respiro de indignação. paciência é dom de amor aquietado, pobre, pela metade. calma, raciocínio e estratégia são dons de amor que pára para racionalizar. amor que é amor não pára, não tem intervalo, atropela. não caio na mesma vala de quem empurra a vida porque ela me empurra. ela faz com que eu me jogue em cima de você, nem que seja para te espantar. melhor te ver correndo pra longe do que empacado em minha vida.

- Tati Bernardi

Quando eu me iludo é quando eu te esqueço


sai do trabalho era cedo ainda, umas 20:00 e corri para nossa casa – correção: sua casa – pegar minhas coisas, faltava muita roupa minha pra buscar. cheguei rápido até, era quase 20:30, comecei a colocar as coisas dentro de uma mala que eu usava quando a gente viajava, fui colocando todas minhas roupas, enxugando um pouco as lágrimas, é difícil sair e ter que olhar pra frente como se nada tivesse acontecido, é difícil. caminhando em direção ao banheiro, escuto a porta abrir. coloco a mão na cabeça e faço sinal de negação.
— tem alguém em casa? – escuto a voz do vindo da porta.
caminho até a porta, ergo a cabeça, segurando uma toalha, e falo:
— tem, tem eu. – falo baixo, como se doesse dizer isso.
— eu.. eu não sabia que você ia voltar aqui, desculpa eu ia pedir pra sair mais cedo se soubesse, porque não me disse?
— para. para de falar assim. para de falar assim como se eu tivesse voltado de viajem e tivesse vindo te visitar, porque não é, você sabe porque eu estou aqui.
— então você vai mesmo embora? porque eu pensei que você fosse ficar, você tá com a minha toalha na mão, me fez pensar que ia ficar.
— desculpa, eu tava no banheiro e ouvi a porta, e eu estava com a toalha na mão.
— você ia levar a toalha. eu sei que ia. – sorri de canto.
— eu olho para as fotos, olho pr'aquele futuro que você falava tanto, olho pra você, pra mim, e você prometeu tanto, tanto, tanto, essa toalha que está aqui na minha mão agora, você prometeu ela também, você só não me prometeu, e é isso que dói.
— você fica dizendo tudo isso, você gosta de me deixar triste, de me deixar no chão né? fala pra mim. você nem me deixa te amar.
— você diz assim agora, e eu nem sei quem vai ser a pessoa que você vai se transformar daqui 10 minutos, você não faz noção do quanto eu zelo por nós, do quanto eu cuido de você, eu sempre estive aqui pra você me amar, e sempre fiquei pra segundo plano.
— meu, eu não te entendo, você diz que me ama e vai embora, você diz que me quer, mas foge de mim, você diz que pensa em mim, mas tá sumindo. – ele diz bravo.
— é exatamente por isso que estou indo embora.
ele não entende o que eu falei, eu saio, abro a porta, seguro a mala – pesada. ele me olha com uma cara de quem não está entendendo nada. levo minha mão até meu rosto, e choro, choro incessavelmente, coloco a mão no peito, largo a mala, abraço ele, e falo:
— eu te quero tão bem, pelo amor de Deus, diz pra mim que você vai ficar bem, diz que eu não vou precisar ligar, olha para nossa foto quando você se sentir sozinho, ou triste, eu vou estar sempre aqui, você já foi tudo que eu tinha, e agora eu não tenho nada, por sua causa eu estou indo embora, e te amando tanto.
— eu te amo muito Jack Twist.
— meu Led.
pego a toalha em cima do sofá, cheiro-a, olhando pra ele, vou fechando a porta, com o coração na mão, e deixando a melhor coisa do mundo na nossa casa – correção: na casa dele.

- Douglas Lenon
17 de setembro de 2010

domingo, 19 de setembro de 2010

sabe do que sinto saudade? de quando a gente briga feio. caraca, e sequer consigo lembrar agora um motivo importante para tal, quiçá aquela vez que te chamei pelo nome errado e disse que sua irmã tinha uma coxa bem bacana, no mesmo dia, ambas na frente da família toda. nada que justifique seu martírio feito torneira vazando das onze às três da madrugada, até eu abraçar e suportar seus coices de retaliação. ex é pra sempre, já disse, meu bem.

- Gabito Nunes in Sabe do que sinto saudade
sou um dos fracos? fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? se eu fosse sólida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? não encontro resposta: sou. é isto apenas o que me vem da vida. mas sou o quê? a resposta é apenas: sou o quê. embora às vezes grite: não quero mais ser eu! mas eu me grudo a mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida.

- Clarice Lispector in Água viva
um dia tudo será demasiado por dentro e pouco por fora, e vou explodir, ah vou.

- Lya Luft in O ponto cego

falta pouco, acredite. Lya L. me entende.

sábado, 18 de setembro de 2010


meu Deus, não sou muito forte, não tenho muito além de uma certa fé — não sei se em mim, se numa coisa que chamaria de justiça-cósmica ou a-coerência-final-de-todas-as-coisas. preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. que eu continue alerta. que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do voo no momento exato. que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. que meus olhos saibam continuar se alargando sempre. sinto uma dor enorme de não ser dois e não poder assim um ter partido, outro ter ficado com todas aquelas pessoas.

- Caio Fernando Abreu
se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. é uma opção consciente. não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós – nascer – foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria e exclusão. brindemos: temos todos, cela especial.

- Martha Medeiros in A Prisão de cada um pertencente a obra "Non-stop"
não entendo o silêncio
e o subestimo como trégua da fala.
ele não começa ao cessar as palavras,
não termina ao pronunciá-las.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Questão de dignidade


hoje me vi em uma situação muito constrangedora, não vou detalhar o que aconteceu, mas vou dissertar mais ou menos sobre a situação.
não gosto muito de pessoas que falam através de outras pessoas, eu gosto do que é claro, quando você tiver algo para falar comigo venha e fale comigo, se o problema é comigo, a única forma de se resolver é vindo até mim. hoje em dia as pessoas pensam muito em como falar, e acabam não falando. não costumo resolver as coisas com brigas, nem por telefone sem fio, quando o assunto diz respeito a mim eu não vejo problema algum – pelo contrário, eu vejo solução – em ir até o foco do problema.
acho anonimato uma das coisas mais vergonhosas que existe, e existe muitas pessoas assim, eu sei. eu dou minha cara a tapa não importa em qual situação eu esteja, dar a cara a tapa é ser leal consigo mesmo. confio em mim, sei do que sou capaz, e sempre estive do lado de quem se entrega, que não vive nos bastidores, no escuro.
acho que um dos fatores de o mundo estar como está hoje, é por causa desse anonimato ridículo, sei que a expectativa de vida para pessoas como eu é pequena, ainda mais se entrar na política, aí não existe nem estimativa de vida, nesse clima de eleição, o anonimato se aproxima cada vez mais, eu prefiro morrer do que viver uma vida no escuro, de mentira, ah disso eu não vivo mesmo.

- Douglas Lenon
13 de setembro de 2010
tem que haver alguma razão. tem que ter algum sentido. não é possível a gente ter um corpo que sente, um coração que bate, um nariz que respira, um cérebro que pensa, uma alma que sonha e, no fim, não ser nada. saí da cama e sentei no chão, mais perto do espelho. fiquei me olhando, me olhando... sinceramente, não sei o que é pior: ser um nada e estar livre de tudo, ou ser alguma coisa e estar presa a outra a qual nem se sabe o que é.

- Valéria Piassa Polizzi in Depois daquela viagem
“talvez eu não perceba, mas devo ter conseguido coisas boas daquele amor. ele era engraçado. ele era esquisito. ele dizia que eu era linda. e me fazia ter coragem. ou melhor: fazia-me ver a coragem que há em mim. é, que bom. hum, que delícia. saber que fui, que sou capaz de pegar um carro e ir até um lugar, sordidamente higienizado, e dar. eu dei. eu dou. eu gosto de dar. presentes, sorrisos, bons assuntos. adoro propiciar boas histórias. fazer pessoas rirem. ou não: fazer as pessoas não acharem graça alguma. perturbar. surpreender. fazer sofrer. ora, eu dou. dou, porque acho que vivo arte. sou arte. mesmo quando ninguém me vê. quando estou com o meu pijaminha quadriculado, branco e preto, de flanela. sou arte, agora, nesse instante.”

- Fernanda Young in Aritmética

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

sabe, se as pessoas hoje em dia tem mais vergonha de se olhar do que se chupar, então a sensualidade está toda nos olhos.

- Gabito Nunes in Doze coisas que adoro fazer com você

eu preciso dizer que estou muito feliz por ver vocês
aqui, comentando, se identificando, me alegra demais,
e que fique claro que vocês são sempre bem-vindos, beijos, Doug.

eu não faço a menor ideia do que vejo em você, mas também não faço ideia do que não vejo. eu posso ter um cara mais gostoso, como de fato já tive milhares de vezes. mas por alguma razão prefiro suas piadas velhas e seu jeito homem de ser. você é um idiota, uma criança, um bobo alegre, um deslumbrado, um chato. mas você é homem. e talvez seja só por isso que eu ainda te aguente: você pode ter todos os defeitos do mundo, mais ainda é melhor do que o resto do mundo.

- Tati Bernardi

eu perdi a conta de quantas vezes eu mandei isso para ele.
sei que não lamentei porque inesperava que alguém ou alguma coisa voltasse a perfurar o endurecido que fora se sedimentando ano após ano no de dentro do meu eu por dentro.

- Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

todo pedido é uma transferência de poder. você deseja que alguém , ou algo, uma entidade cósmica qualquer, tome conta dos seus dias. quer saber? não fique devendo esse favor para os céus. cancele a encomenda e meta você mesmo a mão na massa. seja mais legal com seus irmãos, tome um banho de chuva, dê um beijo surpresa em quem você ama, cuide dos seus dentes, aproveite a sua juventude, viaje de trem, ande de bicicleta, responda os e-mails recebidos e passe horas dentro do mar. trate de fazer as pazes com o espelho, de se espreguiçar, de dizer bom dia pro porteiro e de dançar sozinho no meio da sala. comece a correr atrás dos seus sonhos a valorizar as coisas simples e a zelar pelo que só você tem: sua vida. aos deuses, peça apenas que não interfiram.

- Martha Medeiros in Tudo conosco pertencente a obra "Non-stop"

Se for para morrer que seja de amor próprio


hoje está um calor lá fora, tempo bem quente, mas aqui dentro está frio, está congelando sabe, eu estou falando aqui dentro entende. já fiz de tudo para esse vazio passar, para o frio passar, e nada funciona. chorar? eu já tentei isso, não funcionou. mandar tudo ir a merda? já tentei, não deu certo também. pedir ajudar para mãe? outra tentativa frustrada. psicólogo? não tentei ainda, mas também ando sem dinheiro, e se minha mãe que me conhece faz anos não conseguiu me ajudar, um psicólogo que vai me conhecer no dia não vai poder fazer lá muita coisa. meu caso é raro, poucas pessoas morrem e continuam vivas por aí.
ando meio sem coragem, tudo que eu sei fazer é trabalhar, dormir e às vezes estudar – o que não me agrada nem um pouco. já falei que ta frio aqui dentro? falei né, ando meio repetitivo se é que você já percebeu. estou me perdendo, sobrevivendo, doendo, vivo no gerúndio.
eu nem queria dinheiro, eu nem queria uma vida amorosa bem sucedida, eu nem queria estar com a vida ganha, eu só queria – e ainda quero tanto – ser feliz. eu quero acordar radiante, iluminando cada rua que eu passo, sorrindo para cada pessoa que me sorri também, sentir o que as pessoas felizes sentem, e me abraçar, pensar que sou único, pensar com força, que se for para chorar que seja de felicidade, e que se for para morrer que seja de amor próprio.

- Douglas Lenon
14 de setembro de 2010
(do meu ponto-de-vista, o ponto cego, tudo é possível, e transparece.)

- Lya Luft in O ponto cego

terça-feira, 14 de setembro de 2010

o prazer não está em ler uma revista, mas na sensação de estar aprendendo algo. não está em ver o filme que ganhou o Oscar, mas na emoção que ele pode lhe trazer. não está em faturar uma garota, mas no encontro das almas. está em tudo o que fazemos sem estar atendendo a pedidos. está no silêncio, no espírito, está menos na mão única e mais na contramão. o prazer está em sentir. uma obviedade que merece ser resgatada antes que a gente comece a unir o útil com o útil, deixando o agradável pra lá.

- Martha Medeiros in Hedonismo pertencente a obra "Non-stop"
eu preferia ter perdido tudo
para não ficar reparando
as pequenas perdas.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias

e tudo é muito para um coração de repente enfraquecido que só suporta o menos, só pode querer o pouco e aos poucos.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

cola o teu desenho no meu, pra ver se cola, cola o meu retrato no teu e me namora. ♪

- Los Hermanos
Pra ver se cola
respirei fundo e olhei pra baixo, e foi aí que eu vi, lá, muito longe, a cidade na qual eu estava. os prédios tão pequenos, as casas minúsculas, os carros microscópicos... e as pessoas? as pessoas, não dava pra vê-las. e foi aí que eu percebi o quão pequenos nós somos. in-sig-ni-fi-can-tes! comecei a rir. ri de todos os meus problemas. ri de todos os meus medos. ri dos meus sonhos e dos sonhos de todo mundo. ri de mim mesma. e ri de toda humanidade. e continuei a rir. ri tanto que joguei a cabeça para trás e, sem pensar, dei de cara com o céu e aí comecei a imaginar Deus sentado lá em cima olhando pra baixo. o que é que ele veria de tão alto? ele não veria nada. não enxergaria ninguém. quase chorei.

- Valéria Piassa Polizzi in Depois daquela viagem

Eu escrevo pra dizer que te amo


(Foto de Lara Luz)
eu esqueci você. temia tanto ouvir você dizendo isso, porque por mais que você não me amasse mais, por mais que você tivesse ódio de mim, o que eu mais tinha medo era que você me esquecesse. você significou tanto pra mim, tanto tanto tanto. se você me pedisse pra buscar uma maçã bem vermelha, eu iria. eu correria o mundo inteiro, mas te trazia a maçã, sem nenhum arranhão, só pra te ver feliz. te ver tão feliz, do jeito que eu nunca fui.
eu superei você. não sei o que é pior, se é eu te ouvir dizendo que me esqueceu, ou se é você me ouvir dizendo que te superei. mas você me saca, você me olha nos olhos e diz "você está blefando de novo, quando você diz e fica sério, levantando um pouco o lábio, passando a mão em baixo do olho, virando um pouco o rosto é porque você está blefando." e eu te olho, e penso – com raiva – "pare de me conhecer tanto, de me traduzir assim, fácil, eu sou díficil pô, quantos caras nesse mundo dariam a vida pra ficar comigo, e você me esnobando, porque você não tem culpa de ser o cara mais perfeito e mais cabeça dura do mundo, que eu amo tanto."
eu amo você. como você consegue ser a pessoa que eu mais odeio e a pessoa que eu mais amo todo o tempo? talvez eu não te ame por você fazer a barba da maneira que eu gosto, ou de mandar uma mensagem às 2:30 da manhã dizendo que agora que se deu conta do que tem nas mãos, talvez eu te ame porque você me faz te odiar tanto, que eu não consigo desejar sua morte, que eu só consigo desejar que você viva, viva, viva pra mim. talvez eu não te ame porque você me olha triste querendo me abraçar quando tudo parece desmoronar, talvez eu te ame porque você é tudo que eu jamais consegueria ver em alguém, de uma forma que eu não consigo dizer, só consigo amar, que eu preciso desabafar assim escrevendo pra você. quando sentir a brisa do vento, é o meu eu dizendo que ainda te esperas.

- Douglas Lenon com carinho para alguém muito especial
12 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

todo esse antes que assim rotulo e desenrola-se em espirais na memória entrelaçada de turvos afundados em fundo e superfície daquele mesmo lago que não refletiria o céu outra vez: todo esse antes e tudo isso antes eu já sabia. só não sabia dele.

- Caio Fernando Abreu

Parabéns meu divo, 62 anos, minha fonte de inspiração, meu amigo,
que seja doce onde quer que você esteja, com quem quer que você esteja.
- Douglas Lenon seu eterno fã.
por que você diz que vai ligar e não liga? babaca!

- Fernanda Young in Aritmética
se enlaçar no cheiro do outro é um jogo da verdade silencioso, onde as consequências são gestos que entregam o que uma boca sedenta e profana diria realmente. o gemido mais sincero e conexo brota do abraço conchinha, do nariz na nuca, da barriga recostando na lombar, das pernas se ricocheteando uma na outra, dos pés 40 friccionando em pés 35. e eu acho pés juntos a coisa mais íntima de tudo.

- Gabito Nunes in Só isso?

sábado, 11 de setembro de 2010


nesse momento sou tocado por outra sensação: a de que nada é realmente meu, nada permanece, tudo é precário. os encantamentos podem ser roubados, não sou dono de mim mesmo. quem eu tenho de amar pode querer o meu mal.

- Lya Luft in O ponto cego
o homem escreve como quem grita.
a mulher escreve baixo, em prece.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias
eu queria assinar um contrato com Deus: se eu nunca mais olhar para homem nenhum no mundo, será que ele deixa você ficar comigo pra sempre?

- Tati Bernardi

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Vou te deixando ganhar


sou forte sim, sou de pedra sim, tenho sentimentos sim. eu só não acabo com você porque eu gosto de te ver com pose de machão, pensado que está dominando a situação. sou tão forte quanto você, e só você não percebe. tenho a faca e o queijo na mão, só não corto por pura preguiça. se eu cortar eu vou ganhar, ganhar fácil assim não é bem o meu estilo de vida.
te deixo ficar por cima da situação porque eu simpatizo com você, te acho engraçado, prestativo, e bem carinhoso quando quer. tenho problemas em aceitar a nossa situação mas nem por isso deixo de te amar. sou carinho sim, te amo sim, e penso em nós sim. eu vou deixando você ganhar porque tenho medo da tua reação caso você peder, e vou me deixando perder porque tenho medo da minha reação caso eu ganhe.
só peço dez minutos do teu dia, das tuas 24 horas, eu peço dez minutos pra mim, só pra mim. pra que eu possa te contar sobre o meu dia, em qual momento do meu dia eu pensei mais em você, e qual momento eu mais quis que você estivesse do meu lado segurando minha mão, beijando minha testa, dizendo que é assim, o mundo não é justo. mas você é muito ocupado, e quase sempre esquece de me escutar, quando eu falo de amor, é para você me ouvir.

- Douglas Lenon
08 de setembro de 2010
descobri uma coisa triste também. quantas pessoas eu havia deixado de conhecer, quantas coisas eu havia deixado de aprender por causa desses malditos preconceitos?

- Valéria Piassa Polizzi in Depois daquela viagem
a paixão turbina o coração, acelera a corrente sanguínea e irriga os olhos, porque a gente chora à beça. faz perder peso, sim. não conheço dieta mais eficiente. a paixão cristaliza o tempo: parece que as horas não passam até estar com ele ou ela. aí estamos com ele ou ela e as horas voam, não é justo. a paixão corrompe nosso juízo, trapaceia a realidade. ainda assim, melhor uma paixão do que nenhuma.

- Martha Medeiros in Os perigos da paixão pertencente a obra "Non-stop"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

talvez eu já não esteja completamente aqui. nem lá, seja onde for. antes de viajar, fico pairando. talvez a alma parta antes, e não saiba direito para onde ir sem o corpo. na morte deve ser parecido.

- Caio Fernando Abreu

Mariana vai até sua bolsa e tira um livro lá de dentro. Rigel olha para ela, voltando com o objeto nas mãos, nua, tranquila em sua direção, nua, trazendo um livro que, pela capa, parece ser daqueles de poesia, e respira fundo. vendo que não deveria feri-la e sabendo que é isso que está fazendo. ela senta na cama e procura uma página específica. Rigel sente vontade de, bom, dizer para ela que, bom, gostaria mesmo de falar que, bom, que ele a usa. e que isso não é necessariamente ruim, isso é até maravilhoso, porque enquanto estão juntos quase se acha apaixonado. sendo isso o que importa, a paixão. só que Mariana suspira, sem conseguir encontrar o que quer ler, e Rigel tira essa ideia boba da cabeça. ele pode, sim, viver aquele instante como um namorado. abrir-se à leveza de um namorico. parar de, ao fim das trepadas, utilizar Mariana para ocupar o espaço dos pensamentos negativos. isso não é justo. não que ele seja um desses caras que compactuam com o delírio de tentar tratar uma mulher com 100% de respeito. um cara assim, Rigel sabe, não come mulher nenhuma, galanteios são cafonas, gentilezas são broxantes. sexo tem que ter seu componente devasso, ultrajante, ou não rola. claro que Rigel tem noção que dizer coisas como “vem cá, gostosa!” e “cavalga, cavalga!” enquanto ela se esfrega sobre o corpo dele, com o pau dele dentro, é esquisito. mas da esquisitice vive o sexo. uma relação sexual bem-sucedida requer uma dose de marginalidade, de falta de consideração. um respeitador é um ruim de cama. todos sabem disso, homens e mulheres. a questão é a dosagem. Rigel gosta de atuar pelo meio-termo. não é um sujeito que fala “eu te amo” sem amar e passa impune pelas cafajestagens. mas já se acha no direito de relaxar nessa coisa de ser cavalheiro.

- Fernanda Young in Aritmética
em duplas, atiramos os livros
lentamente. as covas se desmanchavam
para receber outra forma de lama.
começou a chover.
— não corram, meninas, não corram.
não adianta correr contra a chuva,
a água se desespera nas roupas.
os homens nunca vão entender.

- Fabrício Carpinejar in Cinco Marias

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

acho normal. acho perfeitamente normal lembrar com carinho que você sempre dava um jeito de me mandar mensagens em datas festivas. estivesse você casado ou namorando ou ilhado num templo budista, dava um jeito. era como se dissesse, sem dizer “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”.

- Tati Bernardi

Não dá pra morrer de amor


vai dizer que você não me amou, que você não me desejou uma noite se quer, diz pra mim. vai dizer que você não pensou em mim sentado no banco daquela praça limpando os olhos dizendo que um cisco havia entrado nos seus olhos, diz pra mim. vai dizer que eu não fui o teu amor mais sincero, o teu esperar nessas noites fria, diz pra mim. vai dizer que não quis me matar quando fiz a burrada de te trocar por outro por medo, diz pra mim.
sentado aqui no banco da mesma praça, colocando o livro do meu lado, limpando meus olhos, levando minha mão até meu coração, seguro o choro. dá tua mão pra mim, coloca aqui no meu peito, sente os batimentos, sente o desespero. eu que tinha medo te perder dia por dia, acabei te perdendo para sempre, eu que nem amo ninguém, fico com o coração cheio desse amor que tem nome e sobrenome. meu coração se agita quando você me olha assim, eu que achei que você era tudo que eu tinha.
o mundo é cruel e não dá pra morrer de amor aos 17 anos de idade, nem aos 20 anos de idade, nem aos 23 anos de idade, porque amar não tem idade, não tem cor, é preto no branco, na lata, quando vê é amor, amor demais pra experiência de menos, e sabe que a merda disso tudo é que eu não consigo parar de te amar, de te querer.

- Douglas Lenon
06 de setembro de 2010
se um dia uma leve brisa vier tocar-te os lábios, não te assustes, pois é minha saudade que te beija.

- Autor Desconhecido

terça-feira, 7 de setembro de 2010

pena. porque as pessoas amam. amam muito. podem até ficar com outras, mas quase sempre amam verdadeiramente alguém. e não se revelam. não revelam esse amor para quem o desconhece, e nem mesmo para quem está ali, todos os dias ao seu lado, porque amar parece sinal de fraqueza, olhe só como andam tortas as ideias.

- Martha Medeiros in Eu te amo pertencente a obra "Non-stop"
eu me fui, eu me sou, eu me serei em cada um dos girassóis do reino a ser feito. e as coisas terão que ser claras. releio o que escrevi neste caderno, desde janeiro, revejo o que vivi. tudo me conduziu para este here and now. tudo terá que ser claro. how can I tell you?

- Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


mas não existe recomeço sem um fim. e no final das contas, ninguém dá adeus, do amanhã não se sabe. vai que um dia, numa determinada situação, em algum bar de esquina, nos encontraremos novamente? nenhum amor é eterno, né? qualquer coisa, se eu precisar muito ligo pra você, tá? um último beijo, mas dessa vez há de ser na testa. se cuida aí. até mais.

- Gabito Nunes in Pra ser sincero
(o inventado é o dom dos que não acreditam demais no comprovado. sete pode ser um número par: basta que a gente acredite.)

- Lya Luft in O ponto cego
fragmentos de agendas, cartinhas, bilhetes, recados em caixas-postais. mulheres sempre reclamando. dos homens; enquanto eles tentam lidar com a estúpida significância de possuir um pênis. mulheres sem pênis, gastando tempo em excesso com o cérebro. homens ficando duros embaixo de suas calças. nunca, nenhuma dessas coisas, no tempo certo. tsk, a humanidade é terminantemente patética. devia dar vergonha ser daqui. daqui, sabe?

- Fernanda Young in Aritmética

Feliz dia do sexo para todos os blogueiros.

domingo, 5 de setembro de 2010

minha força está na solidão. não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

- Clarice Lispector
as coisas são como são. na hora certa. e foda-se.

- Tati Bernardi

Dia 12 - Carpe Diem


segundo a Wikipedia é uma frase em latim traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. achei um máximo a frase, descobri ela lendo "Depois daquela viagem" de Valéria Piassa Polizzi, recomendo o livro pra vocês, uma história magnífica, conta a história de uma menina que contraiu AIDS aos 16 anos na década de 80 e que superou tudo e todos pra chegar onde chegou, viajou para os EUA e conheceu essa nova 'gíria', o Carpe Diem, como ela mesma disse pra ela o tempo corre diferente, e ninguém nesse mundo é imortal, e eu mesmo sendo soronegativo sou adepto do Carpe Diem, viva o hoje sem se preocupar com o dia de amanhã, aproveite o máximo que puder, se o que te faz feliz é sentar e ficar conversando horas com seus amigos, aproveite. se o que te faz feliz é estar junto com o seu amor, aproveite. se o que te faz feliz é estar em família, aproveite. ninguém sabe o que vai acontecer daqui 10, 15 minutos, quem dirá amanhã.
e que anyway era um roubo muito digno.

- Caio Fernando Abreu

A fita métrica do amor


como se mede uma pessoa? os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. é pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. é pequena quando desvia do assunto.

uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

é difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. o egoísmo unifica os insignificantes.

não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. é a sua sensibilidade sem tamanho.

- Martha Medeiros in Non-stop

sábado, 4 de setembro de 2010

- "cada um de nós somos um mundo". ficou combinado assim, desde o primeiro olhar. aquele seu, girando o queixo pra trás na aula de planejamento, logo antes de deixar a nuca à mostra numa vontade quase freudiana de que eu assinasse ali meus dentes tortos de menino mentiroso. agora vem você me perguntar sobre o que são doze meses pra quem tem a vida inteira. vai, se precisa ir. Nova Iorque te espera e, com a frase usada por você mesma pra me convencer, é logo ali.

- Gabito Nunes in Vai embora
bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. e então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. eu queria, ah como eu queria. e não havia jeito de obtê-la. se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. não havia jardineiro à vista, ninguém. e as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. no meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. eu queria poder pegar nela. queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

- Clarice Lispector in Cem anos de perdão pertencente a obra "A Descoberta do mundo"

Desacredito do teu ciume


não é ciume, você não teria ciume de mim, você poderia sentir qualquer outra coisa, menos ciume. teu ciume pode ser de alguma roupa minha que eu sou apegado. de um disco. de uma música. mas ciume de pessoas, acho que não. nunca dei motivos. lógico que comentários são indispensáveis, é da minha natureza, é da tua natureza. mas eu raramente comentei de alguém pra você, posso ter comentado na sua frente, mas não pra você. sabe do que mais, antes me ver comentando na tua frente, do que falando para os sete ventos por aí.
eu acredito na nossa casa ainda. burrice? eu sei. ver os hamsters pulando pedindo comida, pedindo carinho. eu acredito no você bravo me dizendo que não é assim que se esquenta um arroz e que essa vai ser a última vez que você vai me explicar. eu acredito no você sincero dizendo que não tem ninguém no mundo com o coração do tamanho do meu. eu acredito no você carente me pedindo pra ficar mais um pouco, que está tarde pra sair nesse frio e que falta pouco pra nossa casa ficar pronta. eu acredito na tua gargalhada alta, no teu sorriso sincero, no teu rosto limpo. eu acredito.
mas não me diz que é ciume. porque eu sei que não é. tudo menos ciume, diz que não me ama mais, diz que deu o que tinha pra dar, diz que vai viajar e não sabe quando volta. mas não diz que é ciume. ciume de que? ciume de quem meu deus?

- Douglas Lenon
02 de setembro de 2010
você não imagina a força que faço para deixar de ser sua.

- Fernanda Young in Aritmética
passei a quinta inteira catatônica, tentando adivinhar o que eu deveria fazer para que não esperasse mais o que eu estava esperando. eu deveria resolver alguma coisa, de certo, mas o quê? sim, eu deveria parar de esperar, mas para parar de esperar, antes, eu deveria saber o que caso eu estava esperando. que que eu tava esperando?

- Tati Bernardi

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

não sei! se a hora é certa pra dizer, as tantas coisas que eu não posso mais guardar, das outras vezes que eu tentei, você nem me deixou falar, você nem quis me escutar... ♪

- Tihuana
Um dia de cada vez

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Carta para além do muro


olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem sempre que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. eu não queria que fosse assim. eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa. hoje eu achei que ia conseguir, que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não lembro onde. hoje havia calma, entende? eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parece que empurram a gente mais para dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não aguento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais no de dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes e eles dizem que se eu me mostrar como realmente sou você vai ficar apavorado e nunca mais vai aparecer nem telefonar eu não aguento mais não me mostrar como sou. hoje de manhã acordei bem cedo, e depois de conversar com eles consegui permissão para caminhar sozinho no jardim, eu disfarcei muito conversando com eles porque queria muito caminhar sozinho no jardim. àquela hora ainda não estava chovendo, ou estava, não me lembro, ou havia chovido ontem à noite, não, acho que não estava chovendo não, porque eu lembro que as folhas estavam limpas e molhadas e a terra tinha um cheiro de terra molhada: eu comecei a lembrar, lembrar, lembrar e o meu pensamento parecia um parafuso sem fim, afundando na memória, eu não suportava mais lembrar de tudo o que se perdeu, tudo o que perdi, não fui e não fiz, mas não conseguia parar. então comecei a gritar no meio do jardim molhado com as duas mãos segurando a cabeça para que não estourasse. aí eles vieram e disseram que não tinha jeito e que estavam arrependidos de terem me deixado sair sozinho e que aquela era a última vez e que eu disfarçava muito bem mas não conseguiria mais enganá-los. eu disse que não tinha culpa do meu pensamento disparar daquele jeito, mas acho que eles não acreditaram, eles não acreditam que eu não consigo controlar pensamento. então me deram uma daquelas injeções e eu afundei num sono pesado e sem saída como este espaço dentro desses quatro muros brancos. foi depois que acordei, não sei se hoje ou amanhã ou ontem, eu te escrevo dizendo hoje só para tornar as coisas mais fáceis, foi depois que acordei que perguntei se você não tinha vindo nem telefonado, e eles disseram que você não viera nem telefonara. é provável que estivessem mentindo, eles dizem que eu preciso aceitar mais a realidade das coisas, a dureza das coisas, e às vezes penso que tornam de propósito as coisas mais duras do que realmente são, só pra ver se eu reajo, se eu enfrento. mas não reajo nem enfrento. a cada dia viver me esmaga com mais força. não sei se eles escondem de mim a sua visita, se não me chamam quando você telefona, se dizem que já fui embora, que já estou curado, não sei se você não vem mesmo e não telefona mais, não sei nada de ninguém que viva atrás daqueles muros brancos, você era a única pessoa lá de fora que entrava aqui dentro de vez em quando. é verdade que eles todos moram lá fora, mas é diferente, eles vivem tanto aqui dentro que não consigo acreditar que sejam iguais aos lá de fora, como você. você, sim, era completamente lá de fora. digo era porque faz muito tempo que você não vem, sei do tempo que você não vem porque guardei no meio das minhas roupas um pedaço daquela maçã que você me trouxe da última vez, e aquele pedaço escureceu, ficou com cheiro ruim, encheu de bichos, até que eles me obrigaram a jogar fora. acho que os pedaços da maçã só se enchem de bichos depois de muito tempo, não sei. parei um pouco de escrever, roí as unhas, preciso roer as unhas porque eles não me deixam fumar, reli o começo da carta, mas não consegui entender direito o que eu pretendia dizer, sei que pretendia dizer alguma coisa muito especial a você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver ou telefonar e, se fosse preciso, trazer a polícia aqui para obrigá-los a deixarem você me ver. eu sei que você quer me ver. eu sei que você fica os dias inteiros caminhando atrás daqueles muros brancos esperando eu aparecer. eles não deixam, acho que você sabe que eles não deixam. não vão deixar nem esta carta chegar às suas mãos, ou vão escrever outra dizendo que eu não gosto de você, que eu não preciso de você. mas é mentira, você tem que saber que é mentira, acho que era isso que eu queria dizer preciso escrever depressa antes que eu me esqueça do que eu queria dizer era isso eu preciso muito muito de você eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro ou do outro lado.
parei um pouco de escrever para olhar pela janela e principalmente para ver se eu conseguia deter o parafuso entrando no pensamento. acho que consegui. porque quando começo assim não consigo mais parar, e não quero que eles me deem aquela injeção, não quero ouvir eles dizendo que não tem remédio, que eu não tenho cura, que você não existe. eu acho graça e penso em como você também acharia graça se soubesse como eles repetem que você não existe. depois eu paro de achar graça e fico olhando a porta por onde não entra o telefone por onde você não fala e me lembro do pedaço apodrecido daquela maçã e então penso que talvez eles tenham razão, que talvez você não venha mais, e com dificuldade consigo até pensar que talvez você não exista mesmo. mas não é possível, eu sei que não é possível: se estou escrevendo para você é porque você existe. tenho certeza que você existe porque escrevo para você, mesmo que o telefone não toque nunca mais, mesmo que a porta não abra, mesmo que nunca mais você me traga maçãs e sem as suas maçãs eu me perca no tempo, mesmo que eu me perca. vou terminar por aqui, só queria pedir uma coisa, acho que não é difícil, é só isso, uma coisa bem simples: quando você voltar outra vez veja se você me traz uma maçã bem verde, a mais verde que você encontrar, uma maçã que leve tanto tempo para apodrecer que quando você voltar outra vez ela ainda nem tenha amadurecido direito.

- Caio Fernando Abreu

Comentário: é o conto mais lindo, mais apaixonante, mais maravilhoso, ah Caio se você tivesse noção de como eu amo esse conto, de como eu me vejo nele, de como isso tudo se encaixa perfeitamente em mim, se existe um conto o qual eu amo demais, é esse, exatamente esse.
— eu quero isso até o fim de minha vida, isso que tenho, isso que sou ou me fazem ser? isso que me amarra e me prende e me seca – eu quero ser?

- Lya Luft in O ponto cego
mas se eu não sei o que sinto? ninguém sabe, nunca. mas por que eu? por que não você? ah, com tanta gente interessante por aí. sei lá, olhos castanhos. o tom meigo da sua voz com bafo de algum medo bobo e ridículo. a cor da sua pele em dias nublados. seu jeito de pedir pouco, querendo tudo. o perfume que você nunca pôde sentir, pois fica no centrípeto das próprias costas, naquela canaleta, então só eu sei. seu jeito de pedir pra que eu permaneça um pouco mais entre as pernas, depois de gozar. seu pavor de crianças e creme de leite talhado e de sair pro trabalho sem os sapatos. ou eu, você e Montevidéu. ou Arroio Grande. Paris, quiçá. ou por aqui mesmo.

- Gabito Nunes in Só mais um começo de música

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dissertação 64


ah se você soubesse que meu travesseiro tem teu nome.

- Douglas Lenon
01 de setembro de 2010
aí morre o primeiro amigo e você repara a diferença. aí morre outro amigo e você nota como a vida é frágil. morre-se por bobagens, na véspera de datas marcantes. morre-se afogado no próprio vômito. morre-se sozinho, só de cueca, com a televisão ligada.

- Fernanda Young in Aritmética