quinta-feira, 9 de setembro de 2010


Mariana vai até sua bolsa e tira um livro lá de dentro. Rigel olha para ela, voltando com o objeto nas mãos, nua, tranquila em sua direção, nua, trazendo um livro que, pela capa, parece ser daqueles de poesia, e respira fundo. vendo que não deveria feri-la e sabendo que é isso que está fazendo. ela senta na cama e procura uma página específica. Rigel sente vontade de, bom, dizer para ela que, bom, gostaria mesmo de falar que, bom, que ele a usa. e que isso não é necessariamente ruim, isso é até maravilhoso, porque enquanto estão juntos quase se acha apaixonado. sendo isso o que importa, a paixão. só que Mariana suspira, sem conseguir encontrar o que quer ler, e Rigel tira essa ideia boba da cabeça. ele pode, sim, viver aquele instante como um namorado. abrir-se à leveza de um namorico. parar de, ao fim das trepadas, utilizar Mariana para ocupar o espaço dos pensamentos negativos. isso não é justo. não que ele seja um desses caras que compactuam com o delírio de tentar tratar uma mulher com 100% de respeito. um cara assim, Rigel sabe, não come mulher nenhuma, galanteios são cafonas, gentilezas são broxantes. sexo tem que ter seu componente devasso, ultrajante, ou não rola. claro que Rigel tem noção que dizer coisas como “vem cá, gostosa!” e “cavalga, cavalga!” enquanto ela se esfrega sobre o corpo dele, com o pau dele dentro, é esquisito. mas da esquisitice vive o sexo. uma relação sexual bem-sucedida requer uma dose de marginalidade, de falta de consideração. um respeitador é um ruim de cama. todos sabem disso, homens e mulheres. a questão é a dosagem. Rigel gosta de atuar pelo meio-termo. não é um sujeito que fala “eu te amo” sem amar e passa impune pelas cafajestagens. mas já se acha no direito de relaxar nessa coisa de ser cavalheiro.

- Fernanda Young in Aritmética

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