sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

e que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. e que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. e não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

mas acontecia quase sempre de o sol não aparecer, de a manhã acinzentar-se aos poucos, sem que fosse necessário apanhar as plantas.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Carta Extraviada 4


sou mais um desses boçais que escreve tudo aquilo que deveria ser falado, e você é mais uma vítima que jamais vai ter atendido o seu desejo: saber. mesmo consciente da sua boa vontade de me ouvir e entender, lhe escrevo, não posso ir além, não peça para remeter-me, esta carta não é para chegar, é uma carta de ficar.
para mim e para você, escrevo que, daqui de onde me encontro, você está longe e perto, e eu estou sozinho e não. do que sinto, aviso que é forte mas não é perigoso, é como um grande lago sereno, eu sou o píer, quase me precipito, você é todo o resto, toda água, tudo o que há. mas somos dois e em vez de par, somos ímpares. estou possuído por você e ao mesmo tempo permaneço impermeável, amo a seco, e rendido.
você não me acharia covarde, você não acharia nada: você não me conhece. sou um vulto, um alguém, você foi gentil comigo como é com os garçons e os primos, com os pedestres e com os turistas, você foi o que sempre foi, e eu não fui com você: no terceiro minuto ao seu lado eu já sabia que era irremediável, e em vez de segurar sua mão e reverter-lhe a pressa, deixei que você fosse, eu fiquei.
os dias, os gestos, rituais cotidianos, surpresas, tudo corre, passa por mim, menos o susto deste amor que entranhou-se feito limo, umidade em peito árido, me sinto tomado, absorvido, e não encontro método ou coragem para dizer: você que é motivo e dona desta represa, fique comigo, pois é só o que eu sei fazer, ficar.
mas você é ligeira, em movimento constante, você não senta, não repara, quer vida demais, sedenta, me fisgou muito rápido, e eu sou lento, estudado, incapaz de um repente, apaixonado por uma mulher impaciente, que suplica com o olhar e não espera, você se foi, em frente, quando deveria ter ficado.

- Martha Medeiros in Carta extraviada e outros poemas

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

e se você continuar indo embora estrada afora sem marcas de hesitação na pista com metade de mim esquartejada no teu porta-malas? e se meu riso mais entusiasmado longe de ti continuar me dando a impressão da ausência de onze dentes?

- Gabito Nunes in Cessar fogo amigo

domingo, 25 de dezembro de 2011

eu acho que um dos maiores charmes de um encontro de amor é a admiração que cada um sente pelo jeito inexato como o outro é, mas capaz de fazer florir deleites na alma com rara exatidão.

- Ana Jácomo

Feliz Natal, seguidores!

sábado, 24 de dezembro de 2011

9º dia - "ele sempre vai embora antes da gente ser alguma coisa juntos." (Tati Bernardi)


éramos o casal mais estranho entre os casais mais estranhos, quiçá entre os casais normais. você era do tipo que quando me via com a cara amarrada e logo soltava um: "eu sei, vou dormir no sofá hoje." eu morria de rir e você acabava nem dormindo no sofá. a gente cantava músicas que ninguém conhecia e fazia aqueles trocadilhos bobos que você aprende no ensino médio, e conta entre amigos porque só eles vão entender, você não era bem meu amigo – era muito mais que um marido se quer saber – e você entendia. são nove dias sem você, e parece que foi uma quaresma. você foi embora, mas prometeu voltar. quando paro no espelho de frente a porta de entrada da minha casa eu soletro: M Y H E A R T I S Y O U R S. você demorou uma hora pra entender, mas quando entendeu, respondeu: I'M Y O U R S. e é por isso que eu não me desfaço desse espelho.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

a partir de amanhã não corro mais para atender o telefone
a caixa de fotos vou colocar na última prateleira do armário
onde só alcançarei com muito esforço e escada
a partir de amanhã não abro mais o correio eletrônico
nem voo até sua letra no alfabeto, não haverá encontro
não passarei mais pela sua rua, a partir de amanhã
nem na vizinhança, atalharei por outro bairro
não há necessidade e meu coração não é de confiança
a partir de amanhã interrompo o surto e esqueço a placa do seu carro
não há perigo de eu sonhar com você, a partir de amanhã
não durmo mais, e as músicas que eu escutava, evitarei
já não te velarei, a partir de amanhã saio do luto

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

a volta é sempre mais tensa e rápida que a ida. chego aliviada, feliz, longe, outro mundo, passou, nem foi comigo. ufa. acabou. e choro. sempre choro. no fundo, bem no fundo, eu tenho é tanta saudade de tudo.

- Tati Bernardi

domingo, 18 de dezembro de 2011

quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas — tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sábado, 17 de dezembro de 2011


— mas tantas memórias. a gente tem tantas memórias. eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. o acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. de repente o presente, qualquer coisa presente. uma rua, por exemplo. há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei: eu já morei ali com o Beto. e a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. as ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. mas continuam inteiros dentro de você. chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sempre gostei dessas pessoas que dizem logo de cara quem são, talvez por isso meus melhores amigos sejam os mais filhos-da-puta, idiotas, cretinos e honestos. não sei, com eles aprendi ser mais fácil, antes de qualquer conversa, contar seu nome, seu signo, onde nasceu e seus piores defeitos. se a pessoa gostar mesmo assim, vai gostar mesmo, verdadeiramente.

- Gabito Nunes in Anti-heroi

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

porque eu também sinto medo, e haverá a morte um dia. a vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Levar ou não levar a tristeza?


comecei a arrumar minhas malas. é sempre bom viajar, conhecer, desconhecer, reestabelecer conhecimentos, se estruturar, se autoconhecer, viver, pensar, refletir. na maioria das vezes viajamos pra deixar algumas coisas pra trás, mas a gente sempre volta pra casa.
quando coloquei as primeiras roupas na mala perguntei pra minha mãe se eu levava a tristeza também, ela demorou um pouco pra processar a informação, disse que se desse pra deixar aqui seria bom, eu pensei em levar na viagem e esquecer lá, onde eu ficaria.
de repente a gente vai fazendo as malas e vai passando um filme na cabeça, parece que esse ano nem passou ou dá aquela vontade desse ano nem ter existido sabe? parece que não acrescentou muita coisa, ok, sempre tem um lado bom, mas não foi um ano legal se colocar tudo numa balança e tirar o peso geral.
talvez o próximo ano seja bom, seja talvez muito melhor, sinto uma energia positiva nesse ano que está por vir, sinto até uma presença de um novo amor, de um carinho bem gostoso no final do dia com gosto de era uma vez.

- Douglas Lenon

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

a verdade é que o que dizemos não tem tanta importância. para saber quem somos, basta que se observe o que fizemos da nossa vida. os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. o que você diz - com todo o respeito - é apenas o que você diz.

- Martha Medeiros

domingo, 11 de dezembro de 2011

assim que você chegar vou ter saudade da parte de mim que te espera. amar não parece exatamente com amor, né?

- Tati Bernardi

sábado, 10 de dezembro de 2011


parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”? pois o que é vivo vai para.
16 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Ir para pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

34 anos sem Clarice

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

o homem. como o homem é simpático. ainda bem. o homem é a nossa fonte de inspiração? é. o homem é o nosso desafio? é. o homem é o nosso inimigo? é. o homem é o nosso rival estimulante? é. o homem é o nosso igual, ao mesmo tempo inteiramente diferente? é. o homem é bonito? é. o homem é engraçado? é. o homem é um menino? é. o homem também é um pai? é. nós brigamos com o homem? brigamos. nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? não. nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? somos. o homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? é. o homem é um chato? também. nós gostamos de ser chateadas pelo homem? gostamos.
09 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Amor Imorredouro pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

anular um encontro marcado para as 21 horas, as 21 horas e dez minutos.

- Gabito Nunes in Mulher por um dia

eu morro de vontade de fazer isso.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

8º dia - "mas toda noite eu sussurro bem baixinho até o sono vir: me ama por favor." (Tati Bernardi)


porque o fim da noite só tem sentido com você do meu lado. escutar você do outro lado da linha só pra me acalmar é o que importa. ver no teu olhar alguém disposto a fazer loucuras por mim. é isso que eu quero, que eu sempre quis.
olhando pra nossa foto de um mês de namoro, eu lembro como a contagem parecia valer a pena sabe? aniversário de uma semana, de um mês, de dois meses, de um ano! como eu queria te pedir em namoro de volta pra começarmos do zero. queria que você se apaixonasse por mim novamente, a primeira vista, de supetão.
a verdade mesmo é que a gente se cansou, um do outro. eu não queria ter preguiça de pensar em você ou ao menos te dizer algo legal em qualquer dia da semana que não fosse uma sexta-feira a noite na sua cama. acabamos por não lutar um pelo outro, mas juro que se fosse de novo a primeira vez, juro que eu...

- Douglas Lenon

OBS: deixei o final pra vocês continuarem.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

e se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? (...) se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. o amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. se amor for a coragem de ser bicho. se amor for a coragem da própria merda. e depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. o que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. porque então você se ama também.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
pequeno grande amor
que gerou toda sorte de reflexão
se fosse apenas um pequeno amor
passaria longe do meu epicentro
se fosse um grandíssimo amor
estaria tudo ao meu redor devastado
mas foi um pequeno grande amor
daqueles que têm tamanhos para todos os lados
e só podem ser medidos por dentro

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

domingo, 4 de dezembro de 2011

o interessante não é ser um amor inteiro. o que vale é querer infinitamente completar-se.

- Gabito Nunes in Completude (ou "a piada da galinha e os ovos")

sábado, 3 de dezembro de 2011


e assim consigo dormir mais um dia, passar mais um dia, viver mais algumas horas, sem ligar pra única pessoa que eu queria ligar. consigo seguir em frente mais um dia sem ligar pra ele. consigo distrair meus dedos, minha mente, meu peito, minha violência, meu buraco, minha vertigem, meu soco no estômago, meu desespero, meu automático, meu extinto contrário, minha curiosidade infantil mas sempre com resultados duros demais para uma criança, minha vontade de enfiar o dedo na tomada só pra sentir a descarga mortal que tanto parece com impulso de vida. consigo distrair os batimentos cardíacos que sinto em lugares do meu corpo que ainda queriam mais um toque dele. e partes da minha pele que saem buscando porque ainda não receberam a informação do fim, o sangue ainda não levou a má notícia para meu corpo todo. e consigo distrair minhas roupas, que querem se mostrar, cada dia uma diferente, para ele. só para ele.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

sou cheia de manias. tenho carências insolúveis. sou teimosa. hipocondríaca. raivosa, quando sinto-me atacada. não como cebola. só ando no banco da frente dos carros. mas não imponho a minha pessoa a ninguém. não imploro afeto. não sou indiscreta nas minhas relações. tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar os seus segredos. então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira ser incomodado. chateio só aqueles que não me acham uma chata, por isso me querem ao seu lado. acho sim, que, às vezes, dou trabalho.

- Fernanda Young

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

— que é que eu faço? não estou aguentando viver. a vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
— não sei. eu sinto o mesmo. mas há coisas, há muitas coisas. há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
— e depois?
— depois vem a Natureza.
— você está chamando a morte de natureza?
— não. estou chamando a natureza de Natureza.
— será que todas as vidas foram isso?
— acho que sim.
26 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in O Processo pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

terça-feira, 29 de novembro de 2011

7º dia - "e entre tudo que ele poderia ser pra mim, ele escolheu ser saudade.” (Caio Fernando Abreu)


acreditando que dentro de nós sempre sobra algo, eu resolvi pensar em nós. saber que eu me importar te machuca, dói muito mais. vai restando aquela saudade do teu eu que dizia me amar, e fica aquela tristeza de querer retribuir vendo nossas vidas assim, meio de lado, um pouco esquecidas até.
hoje sentado no degrau da escada de casa bateu a nostalgia de ter alguém pra dizer que tá errado sabe? da mesma forma que você fazia, dizendo que não é certo você entregar com a mão direita e retirar com a mão esquerda. você tem que entregar com ambas as mãos.
minha maior virtude seria não desistir, porque mesmo você achando que eu não penso em ninguém, apenas em mim mesmo, essas meias palavras deveriam significar algo. triste mesmo não é ter que me despedir de você, é ter que fazer isso todos os dias.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

eu hoje fui ao banheiro duzentas vezes para ficar longe do meu celular e do meu email, ficar longe de todas as possibilidades da sua existência. me olhei no espelho bem profundamente pra enxergar minhas raízes e ganhar força, chorei algumas vezes, fiquei sentada no chão do banheiro, pra ver se meu corpo esquentava um pouco ou porque estava mesmo me sentindo um lixo. estar sozinha não muda nada, conheço bem esse estado e, de verdade, sei lidar até melhor com ele. o que me entristece, é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual.

- Tati Bernardi

domingo, 27 de novembro de 2011

— amor não existe. é uma invenção capitalista.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

dizer não pra você
é como fincar em mim mesmo um prego
crucificado seja o meu amor
dizer não pra você
é flagelo fecundo
me firo inteiro e cego
dizer não pra você é um tour
pelo inferno

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu te ligo


até agora não sei dizer seu grau de parentesco com a aniversariante, mas você tava lá também. tão bonita. assustadoramente bonita. tanto que demorei pra perceber que o parabéns não era pra você. fiquei ali batendo palmas, vidrado e babaca, te desejando muitas felicidades comigo e muitos anos de vida bem perto de mim.

um cara chato falava sério no seu ouvido e eu forçava te reconhecer de algum lugar ou capa de alguma revista ou talvez de um álbum de família do Steven Tyler. eu queria muito perguntar como era ser irmã gêmea da Liv, mas só te olhava bobo feito cachorro. imaginando onde ficava esse tal Vale-Encantado-dos-Ecos onde você desceu e gritou bem alto que queria nascer gata.

mas até aí, tudo bem. homem nenhum se apaixona por uma mulher imóvel, caso contrário eu já teria entrado na igreja com alguma Playboy. o brabo foi ver você dançando. porque a paixão brota num instante de movimento. um girar de pescoço com mechas cobrindo meio rosto. e o seu problema foi justamente se mexer com aquela boa da PJ Harvey, alisando a franja com os olhos e sorrindo com as sobrancelhas.
sério, você devia se olhar no espelho antes de olhar pra mim. e o cara chato do seu lado. aí me olhou de novo e cheguei a pensar que tinha coisa errada comigo. às vezes sonho que vou à festas de aniversário sem as calças e vai ver esse dia chegou. não, as calças estavam lá. você e eu também. ou então, assim como eu dôo duas cestas básicas por ano, você dá duas olhadas num cara feio por ano, pra recompensar o gás carbônico da sua respiração, mesmo quase certo de que você faz fotossíntese como o resto das flores.

na volta do banheiro precisei de uma coca gelada. sempre quis ser astronauta porque li uma vez que 10 entre 10 astronautas fazem xixi nas calças e tudo bem, faz parte dessa coisa de ir pro espaço. você sentiu o frio do ar condicionado e alocou minha camisa de flanela marrom nos melhores ombros do mundo. e de certa forma, me jogou no espaço e eu, nervoso, quis muito ser astronauta outra vez, chorar agachado no banheiro e nunca mais te ver. medo.

posso ter meu casaco de volta? não. e me sorriu um sorriso de boas vindas a esse mundo paralisante de inseguranças e abismos que é querer passar o resto da festa do seu lado. ok, tentei me esconder atrás do cardápio e escolher algo líquido pra digerir você, mas nem precisei porque já estava bebendo da sua fonte e comendo na palma da sua mão. você riu, com uma batatinha entre os dentes.

rimos juntos. você contou uma história engraçada que aconteceu na sua aula de culinária indiana e eu fiquei prestando atenção na sua boca como se não houvesse amanhã. e você disse que, tudo bem, era preciso estar lá pra ter graça. eu te contei meus planos, de um dia me casar e ter filhos com um barco a vela e viajar dentro de uma bela garota em alto mar. ou mais ou menos isso, já nem sei.

alguém já disse que você é bonita nos últimos dez minutos ou fui só eu? o riso alto e gostoso é a primeira peça de roupa que você despe de uma garota. ela me deu seu telefone e disse "mas me liga mesmo". ok, eu te ligo. sei que vou. eu consigo. em último caso alugo "Free Willy" e me inspiro com a baleinha voando sobre os molhes em direção ao mar bom. pois é. acho que não vai dar. semana que vem, quem sabe. é, nunca liguei. porque não.

mas tenho motivo. sou daquele tipo de cara que, convidado a beber um vinho na casa da Natalie Portman, passam a noite a tratando como se ela fosse mesmo a Natalie Portman, e não uma menina carente que esqueceu de fazer dezoito anos, sedenta por ser aninhada num peito masculino.

eu disse que tinha um motivo e não uma explicação. me deixa. você jamais estará disposto a ser assustadoramente feliz sem estar disposto a sofrer assustadoramente.

- Gabito Nunes

terça-feira, 22 de novembro de 2011

you can hear those distant bells, and you know they'll never leave. ♪

- Snow Patrol
Those Distant Bells

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

— para vermos o azul, olhamos para o céu. a Terra é azul para quem a olha do céu. azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? ou uma questão de grande nostalgia? o inalcançável é sempre azul.
— se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silencio, mesmo que falasse. consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. e nunca ter dito uma palavra. pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Cosmonauta na terra pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

domingo, 20 de novembro de 2011

O que não é da sua conta


se eu falo sério, eu tô com ciumes, se eu falo rindo, eu tô sendo irônico. como que você quer que eu me expresse então? chorando pareceria emocional pra você? não vejo outra saída se não, não falar. não somos mais um casal faz um tempo já e não vejo problema nenhum em você falar sobre seus relacionamentos pra mim. não falar sobre seus relacionamentos faz parecer que alguém aqui ainda não levou tudo que deixou.
faz tanto tempo que eu não sei o que eu sinto por você, talvez descaso, mas descaso não é sentimento. só que dizer assim na lata que você não significa mais nada pra mim é tão complicado, machuca muito mais em mim do que em você. sim, a gente transou semana passada, e daí? foi só sexo, quem é você pra parar na porta da minha casa e dizer que se sente mal, mas que não sabe com o que. eu acho que você se sente igual eu me sentia das vezes que era eu a pessoa usada sabe? isso que você tá sentindo agora é uma sensação de que você serviu pra aliviar a vontade de alguém. isso é tão... tão... triste, porque eu me descrevo vendo você.
igual aquele dia que a gente saiu e no fimzinho da noite você virou pra mim e falou: não é nada, eu só não quero você hoje. você sabe quantas vezes isso martelou na minha cabeça? não consigo fazer uma somatória, porque no dia, foram muitas vezes. e hoje, hoje eu não quero você, só isso. como diz em um texto que eu vi por aí: só isso tudo. não importava pra você qual era o meu gosto, o meu cheiro, ou até mesmo a minha cor preferida. você lembra do perfume que eu usava? não, você não lembra. e eu? eu lembro até qual era o seu livro favorito. lembro da música que você mais gostava, do seu prato favorito, até do seu café com duas colheres de açúcar eu lembro. eu só não lembro de você, não sei o que me encantou em você, acho que só pode ter sido o sexo, porque o sexo foi bom, o sexo foi extremamente bom.
hoje eu sou um pouco mais frio, você reclamava do sentimentalismo barato, pronto tá aí a frieza que você tanto pedia indiretamente. eu entendo hoje como é não conseguir olhar nos olhos da pessoa que a gente usa, porque eu se quer consigo olhar nos seus. eu me sinto muito mais limpo que você e tenho nojo de enconstar tua pele na minha. não basta você aqui de frente comigo, eu tenho que falar tudo agora, porque eu sei que quando você sair daquela porta eu vou me arrepender de cada palavra que eu disser, então você vai me ouvir, ah se vai.
você é uma criança, mesmo eu sendo muito mais infantil que você. você é um babaca, e tão inútil que só serve pra umazinha, você fala umazinha né? esqueci de mencionar o quão engraçado você é. você pensa que é inteligente e que pode conquistar mas não é bem assim. e ainda haviam boatos de que eu sentia pena de você, mas não, e você lá merece um sentimento meu? você é arrogante e eu tenho vontade de pisar em você, ou cuspir na sua cara.
termino isso tudo agora porque já me humilhei demais, e você serve de inspiração, acordar e lembrar que você existe, me dá vontade de viver mais sabia? pra poder esfregar na sua cara o quanto você é medíocre, mesquinho e insignificante. eu ia casar com você, você me pedia em casamento depois de gozar, e você acha que saía por cima ainda? eu dizia que te amava depois de gozar. boa noite príncipe encantado, ou melhor bom sonhos.

- Douglas Lenon

sábado, 19 de novembro de 2011

eu detesto você saindo pela porta e as paredes se fechando, se fechando, e eu sem poder berrar para, pelo amor de Deus, você me resgatar, e me colocar no colo, e me dizer que você me entende e sofre também.

- Tati Bernardi
ok, não vou mentir, tenho sentimentos de estimação por você. mas estou deixando de alimentá-los. um dia eles morrem.

- Gabito Nunes

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

— e o amor, o amor, cara. o que eu faço com isso?
você esquece, sei lá. não tem tanta importância assim.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Carta Extraviada 1


não sei por onde começar esta carta que já nasce atrasada, pensamos sempre que temos muito a dizer mas as palavras são pouco amistosas, onde encontrá-las agora, às três e dez de uma madrugada em que me encontro insone e pensando mais uma vez em você?
você esperou por estas palavras por muitos meses, na esperança de que elas aliviariam a dor do seu coração, mas elas não vieram porque estavam ocupadas vigiando meus impulsos, me impedindo de me abrir, e minha própria dor lhe pareceu desatenção, eu que não durmo de tanta paixão congestionada, de tanto desejo represado, de tão só que estou.
meus motivos sempre lhe pareceram egoístas, e se eu lhe disser que o descaso aparente foi na verdade uma atitude consciente para preservar você, me chamarás de altruísta e não sairemos do mesmo lugar.
eu errei por não permitir que você me oferecesse seu afeto, eu errei ao sobrevalorizar um risco imaginário, eu errei por achar que existem amores menores e maiores, avaliados pelo tempo investido, pela contagem dos beijos, pelas ausências sentidas, por tudo isto fui conduzido a um erro de cálculo.
não te peço nada além de compreensão, e esta carta nem era para pedir, mas para doar, eu que sempre me achei bom nessas coisas, o voluntário da paz, o boa-gente oficial da minha turma.
mas peço: lembre de mim como alguém que alcançou a mesma medida do seu sentimento, a mesma profundidade das suas dúvidas, o mesmo embaraço diante da novidade, o mesmo cansaço da luta, a mesma saudade.
a carta vem tarde e redigida com palavras covardes, as corajosas repousam pois se imaginam já ditas e escritas, valentes foram as palavras do início, as desbravadoras, as que ultrapassaram limites, quando nós dois ainda não sabíamos do que elas eram capazes, palavras audazes, febris.
pela enormidade de tempo que temos pela frente em que não nos veremos mais, não nos tocaremos ou ouviremos a voz um do outro, pela quantidade de dias em que conduzirás tua vida longe de mim e eu de ti, pela imensidão da nossa descrença, pela perseverança da nossa solidão, pelos nãos todos que te falei, pelo pouco que houve de sim, acredita: te amei além do possível, não te amei menos que a mim.

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e Outros poemas

domingo, 13 de novembro de 2011

é preciso muito pouco. a alegria está muito próxima. mora no momento. perdemos a alegria porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento portentoso que mudará a nossa vida.

- Rubem Alves

sábado, 12 de novembro de 2011

Sentir que você sente


quando a gente discute eu coloco uma música pra tocar, porque eu sou assim frágil, e vivo de mansinho pra não ir com muita pressa, e você devora, mastiga e me despedaça aos poucos. e por incrível que pareça, por mais assustador que seja, eu gosto de você. gosto de você porque me faz falta esse teu bom humor. tenho que ser muito mais forte, eu sei, mas estou trabalhando nisso.
toda vez que você não me ouve, eu tenho vontade de desistir. desistir de tudo porque eu não peço somente pra você me ouvir, eu quero falar entende? discutimos por coisas bobas até, mas mesmo assim você fica quieto e parece que vai explodir a qualquer momento. eu não quero um mar de rosas depois que a gente se entender, quero um cafuné e dormir nos seus braços, é isso que eu quero. mas quando penso em falar com você logo me vem em mente a vez que você disse: você não consegue se afastar um pouco não? o que me machucou muito por sinal.
quando chega na metade da música, o cantor diz: don't kill love now e sempre sai uma lágrima do meu olho nessa parte, justamente nessa parte em especifíco. eu não quero que esse amor, um tipo de amor diferente eu posso dizer, porque por mais que eu saiba de você por partes, e conheça você mais do que você imagina, eu nunca fui embora. você é especial demais entende? especial pra mim. se saudade realmente define o que você sente por mim quando a gente se afasta, me faz sentir isso também, sentir que você sente saudade.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Brincar de pensar pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

eu tenho uma preguiça profunda desses programas que ensinam sexo bizarro, sexo grupal, sexo isso, sexo aquilo. o amor é importante, porra.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

você não sabe (ou sabe), mas as pessoas estão lendo mais, tentando sentir mais, sorrir mais, se comunicando e compartilhando mais, escrevendo mais, emburrecendo menos com a televisão e comendo menos morangos mofados. tem que ver, coisa mais linda. de um jeito esquisito, prático e por vezes frívolo, é gente interligada pelo fio condutor do trabalho, das coisas, da saudade que você deixou. é como se todos fôssemos um, como se cada um de nós fôssemos responsáveis por respirar uma célula do seu corpo. anos depois, só agora. é tudo tão irônico, não?

- Gabito Nunes in Carta aberta para Caio Fernando Abreu

terça-feira, 8 de novembro de 2011


— por mais flores e risos e beijos e carinho e, droga, compreensão mútua e ma-tu-ri-da-de. por mais apaixonado, por mais legal. para mim, nunca. fica um cheiro de merda por tudo. mesmo que você não veja. que você não sinta. no escuro, fica.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

você é minha melhor amiga e minha pior
perdoa minha insensatez e se vinga
me perturba o sono e me faz carinho
me confunde: agora pode, agora não pode
ás e coringa, me perturba e me acalma
me veste de trapos e dor
pró-pecados, contra virtudes
me mostra o caminho e o interrompe
me sacode e me faz sentar
você está do meu lado e não está
minha pior inimiga e minha melhor

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

domingo, 6 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Egoísta (des)equilibrado medroso


preciso de alguém pra dizer que está tudo bem. que está tudo como deve estar, tudo no seu lugar. porque eu cansei de me suicidar dentro de mim todas as noites. quem precisa de colo quase na fase adulta da vida? eu. eu preciso. eu sou meio frágil, meio egoísta por escrever apenas de mim mesmo. escrevo sobre mim porque eu não sou outro alguém, eu só sei onde dói em mim. meio capitalista até esse estado de espiríto. isso tudo porque eu tenho que culpar alguém pra dizer que como eu estou nesses últimos dias não tem sido por minha causa, tem alguém que machuca muito mais e que não pode ser esse eu que sofre. sofro de distúrbio de personalidade multipla, quem escreve aqui hoje, não é o mesmo que vai pra aula amanhã, ou que vai trabalhar. droga, estou sendo um pouco sincero. sinceridade é falta de educação.
o que mais me intriga é eu querer saber quantas pessoas eu comporto dentro de mim. porque o mesmo que ama é totalmente diferente daquele que transa, o que sofre é totalmente diferente daquele que sorri, o que ouve Katy Perry — digamos assim, um popzinho desses, meio padronizado, o pop sem os exageros do pop — e dança até não conseguir parar em pé é o oposto daquele que ouve Coldplay tocando Violet Hill num pós-feriado. eu escrevo pra me entender e não pra se explicar, até porque eu não devo satisfação nenhuma aos meus medos e desejos.
meta do próximo ano: ser um pouco mais cara de pau pra não se machucar tanto. talvez se eu for igual a uns digamos 50% da população que é frigida em relação a sentimentos mesmo — sexo todo mundo gosta, ou quase todo mundo —, esses leves lapsos que me ocorrem é devido aquelas estrias que temos na alma sabe? e eu odeio estrias, mas na alma não funciona igual no corpo. só tem estrias na alma quem tem esperança.
hoje o sonho é largar tudo e morar bem longe. aonde não exista nenhum tipo de tecnologia super avançada. só contato físico porque eu não sei o que é isso faz tanto tempo! e eu não quero desistir, acima de tudo eu quero tentar, eu quero vencer. porque esse que está escrevendo agora não é o mesmo que começou a escrever isso tudo. quem escreve agora é quem tem esperança porque quem começou essa crônica não tinha esperança alguma, e isso tudo vem das palavras. que "o ato de escrever não é sofrido, sofrido é a vida", palavras da grande Martha Medeiros.
é agora ou nunca, preciso ser uma única pessoa nesse meu dia-a-dia porque estar em movimento a todo tempo requer equilíbrio e parte de mim nunca soube que isso existia. ou talvez a parte que sabia acabou se suicidando ontem a noite. ou talvez tenha sido um egoísta equilibrado medroso, o que morre sem querer contar como é ser equilibrado. ou talvez eu nem saiba como é ser equilibrado e só saiba disfarçar. o que eu sei fazer de melhor é disfarçar, tanto a dor como a alegria e acho que esse sou eu, o grande egoísta (des)equilibrado medroso conhecido como o mestre do disfarce.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Constando um terrível defeito (meu)

sou obsessiva. completamente. de certa forma, creio que essa característica tenha me ajudado a ser quem sou, mas ela é burra no que se refere ao amor. eu quero que o outro - qualquer um, qualquer um, qualquer um mesmo, quando esse um está disfarçado em nomes próprios - tenha a noção de como seria incrível viver aquele um-pouco-mais comigo. os meu desejos... os meus prazeres... os meus segredos... as minhas taras... as minhas reticências... mas a minha maior burrice é não perceber que não ter esses momentos não significa que nada disso exista. e existir é o melhor que tenho a fazer, ponto. posso estar bem comigo mesma. posso ir ou...

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

— mas eu não pensava em sacanagem nenhuma. só queria ficar perto dele. no máximo, deitar abraçado com ele. na mesma cama. nem um beijo, nada. só um abraço, bem apertado. ridículo, ridículo. eu era meio retardado, acho. até uns dezoito anos não sabia nem o que era punheta, pode?

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Brincar de pensar pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

terça-feira, 1 de novembro de 2011


é o que está no contrato. e eu assino embaixo. melhor assim. muito melhor assim. tô super bem com tudo isso. nossa, nunca estive melhor. mas não faz isso. não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. não me deixa assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

eu só queria que isso que eu tô sentindo agora durasse mais de uma semana. eu só queria poder chegar em casa e ver tudo diferente. ver tudo bonito. ver tudo como de fato é.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

é como um balão de gás helio. solto no céu, chama atenção. preso na mão é só um enfeite. deixa voar, quem sabe ele volta pra tua mão.

- Gabito Nunes in Vaivém

terça-feira, 25 de outubro de 2011

6º dia - "e o problema não é que eu não me integro, é que eu me desintegro." (Fernanda Young)


vivo de escritos se é isso que você queria saber. sou melodramático extremamente fervoroso. creio naquilo que não existe. ultimamente virei ateu do amor. sabe quando me perguntam: você acredita no amor? eu respondo: não, sou ateu. e quando perguntam: você acredita na canalhice do homem? até ateu acredita. nessas indas e vindas, tenho fé de que o seu amor existiu apenas porque um dia eu acreditei nele, fiz você fazer parte de um relacionamento, te coloquei na minha vida, te mostrei que o mundo pode ser sim um lugar legal, até você cagar com tudo. o primeiro basta veio logo depois de você dizer que não tem importância as coisas que eu faço, traduzindo: nada que eu fazia tava bom. e eu querendo ser mais, muito mais pra ver se você mudava, se você se empenhava, se você participava. acabou que eu não sou de ferro, e acabei me desintegrando. e tenho um pouco de vergonha de ter acreditado no amor. no nosso amor.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

pra ela eu contava qualquer tipo de coisa com o coração todo aberto, porque eu sentia de forma muito clara a facilidade e o acolhimento com que me ouvia. um bom confidente, às vezes, é apenas aquele que nos deixa livres para dizermos tudo o que quisermos sobre nós, inclusive bobagens das quais talvez nos arrependamos logo depois de dizê-las. às vezes, é apenas aquele que interage com o nosso sentimento da vez, sem estar com a razão toda arrumada para análises profundas, tiradas magníficas, sermões eloquentes, dos quais nem sempre precisamos. um bom confidente, essa maravilha rara, é aquele que aproxima, generosamente, a vida dele da vida da gente e, apesar da mágica interação que acontece com essa proximidade, consegue manter a distância necessária para não confundir a sua história com a nossa. há momentos em que a gente só precisa falar e se sentir, de verdade, ouvido. só isso. só isso tudo.

- Ana Jácomo

dedico para Allana Zanon e Clarissa Lamega.

domingo, 23 de outubro de 2011

e quando falo da VERDADE, não penso em felicidade. penso em desistir dessas tentativas de mais-um-pouco: mais um pouco de conhecimento, mais um pouco de tempo, mais um pouco de calma.

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

sábado, 22 de outubro de 2011

eu queria ter tomado um banho antes e feito a barba, uns cheiros, uns charmes, essas coisas. eu queria dar uma boa. Sei lá, troço mais babaca, impressão. eu queria que você gostasse de mim.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 21 de outubro de 2011


não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhando ao espelho e se surpreendido consigo próprio. por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. a isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in A surpresa pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Lucas: — eu não te odeio. eu lembro da primeira vez que te vi, com braços magrelos e cabelos bagunçados. foi difícil me desprender de você, Peyton. você sabe, foi... difícil perder você, e foi difícil te ver de novo. e... ainda... é muito difícil.
Peyton: — eu sei. enquanto eu durmo, eu tenho esse sonho em que nós estamos juntos novamente naquele hotel em L.A., e você me pedia em casamento. e todas as vezes, eu digo sim.
Lucas: — é só um sonho, certo?
Peyton: — é o meu sonho.

- One tree hill
5ª temporada, episódio 18

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

crazy é uma palavra que confere certo humor à loucura
parece que se é uma loucura divertida, supercrazy, personagem de gibi
alegre, magnética, cabelo colorido, uma destrambelhada que ri

crazy é uma palavra que não descreve a minha inversão
sou louca em português, very absorta, nada institucional
desajuste silencioso, independente, que não se cura nem se cobre com bandeide

crazy não me entitulo, tenho a fachada sã e não trago o riso solto
meu desvio é genético, louca de berço, pura, sem aditivos
loucura genuína não se produz e a américa nada tem a ver com isso

crazy é bacana, crazyland, terra dos que estão em paz e fumam,
a noite inteira gargalhando, beijando-se uns aos outros, just fun
o que sinto é mais uterino, absolutamente pessoal e profano

crazy, sou às vezes
louca, doze meses por ano

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O tudo que faltava, talvez seja você


você prometeu que ia segurar minha mão quando doesse muito lembra? e eu queria saber, porque a sua vida é tão mais interessante do que aquilo que eu tenho pra contar, também queria saber qual é o sentido da gente estar junto, se você mata o amor a todo momento. amor é você ser meu cumplice entende? é você ser a pessoa a qual eu corro pra contar o que eu descobri. qual é o segredo de ter uma vida fabulosa a qual não te deixa pensando em como eu me sentiria se você perguntasse como eu estou, ou até mesmo se eu gosto do jeito que você me trata? nunca passou pela sua cabeça que eu também me machuco.
eu espero demais. eu acredito que existe pessoas boas que vão perguntar pra mim o que eu fiz. tem pessoas no mundo que se importam, mas a gente ainda nem encontrou com elas. na verdade elas se escondem e você quer muito aquilo que você oferece. no fundo somos eternos egoístas que damos pedindo em troca.
eu quero ser doce com você, porque eu vejo em nós algo que poderia dar certo: você não tem nada a ver comigo. você não gosta da melancolia, tem um estilo pessoal digamos um pouco mais social, expressa o carinho que sente em algumas pitadas apenas. o tudo que faltava talvez seja você. e essa frase acredite não é minha, mas penso que você pode querer muito mais, e eu acredito em tudo, desde a sua vontade louca de querer morar em um país oriental até sua vontade de querer me contar a verdade sobre o que você realmente passa e de como é a sua vida.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

e foi como se a miopia passasse e ele visse claramente o mundo. o relance mais profundo e simples que teve da espécia de universo em que vivia e onde viveria. não um relance de pensamento. foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar.

- Clarice Lispector in Evolução de uma miopia pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

domingo, 16 de outubro de 2011

acho bonito isso “quem não tem para onde ir, embarca”. me perco alguns segundos nessa frase e quase quero acordar para escrevê-la na minha parede. mas estou com raiva e quero que esse ladrão pague por ter roubado algo que eu queria tanto que roubassem mesmo.

- Tati Bernardi

sábado, 15 de outubro de 2011

são as leis, o que se pode fazer? biologia, carma, horóscopo, o escambau. veja o lado bom, é o mais próximo que podemos chegar de uma relação segura, estável. a pessoa gosta de John Lennon; ela tende a dar uma chance à paz. ela curte Barry White; vai gostar de você do jeito que você é. ela simplesmente ama Marvin Gaye; é o tipo de gente que vai deixar rolar porque vocês são duas pessoas sensíveis, com muito pra dar. afinidade é a maior tecnologia a serviço do amor, cruzando informações que realmente importam.
quem dera.

- Gabito Nunes in Afins

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


— mas qual é a vantagem de fingir que não há o problema?
quando ele é insolúvel, a vantagem é que você não terá que resolver algo que não tem como ser resolvido.
— tipo o quê?
— tipo o fim do amor. para os mais jovens, o fim do amor pode ser resolvido com o término do casamento. inclusive, acho isso uma grosseria... isso que não entendo nesse assunto abismo... desculpa, filha, mas abismo é viver. não estamos à beira dele, estamos nele. e todo mundo age como se fosse heroi por contornar crises, por meio do debate, ou não. todo mundo vai fazer análise, justamente para não olhar para a pessoa ao lado e dizer: eu tenho vontade de vomitar quando escuto os teus passos. e isso não se diz numa conversa. você não pode virar para a mãe dos seus filhos e falar: “olha, eu não te odeio, te desejo tudo de melhor, mas eu não te amo mais”. sem que isso venha cheio de acusações. quando, no fundo, no fundo, amor não dura. e nem venham me falar que o que não dura é paixão. a ideia do amor está lá, faz parte da nossa cultura, essa tal transformação do amor. podemos dizer: eu não te amo como te amei, mas esse amor se transformou, e eu amo ver televisão com você, eu amo saber que, se eu tiver um treco e ficar todo cagado, você me limpará. Isso que é indiscutível. o amor não se transforma, ele se esgota, e a gente vai levando, por vários motivos. e, saibam, muitos desses motivos não são nada nobres.

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

façamos de conta no meio da chuva que te enxuguei os cabelos, te levei para a cama, te aqueci com abraços, tirei tua roupa devagar, cantei para te adormecer até a manhã seguinte.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

sinto falta da minha vida. eu estou desconectado da minha vida, como se ela fosse um filme chato que eu não quero mais assistir.

- Private Practice
4ª temporada, episódio 22

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sou pequeno assim mesmo


talvez essas letras pequenas as quais eu use seja o medo de ser tão grande a ponto de explodir pra quem não merece se quer um assopro. eu sou assim, pequeno, sou as beiradinhas, tudo em mim é mínimo, porque eu sou feito de detalhes nos mínimos detalhes. intensidade nunca foi meu forte, sempre que pensei em ser intenso acabei fazendo as coisas erradas.
escrevo manso porque não tenho pressa. escrevo numa pontuação desesperada, porque não desejo chegar rápido em tudo aquilo que almejo, eu desejo chegar. poucas pessoas conseguem assim. não uso letras maiúsculas por falta de necessidade naquilo que quero expressar.
tudo que sobrou de quando eu era alguém grande, foi muito pouco, por isso me conformei em ser desse tamanho. pequeno ou não, a gente não mede o amor ou os amores! se for pra viver de restos a gente nem vive, por isso somos pequenos.
no fim das contas escrevo em letras pequenas pra mostrar que existe sim letras grandes, mas que elas não são duas. me certifico de que o excesso foi me consumindo aos poucos, e eu fui me livrando de tudo aquilo que machuca, rasga e destrói. abri as portas pra tudo aquilo que brilha, ama e cuida.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

a consciência de que vamos morrer talvez seja a mais desestabilizadora, mas costumamos pensar nisso apenas quando há uma ameaça concreta: o diagnóstico de uma doença ou o avanço da idade. as outras perturbações são mais corriqueiras. somos livres para escolher o que fazer de nossas vidas, e isso é amedrontador, pois coloca a responsabilidade em nossas mãos. a solidão assusta também, mas sabemos que há como conviver com ela: basta que a gente dê conteúdo à nossa existência, que tenhamos uma vontade incessante de aprender, de saber, de se autoconhecer. quanto à gratuidade da vida, alguns resolvem com religião, outros com bom humor e humildade. o que estamos fazendo aqui? estamos todos de passagem. portanto, não aborreça os outros e nem a si próprio, trate de fazer o bem e de se divertir, que já é um grande projeto pessoal.

- Martha Medeiros in Os quatro fantasmas pertencente a obra “Doidas e Santas”

domingo, 9 de outubro de 2011

o resto do dia poderia ter sido chamado de horrível, se o menino tivesse a tendência de pôr as coisas em termos de horrível ou não horrível. ou poderia se chamar de “deslumbrante”, se ele fosse daqueles que esperam que as coisas o sejam ou não.

- Clarice Lispector in Evolução de uma miopia pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

sábado, 8 de outubro de 2011

e escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. escrever sobre você de novo? de novo? tenho até vergonha. nem eu suporto mais gostar de você.

- Tati Bernardi

sexta-feira, 7 de outubro de 2011


se não for pedir muito, emita algum sinal, deixe um alô na minha timeline, que eu vejo aqui do meu lado, assim que lembrar das senhas pra te ganhar. sim, às vezes te procuro na web, grande áfrica. quero saber com quem você anda e o porquê do silêncio. tá estampado e nítido na sua cara, no seu riso-ejaculação-precoce, que também não me esqueceu. ainda.

- Gabito Nunes in Espero que contigo esteja tudo mais ou menos

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

todos, seja qual for a vida que temos, vivemos felicidades e tristezas a cada instante. porque somos e não somos, queremos isso e não-isso. ao mesmo tempo. atrair e repelir, amar e odiar, viver e morrer, compreende? não comparo a minha vida a desse escritor, lógico. mas quero ter o direito a ter conhecido, também, a felicidade. e quero te contar quando e como.

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

no fim das contas, faltou dinheiro. faltou tanta coisa mais importante do que dinheiro.

- Rodrigo Tavares

5º dia - "se não fosse amor eu já teria desistido de nós." (Caio Fernando Abreu)


já teria desistido de tudo. mas você é uma criança que foge quando tem que estar! quando tem que se manter. eu não tenho idade pra cuidar de você, tá me entendendo? costumo escrever muito "eu", e é puro impulso, porque quando falo de mim, só consigo pensar em falar: eu.
temos vários problemas em nos aceitar, nos querer. precipitamo-nos demais. não faço ideia se existe essa palavra "precipitamo-nos". mas você entende o que eu quero dizer, porque na verdade o que importa é a linguá, gramática é para os fracos. mas a gente vive nesse silêncio, que a fonética nem faz sentido. mal sabemos que podemos nos comunicar por cartas, ou por telepatia, porque eu penso em você. e cá estamos, eu ainda insistindo nesse romance com escalas. tudo parece tão vago, assim nesses dias de primavera, que sobra lugar, que falta você. quando você foi, eu fui muito mais eu do que eu jamais pensaria em ser. porque ao contrário de você, eu não desisti de nós, mesmo vendo suas costas, te vendo partir.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

até que um dia Douglas, que ela chama ardente e suavemente de “meu Douggie”

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

esse trecho nem tem nada demais, mas tem meu nome. achei tri lindo.

domingo, 2 de outubro de 2011

mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. quem dá brilho ao nosso olhar é a vida que a gente optou por levar. um olhar iluminado, vivo e sagaz impede que a pessoa envelheça. olhe-se no espelho. você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? tem que ter.

- Martha Medeiros in Os olhos da cara pertencente a obra “Doidas e Santas”

sábado, 1 de outubro de 2011

e também porque uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter. e, sobretudo, nunca para se “ser”. sobretudo nunca se deveria ser a coisa bonita. a uma coisa bonita faltava o gesto de dar. nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim, como que guardava dentro do silêncio perfeito do coração.

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”

sexta-feira, 30 de setembro de 2011


“carências... quem não gosta de ser amado? de receber atenção especial? quem não gosta de beijo na boca e abraços apertados? quem prefere a solidão a uma boa companhia? nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã. uma coisa frenética e louca, que tem feito muita gente que se julgava equilibrada perder os parafusos e fazer muita besteira. paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho. as pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado. vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas. é uma guerra para não ficar sozinho. medo, medo de se encarar no espelho e perceber as próprias deficiências, medo de encarar a vida e suas lutas. então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si mesmo, transfere toda a sua carência para o(a) parceiro(a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa que na verdade ela mal conhece. então, um belo dia, vem o espanto, vem a realidade, o caso melado, o “falso amor” acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver. pobre povo desse século da pressa! precisamos urgentemente voltar o costume “antigo” de “ter tempo”, de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.”

- Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

eu sou filho de um homem. eu sou filho de uma mulher. mas o mais importante, eu sou filho de Deus, e quando eu olho em volta, vejo outros como eu. nós não nos parecemos, nenhum de nós é igual. do lado de fora, somos gays e heteros, pretos e brancos, gordos e magros, homem e mulher, santo e pecador. devo continuar, ou vocês entendem onde eu quero chegar? mas dentro... dentro somos todos iguais.

- Bones
4ª temporada, episódio 7

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Torcidas Organizadas


Quando falamos de torcidas organizadas, ou até mesmo de estádios de futebol, a primeira coisa que pensamos: confusão.
Conforme o tempo passou ir ao estádio de futebol passou a não ser mais tão prazeroso assim, tudo isso devido a grande jogada da mídia, muitas vezes colocando medo nas pessoas, antes mesmo delas pensarem em como as coisas poderiam ser se não fosse essa pressão psicológica que o mundo globalizado impõe.
Sinônimo de torcida organizada ultimamente anda sendo brigas, o que não é bem assim. Torcida organizada está em todo lugar, um show de música por exemplo, não deixa de ser uma torcida organizada, todos vibram e aplaudem, não é tão familiar quanto um estádio de futebol?
Vários questionamentos me passam pela cabeça a partir do momento que começamos a criticar sem ao menos saber como funciona, como é estar nesse meio? quantas histórias um(a) senhor(a) que tem amor pelo seu time não deve ter pra contar? Estar em grupo nos da uma autoconfiança maior, porém existe uma grande diferença, lá dentro a união sempre vai fazer a força e a vontade! E fora do estádio qual é o momento que eu caio na real e vejo que brigar pelo meu time só vai prejudicar a mim e ninguém além de mim?
Suponhamos que você vá em um jogo qualquer e você não torce pra time algum, a sensação de estar num lugar onde todo mundo está torcendo, todos vibrando de uma forma extremamente contagiante, onde na vida que você vai encontrar uma sintonia maior que a de uma torcida organizada, temos de doutrinar nossos conhecimentos tendo em vista que uma torcida
não é uma máfia, ou até mesmo uma gangue de bandidos, uma torcida é muito mais, é você entrar em contato com todos involuntariamente.
Percebe o que eu estou querendo passar? Se divertir nunca foi crime, nunca machucou ninguém.
Entretanto vivemos numa sociedade que têm suas próprias teorias, seus princípios e suas prioridades. Será que a crítica de que fazer parte de uma torcida organizada te faz melhor ou pior que qualquer outro cidadão? Até que ponto o meu time vai pensar em mim?
Temos mil questionamentos, posso fazer uma lista de perguntas por aqui, mas acho que não vale a pena. Somos apenas um membro de uma torcida qualquer, independente de time.
Nada disso quer dizer que você não pode chorar quando seu time perde, ou muito feliz quando ele vence. Nada disso impede você de fazer parte de uma galera que agita, que faz teu corpo inteiro suar, que te dá vontade de gritar, de mostrar que você tá ali, que você faz parte de um grupo também.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

a verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

- Tati Bernardi

domingo, 25 de setembro de 2011

— deixa tocar. deve ser o Paulinho de novo. God!, as pessoas não têm nem QI nem complexo de rejeição nem componentes paranoides suficientes para desconfiarem que quando você diz me liga daqui a dez minutos quase sempre significa não liga mais, não quero falar com você.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
escuta, de uma vez, eu poderia dizer que voltamos à estaca zero, mas esta foi cravada no dia que a gente se encontrou. depois de tirar um pouco os pés do chão, caímos juntos e abraçados num poço escuro e vazio e sem fim. agora estamos no negativo, a gente simplesmente deve algo um pro outro. e nem vem, não adianta, quem ama o difícil, muito fácil lhe parece. sei da sua indolência, mas quero tentar mesmo assim, porque já não dá mais pra passar um dia sem que minha história conte um pouco da sua. cada vez que eu for até sua boca, é um degrau de subida, a gente já foi fundo, fundo demais, não há mais como cair. de agora em diante, o maior risco que a gente corre é ser feliz.

- Gabito Nunes in Interrupção

sábado, 24 de setembro de 2011


ela, a vida, essa que nos faz entrar em bares suspeitos, chorar de amor, espiar pelas frestas, pegar no sono em cima do balcão depois de beber demais. é noite escura e a gente sofre calado, deixa a conta pendurada, bebe de novo quando havia prometido parar, e morre - morre mesmo! - de ciúmes sem ter tido tempo de saber que éramos amados.

a vida e nossos vícios, nossas perdas, nossos encontros: quanto mais nos relacionamos com os outros, mais conhecemos a nós mesmos, e é uma boa surpresa descobrir que, afinal, gostamos de quem a gente é, e quando isso acontece fica mais fácil voltar ao nosso local de origem, onde tudo começou.

a vida e a espera por um telefonema, a vida e seus blefes, e nosso cansaço, e nossos sonhos, e a rotina e as trivialidades, e tudo aquilo que parecerá sem graça se ninguém colocar um pouco de poesia no olhar. a vida e suas pessoas belas, feias, fortes, fracas, normais. todas atrás da chave: aquela que abrirá novas portas, velhas portas, a chave que nos fará ter o controle da situação - mas queremos mesmo ter o controle da situação? não será responsabilidade demais? deixar a chave nas mãos do destino é uma opção.

os sinais fecham, os sinais abrem. você segue adiante, você freia. a gente atravessa a rua e vai parar em outro mundo, basta dar os primeiros passos. viaja para esquecer, viaja para descobrir, e alguém fica parado no mesmo lugar, aguardando (quando pequeno, sua mãe o ensinou que, ao se perder na multidão, não é bom ficar ziguezagueando, melhor manter-se parado no mesmo lugar, aí fica mais fácil ser encontrado). muitos estão parados no mesmo lugar, torcendo para serem descobertos.

- Martha Medeiros in Um poema filmado pertencente a obra “Doidas e Santas”

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

porque pensar demais faz a gente desistir. o que enlouquece é a certeza, não a dúvida. pensar demais faz a gente pensar besteira.

- Rodrigo Tavares

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

— oh não! não! não é por causa do convite para jantar! é que as rosas eram tão lindas que tive o impulso de dar a você!

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Faz de conta


faz de conta que não doeu e passa a mão no coração. porque tudo é mais fácil, afinal existe a palavra: desculpa. de uma hora pra outra os dedos começam a tremer, na hora tem coisas que a gente leva na brincadeira pra fingir que não doeu. sabe o que é o mais inacreditável de tudo? eu não tenho absolutamente nada a ver com você. e o mais engraçado de tudo? eu acredito em você.
vivo nesse faz de conta. faz de conta que a gente ama e é correspondido, faz de conta que a gente mente e todo mundo acredita, faz de conta que a gente é feliz e nem liga em ficar sozinho, faz de conta que a gente quer alguém por perto mas que seja só pra se apoiar, faz de conta que todo mundo se importa e pensa em você, faz de conta que não dói e chora de alegria, faz de conta que "desculpa" virou "com licença", faz de conta que o corpo todo estremece... de frio.
não queria que tudo isso soasse meio autoajuda sabe? e parece autoajuda. você faz o máximo pra que tudo saia perfeitamente conforme tudo aquilo que você colocou no papel, e de repente o mocinho fica com a vilã, tudo vai virando de cabeça pra baixo sem que a gente tome controle e vai dando aquela vontade de excluir todo esse pensamento que eu criei, porque às vezes não faz sentido algum pra mim, eu sou feliz entende? eu não tenho do que reclamar. eu não quero ser um coitado! agora falando de pseudo escritor para todos os blogueiros e até mesmo escritores de guardanapo: dá vontade de desejar uma coisa bem bonita toda vez que a gente escreve com o coração não é verdade? eu desejo paz pra vocês, e eu desejo muita coragem pra mim.

- Douglas Lenon

terça-feira, 20 de setembro de 2011

mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. eu vou deixar. vai que um dia você acredita.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

coitado do amor, é sempre acusado de provocar dor, quando deveria ser reverenciado simplesmente por ter acontecido em nossa vida, mesmo que sua passagem tenha sido breve. e se não foi, se permaneceu em nossa vida, aí é o luxo supremo. qualquer amor merece nossa total indulgência, porque quem costuma estragar tudo, caríssimos, não é ele, somos nós.

- Martha Medeiros in Absolvendo o amor pertencente a obra “Doidas e Santas”

sábado, 17 de setembro de 2011


e no entanto o sangue estancava junto com a letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e tão antigo, and you know wherever I am, gostava dele assim, meio pesado, I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, winter spring summer or fall, gostava como se gosta de si mesmo, all you have to do is call, ou o que ficou de si, and I’ll be there, no passado, you've got a friend, cantou junto: um pedaço que se imagina para sempre perdido.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

vamos fazer assim. sem traumas. sem dramas. sem dores. seria exagero dizer que você faz o mundo melhor. você não é pra tanto, mal dá pro gasto. mas que fica tolerável, não posso negar. é que... já não estamos nos falando direito mesmo, então acho que preciso aproveitar que nós dois não somos uma aposta segura a longo prazo e que também não sou assim, tão louca por você.

- Gabito Nunes in Nada a perder

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

só tem um problema na sua vida. você se preocupa demais. sempre fica emotiva demais. nervosa demais. se eu jurar que você nunca vai ter nenhum motivo na vida para se preocupar, você vai acreditar em mim?

- Elizabeth Gilbert in Comer, rezar, amar

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

4º dia - "um milhão vezes zero, é zero. ou seja, não coloque sua intensidade onde não tem nada." (Tati Bernardi)


quatro dias, e eu acabo esquecendo de tudo aquilo que eu faço. ando ouvindo mais música que andando de bicicleta. preguiça sabe? preguiça de pensar em você. me falaram que isso tem nome, dizem por aí que se chama indiferença. eu acho que é conformismo, mas e a preguiça de discutir? ainda mais pelo que não vale a pena - pelo que não valeu a pena.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

“abandona-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.”

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”
o maior elogio que eu poderia fazer a uma pessoa era dizer assim: gosto de você além da minha imaginação, não porque aprendi a gostar, mas porque por mais que eu sonhe, você é ainda melhor que o sonho. você é além da minha capacidade em te imaginar. e eu jamais te diria isso. não posso te fazer esse elogio.

- Tati Bernardi

domingo, 11 de setembro de 2011

como um desânimo, vontade de dizer rápido qualquer coisa como olha, você me desculpa, mas estou mesmo muito cansado, fica para outro dia, para outra noite, outro tempo, outra vida.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sábado, 10 de setembro de 2011


que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade do encanto.

- Ana Jácomo

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

quando vocês estiverem na plateia de um show com três mil pessoas, ele vai encasquetar que um homem de camiseta verde está olhando com insistência para você, e vai ter certeza de que você está retribuindo o olhar, e você vai perder a voz tentando explicar, no meio daquela barulheira, que tem pelo menos oitocentos marmanjos de camisa verde em volta, todos olhando pro palco.
aliás, se estivessem olhando para você, qual o problema, ele não se garante?

- Martha Medeiros in Um cara difícil pertencente a obra “Doidas e Santas”

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

jogo minha bagagem na cama e vou por cima, com as pernas para o ar. ele cai junto. a gente ri. ele tem um jeito de me tocar, de caminhar com as mãos no espaço entre minha pele e a roupa, sem parar de me analisar o corpo, cheio de fome e ternura e calor. eu sei que foi por isso que voltei, que volto, toda vez. é quando eu fico por baixo que a verdade se esfrega nos meus olhos e se infiltra pelos meus poros. com o mapa do meu corpo, ele me prende nos meus becos e dança nas minhas avenidas. eu não tenho saídas.

- Gabito Nunes in Insinuações

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Be(lie)ve


acredito que esteja em todo lugar, essa vontade. vontade de se libertar de alguma coisa que nos prende. inacreditável é que nos libertamos de algo e logo em seguida ficamos presos a algo totalmente diferente, o qual a gente nunca imaginou que pudesse existir. vontade de pedir perdão pra quem a gente machuca, vontade de sorrir pra quem nos faz sorrir. vontade de sentir, porque o mundo é muito grande, e com milhões de pessoas boas, é impossível não sentir vontade de ao menos sentir.
acredito que ultimamente seja muita espera e pouca vontade. talvez prosperamos demais e concluimos de menos. são prós e contras o tempo todo, em todo lugar, em todas as pessoas, a todo tempo e o tempo todo. tenho construido castelos e palacios dentro de mim cheios de esperança. mas ninguém cuida, ninguém entende. vontade de pedir um pouco mais de paz, só pra ter mais vontade de ter um pouco mais da gente dentro da gente mesmo.
acredito que é necessário um banho quente, uma toalha limpa e uma rede pra deitarmos depois. faz tempo mas ainda lembro como é se apaixonar, aquele gosto de coração que fica na boca toda vez que ele passa, uma pontinha de esperança que surge no cantinho da sua boca que te faz sorrir, sem perceber que está sorrindo. incrivél como amar é igual andar de bicicleta, depois que aprende nunca mais esquece.
acredito que a gente acredita em tanta coisa, que a gente se perde no meio da caminho, que a gente nem começa a caminhar e já se perde. perceba que a cada idade que passa na sua vida, você tem um questionamento diferente. hoje meu questionamento é se vale mesmo a pena, se compartilhar e entender é o bastante. falta muito ainda, muitos questionamentos a fazer, muita água pra passar por debaixo dessa ponte.
acredito que...

- Douglas Lenon

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo, que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa: "volta, com medo e tudo". foi. e começou a redescobrir que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. (...) é apenas sair do lugar (...). é apenas seguir. com medo e tudo.

- Ana Jácomo

domingo, 4 de setembro de 2011

salve o amor. aquele de conchinha e barba na nuca, que pode durar pra sempre ou só até amanhã. aquele amor sem medo, sem freio, que ama e pronto. salve o amor que a gente dá e pega de volta outra hora, outro dia, com outra pessoa. aquele aconchego facinho que não posa, não se esforça, não finge. salve o amor-próprio, que resolve a vida de muitos, o amor das amigas, que aguenta, arrasta e levanta. salve o amor na pista, que roça, se esfrega, se joga e vai embora. um amor só pra hoje, sem pacote pra presente, sem laço ou dedicatória. salve o primeiro amor, que rasgou, perfurou, corroeu... ensinou. salve o amor selvagem, o amor soltinho, o amor amarradinho. salve o amor da madrugada, sincero enquanto dure e infinito posto que é chama. salve o amor nu, despido de inverdades e traquitanas eletrônicas. salve o amor de dois a dez, um amor sem vergonha, sem legenda. salve o amor eterno, preenchido de muitos ardores. salve o amor gigante, mas sem palavras, o rotativo e o escrito, salve o amor rimado, cego, de quatro. salve o amor safado, sincero e sincopado, o amor turrão e o encaixado.

- Lia Block

sábado, 3 de setembro de 2011

ele me olhava. e eu não soube como existir na frente de um homem.

- Clarice Lispector in Os Desastres de Sofia pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Primeira vez


você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um texto sobre você. nem que fosse te xingando, te expondo. qualquer coisa.
você sempre foi o único homem que me amou. e eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado.
você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. e o único que sempre entendeu também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo.
outro dia eu encontrei um diário meu, de 99, e lá estava escrito “hoje eu larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. ele, no caso, é você. dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, eu por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você. porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado.
depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos escuros espelhados de maconheiro. e eu de calça colorida daquelas “bailarina”. e nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha da classe. mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso super sexy. e eu me achei ridícula na foto mas senti uma coisa linda por dentro do peito.
aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo. fingindo que ia desmaiar. foi ridículo. mas foi menos ridículo do que aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei a força. você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo.
eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro cd do Vinícius de Morais. ou quando me deu aquele com historinhas de crianças para eu dormir feliz. ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele cartão postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça.
também não sei porque eu não escrevi um texto quando você apareceu naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida “eu sei que você não gosta de mim, mas deixa eu te olhar mesmo assim”.
talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente “me faz companhia enquanto meu namorado está viajando?”. e você fez. e você me olhava de canto de olho, se perguntando porque raios fazia isso com você mesmo. talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava querendo apenas me olhar. e eu me nutria disso. me aproveitava. sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo.
depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar de mim. e eu podia ter escrito um texto para você. claro que eu senti ciúmes e senti uma falta absurda de você. mas ainda assim, eu deixei passar em branco. nenhuma linha sequer sobre isso.
depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até desopilar todos os cantos do seu fígado. eu fiquei numa tristeza sem fim. depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. e fiquei feliz. pode me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um pouquinho de mim.
minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. tudo é você. minha personalidade é você. quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. tudo é você. quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. tudo é você. eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. e eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. e, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você.
até hoje. até essa manhã. em que você, pela primeira vez, foi embora sem sentir nenhuma pena nisso. foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente foi embora. como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas que não são ela. e que você usa para não sentir dor ou saudade. foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não gostando de mim. e foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

eu não sou atleta e nem forte para correr tanto e tão longe, por isso gostaria de destruir tudo o que é seu do meu mapa. eu tenho muita preguiça do seu olhar de "já sei o que é sofrer, agora posso viver sem medo porque descobri que eu não morro".
eu já sofri por aí, mas ainda morro muito, todo dia.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

de repente viu-se convidando sem planejar, por que você não aparece em casa uma noite dessas, fim de semana, a gente podia sair, jantar, dar uma olhada na noite.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cuide de quem corre do seu lado, e de quem te quer bem, essa é a coisa mais pura


fecha os olhos e pensa assim: tudo que inesperadamente vai, inconsequentemente volta. não da pra acreditar nisso né? mas mantém o pensamento nessa mesma linha. se aquilo que foi um dia mereceu você, será que aquilo que volta realmente vale a pena? antes que eu esqueça sempre tem um lembrete pra tudo que você for tentar, nesse caso por exemplo: "cuidado! favor não se apegar, favor sorrir sem ter um porquê de sorrir." vai por mim, tudo fica muito mais fácil e você vai acabar me entendendo quando eu terminar de falar.
primeiro passo: nunca, em hipótese alguma tire os seus pés do chão, você vai precisar deles ali, firme, te guiando. de repente o que parece ser o caminho certo, te tira o chão de uma hora pra outra e você cai, e cai feio.
segundo passo: tudo pode ser, não descarte nenhuma opinião ou conselho, no meio do caminho talvez aquilo que você ouviu antes mesmo de chegar na faculdade, quando você sentou e ouviu alguém ao lado dizer "viver, porque chorar dói os olhos", alguém que você nunca viu na vida parecia saber pelo que você iria passar um dia.
terceiro passo: não passe noites em claro, o que foi, volta, lembra? nunca deixe de se amparar, de cuidar-se. nunca esqueça de ser feliz, porque pra gente ser feliz, basta a gente pensar, pensar com força.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. troque experiências, troque risadas, troque carícias. não é preciso chegar num momento-limite para se dar conta disso. o enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir.

- Martha Medeiros in Antes de partir pertencente a obra “Doidas e Santas”

domingo, 28 de agosto de 2011

porque você esquece que eu existo e acaba trocando de blusa na minha frente. porque você escolhe canções difíceis pra cantar em karaokês, se perde na letra e acaba avermelhada e tímida no meio do palco. porque você me cegou para tudo que não é você ou sobre você.

- Gabito Nunes in Aconteceu

sábado, 27 de agosto de 2011

o melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos.
a mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante.

- Ana Jácomo

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


e na porta mesmo ele estacou com aquele ar ofegante e de súbito paralisado como se tivesse corrido léguas para não chegar tarde demais. ela ia sorrir. para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de ter chegado a tempo de encontrá-la chatinha, boa e diligente, e mulher sua. ela ia sorrir para que de novo ele soubesse que nunca mais haveria o perigo dele chegar tarde demais. ia sorrir para ensiná-lo docemente a confiar nela.

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

mas o que dói mesmo é esse finalzinho de dia. a hora que eu validava a minha existência com a sua atenção. a hora que eu representava o mundo para a única plateia que me interessa. a hora que eu me irritava um pouco, porque fazia parte. e então tudo isso que pensei e vivi ganhava um motivo maravilhoso e digno que era virar imagem no seu ouvido. virar realidade. agora fico aqui me perguntando se eu existo mesmo. porque se não me conto pra você, o que eu sou? pra que serve?

- Tati Bernardi