segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

um pouco de raiva não me fará mal.
há frutos que apodrecem
por excesso de doçura.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas
não importava a bondade ou o senso de responsabilidade, se ela não se sentisse apaixonada por esse homem, não conseguiria evitar a sensação de que estaria se acomodando a alguém, e ela não queria se acomodar. isso não seria justo com ela e não seria justo com ele. ela queria um homem que fosse sensível e bom, mas que conseguisse arrebatá-la completamente. queria alguém que lhe oferecesse uma massagem nos pés depois de um longo dia de trabalho, mas que também a desafiasse intelectualmente. um homem romântico, é claro, alguém capaz de lhe comprar flores, sem que houvesse qualquer razão para isso.
não era pedir muito, era?

- Nicholas Sparks in O Milagre

domingo, 30 de janeiro de 2011


são duas horas discutindo sobre um amor do qual não quero mais fazer parte. suas palavras, mesmo em alto e bom português, parecem não mais falar minha língua. eu poderia muito bem gritar igualmente, se você não estivesse tão cega.

- Gabito Nunes in Outro lugar
se eu fizer o sacrifício de esquecê-lo. (…) talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

sábado, 29 de janeiro de 2011

mesmo medonho. baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por amor que menti.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

Se eu não posso ver, não existe


não me faz chorar assim mais uma noite por favor, eu me mantenho afastado, eu não chego perto, nem ao menos toco em qualquer assunto que leva a você. queria falar sobre como acabou mas não com você, então eu escrevo. eu escrevo porque é a única forma que eu acho para soltar tudo isso, toda essa dor, essa raiva, tudo isso que eu não quero, eu escrevo para soltar você daqui de dentro.
sentado aqui, roendo minhas unhas, eu penso: pra quê ficar tratando bem? pra quê ter maturidade? pra quê diabos ser o centrado no final das contas? para jogar tudo, dizer o que eu realmente queria, vai doer, talvez mais em você do que em mim, cansei viu, cansei de chorar, de sentir raiva, de não ter e não fazer questão em ter de volta.
queria que tivesse doído em você do mesmo modo que doeu em mim, que você tenha o dobro, que o mundo exploda com você dentro, eu espero mesmo que você sofra por cada estrela que existe no maldito céu que você apontava.
você destruiu o que ainda havia restado do amor dentro de mim. você conseguiu me fazer enxergar que o amor sempre foi uma invenção capitalista, um modo de ganhar dinheiro, acima de tudo, um modo de ganhar. você conseguiu finalizar o que já haviam começado à um tempo atrás. me mostrou que a pureza não tem função alguma e que as pessoas só vivem para ganhar mais. e obrigado, muito obrigado por ter sido o merda que fez de mim um otário.
amor? o que é isso? daqui para frente vai ser assim, se eu não consigo ver, não existe.

- Douglas Lenon
29 de janeiro de 2010

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

me perdoe pelos meus mil anos à frente dos nossos segundos e pela saudade melancólica que eu senti o tempo todo mesmo sendo nossos primeiros momentos.

- Tati Bernardi
enfrento uma corredeira num bote velho e sem remos
ou quase isso cada vez que você diz que tem algo para me dizer

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas
preserve essa identidade secreta que a faz esquecer tudo que estraga o mundo, diga que desligou a luz da frente e durma sem mágoas. simples assim. perguntas? certo, então. cuide de tudo no meu lugar, volto no dia que saldar todas as minhas dívidas.

- Gabito Nunes in Hipoteca

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

eu isolo os cabelos, ela ajeita as mechas negras;
eu sou verde, ela azul;
eu tenho o nariz de um dobrão espanhol,
ela alegra as frutas;
eu tenho os olhos renascentistas,
ela um olhar impressionista;
eu ando nos cantos dos caminhos,
ela solta os caminhos sem perceber;

eu me arrisco na arrebentação,
ela espera a visita do mar;
eu sou da meia-noite,
ela é do meio-dia;
minhas mãos são menores do que as dela,
suas mãos alcançam a chuva;
eu deito no lado esquerdo,
ela amplia o direito;
eu durmo de tevê acesa,
ela sonha com o rádio ligado;
eu esqueço moedas e passagens nos bolsos,
ela recolhe o resumo da roupa na máquina;
eu uso o telefone como orelha da porta,
ela é a chamada a cobrar;
quando distraído, eu faço poesia atenta,
quando atenta, ela faz poesia distraída;

eu tenho pés chatos e piso em falso,
ela enxerga duplo e aprecia em dobro;
eu danço fora da música,
ela dança com a música de dentro;
eu não sei fazer churrasco,
ela faz de conta que não precisa;
eu faço as contas,
ela enrola o terço na cama para dar sorte;
eu tomo café forte,
ela mede a fumaça com a colher;
eu chamo seu pai para consertar o chuveiro,
ela chama minha mãe para me confundir;
eu sou redundância,
ela é o eufemismo;

eu não uso aspas,
ela usa chapéu na praia;
eu leio estirado como uma chama,
ela lê com as pernas dobradas;
eu compro o fútil, ela compra o necessário;
eu me perco em lugares abertos,
ela se perde em lugares fechados;
eu falo sem parar,
ela ouve sem dormir;
eu prefiro estacionar nas esquinas,
ela me centra;
eu compro jornal,
ela é quem lê;

eu escapo dos deveres,
ela paga guardador de carro;
eu me visto sem olhar,
ela corrige o que não vi;
ela não fica doente,
eu adoeço quando estou nervoso;
ela pensa em tudo,
eu penso o que não sobra;
eu extravio nomes,
ela extravia rostos;
eu não guardo telefones,
ela memoriza a lista;
eu não canto,
ela me legenda o som;
eu erro na pronúncia,
ela é vento simultâneo;

depois do prazer, fico com insônia,
depois do prazer, ela quer dormir;
eu tenho um porão de lembranças,
ela tem um sótão;
eu entro nas recordações pelos fundos,
ela entra pela frente;
eu me alumbro com a mentira,
ela se deslumbra com a verdade;
eu não me repito,
ela imita sotaques;
eu faço amigos rápido,
ela exige convivência;
eu compro as verduras que não prestam,
ela cansou de me ensinar;
eu não sei contar piadas,
ela não gosta de piada;
eu imagino, ela desabafa;
eu fico calmo na tristeza,
ela explode de raiva;
eu alimento pressentimentos,
ela confia em fatos;
ela pede desculpas,
eu continuo acusando;

eu peço desculpas,
ela já esqueceu;
eu sinto ciúmes de velhos amores,
ela sente ciúmes de novos amores;
eu vejo a dor como uma trégua,
ela observa a dor como uma lacuna;
eu me interesso pelo objeto quando o perco,
ela se interessa quando o re-encontra;
eu sou obcecado,
ela é cautelosa;
eu sou perfeccionista,
ela é comovida;
eu improviso,
ela planeja;
eu fujo do aniversário,
ela ensaia o seu com antecedência;
eu puxo sua cadeira,
ela me seduz de lado;

eu sou uma cidade de baixo,
ela é a cidade vista de cima;
eu me vingo,
ela perdoa;
eu sou passional,
ela pacifica;
eu me hospedo quando ela viaja,
ela reside em minhas viagens;
eu acredito em Deus,
Deus acredita nela;
eu rezo ao sair de casa,
ela reza ao chegar;
eu escalo árvores,
ela rega relâmpagos;
nenhuma noite é como as outras,
as outras noites são dias inventados;
nossa risada se bate no escuro.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas
percebeu que não importava tanto o que havia lhe acontecido naqueles quarenta anos, mas o que ela estava fazendo com o que eventualmente acontecera. era uma oportunidade assustadora e maravilhosa: amadurecer não significava estagnar, mas reafirmar - ou reinventar - cada dia aquilo que mesmo inconscientemente ela se propunha como o sentido, o rumo e o tom de sua vida.

- Lya Luft in Numa cidade distante pertencente a obra “Pensar é transgredir”

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

é liberdade ou estou sendo mandada? pois venho notando que tudo que é erro meu tem sido aproveitado. minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

Um dia


um dia você vai desacreditar do amor. um dia tu vai achar que o príncipe não passa de um sapo. um dia você vai desistir de tudo e no outro dia vai querer tudo de volta. um dia o mundo vai rodar rápido demais e você vai ver que tempo nunca é tempo o bastante. um dia você vai cair e ninguém vai te levantar, que amigos existem sim, mas que certas quedas são individuais, às vezes é necessário levantar sozinho. um dia você vai chorar de um modo tão triste que se o mundo vêsse, o mundo choraria junto.
um dia você vai olhar para tudo isso aqui e dar risada. um dia vai querer morrer por ter feito o que fez. um dia você vai querer esquecer e vai tentar retomar a caminhada de onde parou. um dia você não vai se lembrar o que fez na noite anterior e não vai nem conseguir levantar da cama. um dia você vai achar que é amor, mas vai ser só tesão. um dia você vai ficar em silêncio e não saber qual vai ser o motivo do luto.
um dia nada vai ser o bastante e você vai criar vergonha na cara para buscar o tudo. um dia você vai apostar tudo e perder. um dia você não vai apostar absolutamente nada e vai se surpreender. um dia você vai escrever uma carta e não vai mandar. um dia você vai sofrer e vai achar que é alguma doença, porque dói, inacreditavelmente é uma dor que não tem nome. um dia você vai sorrir em meio ao nada e se sentir realizado perante tudo que conquistou.
um dia, dois dias, três dias, chamam vida, e é assim.

- Douglas Lenon
25 de janeiro de 2010

Dia 22 - Um site

então meus queridos, fazia tempo que não fazia o trinta dias, mas voltei, imagine se vou deixar isso aqui sem terminar. caramba um site o qual eu gosto muito, e o qual eu sempre entro e dou uma fuçada e sempre saio satisfeito é o Skoob, caramba nesse site tu pode montar uma própria estante com os livros que já leu, que está lendo e que pretende ler. é um mix de literatura - diria que usando a inclusão digital para algo útil. deem uma olhada e faça um perfil, caso já tenha um perfil me add seus lindos. adoro o carinho de vocês, e avante.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

pára de sonhar coloridices. tenho asco de tuas fitas coloridas, teus perfumes. foi assim que vocês todos morreram antes do tempo. foi assim que eu não morri. embora oco, estou no alto da torre, na Curva das Tormentas, as janelas abertas para que entrem todos os demônios. os anjos também.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
você vai se levantar, ainda que a praia inteira ria de você, ainda que a força tenha levado suas roupas e você esteja completamente desprotegido para a vida, nu, entregue, sem dignidade. ainda assim você vai se levantar e seguir em frente.

- Tati Bernardi

ele vai ser romântico e muito bruto. ele vai ser generoso e muito casca-grossa. ele vai dizer a verdade e vai mentir às vezes. ele vai fazê-la se sentir uma eleita entre todas e depois vai dar mole para muitas. ele vai implicar com as mínimas coisas, e com as grandes também. ele vai exibir qualidades que você nem sabia que um homem poderia ter, e em troca vai abusar de todos os defeitos que você sabia que todo homem tinha. ele vai ser ótimo na cama. vai ser um perigo dirigindo um carro. vai ser gentil com a sua mãe. vai ser um brucutu com a mãe dele. ele mudará de humor a cada vinte minutos, ele vai brigar por nada, vai beijá-la demoradamente por horas e, com essa bipolaridade bem ou mal disfarçada, ele a deixará tão tonta e exausta que você pensará que foi atropelada por um trem descarrilado. “quem sou eu?” será sua primeira pergunta ao acordar sobre os trilhos.

- Martha Medeiros in Um cara difícil pertencente a obra “Doidas e Santas”

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

a partir de hoje, só o que for muito, muito leve, bonito e fácil. a grande maioria desiste. eu, só estou abrindo mão. concordo contigo, também aconteceu comigo: o meu coração partiu. para outro lugar.

- Gabito Nunes in Outro lugar
se não posso corrigir os males do mundo, da minha reduzida condição pessoal, posso ao menos não colaborar para que ele se torne mais violento, mais mesquinho e mais cruel.

- Lya Luft in Testemunho pertencente a obra “Pensar é transgredir”

Não tem como simplesmente esquecer


pode ter sido um final de semana. um mês. um ano. pode ter durado três anos! TRÊS ANOS! existe determinadas situações que colocamos toda nossa intensidade e deixamos rolar, o mundo parece que vai se equilibrar se nós mantermos a calma e dançarmos conforme a música. eu deito na cama, e lembro como foram bons esses três anos, esse um ano, esses dias. e eu choro. choro porque foi lindo, sabe quando dizem por aí: é lindo de doer, então.. doeu e eu chorei.
pode ter começado tudo em um janeiro, ou em um abril, ou até mesmo em um setembro. não importa o mês o que importa é que marcou. eu não sentia medo naquela época, dar amor e receber amor era tão mais fácil e tão mais aceitável. no começo tudo é recíproco, se der sorte o durante também. mesmo com tudo que a gente passa, tudo que a gente chora, cada noite que passamos em claro por causa de alguém que nem se importava para nada. tudo isso valeu a pena. porque eu não vou mais aceitar isso, ninguém mais vai errar assim comigo depois, eu aprendi que um mais um nem sempre é dois.
por tudo que eu cheguei a aceitar, por essas noites em claro, esse tempo vago, por tudo isso, acredite se quiser, eu te perdoo. te perdoo porque daqui para frente vai doer mais em você do que em mim, é mais um menos ligado a um fenômeno da física o que acontece daqui para frente. eu precisei sofrer para te tirar de mim, agora tu precisa chorar para lamentar o que ficou em branco, as lacunas que preenchia e que você dizia que não era nada de tão importante. hoje o mundo gira e não precisa de você para isso. foram três anos, zilhões de dias, e hoje eu não te desejo nada, nem mau, nem bem, não te desejo nada, eu hoje quero cuidar de mim, do lado de mim que eu abandonei quando eu te conheci, o lado que eu havia perdido o interesse e que é bem mais interessante que você.

- Douglas Lenon
22 de janeiro de 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

penso ter vivido o que escrevi
e deixo de viver porque está escrito.
minha letra não torna meu
aquilo que anotei.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

sábado, 22 de janeiro de 2011

morrer é um chiste. obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. você deixou em casa suas camisas pendurada nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.

- Martha Medeiros in A morte é uma piada pertencente a obra “Doidas e Santas”
tem um lugar diferente, lá depois da saideira, tem bandeira que recolhe, tem bandeira que asteia... ♪

- Skank
Saideira

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


quis ir embora, viver minha própria vida, por mais mediana ou mesquinha que pudesse vir a ser, sem cor. como li em algum livro, talvez de péssimo gosto na sua verdade afetada e amarga, a solidão seria uma coroa de rosas, não de espinhos, sobre a minha cabeça. eu não esperava nada além de uma vida limpa como as águas do rio lá fora.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
e me faz sorrir no meu mistério.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”
para viver bem devo eventualmente pensar na morte, não como um susto mas estímulo para ser melhor, para morrer bem devo curtir minha vida de um jeito positivo, não me enxergando como a última nem a primeira das criaturas, mas vivendo de modo que para alguém ao menos eu tenha feito alguma diferença.

- Lya Luft in Testemunho pertencente a obra “Pensar é transgredir”

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ano novo, amor novo


percebeu que o significado do amor muda conforme a situação que você está vivendo. ultimamente o nome amor vem acompanhado com a função: medo de te perder. eu tenho tanta convicção de que você me ama que às vezes eu me perco nisso. eu nunca escrevi sobre você, e disse que não vou escrever, porque com todos os caras foi assim, eu escrevia sobre, e isso é errado, temos que escrever para. isso sim é certo.
eu conheci você não faz nem um mês direito, e já quero que todo mundo saiba da sua existência. mas tenho receio, eu não digo que te amo ainda, eu tô só te conhecendo e me fascinando a cada dia que passa. você tem medo de não ser o bastante e eu tenho medo de te perder, que irônico isso. eu ando namorando com um super herói e ainda nem me dei conta disso. se eu falar mais dele aqui muita gente vai sentir inveja. mas mesmo assim vou falar.
quando eu tô triste ele nem toca na palavra sexo, e quando estou feliz ele tenta me alegrar ainda mais. ele conta piada antes de dormir e brinca dizendo que tá com dor de cabeça só para eu abraçar ele no meio da noite e dormir agarradinho. ele é safado na medida certa, sabe até onde pode chegar, e que o amor não tem limite. ele diz que só gosta de fazer sexo às vezes, e que gosta mais de fazer o tradicional amor de sempre. ele sai com os amigos para me deixar respirar e diz sai com os teus amigos também, eu quero que você tenha uma história nova para me contar amanhã. ele canta Nando Reis as 3 da manhã de uma segunda-feira no meu ouvido, dizendo mais ou menos assim "por onde andei enquanto você me procurava", e eu olho para isso tudo e penso se tem como não se apaixonar. ele quer ter filhos, e netos o mais cedo possível. não tem medo de ficar velho porque sabe que vou amar ele sempre. ele vai para balada comigo porque balada não é só para pegar, é para dançar também. e ainda duvidam que eu ganhei na mega da virada.

- Douglas Lenon
17 de janeiro de 2011
a consciência não me fez prevenido.
o que fui em mim ainda será.
não me acendi,
mas podes deixar,
eu me apago sozinho.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. todo mundo só abusava dela. agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. já era, Zé.

- Tati Bernardi
você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. como assim? e os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?

- Martha Medeiros in A morte é uma piada pertencente a obra “Doidas e Santas”

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Hodgins: — se duas pessoas se amam, o resto do mundo desaparece para elas. eu sinto isso quando estou com você. estou disposto a colocá-la antes de mim pelo resto da vida. Angela Montenegro você quer se casar comigo?
(Angela sorri e beija Hodgins)
Angela: — homem querido, bom coração... não.
Hodgins: — por quê? não fiz direito de novo? como..? você não vai me dizer.
Angela: — eu não sei, Hodgins. se eu soubesse, eu lhe diria. mas, quando você me pedir, eu preciso sentir isso. precisa ser.. eu vou saber quando acontecer e espero que você não pare de tentar.
Hodgins: — não sei se choro, se dou risada, ou se arrebendo o sommelier.
Angela: — desculpa. espero que você escolha dar risada.
Hodgins: — eu não entendo.
Angela: — eu também não. vamos terminar a sobremesa, ir para sua casa e fazer amor, e talvez eu sinta isso.
Hodgins: — enquantos fazemos amor?
Angela: — eu disse "talvez".
Hodgins: — mas você me ama?
Angela: — mais do que você imagina.

- Bones
2ª temporada, episódio 19

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Hodgins: — ouça, Angela estive pensando. você é diferente de todas que conheci e não quero mudar isso. então quero ficar com você como você quer. sem amarras.
(Hodgins pede para Angela fechar os olhos e conduz ela até uma mesa, e mostra o que fez com algumas bactérias de peixes)

Angela: — sim... sim. vamos nos casar.
Hodgins: — não. isto não é uma proposta
Angela: — eu sei. por isso estou pedindo você. o que você disse aqui, que somos o suficiente, apenas isto, sem nenhuma outra pressão, é tudo que eu sempre quis. Hodgins diga alguma coisa.
Hodgins: — você é doida.
Angela: — isso é um sim?
Hodgins: — com certeza.
(os dois se beijam)
Hodgins: — que tal Itália? Itália na primavera, Úmbria.
Angela: — não, agora mesmo, semana que vem.
Hodgins: — não podemos nos casar em uma semana.
Angela: — temos de nos casar. uma semana. eu poderia mudar de ideia. você decide.
Hodgins: — certo, então faremos algo pequeno.
Angela: — não, quero algo grande. quero algo bem grande.
Hodgins: — completamente doida.

- Bones
2ª temporada, episódio 20
a que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenham enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. a que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”
resta saber o que fizemos com aquela relação, com nossa própria vida, auto-estima e dignidade, e como temos afinal lidado com esse homem que um dia foi o objeto máximo de nosso desejo e sonho.

- Lya Luft in Não somos santas pertencente a obra “Pensar é transgredir”

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Você não passa de um menino assustado


eu sempre acreditei que tudo que envolvesse um pouco do amor sairia mais caro. que uma pitada de sentimento faz de um grão de areia o deserto do Saara. de futuro namorado a psicólogo, acho que as coisas definitivamente não saíram exatamente como eu queria. tu é o cara mais forte para qualquer um que passe aqui, mas para mim tu não passa de um menino assustado. eu tinha a visão de que eu sou uma pessoa que necessita de cuidados, que eu nasci para ser cuidado e não para cuidar. então passa um tempo e bem-vindo ao erro. eu nasci para cuidar, e que eu sou mais forte, melhor, e mil vezes mais que você.
tens noção do que é carregar esse karma? cara eu só tenho 18 anos, eu tô entrando nesse mundo ainda, agora que eu comecei a entender que eu posso fazer um cartão, que eu posso comprar bebida alcoolica, que eu posso entrar na sessão pornô da video locadora, que eu posso tantos milhões de outras coisas. que agora eu sou obrigado a votar. eu sou definitivamente obrigado a me listar, mas eu não sou obrigado a cuidar de você.
finja que eu não sei quem você é, esconda todos os seus sentimentos, eu não sou a sua turma, não faço parte da tua galera, mas eu conheço seus passos, eu tenho noção de quem você é. tu disse que eu te vejo tão frágil, e eu te vejo exatamente como você é, frágil. para você reza a lenda que um lobo solitário sempre será um lobo solitário. cara eu acredito em tanta coisa. eu acredito em você, eu acredito em anjos, eu acredito no amor, mas eu não acredito que as pessoas tenham uma sentença decretada. você prefere fingir que eu não sei absolutamente de nada, mas tu sabe que não adianta tu fugir, todos os caminhos levam até mim.

- Douglas Lenon
15 de janeiro de 2011
e eu me recriminei e me vi meio pateta sentimental por tentar atribuir uma certa beleza ao instante, como já fazem todos os outros. eu sei, não é bem assim, o amor não é filme, mas espero não lembrar disso da próxima vez, quando vier.

- Gabito Nunes in Mixtape (clichê romântico)
sempre virá. a solidão não existe. nem o amor. nem o nojo. odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. a vida é agora, aprende. ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pêlos, provarão teus gostos. e outra mais, outra vez ainda. até esqueceres faces, nomes, cheiros. serão tantos. o pó se acumula todos os dias sobre as emoções.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

domingo, 16 de janeiro de 2011

então galera, hoje venho indicar um blog o qual recebi um e-mail, na verdade vários e-mails, amo receber e-mail. parei. haha. então, e vou indicar para vocês, deixarei um trechinho aqui para que vocês deem só uma degustada:

"meus sonhos desfiados ao corte da navalha, águas que me dão garra a vida, cortes secos que me dão doçura. ouço os berros do silêncio, deslizando aos ventos quentes, como gotas que nao pingam ao medo de cair. o que parece sofrer, apenas vive." Sarah Habash

Palavras azuis. deem uma passadinha por lá. vale a pena guris e gurias! um beijo para todos que seguem aqui, e para todos que sempre passam por aqui. Doug.

com o enquanto durar a vontade de esquecer tudo o que nós não somos, com a irresponsabilidade da paixão, do calor, da tranquilidade que dá o estado de êxtase quando se está apaixonado. não sou feita de razão, eu quero me perder no que encontrar: ser labirinto e ser placas de saída. segurança na incerteza. coragem no desejo e desejo de ser mais que mero desejo. sou o além, o limite entre o que há depois do céu que ninguém jamais conheceu ou viveu para contar. sou o desconhecido tão temido. aqui vai meu segredo: sou o passo que falta ser dado na sua vida.

- Tati Bernardi

sábado, 15 de janeiro de 2011

fomos todos criados para o “pra sempre”, como se o objetivo de todos os casais ainda fosse o de constituir família. quando é, convém pensar a longo prazo. só que hoje muitas pessoas se relacionam sem nenhum outro objetivo que não seja o de estar feliz naquele exato momento, mesmo sabendo que as diferenças de religião, idade, condição social ou ideologia poderão encurtar a história (poderão, não quer dizer que irão). há cada vez menos iludidos. poucos são aqueles que atravessam uma vida tendo um único amor, então, vale o que está sendo vivido, o momento presente. “dar certo” não está mais relacionado ao ponto de chegada, mas ao durante.

- Martha Medeiros in Terapia do Amor pertencente a obra “Doidas e Santas”
Taylor: — eu sou a garota errada para se pedir um conselho. quer saber por que eu realmente fiz a tatuagem do escorpião? quando o escorpião pega fogo, ele se pica até morrer.
Haley: — isso é um mito.
Taylor: — não na minha vida. quando as coisas ficam ruins, eu sempre encontro uma maneira de piorá-las.

- One tree hill
2ª temporada, episódio 12

Dissertação 72


por que depois de eu tentar tentado tanto, e você viver dizendo que era só amizade, por que dizer que me ama agora? para quê isso? você sabia que eu tinha superado, e eu nem sei se é verdade o quê você disse, você estava bêbado, e não consigo acreditar em uma palavra até agora. eu não vou errar duas vezes. agora quem quer só amizade sou eu.

- Douglas Lenon
15 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

há partes dentro da gente
que nunca serão educadas.
a morte é uma delas.

não sou o que aprendi.
sou o que falta aprender.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

adivinha quem completa um ano hoje? exatamente o blog.
"eu te toco também" completa hoje um aninho. e quero
agradecer a todos que aparecem, comentam, seguem, leem.
obrigado de coração. beijos, Doug.
não quero mais ser feliz. nem triste. nem nada. eu quis muito mandar na vida. agora, nem chego a ser mandada por ela. eu simplesmente me recuso a repassar a história, seja ela qual for, pela milésima vez. deixa a vida ser como é. desde que eu continue dormindo.

- Tati Bernardi
tomo o maior cuidado de não entendê-lo. sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. entender é a prova do erro. entendê-lo não é o modo de vê-lo.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011


tenho talvez a ingenuidade de acreditar que tudo faz algum sentido, e que nós precisamos descobrir – ou inventá-lo. qualquer pessoa pode construir a sua "filosofia de vida". qualquer pessoa pode acumular vida interior. sem nenhuma conotação religiosa, mas ética: o que valho, e os outros, o que valem para mim? o que estou fazendo com a minha vida, o que pretendo com ela?
essa capacidade de refletir, ou de simplesmente aquietar-se para sentir, faz de nós algo além de cabides de roupas ou de ideias alheias. sempre foi duro vencer o espírito de rebanho, mas esse conflito se tomou esquizofrênico: de um lado precisamos ser como todo mundo, é importante adequar-se, ter seu grupo, pertencer; de outro lado é necessário preservar uma identidade e até impor-se, às vezes transgredir, para sobreviver.

- Lya Luft in Pensar é viver pertencente a obra “Pensar é transgredir”
bem, como gosto disso de sofrer com pés na bunda, resolvi amar de novo, a contragosto, paladar típico de um desistente. cafés da manhã românticos, passeios de mão, festas em família, palpites de sogra, distribuição de beijos e mordidas em pezinhos pequenos. viajamos pelo mundo sem sair de casa. sabe quando o gostoso da transa se estende ao sono abraçadinhos? pois é. além de piegas, um prato cheio pra quem quer, mais uma vez, sair com a impressão de que o amor é o diabo com a garganta cortada ou um cão sarnento e raivoso.

- Gabito Nunes in Você não se quebrou
dissipar a névoa, sim, talvez fosse esse o meu sentido.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Desaniversário


Lebre: Aniversário? Há, há! Não é chá de aniversário.
Chapeleiro: Claro que não! É chá de desaniversário.
Alice: Desaniversário? Não entendo.
Lebre: Só há um dia no ano em que você comemora seu aniversário.
Chapeleiro: Portanto, os outros 364 dias são desaniversários.
Alice: Então, hoje é meu desaniversário!

tomei meu remédio com chá pela tarde, e ao anotar nos papéis do balcão, e constatar que é dia doze, e faço dezoito anos, lembro da alegre canção do filme em desenho de Alice no País das Maravilhas. e fico meio como a personagem principal mesmo, absorta de tantas dúvidas, algumas possibilidades, e as inúmeras tentativas que já foram e não voltam pelo caminho, sendo recolhidas como as migalhas em João e Maria. eu sempre sofro, eu carrego essa maldição de qualquer toque amoroso mais profundo, ou com grandes chances de dar certo, e a morte letárgica, a flor que vai murchando e definhando aos olhos nus e sem perspectiva de melhor. é como simplesmente a minha fé enorme sufocasse os acontecimentos, assustasse tudo de bom que podia vir a se tornar, qualquer que fosse minha relação, algum dia. por mais que, hoje seja meu dia, é como se eu preferisse que certos acontecimentos nem entrassem na pauta. porque o sofrimento não é agora, mas mais tarde. e em dobro.
me conhecendo pelas minhas frequentes e profundas análises, quase coloco uma placa no peito, de be careful, não se aproxime, mantenha distância, e cuidado, não estacione. não guarde vaga, porque aqui as coisas apodrecem, e nada continua manter vivo por muito tempo. não entrem muito em contato, porque a minha simples falta de sorte, quase contagia. se querem otimismo e necessitam de melancolia e solidão, fiquem perto, mas não muito, que meus simples abraços, minhas ligações no meio da tarde, ou as palavras carinhosas carregam em si alguma urucubaca, algum estigma de fuga, de bruxaria e um reino de sortilégios.
lidei já com tantas perdas, e nenhuma estabilidade, o que vem me cansando há tempos e não é mistério para mais ninguém, quando mais, aqui no blog. é só que, me entopem até a boca de esperanças, de gente boa, e alma completa, e agora do nada uma possível saída de emergência aberta, um buraco onde aparentemente tudo era lindo e intacto. quando eu nem mesmo conhecia tais possibilidades.. dói, e cansa.
e um medo de se apegar, de querer mais ainda a presença do outro, a permanência do outro, sendo que tudo é dúvida, que o que resta é curtir apenas o momento presente, grudando como chiclete velho e sem gosto, que promete impregnar nas vísceras - escolho então para colar no pensamento, na atitude.. nas pequeninas coisas que nos aproximaram, tem nos ligado, e continuam me fazendo encantada, cantando no chuveiro e saltitando pelo centro da cidade. não sei se depois de ontem, e nem como acordei hoje. mas durmi adentrando meu dia com o pensamento para que hoje fique, fique, fique. para que não seja mais um balão a se desprender do meu punhado de felicidade, e que não voe tão cedo para longe, para o irrecuperável.
porque o caminho deveria ser o oposto, e surpresa ruim antes do Birthday, deveria ser proibido. com lei federal, e tudo. vou dormir, e espero que consiga. sabendo, mesmo assim, que a insônia vem me pegar, e não adianta nanar, neném.. tanto barulho por nada, por nada no futuro? Kid Abelha fala mais que todas essas palavras aqui. finito!

- Camila Paier [adaptado]

Comentário: então quero dizer porque escolhi exatamente essa crônica da minha amiga Camila – Calmila –, quando li ela, exatamente no dia que ela postou, achei que um dia faria todo o sentido, e que esse lance de desaniversário realmente é algo que devemos comemorar sempre. hoje eu completo 18 anos de idade. caramba, quem diria que estaria de maior hein. então parabéns para mim poxa, todo mundo tem seu dia afinal, e eu quero me sentir feliz no meu.
cá entre nós, numa época em que ninguém quer ser de ninguém, um homem que quer ser de alguém é um tema revolucionário.

- Martha Medeiros in Laços pertencente a obra “Doidas e Santas”
exerces duas vidas ao mesmo tempo.
uma aqui, e outra, em que não entro.
serão também duas mortes?
quem vai lamentar a segunda?

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

queria saber onde é que está aquele tipo de namorado que você não veste para se exibir mas despe para provar só pra si mesmo o quanto é feliz. que você não desfila ao lado, mas leva dentro do peito.

- Tati Bernardi

nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. a um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. e então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. amor é quando é concedido participar um pouco mais. poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. e poucos suportam perder todas as outras ilusões. há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. é o contrário: amor é finalmente a pobreza. amor é não ter. inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. e não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

- Clarice Lispector in O ovo e a galinha pertencente a obra “A Legião Estrangeira”
o bom seria que continuássemos amantes, sendo também amigos. pois amor é amizade com sensualidade: se não gosto do outro com seus defeitos e qualidades, manias e até pequenas loucuras, como foi que o escolhi para viver comigo numa casa, na mesma mesa, cama e talvez todo o tempo de minha existência? e se isso se desgastou, por que não permito, a ele e a mim, mudarmos o nosso contrato de amantes para amigos e cúmplices ainda?

- Lya Luft in Não somos santas pertencente a obra “Pensar é transgredir”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

difícil conciliar a manhã de fora com a treva de dentro.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

Será mesmo que existe alguém assim?


ainda não me acostumei com a ideia de que alguém pode me amar, tá complicado entender tudo isso. que alguém possa gostar de mim, assim, exatamente como eu sou, sem tirar e nem por absolutamente nada. que alguém pode me fazer rir até não aguentar mais. que alguém possa se apaixonar por mim a ponto de me querer para sempre. que alguém possa querer me fazer mais feliz assim, de um modo doce.
quero um amor puro, sem cobranças, e vários pretendentes surgem. eu sinto medo de tentar de novo, e sofrer tudo de novo. só Deus sabe quantas noites eu chorei por alguém que nunca mereceu se quer uma lágrima minha. ninguém acompanhou isso dia-a-dia, ninguém sentiu isso, ninguém estava aqui dentro gritando, implorando para ser feliz, só isso, ser feliz.
Deus, lembra da paz que eu pedi esse ano? eu tô meio que precisando dela agora. quero um amor sem a ignorância do amor. e eu sei que você pode me dar tudo isso e tudo o que eu pedir, mas eu tenho medo. eu tive que me privar de sentir tudo que eu podia sentir, e me entregar para o mundo, para não precisar sentir medo. é justo você aparecer agora e querer me tirar desse lugar que eu fiz questão de entrar para me levar de volta para o lugar que eu fugi para não ser aquilo que eu pensava ser o melhor para mim? eu não quero um carro, eu não quero flores, eu nem se quer quero que você me apresente para os seus pais. e você quer, quer que eu me entregue, quer me amar, quer cuidar de mim, não quer me fazer sofrer. acreditar em você tem sido a maior batalha dos últimos tempos para mim. porque eu conhecia o ex-crápula — porque aquilo nunca poderia ser chamado de namorado — à um ano e ele me fez comer o pão que o diabo pisou, amaçou e sentou em cima. agora vem você que me conhece a menos de um mês e quer me fazer feliz? eu tenho que acreditar mais em mim, para poder confiar em você.

- Douglas Lenon
09 de janeiro de 2011
quero uma primeira vez outra vez. um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estreia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim do meus dias.

- Martha Medeiros in O que mais você quer? pertencente a obre “Doidas e Santas”

domingo, 9 de janeiro de 2011

não me inquieto
quando não recebo as respostas
das perguntas que não fiz.
eu me conformei
em reservar alguma coisa
de ti para saber depois.
um pouco de nosso amor
será póstumo.
é recomendável
não descobrir todos os segredos.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas
"às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. foste tu que tiveste uma pessoa."

- Clarice Lispector in O crime do professor de matemática pertencente a obra “Laços de Família”

se dessa vez for amor, eu juro, não vou deixar o melhor pro fim. então, ficaí. sentado, com os braços cruzados, sem falar nada muito diferente ou contar sobre algum plano futuro. só ficaí. pode ser com aquela cara de brabo que inexplicavelmente me deixa com um puta tesão desgraçado.

- Gabito Nunes in Ficaí

sábado, 8 de janeiro de 2011

talvez o concerto da nossa vida exija uma mistura ou encadeamento de tudo isso, em cada fase. apesar dos descompassos, vai-se instaurar a harmonia possível, e sempre é mais possível do que, na nossa torta visão da passagem do tempo, nós nos permitimos.

- Lya Luft in Velhice, por que não? pertencente a obra “Pensar é transgredir”
vou ver novela. tá decidido. uma preguiça em arrumar homem. novela pelo menos avisa “é a última semana!”. homem some no auge da primeira.

- Tati Bernardi

Dissertação 71


alguém me avisa quando chegar no fim, quando estiver terminando? porque eu sempre sou o último a saber. os laços se rompem, as pessoas somem, e eu fico sabendo dias depois. o meu amor pegou as malas e foi, simplesmente foi. o final é uma coisa traiçoeira, chega, leva, e você nem sabe onde ficar e muito menos como foi parar ali. fim de amor não existe, é fim de desejo.

- Douglas Lenon
08 de janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

me explica, que às vezes tenho medo. deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. oprimi-la é trabalho para uma vida. mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas.

- Martha Medeiros in Falar pertencente a obra “Doidas e Santas”
eu quero parar o tempo, você procura seu relógio embaixo da cama. quando me escondo, é quando você me quer em cima de você. se apresso meu passo na sua direção, você engata a marcha ré. quando reúno meus pedaços, você dá o coração para bater.

- Gabito Nunes in O amor mais bonito

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


não basta entrelaçar as mãos,
andamos de pés dados de noite.


- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas
mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado.

- Clarice Lispector in O crime do professor de matemática pertencente a obra “Laços de Família”
— eu os crio para mim mesma, para meu prazer.

- Lya Luft in Velhice, por que não? pertencente a obra “Pensar é transgredir”

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Daquela janela que eu te olhava


hoje cedo indo caminhar na praça, um amigo do meu ex-namorado me trouxe um papel, eu tava correndo, dando minhas voltas como de costume, tanto na praça, como na vida. de repente, ele me parou e me entregou um papel e disse "guarda o papel, não lê aqui não, ninguém vai querer te ver chorar às 10 horas da manhã de uma terça-feira, vai para casa." eu me assustei com cada palavra que ele disse, nunca conversamos, davamos bom dia ou boa tarde, e ele vem me traz um papel dizendo essas palavras o que faz a gente pensar, enfim, fui correndo para casa.
cheguei em casa as pressas, correndo, atropelando todo mundo, me tranquei no meu quarto, sentei na minha cama, totalmente pensativo, e comecei a ler o papel. tava escrito com um letra que eu reconhecia de olhos fechados, olhei para o início do papel, o nome do meu ex-namorado, o que estava escrito era mais ou menos assim:

hoje, dia 17 de agosto de 2010, eu consegui perder a pessoa que mais me amou em toda minha vida, a pessoa que mais cuidou, mais se preocupou, mais pensou em mim do que eu mesmo. não quero que você me entenda, e eu não quero pedir perdão de novo, não tem perdão para o que eu te fiz passar. hoje eu estou sumindo da sua vida para o teu bem, para você seguir e encontrar alguém que tenha crescido, porque tu me conhece, sabe que eu sou um cara infantil, que eu erro tentando acertar às vezes. mas quero que deixe guardado em algum lugar, as manhãs que eu ficava te olhando dormir da janela, como a coisa mais bonita do mundo se resumia a nada quando eu via você dormindo. o teu jeito de ficar na ponta dos pés para me beijar, eu decorava cada movimento seu, mas sempre tive medo de me entregar. eu nunca fui o suficiente para você. com todo meu carinho. amor.

terminei de ler aos prantos, quem diria que ele foi um homem um dia, mas não foi homem de me entregar a carta. cansei desses homens pela metade, porque o melhor amor do mundo, esse que a gente tem por nós, esse que a gente não esquece, nao precisa de amores à prazo, ele precisa de nós, me ocupei tanto nesses últimos quatro meses comigo, que se fosse naquele mês de agosto essas palavras iriam mexer comigo. mas é janeiro, e eu pedi paz para esse ano, lembra? não, tu não lembra, comecei o ano sem você.

- Douglas Lenon
03 de janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dia 21 - Uma receita

não vou mentir para vocês, mas eu não sei cozinhar absolutamente nada. uma das minhas metas desse ano é aprender a cozinhar, PELO MENOS UM ARROZ, sou quase uma Luciana Gimenez da cozinha de cada dia. tá eu sei fazer o melhor miojo do Paraná, porém odeio miojo, e agora Brasil? agora quem inventou a mistura "queijo, pão e presunto" tinha que ganhar um beijo na boca, uma pegada, um tudo, porque ô misturazinha mais linda essa hein.
como meu blog fala muito de amor, de encontro, de desencontro, de perda, de carinho, tenho uma receita incrível para vocês. uma receita que fala de mim, de nós. é um trecho do livro "Cartas extraviadas e outros poemas" de Martha Medeiros.

eu,
modo de usar:

pode invadir ou chegar com delicadeza
mas não tão devagar que me faça dormir
não grite comigo que tenho o péssimo hábito de revidar
acordo pela manhã com ótimo humor
mas permita que eu escove os dentes primeiro
toque muito em mim, principalmente nos cabelos
e minta sobre minha nocauteante beleza
tenho vida própria, me faça sentir saudades
conte umas coisas que me façam rir
mas não conte piada
nem seja preconceituoso, não perca tempo
cultivando esse tipo de herança dos seus pais
viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim
para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude
eu saio em conta, você não gastará muito comigo
acredite nas verdades que digo e nas mentiras
elas serão raras e sempre por uma boa causa
respeite meu choro, me deixe sozinha
só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre
que eu também gosto de ser contrariada
(então fique comigo quando eu chorar, combinado)
seja mais forte que eu e menos altruísta
não se vista tão bem, gosto de camisas pra fora da calça
gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço
reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto
boca, cabelo, os pêlos no peito e um joelho esfolado
você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade
leia, escolha seus próprios livros, releia-os
odeie a vida doméstica e os agitos noturnos
seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate
que isso é coisa de gente triste
não seja escravo da televisão, nem xiita contra
nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai
invente um papel pra você que ainda não tenha sido preenchido
e o inverta às vezes, me enlouqueça uma vez por mês
mas me faça uma louca boa, uma louca que ache graça
e tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca
goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal
não invente de querer muitos filhos, me carregar pra missa
apresentar sua família, isso a gente vê depois, se calhar
deixa eu dirigir seu carro, aquele carro que você adora
quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres
tenha amigos e digam muitas bobagens juntos
não me conte seus segredos, me faça massagem nas costas
não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções, me rapte
se nada disso funcionar
experimente me amar
é triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa. é triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida. é triste amar tanto e tanto amor não ter proveito. tanto amor querendo fazer alguém feliz.

- Tati Bernardi
sem sentir, você calcula mal alguma coisa no passo e, em vez do voo, vem a queda.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós – e este “a nós” inspira um providencial duplo sentido. mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou. somos sádicos e avaros ao economizar nossos “eu te perdoo”, “eu te compreendo”, “eu te aceito como és” e o nosso mais profundo “eu te amo” – não o “eu te amo” dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o “eu te amo” que significa: “seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo”.

- Martha Medeiros in Falar pertencente a obra “Doidas e Santas”
era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. não me pedindo nada, me pedias demais. de ti mesmo, exigias que fosses um cão. de mim, exigias que eu fosse um homem. e eu, eu disfarçava como podia.

- Clarice Lispector in O crime do professor de matemática pertencente a obra “Laços de Família”

domingo, 2 de janeiro de 2011

não te compreender
não me fez te amar menos.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

Mentira que é 2011


se eu disser que até ontem montava carros, e aeronaves com o Lego, acho que ninguém acreditaria. cara que ano foi esse? minha vida deu um giro de 360 graus que nem eu botei fé. ao contrário do que muitos falaram sobre 2010, eu até que gostei, foi um dos melhores anos que já presenciei, e olha que presenciei poucos, aprendi muito, ensinei muito. o verbo sentir foi o ator principal do ano que passou.
tenho em mente que esse 2011 ainda vai me surpreender muito, Deus logo te peço se for para dar um amor, que seja educado, que se importe e que pelo amor de Deus ligue no dia seguinte. odeio ter que ligar perguntando como passou a noite – mesmo que a noite passada tenha sido comigo – e ainda por cima perguntar se dormiu bem, veja se pode. algo que nunca sai de moda e está presente pelo menos na minha vida todos os anos, são meus amigos. que eu continue cultivando esses lindos que tenho.
agora falando de coisa séria, eu espero um governo, não quero discutir política com ninguém, até porque entendo pouco, e a gente tem que confiar em quem tá lá, não digo confiar cegamente, mas é o meu país entende, é o meu estado, e que independente de quem ele for representado, acima de tudo eu quero que ele seja RE-PRE-SEN-TA-DO. isso aqui é um país, não é folia, eu quero paz para esse meu 2011.
que todos os anos que vierem daqui para frente sejam doces, para todos nós. que todo mundo cultive cada vez mais esse eu e que a gente saiba o que fazer com o que a vida nos deu. que a vida continue, e que a gente nunca pare de aprender.

- Douglas Lenon
02 de janeiro de 2011
sei viver sem você, oficialmente falando. mas eu não quero, não vou. eu poderia te dizer aquelas doces mentiras sinceras - "você-é-minha-vida", "não-sei-o-que-seria-da-minha-vida-sem-você" ou todo esse tipo de porcaria que a gente diz no calor da hora. as pessoas são assim, dizem que não sabem viver sem você. depois aprendem e esquecem de comemorar contigo. e deixam vazio o lugar que sempre será delas. eu não, simplesmente estou aqui. de vez em quando sujo, entediado, agressivo, mal-humorado, triste, calado e chato. mas aqui.

- Gabito Nunes in Guarda-chuva

sábado, 1 de janeiro de 2011

portanto a velhice pode ser agregadora e bem-humorada, interessante porque interessada. a passagem do tempo não precisa deteriorar, mas pode expandir e refinar.

- Lya Luft in Velhice, por que não? pertencente a obra “Pensar é transgredir”
aí teve aquela cena também. de quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. e você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? e eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. e você depois perguntou: não tem nada meu aí? e eu quis gritar: tem, tem eu. eu sempre fui sua. eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer.

- Tati Bernardi

quis dizer a ele que voltariam as manhãs, ainda mais claras agora que estávamos juntos, voltariam sim as claridades, o calor das tardes sobre a terra coberta de verde e também os crepúsculos de nuvens roxas e rosadas colorindo o cume dos montes, e mais tarde as noites embaladas por flautas, cetins, brisas com cheiro de mato varando as frestas das vidraças, se não para sempre, acho que disse, por muito tempo, por tanto tempo, tão longo, tão fundo, que será como para sempre, ele, como se finalmente disparasse minha seta incendiada em direção às estrelas, trazendo-te junto comigo, porque brilharemos ambos de fogo, mais que o teu sol, a caminho dos meus inúmeros satélites girando no infinito.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas