quinta-feira, 31 de março de 2011

Eu, você e Alanis Morrisette

maldito seja o seu gosto musical, tão parecido com o meu. eu não consigo mais ouvir Alanis cara, não consigo mais, me dói tanto por dentro, parece que vou explodir, porque me lembra você, me lembra de como a gente era tão incrivelmente bobos e lindos, e perfeitos, me lembra quando você se escondia atrás da porta e me pedia pra deixar recado. como pode algo que era tão lindo, me fazer chorar feito criança agora quando eu lembro.
eu choro e digo pra mim que não é você, é a Alanis, ela que toca sem querer no rádio, e que sem querer me faz lembrar de nós, que chamamos de caso-resolvido-mal-resolvido. vão fazer exatas três semanas que eu não te ligo mais, e você dizia que logo ia passar, esse logo tá demorando, parece que vai chegar, mas para na porta da minha casa e vai embora, ele chega todos os dias e me faz perceber que eu mereço sim amar de novo, mas aí eu olho em volta e tem você andando por aí ainda, tem como desistir? tem como morrer pra você, tem como matar você aqui dentro? tem como chorar por dentro, porque o que tinha pra sair, já saiu.
eu amo você. e acho que é a única coisa que eu tenho pra oferecer, não sou suficiente, disso eu já sabia, mas, eu queria sim, que você chegasse hoje, me ligasse e dissesse como foi no trabalho, e morresse de amores por mim se eu espirrasse por pensar que peguei uma gripe e ter vontade de cuidar de mim, e colocar Alanis pra tocar, e dizer que é pra nós, que ela fez essa canção pra gente, dizendo que ela contou pra ele, e dizendo no telefone "amor, ela contou pra mim, fez essa música pra nós." e eu rindo igual bobo, te querendo tão lindo, e te amando tão intensamente.

- Douglas Lenon
29 de março de 2011
eis por que serei uma boa pessoa. porque eu escuto. não posso falar, por isso escuto muito bem. nunca interrompo, nunca mudo o rumo da conversa com um comentário pessoal. as pessoas, se você prestar atenção nelas, mudam o rumo da conversa constantemente. é como ter um passageiro dentro do carro que de repente pega o volante e entra em um atalho.

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

quarta-feira, 30 de março de 2011

meu cigarro é o lápis com que rabisco trechos do livro
eu o fumo

meu espelho é o reflexo do cálice que carrego nas mãos
eu me vejo

meu almoço é a unha que cresce no meu dedo indicador
eu a devoro

meu banho é o pranto que libero enquanto durmo
eu me encharco

meu terço é o fio do telefone em que me enrosco
eu o rezo

meu albergue é o coração de onde saem meus versos
eu me acolho

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas
a aflição não é boa conselheira. (afobado, aliás, a gente vive - e ama - bem mal.)

- Lya Luft in Teorias da alma pertencente a obra “Pensar é transgredir”

terça-feira, 29 de março de 2011

É para lá que eu vou


para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
à ponta do lápis o traço.
onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
na ponta dos pés o salto.
parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
ou não vou? vou, sim. e volto para ver como estão as coisas. se continuam mágicas. realidade? eu vos espero. e para lá que eu vou.
na ponta da palavra está a palavra. quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. à beira da tertúlia está a família. à beira da família estou eu. à beira de eu estou mim. é para mim que eu vou. e de mim saio para ver. ver o quê? ver o que existe. depois de morta é para a realidade que vou. por enquanto é sonho. sonho fatídico. mas depois - depois tudo é real. e a alma livre procura um canto para se acomodar. mim é um eu que anuncio.
não sei sobre o que estou falando. estou falando de nada. eu sou nada. depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
é para o meu pobre nome que vou.
e de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. eles me responderão. enfim terei uma resposta. que resposta? a do amor. amor: eu vos amo tanto. eu amo o amor. o amor é vermelho. o ciúme é verde. meus olhos são verdes. mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
à extremidade de mim estou eu. eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. mas a que canta. a que diz palavras. palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
eu à beira do vento. o morro dos ventos uivantes me chama. vou, bruxa que sou. e me transmuto.
oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? eu estou à beira de meu corpo. e feneço lentamente.
que estou eu a dizer? estou dizendo amor. e à beira do amor estamos nós.

- Clarice Lispector in Onde estivestes de noite
não tínhamos bola para o futebol.
roubava o carpim da gaveta do pai.
amarrávamos papéis, panos e trapos.
sempre brinquei com a lembrança
da coisa mais do que a coisa em si.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

segunda-feira, 28 de março de 2011

— pois olhe – declarou de repente uma velha fechando o jornal com decisão – pois olhe, eu só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz.

- Clarice Lispector in A Menor Mulher do Mundo pertencente a obra “Laços de Família”

Dissertação 83


mas juro que não acredito mais no amor, não no amor em si, mas no que eu chamava de amor, não acredito mais.

- Douglas Lenon
26 de março de 2011

domingo, 27 de março de 2011

Dia 25 - Seu dia, em detalhes

meu dia em detalhes, caramba é meio complicado porque vou contar pra vocês minha rotina de sempre, por exemplo domingo, no caso é para contar o dia de hoje, eu passo praticamente o dia todo em casa, vendo minhas séries, lendo algum livro, isso quando eu não acordo umas 17:00 porque chegue da balada umas 08:00, também sou humano gente, gosto de sair, e aproveitar meus dias o máximo que posso. então às vezes algumas amigas minhas vem aqui em casa me visitar mais isso está se tornando cada vez mais extinto. domingo sempre é um problema, porque eu amo acordar tarde, acordar meio dia, e ficar o dia inteiro sem fazer nada, e então chega a segunda-feira, e acaba com tudo que eu havia começado no domingo, é muito triste haha. não pensem que eu abandonei o 30 dias, ainda faltam 5, e eu vou terminar! em pensar que eu comecei o 30 dias no dia 6 de abril de 2010, e já faz quase um ano!

sábado, 26 de março de 2011

sou tão sofrida e experiente e estranha e terrivelmente charmosa. percebe? você aí, com essa alegria terrível de viver e jorrando beleza e graça pra cima de mim. e eu aqui, arqueada pelo tanto que carrego de mundo e suas rasteiras. você acha que é quem pra me abalar assim? eu li muitos mais livros que você. conheço mais países e pessoas e gemidos e vontades de morrer. e você com tanta graça pra cima de mim. percebe que não vai ser fácil? vou dificultar bastante pra você. até porque é só o que eu posso contra essa coisa fácil e linda que é a sua vontade. contra você eu só tenho a minha impossibilidade.

- Tati Bernardi
custei a reconhecê-lo, há muito tempo não o vejo, e é mais difícil talvez identificar um cheiro ou um gosto de algo distante do que uma imagem. não havia imagem. era como o vento. ardia na pele, feito tivesse sal. tinha sal, esse vento que não era vento.
era um cheiro de mar, reconheci por fim.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 25 de março de 2011



só alguém como você é capaz de causar raiva ou rancor. muitas pessoas pousam, muitos amores possíves não vingam, muitas paixões não dão certo. choro, me culpo, me arrependo, permito, desisto, persigo, corro, dou as costas, piso, sinto saudade, me precipito, telefono, me atraso. sim, no mundo existem mil pessoas capazes de nos despertar amor, se a gente parar pra sentir.

mas raiva e rancor? (risos) raiva e rancor só merece quem se foi sem uma explicação convincente e nunca mais sequer procurou, deixando lacunas que nenhum outro adeus até hoje teve audácia de apagar. pra você - e não menos que alguém como você - guardei e dedico toda minha raiva e rancor. e o meu amor também.


- Gabito Nunes in Só alguém como você
preciso admitir que a ambivalência nos salva de morrermos na poeira da mesmice. também admito que seria mais fácil ser sempre o mesmo, seria mais doce levantar cada manhã sem conflito e morrer enfim sem ter jamais duvidado.
mas não é tão simples. desculpem, mas não somos isso.

- Lya Luft in Legado pertencente a obra “Pensar é transgredir”

quinta-feira, 24 de março de 2011

eu não consigo ficar deitada em silêncio. eu não consigo ficar sozinha com isto. preciso gritar e dar socos, porque parece que a dor se afasta quando grito. quando fico em silêncio, ela me encontra, ela me identifica e penetra em mim, e diz: “agora eu te peguei! agora você me pertence!”.

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

Dissertação 82


ter alguém como você por perto dá um trabalho. porque simplesmente existir não basta. é necessário superexistir, e superexistir me consome, me agridi e me intriga. te querer me faz ter amor, e ter amor, me faz existir.

- Douglas Lenon
24 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

no final das contas, fiquei com a impressão de que liberdade é um conceito relativo: quem escolhe ser "mulher de um homem só" não é menos livre do que a mulher que intenciona ter o máximo de relações possível. todas as teorias são claustrofóbicas, pois a tendência é sermos engolidos por elas e nos vermos obrigados a seguir um rumo que talvez não seja condizente com nossa verdadeira inclinação emocional. seguir nosso desejo é o que nos torna livres, e o desejo é variável, mutante, inclassificável - não pode ser considerado moderno ou antigo, é o que é.

- Martha Medeiros in Prisioneiros do amor livre pertencente a obra “Doidas e Santas”
é tanto, é tanto, se ao menos você soubesse, te quero tanto. ♪

- Skank
Tanto

terça-feira, 22 de março de 2011

sendo só sexo e nada mais, por que ofegar verdades ocultas no meu ouvido? por que sempre em posições que pudessem friccionar o máximo de superfície dérmica no corpo um do outro? por que de olhos bem fechados? os olhos que se fecham durante o coito, se desapegam do prazer carnal e do vislumbro estético. a escuridão nos olhos é o espaço infinito que concedemos para que nossos ideais românticos coexistam sem proibição. olhos fechados no meio do sexo é o amor subentendido.

- Gabito Nunes in Entre aspas

o que sobra é vício. o que falta é virtude. (…)

eu me importo com as pessoas
que vivem sem explicação.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

segunda-feira, 21 de março de 2011

parece que eu não sou eu, de tanto eu que sou.

- Clarice Lispector in O Relatório da Coisa pertencente a obra “Onde estivestes de noite”
engasgada de você ir embora, engasgada de você voltar. engasgada de você sempre sorrir.
você não passou pelos meus buracos e eu não consegui te entender no quentinho seguro do meu ventre. você travou todas as minhas entradas, você me incha por dentro e eu nem sei se vale a pena explodir porque você é surdo e cego.
de que vale eu deixar de existir se você não me percebe?

- Tati Bernardi in Uma história interrompida

domingo, 20 de março de 2011

Como você pode não gostar de mim?


ando sendo carinhoso e cuidando tanto de um certo alguém mas sabe quando você sente que não é recíproco, que é sincero, mas que não é uma ponte entre dois lados iguais. tenho certeza que vou encontrar outro alguém que complete melhor esse meu lado politicamente incorreto de querer beijar a nuca do outro enquanto ele estiver dormindo numa noite fria de julho, vai que ele gosta e acaba se apaixonando por mim, não é mesmo?
eu não sei contar muito bem, mas em matéria de amar sempre fui um bom aluno, um pouco injustiçado confesso, mas sempre um bom aluno. queria muito saber por onde andam aquelas carícias que você prometeu me dar no dia de ontem, mas que ficaram no anteontem quando você prometeu. tenho amor demais e paciência de menos, pra não discutir inutilmente sobre o que você está careca de saber eu prefiro dormir.
quero um amor novo, de novo. quantas vezes se pode repetir essa mesma frase? queria me acostumar a viver sempre na incerteza, mas a vida nos torna muito teimosos e sempre esperamos que algo aconteça. você não sabe mais já acordei gritando seu nome vez em quando por aí.
sou romântico, um pouco safado demais, carinhoso, penso demais no bem do outro e acabo esquecendo do meu próprio bem, vivo em uma incerteza que juro que não pode existir do tanto que é incerto, fecho meus olhos e choro às vezes por nada, simplesmente por nada. vez em quando vou começar a pensar em mim, prometo.

- Douglas Lenon
19 de março de 2011
foi principalmente para não gritar — acabo sempre fazendo coisas para não gritar, como contar esta história.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sábado, 19 de março de 2011

pode depois de tudo isso dar aquela vontade de fumar todos os cigarros nunca fumados, tomar todos os pilequinhos não tomados, sumir do mundo, passar um mês naquele flat na praia só olhando o mar e pensando bobagem...

- Lya Luft in Pode tudo pertencente a obra “Pensar é transgredir”
em vez de cinza, vejo verde. em vez de vermelho, vejo preto. por acaso isso me torna potencialmente ruim? se você me ensinasse a ler e me desse o mesmo computador que deram ao Stephen Hawking, eu também escreveria livros incríveis. e mesmo assim você não me ensina a ler, e não me dá um teclado especial de computador no qual eu possa mexer com meu nariz para mostrar a próxima carta que quero escrever. por isso, de quem é a culpa por eu ser o que sou?

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

sexta-feira, 18 de março de 2011


por mais que eu aplauda o que convencionamos chamar de “maturidade”, no fundo acredito que somos, todos nós, crianças que cresceram mais em estatura do que emocionalmente, crianças que foram empurradas para o meio do palco e que precisam ter suas falas na ponta da língua, conforme foram ensaiadas desde a primeira infância. somos homens e mulheres na segunda, terceira, quarta, quinta infância, nos apegando aos nossos parcos conhecimentos e às nossas inúteis experiências para tentar não errar demais. somos crianças que choram escondidas no banheiro, que tomam atitudes insensatas, que dizem o que não deveriam ter dito e que, nos momentos de desespero, gostariam de chamar um 'adulto' para resolver a encrenca em nosso lugar.

- Martha Medeiros in Pequenas crianças pertencente a obra “Doidas e Santas”

quinta-feira, 17 de março de 2011

mas se consegue passar pelas primeiras semanas e meses, se você acredita que a cura é possível, você pode retomar a sua vida. mas é um grande "se".

- Grey's Anatomy
7ª temporada, episódio 10
sinto muito se eu era tão feliz e não me dei conta. se nas poucas vezes que eu sorria, sabia que a intenção era apenas ferir. mas agora já não sei o que fazer com isso, só sei da minha vontade de fazer um brinde ao nosso reencontro e te beber inteiro sem receio de me afogar outra vez. mas você fica inerte, deixando bem claro que estou abaixo de uma ferida de cotovelo, talvez tentando proteger aquela parte do corpo que já tanto doeu.

- Gabito Nunes in Ninguém muda

quarta-feira, 16 de março de 2011

Welcome to my li(f)e


tudo é uma farsa. sei que boa parte de vocês vão discordar de mim, porém é a realidade. sabe quando você cansa de gente que diz que ama e na semana seguinte de repente o amor acaba, cansa de pessoas que vivem por viver e dizem ser eternamente tristes, cansa da hipocrisia do mundo e da ignorância de muitos.
tenho problemas em estar, em sentir, em poder. será que lá na frente alguém mostra a direção pra gente? porque caminhar, e só caminhar é o que eu ando conseguindo fazer. é uma depressão diferente, vontade de morrer nem passa pela minha cabeça, mas dá uma vontade de sentar e esperar essa fase da vida passar, mas aí eu paro e penso, esperar não é também um tipo de morte?
ando tão sem inspiração, sem vontade, sem vida, esperando alguém dizer que isso passa, que é tristeza passageira. não tá dando mais não, parece que quando vai, quando você olha pra cima, e pensa "meu Deus agora vai, mais que tudo, agora vai, de verdade", aí desanda, parece que o mundo conspira contra, e que o pensamento negativo é tão forte que faz tudo retroceder.
caramba como esse texto tá carregado de tristeza, de culpa, de dor. odeio ter que dizer que é isso, que é assim que minha vida anda se resumindo. mas de tudo, de tudo que vem me acontecendo, medo é o que eu não tenho. medo é a última coisa que eu tenho. eu sou um tremendo tristonho corajoso, um culpado batalhador, desculpa pela ausência de mim mesmo, mas decido que a partir de hoje o que for bom fica – pra sempre, e o que for ruim vai – pra nunca mais voltar.

- Douglas Lenon
13 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

e você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos. e eu continuo escrevendo seu nome com letras cheias, para tentar preencher você de alguma maneira. pra tentar deixar tangível a sua existência. e principalmente pra poder amassar o papel e jogar no lixo.

- Tati Bernardi
vou agora dizer uma coisa muito grave que vai parecer heresia: Deus é burro. porque ele não entende, ele não pensa, ele é apenas. é verdade que é de uma burrice que executa-se a si mesma. mas Ele comete muitos erros. e sabe que os comete. basta olharmos para nós mesmos que somos um erro grave. basta ver o modo como nos organizamos em sociedade e intrinsecamente, de si para si. mas um erro Ele não comete: Ele não morre.

- Clarice Lispector in O Relatório da Coisa pertencente a obra “Onde estivestes de noite”

segunda-feira, 14 de março de 2011

quem não chegou a uma estação tarde de si
a pressentir que o último ônibus passou?

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

eu tinha escolhido assim, num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser para sempre o que por estar vivo tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

domingo, 13 de março de 2011

para mim, é frustrante não conseguir falar. sentir que tenho tanto a dizer, tantas maneiras de ajudar, mas que estou preso em uma caixa à prova de som, em uma cabine isolada a partir da qual posso ver e ouvir o que está acontecendo, mas é como se tivessem tirado meu microfone e não me deixassem sair. é o tipo de coisa que pode levar uma pessoa à loucura.

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

OBS: livro narrado por um cachorro.
antes que a mãe chamasse, antes que o jardineiro viesse me buscar, eu me assustava e queria de novo o simples e o familiar. fantasia demais seria uma viagem sem volta? ninguém - nem eu mesma - me encontraria, nunca mais?

- Lya Luft in Mais infância pertencente a obra “Pensar é transgredir”

sábado, 12 de março de 2011

Dissertação 81


dá raiva porque de repente ele esquece de ser o homem que ele sempre disse ser e vira o merda que disse que eu era.

- Douglas Lenon
02 de março de 2011
poderíamos estar aqui conversando - eu daqui, você daí - sobre a calamidade social que o país não consegue conter, sobre como está difícil ter esperança, e quantas decepções já engolimos, mas hoje não, justamente hoje que seria o dia, vamos evitar esta discussão aborrecida e pegar um atalho, outro caminho, lembrar-se de quanta coisa já escolhemos e que deu certo, em quanta gente depositamos nossa confiança e que não nos faltou, em como já sofremos por pouca coisa e por muita coisa, e por todas elas nos tornamos mais fortes e preparados, então que venha o que vier, nada há de nos pegar desprevenidos, política nunca é mesmo algo muito original: mesmo sem bola de cristal podemos visualizar no horizonte o que irá repetir-se.

- Martha Medeiros in Hoje e depois de hoje pertencente a obra “Doidas e Santas”

sexta-feira, 11 de março de 2011

eu conheço dois tipos de gente. aqueles que buscam seu próprio sonho dentro dos outros. esses são os românticos e sua incessante caça pelo ideal, de decepção em decepção, esquecendo da subjetividade dos sentimentos, numa poligamia melodramática, como um álibi onde se justificam seus erros, traições, carências e rejeições. palmas, vocês comovem as pessoas. o outro tipo, meu tipo, a ala dos objetivos e menos escandalosos, já não projetam seus ímpetos quiméricos, não nos derretemos com seus pedidos de ficar e dormir colados e ofegantes, como duas plantas enroscadas debaixo de um aquário, sem oxigênio.

- Gabito Nunes in Não vem com romance

quinta-feira, 10 de março de 2011

parece-me agora, tanto tempo depois, que as partidas-dolorosas, as amargas-separações, as perdas-irreparáveis costumam lavrar assim o rosto dos que ficam. e do buraco negro da memória que ocupa agora o espaço anteriormente ocupado por essa pessoa — sim, era uma pessoa que não lembro —, em vez de faces, jeitos, vozes, nomes, cheiros, formas, chegam-me somente emoções confusas ou palavras como estas — doloroso, amargo, irreparável.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 9 de março de 2011


estou na estação há tanto tempo. e sempre tem gente chegando e indo. e sempre tem amor e bala e dinheiro e cama e água e fins de tarde bonitos e brinquedos e catracas com a segurança de uma novidade de sempre. em alguns momentos fica o equilíbrio terrível de nunca ir. fica a dor terrível de todo mundo que foi. fica a ansiedade terrível de todo mundo que tem pra chegar.

- Tati Bernardi
está é a coisa mais difícil de uma pessoa entender. insista. não desanime. parecerá óbvio. mas é extremamente difícil de se saber dela. Pois envolve o tempo.

- Clarice Lispector in O Relatório da Coisa pertencente a obra “Onde estivestes de noite”

terça-feira, 8 de março de 2011

Nathan: — algum meteoro lá em cima?
Haley: — aquela foi uma noite incrível. lembra? assistindo a chuva de meteoros juntos.
Nathan: — você está linda hoje, Haley.
Haley: — obrigada.
Nathan: — eu só queria que pudéssemos passar mais tempo juntos. sem tudo isso.
Haley: — Chris e Brooke?
Nathan: — eu quero dizer a praia, essa sacada. eu não me esqueci do nosso passado, Haley. eu sei aonde nos casamos, eu sei que este é o lugar aonde nós fizemos amor na chuva. eu ainda me sinto como no passado, assim como você. eu só pensei que podia ser legal sair no presente por uma noite. o que você está pensando?
Haley: — nada. apenas rezando para chover.

- One tree hill
3ª temporada, episódio 7

Dissertação 80


como que a gente se despede de alguém que a gente nunca mais vai ver? passei por isso à dois dias, e parece que foi a dois minutos, porque sempre, sempre tem uma esperança.

- Douglas Lenon
08 de março de 2011
há uma vida para errar
e uma eternidade
para se conformar com os acertos.

- Fabrício Carpinejar in Como no céu & Livro de visitas

segunda-feira, 7 de março de 2011

— às vezes eu acho que você realmente me entende. é como se existisse uma pessoa aí dentro. como se você entendesse tudo.
eu entendo, disse a mim mesmo. eu entendo.

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

OBS: o livro é narrado por um cachorro.

domingo, 6 de março de 2011

quase consigo te tratar como nada. mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. mas não vira nada nunca. eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. e é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

- Tati Bernardi

sábado, 5 de março de 2011


outras vezes, audaciosa, eu me afastava mais da casa e me deitava de costas na terra morna no meio de uns pés de milho no pomar. ver o céu daquele prisma, recortado entre as folhas como espadas, era espiar por muitas portas. a perspectiva diferente que dali, deitada, eu tinha do mundo e de mim mesma era como balançar na borda de um penhasco bem alto, acima do mar.

- Lya Luft in Mais infância pertencente a obra “Pensar é transgredir”

sexta-feira, 4 de março de 2011

tudo é fruto da nossa escolha, até mesmo quem iremos amar e que tipo de qualidades e defeitos iremos desenvolver em nós. em sua opinião, não existe isso que chamamos de "a ordem natural das coisas", e por isso ser livre parece tão assustador.

- Martha Medeiros in Prisioneiros do amor livre pertencente a obra “Doidas e Santas”
amigo. amigo é uma pessoa que gosta da outra. daí é amigo. eu sou amigo da minha família e da família da nossa empregada. a gente devia ser amigo de todo mundo. mas às vezes não dá.

- Lya Luft in Dicionário para crianças pertencente a obra “Pensar é transgredir”

quinta-feira, 3 de março de 2011

Eu sou um alguém que chora


"somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro."
Sigmund Freud

se dor falasse hein? olhando agora o celular que não toca esperando a mensagem que não chega. que talvez chegue, mas que vai dizer um: não, ou quem sabe depois de amanhã. vai que a gente aprenda a viver a partir de amanhã, ou a gente nunca aprende não é mesmo? olho para os lados e de todas as situações, de todos os meus amigos, eu estou na pior. não é extremamente triste se arrepender e esse arrependimento não transparecer? é difícil acreditar, mas eu só tenho essa verdade, mesmo que você não acredite em uma palavra minha, o que eu venho tentando te dizer é que ando juntando as palavras mais sinceras para demonstrar o tamanho do meu sentimento, da minha dor, da minha culpa, do meu medo, da minha vida, do meu amor, do meu carinho e do pouco que tenho da minha paz para te mostrar que eu tô aqui. que é para você.

- Douglas Lenon
03 de março de 2011
você e eu não somos nada. não existe futuro entre mim e você. ela faz cena, porque sabe que cabemos muito bem no mesmo andar, na mesma hora, no mesmo quarto, na mesma cama, mas nunca na mesma palavra: nós.

- Gabito Nunes in Me odeia e faz cena

quarta-feira, 2 de março de 2011

e mais de uma vez surpreendi os vizinhos olhando aqui para dentro, as luzes apagadas, esperando descobrir qualquer coisa na minha vida que eles não compreendem.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
mas eu sou mesmo muito dramático. para mim, uma grande história é aquela que cria expectativas e vai fazendo as revelações de modo surpreendente, excitante.

- Garth Stein in A Arte de correr na chuva

terça-feira, 1 de março de 2011


estou precisando de um determinado acontecimento sobre o qual não posso falar. e dá-me de volta o desejo, que é a mola da vida animal. eu não te quero para mim. não gosto de ser vigiada. e você é o olho único aberto sempre como olho solto no espaço. você não me quer mal mas também não me quer bem. será que também eu estou ficando assim, sem sentimento de amor? sou uma coisa? sei que estou com pouca capacidade de amar. minha capacidade de amar foi pisada demais, meu Deus. só me resta um fio de desejo. eu preciso que este se fortifique. porque não é como você pensa, que só a morte importa. viver, coisa que você não conhece porque é apodrecível – viver apodrecendo importa muito. um viver seco: um viver o essencial.

- Clarice Lispector in O Relatório da Coisa pertencente a obra “Onde estivestes de noite”
— o que você acha que eu devo fazer?
Alvin respirou profundamente. - eu acho – Alvin falou – que tudo se resume ao que é mais importante pra você, você não acha?

- Nicholas Sparks in O Milagre