sexta-feira, 29 de julho de 2011


— sei, sei. você vai perguntar: mas houve um erro? bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. mas estava ali, tão completamente ali, você me entende? no segundo seguinte você ia tocá-la, você ia tê-la. era tão. tão imediata. tão agora. tão já. e não era. meu Deus, não era. foi você que errou? foi você que não soube fazer o movimento correto? o movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. e a coisa se assustou, então. como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. é assim que vejo ela, às vezes. como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. não aconteceria com outro. depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. que era um bicho, um bichinho desses ariscos. coelho, borboleta. um rato. é preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. duma ilusão de eternidade. onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

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