sexta-feira, 30 de setembro de 2011


“carências... quem não gosta de ser amado? de receber atenção especial? quem não gosta de beijo na boca e abraços apertados? quem prefere a solidão a uma boa companhia? nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã. uma coisa frenética e louca, que tem feito muita gente que se julgava equilibrada perder os parafusos e fazer muita besteira. paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho. as pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado. vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas. é uma guerra para não ficar sozinho. medo, medo de se encarar no espelho e perceber as próprias deficiências, medo de encarar a vida e suas lutas. então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si mesmo, transfere toda a sua carência para o(a) parceiro(a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa que na verdade ela mal conhece. então, um belo dia, vem o espanto, vem a realidade, o caso melado, o “falso amor” acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem chão, sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver. pobre povo desse século da pressa! precisamos urgentemente voltar o costume “antigo” de “ter tempo”, de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.”

- Luís Fernando Veríssimo

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

eu sou filho de um homem. eu sou filho de uma mulher. mas o mais importante, eu sou filho de Deus, e quando eu olho em volta, vejo outros como eu. nós não nos parecemos, nenhum de nós é igual. do lado de fora, somos gays e heteros, pretos e brancos, gordos e magros, homem e mulher, santo e pecador. devo continuar, ou vocês entendem onde eu quero chegar? mas dentro... dentro somos todos iguais.

- Bones
4ª temporada, episódio 7

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Torcidas Organizadas


Quando falamos de torcidas organizadas, ou até mesmo de estádios de futebol, a primeira coisa que pensamos: confusão.
Conforme o tempo passou ir ao estádio de futebol passou a não ser mais tão prazeroso assim, tudo isso devido a grande jogada da mídia, muitas vezes colocando medo nas pessoas, antes mesmo delas pensarem em como as coisas poderiam ser se não fosse essa pressão psicológica que o mundo globalizado impõe.
Sinônimo de torcida organizada ultimamente anda sendo brigas, o que não é bem assim. Torcida organizada está em todo lugar, um show de música por exemplo, não deixa de ser uma torcida organizada, todos vibram e aplaudem, não é tão familiar quanto um estádio de futebol?
Vários questionamentos me passam pela cabeça a partir do momento que começamos a criticar sem ao menos saber como funciona, como é estar nesse meio? quantas histórias um(a) senhor(a) que tem amor pelo seu time não deve ter pra contar? Estar em grupo nos da uma autoconfiança maior, porém existe uma grande diferença, lá dentro a união sempre vai fazer a força e a vontade! E fora do estádio qual é o momento que eu caio na real e vejo que brigar pelo meu time só vai prejudicar a mim e ninguém além de mim?
Suponhamos que você vá em um jogo qualquer e você não torce pra time algum, a sensação de estar num lugar onde todo mundo está torcendo, todos vibrando de uma forma extremamente contagiante, onde na vida que você vai encontrar uma sintonia maior que a de uma torcida organizada, temos de doutrinar nossos conhecimentos tendo em vista que uma torcida
não é uma máfia, ou até mesmo uma gangue de bandidos, uma torcida é muito mais, é você entrar em contato com todos involuntariamente.
Percebe o que eu estou querendo passar? Se divertir nunca foi crime, nunca machucou ninguém.
Entretanto vivemos numa sociedade que têm suas próprias teorias, seus princípios e suas prioridades. Será que a crítica de que fazer parte de uma torcida organizada te faz melhor ou pior que qualquer outro cidadão? Até que ponto o meu time vai pensar em mim?
Temos mil questionamentos, posso fazer uma lista de perguntas por aqui, mas acho que não vale a pena. Somos apenas um membro de uma torcida qualquer, independente de time.
Nada disso quer dizer que você não pode chorar quando seu time perde, ou muito feliz quando ele vence. Nada disso impede você de fazer parte de uma galera que agita, que faz teu corpo inteiro suar, que te dá vontade de gritar, de mostrar que você tá ali, que você faz parte de um grupo também.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

a verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

- Tati Bernardi

domingo, 25 de setembro de 2011

— deixa tocar. deve ser o Paulinho de novo. God!, as pessoas não têm nem QI nem complexo de rejeição nem componentes paranoides suficientes para desconfiarem que quando você diz me liga daqui a dez minutos quase sempre significa não liga mais, não quero falar com você.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
escuta, de uma vez, eu poderia dizer que voltamos à estaca zero, mas esta foi cravada no dia que a gente se encontrou. depois de tirar um pouco os pés do chão, caímos juntos e abraçados num poço escuro e vazio e sem fim. agora estamos no negativo, a gente simplesmente deve algo um pro outro. e nem vem, não adianta, quem ama o difícil, muito fácil lhe parece. sei da sua indolência, mas quero tentar mesmo assim, porque já não dá mais pra passar um dia sem que minha história conte um pouco da sua. cada vez que eu for até sua boca, é um degrau de subida, a gente já foi fundo, fundo demais, não há mais como cair. de agora em diante, o maior risco que a gente corre é ser feliz.

- Gabito Nunes in Interrupção

sábado, 24 de setembro de 2011


ela, a vida, essa que nos faz entrar em bares suspeitos, chorar de amor, espiar pelas frestas, pegar no sono em cima do balcão depois de beber demais. é noite escura e a gente sofre calado, deixa a conta pendurada, bebe de novo quando havia prometido parar, e morre - morre mesmo! - de ciúmes sem ter tido tempo de saber que éramos amados.

a vida e nossos vícios, nossas perdas, nossos encontros: quanto mais nos relacionamos com os outros, mais conhecemos a nós mesmos, e é uma boa surpresa descobrir que, afinal, gostamos de quem a gente é, e quando isso acontece fica mais fácil voltar ao nosso local de origem, onde tudo começou.

a vida e a espera por um telefonema, a vida e seus blefes, e nosso cansaço, e nossos sonhos, e a rotina e as trivialidades, e tudo aquilo que parecerá sem graça se ninguém colocar um pouco de poesia no olhar. a vida e suas pessoas belas, feias, fortes, fracas, normais. todas atrás da chave: aquela que abrirá novas portas, velhas portas, a chave que nos fará ter o controle da situação - mas queremos mesmo ter o controle da situação? não será responsabilidade demais? deixar a chave nas mãos do destino é uma opção.

os sinais fecham, os sinais abrem. você segue adiante, você freia. a gente atravessa a rua e vai parar em outro mundo, basta dar os primeiros passos. viaja para esquecer, viaja para descobrir, e alguém fica parado no mesmo lugar, aguardando (quando pequeno, sua mãe o ensinou que, ao se perder na multidão, não é bom ficar ziguezagueando, melhor manter-se parado no mesmo lugar, aí fica mais fácil ser encontrado). muitos estão parados no mesmo lugar, torcendo para serem descobertos.

- Martha Medeiros in Um poema filmado pertencente a obra “Doidas e Santas”

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

porque pensar demais faz a gente desistir. o que enlouquece é a certeza, não a dúvida. pensar demais faz a gente pensar besteira.

- Rodrigo Tavares

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

— oh não! não! não é por causa do convite para jantar! é que as rosas eram tão lindas que tive o impulso de dar a você!

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Faz de conta


faz de conta que não doeu e passa a mão no coração. porque tudo é mais fácil, afinal existe a palavra: desculpa. de uma hora pra outra os dedos começam a tremer, na hora tem coisas que a gente leva na brincadeira pra fingir que não doeu. sabe o que é o mais inacreditável de tudo? eu não tenho absolutamente nada a ver com você. e o mais engraçado de tudo? eu acredito em você.
vivo nesse faz de conta. faz de conta que a gente ama e é correspondido, faz de conta que a gente mente e todo mundo acredita, faz de conta que a gente é feliz e nem liga em ficar sozinho, faz de conta que a gente quer alguém por perto mas que seja só pra se apoiar, faz de conta que todo mundo se importa e pensa em você, faz de conta que não dói e chora de alegria, faz de conta que "desculpa" virou "com licença", faz de conta que o corpo todo estremece... de frio.
não queria que tudo isso soasse meio autoajuda sabe? e parece autoajuda. você faz o máximo pra que tudo saia perfeitamente conforme tudo aquilo que você colocou no papel, e de repente o mocinho fica com a vilã, tudo vai virando de cabeça pra baixo sem que a gente tome controle e vai dando aquela vontade de excluir todo esse pensamento que eu criei, porque às vezes não faz sentido algum pra mim, eu sou feliz entende? eu não tenho do que reclamar. eu não quero ser um coitado! agora falando de pseudo escritor para todos os blogueiros e até mesmo escritores de guardanapo: dá vontade de desejar uma coisa bem bonita toda vez que a gente escreve com o coração não é verdade? eu desejo paz pra vocês, e eu desejo muita coragem pra mim.

- Douglas Lenon

terça-feira, 20 de setembro de 2011

mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. eu vou deixar. vai que um dia você acredita.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

coitado do amor, é sempre acusado de provocar dor, quando deveria ser reverenciado simplesmente por ter acontecido em nossa vida, mesmo que sua passagem tenha sido breve. e se não foi, se permaneceu em nossa vida, aí é o luxo supremo. qualquer amor merece nossa total indulgência, porque quem costuma estragar tudo, caríssimos, não é ele, somos nós.

- Martha Medeiros in Absolvendo o amor pertencente a obra “Doidas e Santas”

sábado, 17 de setembro de 2011


e no entanto o sangue estancava junto com a letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e tão antigo, and you know wherever I am, gostava dele assim, meio pesado, I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, winter spring summer or fall, gostava como se gosta de si mesmo, all you have to do is call, ou o que ficou de si, and I’ll be there, no passado, you've got a friend, cantou junto: um pedaço que se imagina para sempre perdido.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

vamos fazer assim. sem traumas. sem dramas. sem dores. seria exagero dizer que você faz o mundo melhor. você não é pra tanto, mal dá pro gasto. mas que fica tolerável, não posso negar. é que... já não estamos nos falando direito mesmo, então acho que preciso aproveitar que nós dois não somos uma aposta segura a longo prazo e que também não sou assim, tão louca por você.

- Gabito Nunes in Nada a perder

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

só tem um problema na sua vida. você se preocupa demais. sempre fica emotiva demais. nervosa demais. se eu jurar que você nunca vai ter nenhum motivo na vida para se preocupar, você vai acreditar em mim?

- Elizabeth Gilbert in Comer, rezar, amar

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

4º dia - "um milhão vezes zero, é zero. ou seja, não coloque sua intensidade onde não tem nada." (Tati Bernardi)


quatro dias, e eu acabo esquecendo de tudo aquilo que eu faço. ando ouvindo mais música que andando de bicicleta. preguiça sabe? preguiça de pensar em você. me falaram que isso tem nome, dizem por aí que se chama indiferença. eu acho que é conformismo, mas e a preguiça de discutir? ainda mais pelo que não vale a pena - pelo que não valeu a pena.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

“abandona-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.”

- Clarice Lispector in A Imitação da Rosa pertencente a obra “Laços de Família”
o maior elogio que eu poderia fazer a uma pessoa era dizer assim: gosto de você além da minha imaginação, não porque aprendi a gostar, mas porque por mais que eu sonhe, você é ainda melhor que o sonho. você é além da minha capacidade em te imaginar. e eu jamais te diria isso. não posso te fazer esse elogio.

- Tati Bernardi

domingo, 11 de setembro de 2011

como um desânimo, vontade de dizer rápido qualquer coisa como olha, você me desculpa, mas estou mesmo muito cansado, fica para outro dia, para outra noite, outro tempo, outra vida.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sábado, 10 de setembro de 2011


que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade do encanto.

- Ana Jácomo

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

quando vocês estiverem na plateia de um show com três mil pessoas, ele vai encasquetar que um homem de camiseta verde está olhando com insistência para você, e vai ter certeza de que você está retribuindo o olhar, e você vai perder a voz tentando explicar, no meio daquela barulheira, que tem pelo menos oitocentos marmanjos de camisa verde em volta, todos olhando pro palco.
aliás, se estivessem olhando para você, qual o problema, ele não se garante?

- Martha Medeiros in Um cara difícil pertencente a obra “Doidas e Santas”

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

jogo minha bagagem na cama e vou por cima, com as pernas para o ar. ele cai junto. a gente ri. ele tem um jeito de me tocar, de caminhar com as mãos no espaço entre minha pele e a roupa, sem parar de me analisar o corpo, cheio de fome e ternura e calor. eu sei que foi por isso que voltei, que volto, toda vez. é quando eu fico por baixo que a verdade se esfrega nos meus olhos e se infiltra pelos meus poros. com o mapa do meu corpo, ele me prende nos meus becos e dança nas minhas avenidas. eu não tenho saídas.

- Gabito Nunes in Insinuações

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Be(lie)ve


acredito que esteja em todo lugar, essa vontade. vontade de se libertar de alguma coisa que nos prende. inacreditável é que nos libertamos de algo e logo em seguida ficamos presos a algo totalmente diferente, o qual a gente nunca imaginou que pudesse existir. vontade de pedir perdão pra quem a gente machuca, vontade de sorrir pra quem nos faz sorrir. vontade de sentir, porque o mundo é muito grande, e com milhões de pessoas boas, é impossível não sentir vontade de ao menos sentir.
acredito que ultimamente seja muita espera e pouca vontade. talvez prosperamos demais e concluimos de menos. são prós e contras o tempo todo, em todo lugar, em todas as pessoas, a todo tempo e o tempo todo. tenho construido castelos e palacios dentro de mim cheios de esperança. mas ninguém cuida, ninguém entende. vontade de pedir um pouco mais de paz, só pra ter mais vontade de ter um pouco mais da gente dentro da gente mesmo.
acredito que é necessário um banho quente, uma toalha limpa e uma rede pra deitarmos depois. faz tempo mas ainda lembro como é se apaixonar, aquele gosto de coração que fica na boca toda vez que ele passa, uma pontinha de esperança que surge no cantinho da sua boca que te faz sorrir, sem perceber que está sorrindo. incrivél como amar é igual andar de bicicleta, depois que aprende nunca mais esquece.
acredito que a gente acredita em tanta coisa, que a gente se perde no meio da caminho, que a gente nem começa a caminhar e já se perde. perceba que a cada idade que passa na sua vida, você tem um questionamento diferente. hoje meu questionamento é se vale mesmo a pena, se compartilhar e entender é o bastante. falta muito ainda, muitos questionamentos a fazer, muita água pra passar por debaixo dessa ponte.
acredito que...

- Douglas Lenon

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo, que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa: "volta, com medo e tudo". foi. e começou a redescobrir que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. (...) é apenas sair do lugar (...). é apenas seguir. com medo e tudo.

- Ana Jácomo

domingo, 4 de setembro de 2011

salve o amor. aquele de conchinha e barba na nuca, que pode durar pra sempre ou só até amanhã. aquele amor sem medo, sem freio, que ama e pronto. salve o amor que a gente dá e pega de volta outra hora, outro dia, com outra pessoa. aquele aconchego facinho que não posa, não se esforça, não finge. salve o amor-próprio, que resolve a vida de muitos, o amor das amigas, que aguenta, arrasta e levanta. salve o amor na pista, que roça, se esfrega, se joga e vai embora. um amor só pra hoje, sem pacote pra presente, sem laço ou dedicatória. salve o primeiro amor, que rasgou, perfurou, corroeu... ensinou. salve o amor selvagem, o amor soltinho, o amor amarradinho. salve o amor da madrugada, sincero enquanto dure e infinito posto que é chama. salve o amor nu, despido de inverdades e traquitanas eletrônicas. salve o amor de dois a dez, um amor sem vergonha, sem legenda. salve o amor eterno, preenchido de muitos ardores. salve o amor gigante, mas sem palavras, o rotativo e o escrito, salve o amor rimado, cego, de quatro. salve o amor safado, sincero e sincopado, o amor turrão e o encaixado.

- Lia Block

sábado, 3 de setembro de 2011

ele me olhava. e eu não soube como existir na frente de um homem.

- Clarice Lispector in Os Desastres de Sofia pertencente a obra “A Legião Estrangeira”

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Primeira vez


você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um texto sobre você. nem que fosse te xingando, te expondo. qualquer coisa.
você sempre foi o único homem que me amou. e eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado.
você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. e o único que sempre entendeu também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo.
outro dia eu encontrei um diário meu, de 99, e lá estava escrito “hoje eu larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. ele, no caso, é você. dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, eu por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você. porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado.
depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos escuros espelhados de maconheiro. e eu de calça colorida daquelas “bailarina”. e nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha da classe. mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso super sexy. e eu me achei ridícula na foto mas senti uma coisa linda por dentro do peito.
aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo. fingindo que ia desmaiar. foi ridículo. mas foi menos ridículo do que aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei a força. você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo.
eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro cd do Vinícius de Morais. ou quando me deu aquele com historinhas de crianças para eu dormir feliz. ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele cartão postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça.
também não sei porque eu não escrevi um texto quando você apareceu naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida “eu sei que você não gosta de mim, mas deixa eu te olhar mesmo assim”.
talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente “me faz companhia enquanto meu namorado está viajando?”. e você fez. e você me olhava de canto de olho, se perguntando porque raios fazia isso com você mesmo. talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava querendo apenas me olhar. e eu me nutria disso. me aproveitava. sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo.
depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar de mim. e eu podia ter escrito um texto para você. claro que eu senti ciúmes e senti uma falta absurda de você. mas ainda assim, eu deixei passar em branco. nenhuma linha sequer sobre isso.
depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até desopilar todos os cantos do seu fígado. eu fiquei numa tristeza sem fim. depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. e fiquei feliz. pode me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um pouquinho de mim.
minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. tudo é você. minha personalidade é você. quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. tudo é você. quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. tudo é você. eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. e eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. e, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você.
até hoje. até essa manhã. em que você, pela primeira vez, foi embora sem sentir nenhuma pena nisso. foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente foi embora. como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas que não são ela. e que você usa para não sentir dor ou saudade. foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não gostando de mim. e foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

eu não sou atleta e nem forte para correr tanto e tão longe, por isso gostaria de destruir tudo o que é seu do meu mapa. eu tenho muita preguiça do seu olhar de "já sei o que é sofrer, agora posso viver sem medo porque descobri que eu não morro".
eu já sofri por aí, mas ainda morro muito, todo dia.

- Tati Bernardi