sexta-feira, 14 de outubro de 2011


— mas qual é a vantagem de fingir que não há o problema?
quando ele é insolúvel, a vantagem é que você não terá que resolver algo que não tem como ser resolvido.
— tipo o quê?
— tipo o fim do amor. para os mais jovens, o fim do amor pode ser resolvido com o término do casamento. inclusive, acho isso uma grosseria... isso que não entendo nesse assunto abismo... desculpa, filha, mas abismo é viver. não estamos à beira dele, estamos nele. e todo mundo age como se fosse heroi por contornar crises, por meio do debate, ou não. todo mundo vai fazer análise, justamente para não olhar para a pessoa ao lado e dizer: eu tenho vontade de vomitar quando escuto os teus passos. e isso não se diz numa conversa. você não pode virar para a mãe dos seus filhos e falar: “olha, eu não te odeio, te desejo tudo de melhor, mas eu não te amo mais”. sem que isso venha cheio de acusações. quando, no fundo, no fundo, amor não dura. e nem venham me falar que o que não dura é paixão. a ideia do amor está lá, faz parte da nossa cultura, essa tal transformação do amor. podemos dizer: eu não te amo como te amei, mas esse amor se transformou, e eu amo ver televisão com você, eu amo saber que, se eu tiver um treco e ficar todo cagado, você me limpará. Isso que é indiscutível. o amor não se transforma, ele se esgota, e a gente vai levando, por vários motivos. e, saibam, muitos desses motivos não são nada nobres.

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

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