quarta-feira, 30 de novembro de 2011

— que é que eu faço? não estou aguentando viver. a vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
— não sei. eu sinto o mesmo. mas há coisas, há muitas coisas. há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
— e depois?
— depois vem a Natureza.
— você está chamando a morte de natureza?
— não. estou chamando a natureza de Natureza.
— será que todas as vidas foram isso?
— acho que sim.
26 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in O Processo pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

terça-feira, 29 de novembro de 2011

7º dia - "e entre tudo que ele poderia ser pra mim, ele escolheu ser saudade.” (Caio Fernando Abreu)


acreditando que dentro de nós sempre sobra algo, eu resolvi pensar em nós. saber que eu me importar te machuca, dói muito mais. vai restando aquela saudade do teu eu que dizia me amar, e fica aquela tristeza de querer retribuir vendo nossas vidas assim, meio de lado, um pouco esquecidas até.
hoje sentado no degrau da escada de casa bateu a nostalgia de ter alguém pra dizer que tá errado sabe? da mesma forma que você fazia, dizendo que não é certo você entregar com a mão direita e retirar com a mão esquerda. você tem que entregar com ambas as mãos.
minha maior virtude seria não desistir, porque mesmo você achando que eu não penso em ninguém, apenas em mim mesmo, essas meias palavras deveriam significar algo. triste mesmo não é ter que me despedir de você, é ter que fazer isso todos os dias.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

eu hoje fui ao banheiro duzentas vezes para ficar longe do meu celular e do meu email, ficar longe de todas as possibilidades da sua existência. me olhei no espelho bem profundamente pra enxergar minhas raízes e ganhar força, chorei algumas vezes, fiquei sentada no chão do banheiro, pra ver se meu corpo esquentava um pouco ou porque estava mesmo me sentindo um lixo. estar sozinha não muda nada, conheço bem esse estado e, de verdade, sei lidar até melhor com ele. o que me entristece, é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual.

- Tati Bernardi

domingo, 27 de novembro de 2011

— amor não existe. é uma invenção capitalista.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

dizer não pra você
é como fincar em mim mesmo um prego
crucificado seja o meu amor
dizer não pra você
é flagelo fecundo
me firo inteiro e cego
dizer não pra você é um tour
pelo inferno

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu te ligo


até agora não sei dizer seu grau de parentesco com a aniversariante, mas você tava lá também. tão bonita. assustadoramente bonita. tanto que demorei pra perceber que o parabéns não era pra você. fiquei ali batendo palmas, vidrado e babaca, te desejando muitas felicidades comigo e muitos anos de vida bem perto de mim.

um cara chato falava sério no seu ouvido e eu forçava te reconhecer de algum lugar ou capa de alguma revista ou talvez de um álbum de família do Steven Tyler. eu queria muito perguntar como era ser irmã gêmea da Liv, mas só te olhava bobo feito cachorro. imaginando onde ficava esse tal Vale-Encantado-dos-Ecos onde você desceu e gritou bem alto que queria nascer gata.

mas até aí, tudo bem. homem nenhum se apaixona por uma mulher imóvel, caso contrário eu já teria entrado na igreja com alguma Playboy. o brabo foi ver você dançando. porque a paixão brota num instante de movimento. um girar de pescoço com mechas cobrindo meio rosto. e o seu problema foi justamente se mexer com aquela boa da PJ Harvey, alisando a franja com os olhos e sorrindo com as sobrancelhas.
sério, você devia se olhar no espelho antes de olhar pra mim. e o cara chato do seu lado. aí me olhou de novo e cheguei a pensar que tinha coisa errada comigo. às vezes sonho que vou à festas de aniversário sem as calças e vai ver esse dia chegou. não, as calças estavam lá. você e eu também. ou então, assim como eu dôo duas cestas básicas por ano, você dá duas olhadas num cara feio por ano, pra recompensar o gás carbônico da sua respiração, mesmo quase certo de que você faz fotossíntese como o resto das flores.

na volta do banheiro precisei de uma coca gelada. sempre quis ser astronauta porque li uma vez que 10 entre 10 astronautas fazem xixi nas calças e tudo bem, faz parte dessa coisa de ir pro espaço. você sentiu o frio do ar condicionado e alocou minha camisa de flanela marrom nos melhores ombros do mundo. e de certa forma, me jogou no espaço e eu, nervoso, quis muito ser astronauta outra vez, chorar agachado no banheiro e nunca mais te ver. medo.

posso ter meu casaco de volta? não. e me sorriu um sorriso de boas vindas a esse mundo paralisante de inseguranças e abismos que é querer passar o resto da festa do seu lado. ok, tentei me esconder atrás do cardápio e escolher algo líquido pra digerir você, mas nem precisei porque já estava bebendo da sua fonte e comendo na palma da sua mão. você riu, com uma batatinha entre os dentes.

rimos juntos. você contou uma história engraçada que aconteceu na sua aula de culinária indiana e eu fiquei prestando atenção na sua boca como se não houvesse amanhã. e você disse que, tudo bem, era preciso estar lá pra ter graça. eu te contei meus planos, de um dia me casar e ter filhos com um barco a vela e viajar dentro de uma bela garota em alto mar. ou mais ou menos isso, já nem sei.

alguém já disse que você é bonita nos últimos dez minutos ou fui só eu? o riso alto e gostoso é a primeira peça de roupa que você despe de uma garota. ela me deu seu telefone e disse "mas me liga mesmo". ok, eu te ligo. sei que vou. eu consigo. em último caso alugo "Free Willy" e me inspiro com a baleinha voando sobre os molhes em direção ao mar bom. pois é. acho que não vai dar. semana que vem, quem sabe. é, nunca liguei. porque não.

mas tenho motivo. sou daquele tipo de cara que, convidado a beber um vinho na casa da Natalie Portman, passam a noite a tratando como se ela fosse mesmo a Natalie Portman, e não uma menina carente que esqueceu de fazer dezoito anos, sedenta por ser aninhada num peito masculino.

eu disse que tinha um motivo e não uma explicação. me deixa. você jamais estará disposto a ser assustadoramente feliz sem estar disposto a sofrer assustadoramente.

- Gabito Nunes

terça-feira, 22 de novembro de 2011

you can hear those distant bells, and you know they'll never leave. ♪

- Snow Patrol
Those Distant Bells

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

— para vermos o azul, olhamos para o céu. a Terra é azul para quem a olha do céu. azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? ou uma questão de grande nostalgia? o inalcançável é sempre azul.
— se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silencio, mesmo que falasse. consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. e nunca ter dito uma palavra. pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Cosmonauta na terra pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

domingo, 20 de novembro de 2011

O que não é da sua conta


se eu falo sério, eu tô com ciumes, se eu falo rindo, eu tô sendo irônico. como que você quer que eu me expresse então? chorando pareceria emocional pra você? não vejo outra saída se não, não falar. não somos mais um casal faz um tempo já e não vejo problema nenhum em você falar sobre seus relacionamentos pra mim. não falar sobre seus relacionamentos faz parecer que alguém aqui ainda não levou tudo que deixou.
faz tanto tempo que eu não sei o que eu sinto por você, talvez descaso, mas descaso não é sentimento. só que dizer assim na lata que você não significa mais nada pra mim é tão complicado, machuca muito mais em mim do que em você. sim, a gente transou semana passada, e daí? foi só sexo, quem é você pra parar na porta da minha casa e dizer que se sente mal, mas que não sabe com o que. eu acho que você se sente igual eu me sentia das vezes que era eu a pessoa usada sabe? isso que você tá sentindo agora é uma sensação de que você serviu pra aliviar a vontade de alguém. isso é tão... tão... triste, porque eu me descrevo vendo você.
igual aquele dia que a gente saiu e no fimzinho da noite você virou pra mim e falou: não é nada, eu só não quero você hoje. você sabe quantas vezes isso martelou na minha cabeça? não consigo fazer uma somatória, porque no dia, foram muitas vezes. e hoje, hoje eu não quero você, só isso. como diz em um texto que eu vi por aí: só isso tudo. não importava pra você qual era o meu gosto, o meu cheiro, ou até mesmo a minha cor preferida. você lembra do perfume que eu usava? não, você não lembra. e eu? eu lembro até qual era o seu livro favorito. lembro da música que você mais gostava, do seu prato favorito, até do seu café com duas colheres de açúcar eu lembro. eu só não lembro de você, não sei o que me encantou em você, acho que só pode ter sido o sexo, porque o sexo foi bom, o sexo foi extremamente bom.
hoje eu sou um pouco mais frio, você reclamava do sentimentalismo barato, pronto tá aí a frieza que você tanto pedia indiretamente. eu entendo hoje como é não conseguir olhar nos olhos da pessoa que a gente usa, porque eu se quer consigo olhar nos seus. eu me sinto muito mais limpo que você e tenho nojo de enconstar tua pele na minha. não basta você aqui de frente comigo, eu tenho que falar tudo agora, porque eu sei que quando você sair daquela porta eu vou me arrepender de cada palavra que eu disser, então você vai me ouvir, ah se vai.
você é uma criança, mesmo eu sendo muito mais infantil que você. você é um babaca, e tão inútil que só serve pra umazinha, você fala umazinha né? esqueci de mencionar o quão engraçado você é. você pensa que é inteligente e que pode conquistar mas não é bem assim. e ainda haviam boatos de que eu sentia pena de você, mas não, e você lá merece um sentimento meu? você é arrogante e eu tenho vontade de pisar em você, ou cuspir na sua cara.
termino isso tudo agora porque já me humilhei demais, e você serve de inspiração, acordar e lembrar que você existe, me dá vontade de viver mais sabia? pra poder esfregar na sua cara o quanto você é medíocre, mesquinho e insignificante. eu ia casar com você, você me pedia em casamento depois de gozar, e você acha que saía por cima ainda? eu dizia que te amava depois de gozar. boa noite príncipe encantado, ou melhor bom sonhos.

- Douglas Lenon

sábado, 19 de novembro de 2011

eu detesto você saindo pela porta e as paredes se fechando, se fechando, e eu sem poder berrar para, pelo amor de Deus, você me resgatar, e me colocar no colo, e me dizer que você me entende e sofre também.

- Tati Bernardi
ok, não vou mentir, tenho sentimentos de estimação por você. mas estou deixando de alimentá-los. um dia eles morrem.

- Gabito Nunes

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

— e o amor, o amor, cara. o que eu faço com isso?
você esquece, sei lá. não tem tanta importância assim.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Carta Extraviada 1


não sei por onde começar esta carta que já nasce atrasada, pensamos sempre que temos muito a dizer mas as palavras são pouco amistosas, onde encontrá-las agora, às três e dez de uma madrugada em que me encontro insone e pensando mais uma vez em você?
você esperou por estas palavras por muitos meses, na esperança de que elas aliviariam a dor do seu coração, mas elas não vieram porque estavam ocupadas vigiando meus impulsos, me impedindo de me abrir, e minha própria dor lhe pareceu desatenção, eu que não durmo de tanta paixão congestionada, de tanto desejo represado, de tão só que estou.
meus motivos sempre lhe pareceram egoístas, e se eu lhe disser que o descaso aparente foi na verdade uma atitude consciente para preservar você, me chamarás de altruísta e não sairemos do mesmo lugar.
eu errei por não permitir que você me oferecesse seu afeto, eu errei ao sobrevalorizar um risco imaginário, eu errei por achar que existem amores menores e maiores, avaliados pelo tempo investido, pela contagem dos beijos, pelas ausências sentidas, por tudo isto fui conduzido a um erro de cálculo.
não te peço nada além de compreensão, e esta carta nem era para pedir, mas para doar, eu que sempre me achei bom nessas coisas, o voluntário da paz, o boa-gente oficial da minha turma.
mas peço: lembre de mim como alguém que alcançou a mesma medida do seu sentimento, a mesma profundidade das suas dúvidas, o mesmo embaraço diante da novidade, o mesmo cansaço da luta, a mesma saudade.
a carta vem tarde e redigida com palavras covardes, as corajosas repousam pois se imaginam já ditas e escritas, valentes foram as palavras do início, as desbravadoras, as que ultrapassaram limites, quando nós dois ainda não sabíamos do que elas eram capazes, palavras audazes, febris.
pela enormidade de tempo que temos pela frente em que não nos veremos mais, não nos tocaremos ou ouviremos a voz um do outro, pela quantidade de dias em que conduzirás tua vida longe de mim e eu de ti, pela imensidão da nossa descrença, pela perseverança da nossa solidão, pelos nãos todos que te falei, pelo pouco que houve de sim, acredita: te amei além do possível, não te amei menos que a mim.

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e Outros poemas

domingo, 13 de novembro de 2011

é preciso muito pouco. a alegria está muito próxima. mora no momento. perdemos a alegria porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento portentoso que mudará a nossa vida.

- Rubem Alves

sábado, 12 de novembro de 2011

Sentir que você sente


quando a gente discute eu coloco uma música pra tocar, porque eu sou assim frágil, e vivo de mansinho pra não ir com muita pressa, e você devora, mastiga e me despedaça aos poucos. e por incrível que pareça, por mais assustador que seja, eu gosto de você. gosto de você porque me faz falta esse teu bom humor. tenho que ser muito mais forte, eu sei, mas estou trabalhando nisso.
toda vez que você não me ouve, eu tenho vontade de desistir. desistir de tudo porque eu não peço somente pra você me ouvir, eu quero falar entende? discutimos por coisas bobas até, mas mesmo assim você fica quieto e parece que vai explodir a qualquer momento. eu não quero um mar de rosas depois que a gente se entender, quero um cafuné e dormir nos seus braços, é isso que eu quero. mas quando penso em falar com você logo me vem em mente a vez que você disse: você não consegue se afastar um pouco não? o que me machucou muito por sinal.
quando chega na metade da música, o cantor diz: don't kill love now e sempre sai uma lágrima do meu olho nessa parte, justamente nessa parte em especifíco. eu não quero que esse amor, um tipo de amor diferente eu posso dizer, porque por mais que eu saiba de você por partes, e conheça você mais do que você imagina, eu nunca fui embora. você é especial demais entende? especial pra mim. se saudade realmente define o que você sente por mim quando a gente se afasta, me faz sentir isso também, sentir que você sente saudade.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Brincar de pensar pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

eu tenho uma preguiça profunda desses programas que ensinam sexo bizarro, sexo grupal, sexo isso, sexo aquilo. o amor é importante, porra.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

você não sabe (ou sabe), mas as pessoas estão lendo mais, tentando sentir mais, sorrir mais, se comunicando e compartilhando mais, escrevendo mais, emburrecendo menos com a televisão e comendo menos morangos mofados. tem que ver, coisa mais linda. de um jeito esquisito, prático e por vezes frívolo, é gente interligada pelo fio condutor do trabalho, das coisas, da saudade que você deixou. é como se todos fôssemos um, como se cada um de nós fôssemos responsáveis por respirar uma célula do seu corpo. anos depois, só agora. é tudo tão irônico, não?

- Gabito Nunes in Carta aberta para Caio Fernando Abreu

terça-feira, 8 de novembro de 2011


— por mais flores e risos e beijos e carinho e, droga, compreensão mútua e ma-tu-ri-da-de. por mais apaixonado, por mais legal. para mim, nunca. fica um cheiro de merda por tudo. mesmo que você não veja. que você não sinta. no escuro, fica.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

você é minha melhor amiga e minha pior
perdoa minha insensatez e se vinga
me perturba o sono e me faz carinho
me confunde: agora pode, agora não pode
ás e coringa, me perturba e me acalma
me veste de trapos e dor
pró-pecados, contra virtudes
me mostra o caminho e o interrompe
me sacode e me faz sentar
você está do meu lado e não está
minha pior inimiga e minha melhor

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

domingo, 6 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Egoísta (des)equilibrado medroso


preciso de alguém pra dizer que está tudo bem. que está tudo como deve estar, tudo no seu lugar. porque eu cansei de me suicidar dentro de mim todas as noites. quem precisa de colo quase na fase adulta da vida? eu. eu preciso. eu sou meio frágil, meio egoísta por escrever apenas de mim mesmo. escrevo sobre mim porque eu não sou outro alguém, eu só sei onde dói em mim. meio capitalista até esse estado de espiríto. isso tudo porque eu tenho que culpar alguém pra dizer que como eu estou nesses últimos dias não tem sido por minha causa, tem alguém que machuca muito mais e que não pode ser esse eu que sofre. sofro de distúrbio de personalidade multipla, quem escreve aqui hoje, não é o mesmo que vai pra aula amanhã, ou que vai trabalhar. droga, estou sendo um pouco sincero. sinceridade é falta de educação.
o que mais me intriga é eu querer saber quantas pessoas eu comporto dentro de mim. porque o mesmo que ama é totalmente diferente daquele que transa, o que sofre é totalmente diferente daquele que sorri, o que ouve Katy Perry — digamos assim, um popzinho desses, meio padronizado, o pop sem os exageros do pop — e dança até não conseguir parar em pé é o oposto daquele que ouve Coldplay tocando Violet Hill num pós-feriado. eu escrevo pra me entender e não pra se explicar, até porque eu não devo satisfação nenhuma aos meus medos e desejos.
meta do próximo ano: ser um pouco mais cara de pau pra não se machucar tanto. talvez se eu for igual a uns digamos 50% da população que é frigida em relação a sentimentos mesmo — sexo todo mundo gosta, ou quase todo mundo —, esses leves lapsos que me ocorrem é devido aquelas estrias que temos na alma sabe? e eu odeio estrias, mas na alma não funciona igual no corpo. só tem estrias na alma quem tem esperança.
hoje o sonho é largar tudo e morar bem longe. aonde não exista nenhum tipo de tecnologia super avançada. só contato físico porque eu não sei o que é isso faz tanto tempo! e eu não quero desistir, acima de tudo eu quero tentar, eu quero vencer. porque esse que está escrevendo agora não é o mesmo que começou a escrever isso tudo. quem escreve agora é quem tem esperança porque quem começou essa crônica não tinha esperança alguma, e isso tudo vem das palavras. que "o ato de escrever não é sofrido, sofrido é a vida", palavras da grande Martha Medeiros.
é agora ou nunca, preciso ser uma única pessoa nesse meu dia-a-dia porque estar em movimento a todo tempo requer equilíbrio e parte de mim nunca soube que isso existia. ou talvez a parte que sabia acabou se suicidando ontem a noite. ou talvez tenha sido um egoísta equilibrado medroso, o que morre sem querer contar como é ser equilibrado. ou talvez eu nem saiba como é ser equilibrado e só saiba disfarçar. o que eu sei fazer de melhor é disfarçar, tanto a dor como a alegria e acho que esse sou eu, o grande egoísta (des)equilibrado medroso conhecido como o mestre do disfarce.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Constando um terrível defeito (meu)

sou obsessiva. completamente. de certa forma, creio que essa característica tenha me ajudado a ser quem sou, mas ela é burra no que se refere ao amor. eu quero que o outro - qualquer um, qualquer um, qualquer um mesmo, quando esse um está disfarçado em nomes próprios - tenha a noção de como seria incrível viver aquele um-pouco-mais comigo. os meu desejos... os meus prazeres... os meus segredos... as minhas taras... as minhas reticências... mas a minha maior burrice é não perceber que não ter esses momentos não significa que nada disso exista. e existir é o melhor que tenho a fazer, ponto. posso estar bem comigo mesma. posso ir ou...

- Fernanda Young in Tudo que você não soube

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

— mas eu não pensava em sacanagem nenhuma. só queria ficar perto dele. no máximo, deitar abraçado com ele. na mesma cama. nem um beijo, nada. só um abraço, bem apertado. ridículo, ridículo. eu era meio retardado, acho. até uns dezoito anos não sabia nem o que era punheta, pode?

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

outro sinal de se estar em caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.
19 de agosto de 1967

- Clarice Lispector in Brincar de pensar pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

terça-feira, 1 de novembro de 2011


é o que está no contrato. e eu assino embaixo. melhor assim. muito melhor assim. tô super bem com tudo isso. nossa, nunca estive melhor. mas não faz isso. não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. não me deixa assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.

- Tati Bernardi