quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu te ligo


até agora não sei dizer seu grau de parentesco com a aniversariante, mas você tava lá também. tão bonita. assustadoramente bonita. tanto que demorei pra perceber que o parabéns não era pra você. fiquei ali batendo palmas, vidrado e babaca, te desejando muitas felicidades comigo e muitos anos de vida bem perto de mim.

um cara chato falava sério no seu ouvido e eu forçava te reconhecer de algum lugar ou capa de alguma revista ou talvez de um álbum de família do Steven Tyler. eu queria muito perguntar como era ser irmã gêmea da Liv, mas só te olhava bobo feito cachorro. imaginando onde ficava esse tal Vale-Encantado-dos-Ecos onde você desceu e gritou bem alto que queria nascer gata.

mas até aí, tudo bem. homem nenhum se apaixona por uma mulher imóvel, caso contrário eu já teria entrado na igreja com alguma Playboy. o brabo foi ver você dançando. porque a paixão brota num instante de movimento. um girar de pescoço com mechas cobrindo meio rosto. e o seu problema foi justamente se mexer com aquela boa da PJ Harvey, alisando a franja com os olhos e sorrindo com as sobrancelhas.
sério, você devia se olhar no espelho antes de olhar pra mim. e o cara chato do seu lado. aí me olhou de novo e cheguei a pensar que tinha coisa errada comigo. às vezes sonho que vou à festas de aniversário sem as calças e vai ver esse dia chegou. não, as calças estavam lá. você e eu também. ou então, assim como eu dôo duas cestas básicas por ano, você dá duas olhadas num cara feio por ano, pra recompensar o gás carbônico da sua respiração, mesmo quase certo de que você faz fotossíntese como o resto das flores.

na volta do banheiro precisei de uma coca gelada. sempre quis ser astronauta porque li uma vez que 10 entre 10 astronautas fazem xixi nas calças e tudo bem, faz parte dessa coisa de ir pro espaço. você sentiu o frio do ar condicionado e alocou minha camisa de flanela marrom nos melhores ombros do mundo. e de certa forma, me jogou no espaço e eu, nervoso, quis muito ser astronauta outra vez, chorar agachado no banheiro e nunca mais te ver. medo.

posso ter meu casaco de volta? não. e me sorriu um sorriso de boas vindas a esse mundo paralisante de inseguranças e abismos que é querer passar o resto da festa do seu lado. ok, tentei me esconder atrás do cardápio e escolher algo líquido pra digerir você, mas nem precisei porque já estava bebendo da sua fonte e comendo na palma da sua mão. você riu, com uma batatinha entre os dentes.

rimos juntos. você contou uma história engraçada que aconteceu na sua aula de culinária indiana e eu fiquei prestando atenção na sua boca como se não houvesse amanhã. e você disse que, tudo bem, era preciso estar lá pra ter graça. eu te contei meus planos, de um dia me casar e ter filhos com um barco a vela e viajar dentro de uma bela garota em alto mar. ou mais ou menos isso, já nem sei.

alguém já disse que você é bonita nos últimos dez minutos ou fui só eu? o riso alto e gostoso é a primeira peça de roupa que você despe de uma garota. ela me deu seu telefone e disse "mas me liga mesmo". ok, eu te ligo. sei que vou. eu consigo. em último caso alugo "Free Willy" e me inspiro com a baleinha voando sobre os molhes em direção ao mar bom. pois é. acho que não vai dar. semana que vem, quem sabe. é, nunca liguei. porque não.

mas tenho motivo. sou daquele tipo de cara que, convidado a beber um vinho na casa da Natalie Portman, passam a noite a tratando como se ela fosse mesmo a Natalie Portman, e não uma menina carente que esqueceu de fazer dezoito anos, sedenta por ser aninhada num peito masculino.

eu disse que tinha um motivo e não uma explicação. me deixa. você jamais estará disposto a ser assustadoramente feliz sem estar disposto a sofrer assustadoramente.

- Gabito Nunes

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