sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

e que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. e que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir. e não consigo, nesse adestramento contínuo, me apoderar do primeiro regozijo da vida.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

mas acontecia quase sempre de o sol não aparecer, de a manhã acinzentar-se aos poucos, sem que fosse necessário apanhar as plantas.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Carta Extraviada 4


sou mais um desses boçais que escreve tudo aquilo que deveria ser falado, e você é mais uma vítima que jamais vai ter atendido o seu desejo: saber. mesmo consciente da sua boa vontade de me ouvir e entender, lhe escrevo, não posso ir além, não peça para remeter-me, esta carta não é para chegar, é uma carta de ficar.
para mim e para você, escrevo que, daqui de onde me encontro, você está longe e perto, e eu estou sozinho e não. do que sinto, aviso que é forte mas não é perigoso, é como um grande lago sereno, eu sou o píer, quase me precipito, você é todo o resto, toda água, tudo o que há. mas somos dois e em vez de par, somos ímpares. estou possuído por você e ao mesmo tempo permaneço impermeável, amo a seco, e rendido.
você não me acharia covarde, você não acharia nada: você não me conhece. sou um vulto, um alguém, você foi gentil comigo como é com os garçons e os primos, com os pedestres e com os turistas, você foi o que sempre foi, e eu não fui com você: no terceiro minuto ao seu lado eu já sabia que era irremediável, e em vez de segurar sua mão e reverter-lhe a pressa, deixei que você fosse, eu fiquei.
os dias, os gestos, rituais cotidianos, surpresas, tudo corre, passa por mim, menos o susto deste amor que entranhou-se feito limo, umidade em peito árido, me sinto tomado, absorvido, e não encontro método ou coragem para dizer: você que é motivo e dona desta represa, fique comigo, pois é só o que eu sei fazer, ficar.
mas você é ligeira, em movimento constante, você não senta, não repara, quer vida demais, sedenta, me fisgou muito rápido, e eu sou lento, estudado, incapaz de um repente, apaixonado por uma mulher impaciente, que suplica com o olhar e não espera, você se foi, em frente, quando deveria ter ficado.

- Martha Medeiros in Carta extraviada e outros poemas

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

e se você continuar indo embora estrada afora sem marcas de hesitação na pista com metade de mim esquartejada no teu porta-malas? e se meu riso mais entusiasmado longe de ti continuar me dando a impressão da ausência de onze dentes?

- Gabito Nunes in Cessar fogo amigo

domingo, 25 de dezembro de 2011

eu acho que um dos maiores charmes de um encontro de amor é a admiração que cada um sente pelo jeito inexato como o outro é, mas capaz de fazer florir deleites na alma com rara exatidão.

- Ana Jácomo

Feliz Natal, seguidores!

sábado, 24 de dezembro de 2011

9º dia - "ele sempre vai embora antes da gente ser alguma coisa juntos." (Tati Bernardi)


éramos o casal mais estranho entre os casais mais estranhos, quiçá entre os casais normais. você era do tipo que quando me via com a cara amarrada e logo soltava um: "eu sei, vou dormir no sofá hoje." eu morria de rir e você acabava nem dormindo no sofá. a gente cantava músicas que ninguém conhecia e fazia aqueles trocadilhos bobos que você aprende no ensino médio, e conta entre amigos porque só eles vão entender, você não era bem meu amigo – era muito mais que um marido se quer saber – e você entendia. são nove dias sem você, e parece que foi uma quaresma. você foi embora, mas prometeu voltar. quando paro no espelho de frente a porta de entrada da minha casa eu soletro: M Y H E A R T I S Y O U R S. você demorou uma hora pra entender, mas quando entendeu, respondeu: I'M Y O U R S. e é por isso que eu não me desfaço desse espelho.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

a partir de amanhã não corro mais para atender o telefone
a caixa de fotos vou colocar na última prateleira do armário
onde só alcançarei com muito esforço e escada
a partir de amanhã não abro mais o correio eletrônico
nem voo até sua letra no alfabeto, não haverá encontro
não passarei mais pela sua rua, a partir de amanhã
nem na vizinhança, atalharei por outro bairro
não há necessidade e meu coração não é de confiança
a partir de amanhã interrompo o surto e esqueço a placa do seu carro
não há perigo de eu sonhar com você, a partir de amanhã
não durmo mais, e as músicas que eu escutava, evitarei
já não te velarei, a partir de amanhã saio do luto

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

a volta é sempre mais tensa e rápida que a ida. chego aliviada, feliz, longe, outro mundo, passou, nem foi comigo. ufa. acabou. e choro. sempre choro. no fundo, bem no fundo, eu tenho é tanta saudade de tudo.

- Tati Bernardi

domingo, 18 de dezembro de 2011

quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas as mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas — tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sábado, 17 de dezembro de 2011


— mas tantas memórias. a gente tem tantas memórias. eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. o acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. de repente o presente, qualquer coisa presente. uma rua, por exemplo. há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei: eu já morei ali com o Beto. e a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. as ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. mas continuam inteiros dentro de você. chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sempre gostei dessas pessoas que dizem logo de cara quem são, talvez por isso meus melhores amigos sejam os mais filhos-da-puta, idiotas, cretinos e honestos. não sei, com eles aprendi ser mais fácil, antes de qualquer conversa, contar seu nome, seu signo, onde nasceu e seus piores defeitos. se a pessoa gostar mesmo assim, vai gostar mesmo, verdadeiramente.

- Gabito Nunes in Anti-heroi

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

porque eu também sinto medo, e haverá a morte um dia. a vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Levar ou não levar a tristeza?


comecei a arrumar minhas malas. é sempre bom viajar, conhecer, desconhecer, reestabelecer conhecimentos, se estruturar, se autoconhecer, viver, pensar, refletir. na maioria das vezes viajamos pra deixar algumas coisas pra trás, mas a gente sempre volta pra casa.
quando coloquei as primeiras roupas na mala perguntei pra minha mãe se eu levava a tristeza também, ela demorou um pouco pra processar a informação, disse que se desse pra deixar aqui seria bom, eu pensei em levar na viagem e esquecer lá, onde eu ficaria.
de repente a gente vai fazendo as malas e vai passando um filme na cabeça, parece que esse ano nem passou ou dá aquela vontade desse ano nem ter existido sabe? parece que não acrescentou muita coisa, ok, sempre tem um lado bom, mas não foi um ano legal se colocar tudo numa balança e tirar o peso geral.
talvez o próximo ano seja bom, seja talvez muito melhor, sinto uma energia positiva nesse ano que está por vir, sinto até uma presença de um novo amor, de um carinho bem gostoso no final do dia com gosto de era uma vez.

- Douglas Lenon

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

a verdade é que o que dizemos não tem tanta importância. para saber quem somos, basta que se observe o que fizemos da nossa vida. os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. o que você diz - com todo o respeito - é apenas o que você diz.

- Martha Medeiros

domingo, 11 de dezembro de 2011

assim que você chegar vou ter saudade da parte de mim que te espera. amar não parece exatamente com amor, né?

- Tati Bernardi

sábado, 10 de dezembro de 2011


parecia dor, e, em nossos termos humanos e animais, era. mas seria dor, ou era “ir”, “ir para”? pois o que é vivo vai para.
16 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Ir para pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

34 anos sem Clarice

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

o homem. como o homem é simpático. ainda bem. o homem é a nossa fonte de inspiração? é. o homem é o nosso desafio? é. o homem é o nosso inimigo? é. o homem é o nosso rival estimulante? é. o homem é o nosso igual, ao mesmo tempo inteiramente diferente? é. o homem é bonito? é. o homem é engraçado? é. o homem é um menino? é. o homem também é um pai? é. nós brigamos com o homem? brigamos. nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? não. nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? somos. o homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? é. o homem é um chato? também. nós gostamos de ser chateadas pelo homem? gostamos.
09 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Amor Imorredouro pertencente a obra “A Descoberta do Mundo”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

anular um encontro marcado para as 21 horas, as 21 horas e dez minutos.

- Gabito Nunes in Mulher por um dia

eu morro de vontade de fazer isso.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

8º dia - "mas toda noite eu sussurro bem baixinho até o sono vir: me ama por favor." (Tati Bernardi)


porque o fim da noite só tem sentido com você do meu lado. escutar você do outro lado da linha só pra me acalmar é o que importa. ver no teu olhar alguém disposto a fazer loucuras por mim. é isso que eu quero, que eu sempre quis.
olhando pra nossa foto de um mês de namoro, eu lembro como a contagem parecia valer a pena sabe? aniversário de uma semana, de um mês, de dois meses, de um ano! como eu queria te pedir em namoro de volta pra começarmos do zero. queria que você se apaixonasse por mim novamente, a primeira vista, de supetão.
a verdade mesmo é que a gente se cansou, um do outro. eu não queria ter preguiça de pensar em você ou ao menos te dizer algo legal em qualquer dia da semana que não fosse uma sexta-feira a noite na sua cama. acabamos por não lutar um pelo outro, mas juro que se fosse de novo a primeira vez, juro que eu...

- Douglas Lenon

OBS: deixei o final pra vocês continuarem.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

e se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? (...) se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. o amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. se amor for a coragem de ser bicho. se amor for a coragem da própria merda. e depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. o que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. porque então você se ama também.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
pequeno grande amor
que gerou toda sorte de reflexão
se fosse apenas um pequeno amor
passaria longe do meu epicentro
se fosse um grandíssimo amor
estaria tudo ao meu redor devastado
mas foi um pequeno grande amor
daqueles que têm tamanhos para todos os lados
e só podem ser medidos por dentro

- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

domingo, 4 de dezembro de 2011

o interessante não é ser um amor inteiro. o que vale é querer infinitamente completar-se.

- Gabito Nunes in Completude (ou "a piada da galinha e os ovos")

sábado, 3 de dezembro de 2011


e assim consigo dormir mais um dia, passar mais um dia, viver mais algumas horas, sem ligar pra única pessoa que eu queria ligar. consigo seguir em frente mais um dia sem ligar pra ele. consigo distrair meus dedos, minha mente, meu peito, minha violência, meu buraco, minha vertigem, meu soco no estômago, meu desespero, meu automático, meu extinto contrário, minha curiosidade infantil mas sempre com resultados duros demais para uma criança, minha vontade de enfiar o dedo na tomada só pra sentir a descarga mortal que tanto parece com impulso de vida. consigo distrair os batimentos cardíacos que sinto em lugares do meu corpo que ainda queriam mais um toque dele. e partes da minha pele que saem buscando porque ainda não receberam a informação do fim, o sangue ainda não levou a má notícia para meu corpo todo. e consigo distrair minhas roupas, que querem se mostrar, cada dia uma diferente, para ele. só para ele.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

sou cheia de manias. tenho carências insolúveis. sou teimosa. hipocondríaca. raivosa, quando sinto-me atacada. não como cebola. só ando no banco da frente dos carros. mas não imponho a minha pessoa a ninguém. não imploro afeto. não sou indiscreta nas minhas relações. tenho poucos amigos, porque acho mais inteligente ser seletivo a respeito daqueles que você escolhe para contar os seus segredos. então, se sou chata, não incomodo ninguém que não queira ser incomodado. chateio só aqueles que não me acham uma chata, por isso me querem ao seu lado. acho sim, que, às vezes, dou trabalho.

- Fernanda Young