segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


 “não sei o que fazer! fico mal contigo e fico mal sentigo!”

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

Feliz ano novo!

sábado, 29 de dezembro de 2012

tô esperando acabar, passar, morrer, sangrar até o fim. esperando o tempo que acalma chamas com seus ventos de mil pés distantes. esperando alguém que ocupe, distraia, desacorrente, solte, substitua, torne nada demais. esperando não sentir mais ódio e nem tesão e nem ciúme e nem saudade. esperando porque é o que resta mesmo, não é falta de coragem, não é de se fazer, é de se sentir e só.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Noveleta


não, eu não era engraçada. sem nem ao menos saber, eu era muito séria. não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. e, por Deus, eu não era um tesouro. mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitável – que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável. mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém — através de alguém. e só eu estivera ali. se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegavam a alcançar. seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos. entendi eu tudo isso? não. e não sei o que na hora entendi. mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascínio o mundo — e mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi — assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. nunca saberei o que eu entendo. o que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. ignorância que ali em pé — numa solidão sem dor, não menor que a das árvores — eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível. ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.
07 de fevereiro de 1970

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

esses dias me chamaram para uma entrevista. aquela fileira de gente engomada do outro lado da mesa, me fazendo perguntas idiotas. se eu tenho namorada, onde quero estar daqui a cinco anos, qual meu pior defeito. porra, como vou saber essas coisas? bem, disse a eles que não gostava muito de falar, que era de ficar na minha. pelas caras tortas, não gostaram muito da minha sinceridade. esse pessoal de recursos humanos não enxerga nada. se sou retraído não é porque sou alheio ao mundo, mas porque sou sensível a ele. vejo coisas que os outros não. sei lá, li isso numa revista aí. minha timidez é como uns óculos de sol, se eu detestasse o verão não haveria por que usar. só que eles vêm com aqueles papos de “vestir a camiseta”, querem que a gente se empolgue com um trabalho que não faz sentido algum. tu salva vidas, não deve ter esse problema. mas por que o mundo todo gosta tanto de mentir para si mesmo, hein Mano?

- Gabito Nunes in Não tenho nada pra dizer

sábado, 22 de dezembro de 2012


depois dirá: nada sonhei. será que basta? basta, sim. e sobretudo essa falta de erro. esse tom de emoção de quem poderia mentir mas não mente. basta? basta, sim.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in Hindemith pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


e uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. destruir antes que cresça. com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. para que não me firam, minto. e tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. não queria fazer mal a você. não queria que você chorasse. não queria cobrar absolutamente nada. por que o zen de repente escapa e se transforma em sem. sem que se consiga controlar.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 16 de dezembro de 2012

Alguém que soubesse sobre você


não é que não dá, é que já deu. as pessoas são assim, elas insistem em viver cada pedacinho de época que tem em suas vidas. tô falando isso porque a gente tem sei lá, quase 20 anos mas tem uns pensamentos de 40 que não tem sentido, sabe? e você vai na balada, vai em barzinhos cults e sei lá, vai no parque procurar ou sai para se permitir e volta pra casa com os bolsos vazios como se tivessem roubado o pedaço de vida ou o pedaço de infância, ou um pedaço de você.
reza a lenda que quanto mais sozinho você fica, menos você sente falta de alguém do seu lado. não é que seja falta, eu sinto falta de sentir falta, entende? porque todo mundo vai embora antes de qualquer coisa, antes de dar tempo de ser alguma coisa. cansado mesmo eu tô dessa gente que só quer começar, começar uma nova amizade, começar uma nova fase, começar uma nova dieta. eu cansei. C-A-N-S-E-I! fiquei craque nesse negócio de começar, dessa vez eu quero algo que passe do segundo mês.
teve o primeiro que foi muito, que continuou, mas a gente começava sempre que dava dois meses porque a gente terminava a cada dois meses. não era recomeço, até porque ninguém recomeça, todo mundo termina e começa de novo.
teve o segundo que sorria demais, paciente demais, e me amava e me esquecia demais. até hoje penso que um pouco da minha loucura vem desse aí. não sei dizer pra vocês quem era ele, mas com toda sinceridade do mundo posso afirmar que ele tinha um puto déficit de atenção. ô homem pra me segurar e me largar, me bater e assoprar, me esquecer e lembrar depois.
e teve o terceiro... que deixava a porta do box do banheiro aberto sempre que tomava banho, que não me deixava ver ele se pentear porque tinha vergonha, porque era tímido. o terceiro que foi a coisa mais sobrenatural e irreal que já aconteceu na minha vida. costumo chamar esse período que eu tive de tempo branco, gente que vem e não consegue desenhar nada na sua vida e só apaga aquilo que você tinha construído, sabe? branco porque lembra borracha.
no final disso tudo, eu queria alguém que soubesse me ler no escuro. soubesse que eu troquei de pizza preferida porque o primeiro cara tinha o mesmo gosto que eu. soubesse que eu tenho mania de dormir com a mão embaixo do travesseiro. soubesse que eu odeio o inverno. soubesse que eu prefiro comida japonesa e que eu detesto comida apimentada. soubesse que eu gosto de cafuné. soubesse que quando eu tô triste eu adoro ouvir "open your eyes" do Snow Patrol. soubesse que eu dou apelido pra todo mundo, mas odeio ganhar apelido. soubesse que quando eu quero, eu quero pra valer.
só queria alguém que pudesse me amar pelos meus defeitos e que conseguisse aceitar cada pedacinho de mim que me faz ser assim, que tivesse pretensão em me querer mais do que me ganhar. alguém que cuidasse de mim ou que ao menos se preocupasse comigo. alguém que me esperaria ou alguém que fosse me buscar. alguém que esteja aqui ou que esteja pensando em mim. alguém que.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

quando crio coragem, o buraco na fruta exibe a carne ressecando e escurecendo de oxidação. ligo, chama-chama e não atende. me sinto enjoado. a secretária eletrônica me encaminha até a caixa postal. deixo recado: – juro, dessa vez estive muito perto de te esquecer.

- Gabito Nunes in Já telefonei por menos

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


é possível também que a relação fosse mais racional do que animal: ternura é bem diferente de paixão.

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

existe alguém socorrer o que não tenho? existe pedir ajuda pra simplesmente fazer de conta que nada disso acontece? existe implorar pra parecer que não tô nem aí? existe emprestar pernas e peitos para correr com as minhas de forma a não dever nada? existe ir embora da minha própria cama? existe sair do meu próprio peito? existe tirar você daqui de dentro, vomitar você, matar você? e tudo isso só porque, vai ver, esse medo todo é justamente que você saia?

- Tati Bernardi

domingo, 18 de novembro de 2012

ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. foi por muito pouco. eu senti que a coisa tava vindo. cruzei os dedos. cheguei a implorar ao acaso. vai, meu filho. só um pouquinho. me xinga, vai. me dá uma apertada mais forte no braço. fala de outra mulher. atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. manda eu calar a boca. sei lá. faz alguma coisa! e acabou. já veio com o papo chato de que me ama, começou a melação de novo. eita homem pra me beijar. coisa chata. minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. onde já se viu andar com um homem desses.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


é de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in O Artista perfeito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

26º dia - "a perca é simplória, a perca é distraída, a perca é provisória, logo, logo reencontrarão o que está faltando. a perda é para sempre." (Martha Medeiros)


sinto uma falta imensa de você e a gente mal se fala. você nem pensa em mim e nem sente saudade. você se importa e é justamente isso que você não deveria fazer. você liga e pergunta se está tudo bem e não tá, bem é você perto de mim. tenho medo dessa perca constante virar uma perda e a gente sabe que quando vira perda, não tem volta. de todas as coisas que começam e a acabam, essa falta é a que anda demorando mais pra sanar sabe? tenho convicção de que a gente anda meio longe por não poder estar por perto por motivos que não convém, mas você deve ter o melhor cheiro do mundo quando acorda. eu sei que você toma banho com outro, e sei também que você não sabe sobre o quanto eu penso em você. mas gostaria que os dias fossem mais calmos, que essa perca se tornasse algo vivo, ou que me ensinasse mais alguma coisa sobre a ausência. são dias que eu encaro longe de você. o mais irônico de tudo isso é que eu vou em um show por você, eu canto Cazuza se você me pedir, eu mostro que talvez seja melhor. não tem muito futuro esse romance romântico porque a gente nesse impasse consegue fazer nossa própria distância.

- Douglas Lenon

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


cansado, cansado. quase não dormi. e não consigo tirar você da cabeça. estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. hesito em dizer em qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. mas quero te contar umas coisas. mesmo que a gente não se veja mais. penso em você, penso em você com força e carinho. axé.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


mas quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?

- Martha Medeiros in Em que esquina dobrei errado? pertencente à obra “Feliz por nada”

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ainda é tarde


o mundo é dividido entre as pessoas que romperam com uma Ana e as que não romperam com uma Ana.

honestamente, já não consigo pronunciar direito o nome do sentimento que tenho por ela, após esse amontoado de tempo depois que ela me chutou. meio que já subverteu numa lembrança fosca de tudo o que aconteceu. quantas vezes na sua vida você realmente pensou que amava alguém, mas logo se deu conta de que aquilo tudo era uma outra coisa? só desgosto, solidão, ressentimento, tesão, orgulho, carência, desforra e tantos outros mais da família dos “recolhidos”. não sei, talvez algum psicanalista possa exemplificar melhor esse lance. só estou querendo dizer que todas essas impressões são prolixas demais, e cada sentimento meio que faz parte de um diagrama bizarro. no fim, cada um tem sua definição, mas se você focar o microscópio em todos eles, vai compreender que as coisas estão muito próximas umas das outras. bem, talvez por comodismo, ou porque noite sim e noite não desperto tentando decifrar sonhos difusos com Ana; ou por achar que isso resume toda essa lenga-lenga, eu chamo de amor. atrasado, mas ainda amor.

minha mãe acha que é um traço falho do meu caráter, os amigos definem como fraqueza, a comunidade psíquica vê isso que eu tenho como uma espécie de colecionismo afetivo, uma doença. gosto de chamar de Síndrome de Dom Quixote. uma espécie de bloqueio que me impede de qualquer ascensão pessoal e profissional. por mais que eu trabalhe, por mais que eu me ache bom no que faço, e por mais que as pessoas endossem isso, há sempre uma voz em mim. e não é humildade. é um trauma, dos grandes.

quando você termina um relacionamento, as opções se abrem. você pode dar a volta por cima e recomeçar sua trajetória, você pode tentar recuperar seu amor perdido ou, como eu, você pode optar por fazer nada. nada nada. quer dizer, não exatamente nada, porque eu ocupei muito bem meus dias sentindo pena de mim e lutando bravamente para não me tornar mendigo. o que já é grande coisa, se você parar pra pensar.

Ana me largou há vinte e seis meses como quem descarta um livro de autoajuda, um absorvente usado ou um CD do Paul McCartney com os Wings. de lá pra cá, passo boa parte do meu tempo cultuando meu automartírio. nem todo final de semana é idêntico, nem sempre estou sozinho – digo, sem uma garota de ocasião – mas, em oito a cada dez domingos, tão rápido dou o arremate final nas coxas do frango assado e despejo o prato sujo na pia, visto meu casaco de estimação que me deixa a fuça do Richard Ashcroft (eu acho, algumas namoradas também pensavam do mesmo modo, ao menos as que sabiam quem é Richard Ashcroft – Ana não), procuro minhas chaves, ouço que sou frio e insensível e saio a pé. meus tênis adoram o asfalto.

penso nas merdas que fiz e também nas coisas que não fiz. em todas as longas caminhadas naquele calçadão onde negligenciei andar de mão com Ana, durante o pôr do sol cartão postal da cidade, porque para isso acontecer eu teria que sair mais cedo do trabalho, ter sorte com o horário do ônibus e ir até em casa trocar de roupa, o que seria um saco de tão cansativo. na época eu não tinha grana, eu não vivia de royalties, eu não tinha um patrocínio substancial de um refrigerante, eu não tinha vendido a única música do meu pai para um reclame de telefonia celular, eu não tinha a vida ganha. eu precisava trabalhar com jornalismo, como assessor de imprensa numa fábrica de pão bisnaguinha, se é que isso pode ser considerado o tão sonhado jornalismo dos tempos de universidade. bem, a verdade é que eu não dava a mínima pra Ana. tudo parecia para sempre, por que me preocupar agora? amanhã. ou mais tarde. ou nunca mais.

- Gabito Nunes

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

por um instante quis sentir falta de alguém, mas não consegui me lembrar de ninguém. por outro instante quis inventar uma pessoa, mas eu era tão de verdade naquele momento que me faltou capacidade para ser enganada.

- Tati Bernardi

sábado, 3 de novembro de 2012

ele ri, senta, conta uma história qualquer. eu nem pisco, mas não paro de tentar enxergar o que pode haver ali. não há quase nada. só esse olhar de bala perdida esfuziando no ar atrás de uma vítima. e eu corro pra me defender, torcendo para ele me acertar. ele me dá uma linguarada mecânica e tudo fica meio elétrico, por um tempo. o teto brilha, em baixa voltagem.

- Gabito Nunes in O Troco

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

50 tons de amor

Amor mesmo é fazer massagem nas costas, isso sim é amor. Amor é morder o dedinho mindinho da mão direita e dizer que morder você é mais que uma vontade, é quase uma necessidade. Amor de verdade é amor de verão que fica na praia e que cuida enquanto há tempo pra cuidar. Amor é brincar de ter um filho e ficar escolhendo todos os nomes que você possa imaginar. Amor gostoso é aquele que dorme fazendo carinho no seu cabelo do jeito que só ele sabe fazer. Amor é ensinar andar de roller e rir de todas as vezes que você cair. Amor é te ligar três vezes quando você foi viajar pela primeira vez sozinho. Amor é lembrar a primeira vez que você deu risada e não conseguir negar que se apaixonou ali. Amorzinho é quando eu roubo o halls vermelho da sua boca com um beijo, isso sim é amorzinho. Amor é andar de mãos dadas em cima da plataforma do ônibus, andar em cima da plataforma de mãos dadas rindo, ah aí é amorzão. Amor pra sempre é o amor que entrelaça a mão e fecha com força. Amor é não dormir e perguntar a cada hora se tá tudo bem quando você fica doente. Amor amanhecido é o que te faz acordar nos braços dele. Amor é tropeçar no chinelo do outro e xingar até última geração do malandro.  Amor mesmo é escutar a trilha sonora inteira do Pearl Jam com o rosto encostado no seu peito. Amor é esquentar o pé na tua batata da perna. Amor é fazer a melhor omelete do mundo e dizer que é a melhor pra te agradar, porque na verdade a melhor é a da minha mãe, mas o amor da minha vida é você.  Amor é beijar na boca de ponta cabeça! Amor é acordar com a perna em cima das tuas costas e com a tua mão no meu rosto e o travesseiro na bunda com a coberta jogada nos pés. Amor é falar “desliga você primeiro” e ainda por cima o traste desligar. Amor é desdenhar de tudo o que você tem pra oferecer e comprar tudo no fim da noite. Amor mesmo é deixar a última fatia de queijo pra você, mas amor de verdade é você repartir ela no meio comigo. Amor é dar beijo de boa noite. Amor é começar transando em cima da cama e terminar transando no chão. Amor é se encontrar no meio da avenida e dizer “Estava te olhando faz horas, mas não sabia como chegar em você, imagina que um gostoso como você poderia me dar moral!” e sair os dois rindo feito bobos. Amor é espremer uma espinha sua e dizer que isso é coisa que sua mãe deveria fazer. Amor de verdade é cantar no msn uma música inteira dos Paralamas do Sucesso e dizer que a música foi feita pra nós. Amorzão é você fingir ciúmes até porque você não sente ciúmes. Amor é ser o seu despertador quando você perde a hora. Amor é parar o carro no meio da noite em frente a sua casa e dizer que tá aqui só porque não tem mesmo o que fazer, exceto olhar pra você. Amor é jogar Mario e dizer que você sempre perde o Yoshi porque parece um moleque quando vê um videogame. Amor é saber quando você trocou de perfume. Amor mesmo é saber de cara que você não gostou de algo. Amor é ir ao mercado e involuntariamente comprar duas latinhas de cerveja e logo após passar em um fast food qualquer e pedir dois lanches, e quando chega em casa lembrar que você viajou. Amor é esquecer o primeiro mês de namoro e só lembrar no segundo. Amor de verdade é ouvir o que você gosta pra te agradar. Amor é fazer uma limpa no teu guarda-roupa e dizer que se fosse pelo seu jeito de se vestir a gente nunca teria casado. Amorzinho é fazer aquelas malditas surpresas que te dão um super susto, mas você ri horrores. Amor é pedir pra você engordar porque já não tem mais lugar pra morder. Amor é quando você compra Yakult pra mim e fala em tom de deboche para os seus amigos “É pra minha criança!”. Amor é quando você pede pizza e diz que a parte que vir portuguesa é toda sua, e logo depois mudar de ideia quando eu fico manhoso e te abraço. Amor de verdade é saber que você era o meu amor desde a primeira vez que eu ouvi sua voz. Amor é esquecer quantas vezes você se machucou e saber que daqui pra frente é só ganhar muitos beijos pra sarar. Amor é pensar no futuro com você nele. Amor é te fazer acordar no meio da noite pra pegar água pra mim e você querer me matar por ter tirado seu sono. Amor é tomar banho juntos e não conseguir não se excitar. Amor é escrever sobre amor pensando em você. Amorzinho é procurar você até dentro da panela de pressão, mas amorzão mesmo é te encontrar em cima da minha cama. Amor é brincar de ser solteiro só pra continuar sendo a primeira vez todos os dias. Amor... amor de verdade mesmo é ver amor no dia-a-dia, ver carinho, apreço, cumplicidade, amor é muito mais que amorzinho e amorzão, amor é muito mais do que estar com você, amor é muito mais do que saber que você pensa em mim, amor é muito mais que fechar os olhos enquanto beija, amor é o susto que o coração leva quando a pessoa mais linda de todo o mundo te chama de meu amor.

- Douglas Lenon

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


oh, não se assuste muito! às vezes, a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça, repeti como se pudesse alcançá-la antes que desistindo de servir ao verdadeiro, ela fosse altivamente servir ao nada. eu que não me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. mas juro que isso é a respiração.
30 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (Final) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


mas uma estranha intuição: de que, de alguma forma, este é um período de luta depois do qual tudo deve abrir, ficar mais fácil, menos batalhado.
21 de julho de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando os chatos somos nós


você conhece um chato. ou dois. ou meia-dúzia. e até gosta deles, viraram figuras folclóricas na sua vida. talvez seja um cunhado, um amigo de um amigo, um colega de trabalho. os chatos são bem intencionados, não se pode negar. e é justamente essa boa intenção fora da medida que faz deles... chatos. o chato nada mais é que um exagerado. ele é prestativo demais, ele é piadista demais, ele leva muito tempo para contar algo que lhe aconteceu, ele fica hooooras no telefone, ele se leva a sério além do razoável, ele ocupa o tempo dos outros com histórias que não são interessantes. o chato é, basicamente, um cara (ou uma mulher) sem timing.

estava pensando nisso quando escutei alguém citando uma das coisas mais chatas que existe. tive que concordar: colocar um filho pequeno no telefone pra falar com a dinda, com a vovó, com o titio, é muito chato. a gente ama aquela criança - talvez seja até o nosso filho! - mas ao telefone, esquece. tentamos entabular um diálogo minimamente inteligível e nada rola. ou ele não fala nada que se compreenda, ou não abre o bico, e só nos resta ficar idiotizados do outro lado da linha.

todo mundo sabe que isso é chato. mas todo mundo que já teve um filho comete essa mesma chatice com os outros. por que? porque pai e mãe de primeira viagem são chatos por natureza. ninguém escapa. se não for chato, será considerado um sem-coração. todos irão apontar: olha lá, aquele ali esconde o filho. põe ele no telefone!

outra chatice é mostrar 3.487 fotos do bebê. dá nos nervos quando o filho não é nosso. todos os bebês são iguais, menos para seus pais. seja bem sincero: dá pra aguentar ver foto de bebê pelo celular? basta perguntar educadamente pra alguém: e seu filhinho, vai bem? pronto. num segundo o celular ou iPhone será sacado e apontado direto para seus olhos: veja você mesmo.

a gente sabe que é chato, mas toleramos com sorrisos parcialmente sinceros porque faremos a mesma coisa quando chegar a nossa vez - ou já fizemos um dia. se você passou dessa fase, segure a onda e compreenda os que ainda não passaram. nada de reclamar. aqui se faz, aqui se paga.

outras chatices? quando alguém pergunta: lembra de mim? se está perguntando, é porque a chance é remota. mas já não fizemos isso diante de alguém que gostaríamos muuuuito que lembrasse? e esticar as letras das palavras quando se está escrevendo? e quando a gente começa uma frase com "adivinha". adivinha pra onde eu vou nas próximas férias. adivinha quem me convidou pra jantar. adivinha com quem eu sonhei hoje.

falando em sonho, tem coisa mais chata do que ouvir o sonho dos outros? mas você já contou os seus. váááárias vezes.

agora adivinha qual o próximo exemplo que vou dar (kkkkk). precisamos mesmo colocar risadas entre parênteses para que os outros entendam nossas piadinhas cretinas?

alguns menos, outros mais, chatos somos todos.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

preguiça de começar tudo de novo. o primeiro jantar, a primeira piada sacaninha, o primeiro xixi de porta aberta. cansei.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


então, tranque o carro numa rua escura e também dentro da sua garagem, não entre no quarto de um neanderthal se você não estiver bem certa do que deseja, não deixe uma vela acesa perto de uma janela aberta, pense duas vezes antes de mandar seu chefe para um lugar que você não gostaria de ir, não tenha em casa Doritos, Coca-Cola e Ouro Branco se estiver planejando perder uns quilos e lembre-se do que sua bisavó dizia: regue as plantas, regue suas relações, regue seu futuro, porque sem cuidar, nada floresce.

e, por via das dúvidas, confie em Deus também, que mal não faz.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conselhos para uma vida a sós

pra ser bem sincero com todos vocês, eu só queria a minha vida de volta. aquela vida que você reclama tanto mas é o que tem de mais legal no mundo! reclama de não ter ninguém, e não ter ninguém quem sabe é a maior liberdade que a gente já teve. a maior liberdade que nós temos.
por isso, eu aconselho vocês a serem 100% vocês. não existe outra pessoa melhor que você possa confiar quando chega no fim. você é o que você tem, o que você sente, o que você compra. esse é você. ninguém sai comprar roupa pra você quando as suas começam a se repetir, pior que isso, ninguém se coloca no seu lugar quando você tá doente. ninguém realmente cuida melhor de nós mesmos do que nós próprios.
parece até uma lógica narcisista, mas viver a sós, exige muita louça pra lavar, muita roupa pra passar, muito pó pra tirar, muita paciência pra viver bem. vai dizer que a vida não é um eterno resta um? sempre resta a gente mesmo.
uma vida a sós requer mais livros do que força, então fique atento. estude as possibilidades de viver feliz consigo mesmo, talvez a companhia dos animais de estimação não seja tão ruim assim, uma vez que eles não falam e não te argumentam sabe? eu particularmente prefiro os livros, alguém precisa conversar comigo nesses dias chatos.
portanto comece fazendo hoje o que você queria ter começado quando você deu o primeiro passo, não deixe pra amanhã quem você pode deixar pra sempre, não deixe de lado quem você pode deixar agora, não escute quem fala muito, só um olhar diz muita coisa. afinal o corpo fala. não deixe de lembrar pra sempre quem te esqueceu, um pouco de lembranças a gente guarda numa caixa e desenterra depois de anos e você vê que aprendeu muito mais com essas decepções do que com qualquer outra coisa que possa existir.

- Douglas Lenon

sábado, 29 de setembro de 2012

ainda não terminei de gostar de você. mas consegui. agora fui. porque comecei isso querendo ser sua companheira, passei a cúmplice das suas maldades, e ficar dessa vez vai me fazer sua comparsa. não é um ‘até amanhã’ nem ‘até breve’ e nem ‘até mais’. é um ‘até você mudar’ ou ‘até você não ser mais quem você é’. até nunca, então.

- Gabito Nunes in O inferno por dentro

sexta-feira, 28 de setembro de 2012



não chegaria a ser erro, era mais um leve estrabismo de pensamento — mas para mim teve a graça de uma queda, e antes que o instante passasse, eu por dentro lhe disse: é assim mesmo que se faz, isso! vá devagar assim, e um dia vai ser mais fácil ou mais difícil para você, mas é assim, vá errando, bem, bem devagar.
16 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (III) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 27 de setembro de 2012



repito sempre: sossega, sossega – o amor não é para o teu bico.
18 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

é isso. só queria ser amada. só isso. precisa casar comigo não, precisa me engravidar não. basta me olhar assim, basta morrer de rir comigo. basta me ler, me decifrar, ser intenso nesse minuto. vamos todos morrer meus amores, vamos então morrer sabendo que demos vida a alguém.

- Tati Bernardi

terça-feira, 25 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada.

- Martha Medeiros in Os ausentes pertencente à obra “Feliz por nada”

domingo, 23 de setembro de 2012

Verdade mesmo é que a gente não sabe machucar

se ao menos a gente fosse verdade dentro de toda essa história. se ao menos eu fosse de verdade. porque você começa a calcular o tempo que você tem a respeito de todos os relacionamentos que não deram certo e vai vendo que sobra cada vez menos tempo pra procurar por alguém. se é que vale a pena procurar por alguém. você descobre que independente de quantas outras relações você vai ter, em todas elas vão existir histórias mal contadas, omissões do que realmente é importante.
acreditar nas pessoas não tem sido uma tarefa tão fácil. não tem sido fácil nem respirar ultimamente. tudo dói, desde a ponta dos dedos dos pés até o último fio de cabelo. você olha pro lado e tenta não pensar, mas a cada vez que você tem que olhar para o lado você vê que não deu certo e que dói. mas o que dói mesmo, o que machuca de verdade, fere a gente dentro da alma: é não conseguir nem olhar nos olhos da pessoa, não conseguir nem ouvir a pessoa.
Ver não é desconfiança. pelo contrário, é dor de quem ama e cuida. ou de quem executou esses dois verbos no passado. uma vida cheia de amores pendurados na estante seria muito mais fácil em vista da que a gente anda levando. vontade de respirar talvez seja o fator que mais chama a atenção dentro de um relacionamento, porque vai sufocando a gente aos poucos.
a ideia principal é que devia existir um manual de como se começar uma vida de casado, ou como sobreviver a uma vida de casado. deveria existir mesmo um manual de como sobreviver a uma vida pós-vida de casado porque mesmo com o final de tudo você sai e se sente preso dentro de você mesmo, olha para as paredes da casa e você parece fazer parte delas devido o tempo que você não sai para procurar alguém ou até mesmo para ser encontrado por alguém.

- Douglas Lenon

sábado, 22 de setembro de 2012


resolvi me afastar, e agora estou tentando tirar da cabeça. não estou conseguindo. estava muito apaixonado. acho que nunca tanto. não consigo mais aceitar relações pela metade. em outras palavras, raspas e restos não me interessam.
12 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

olha, eu não gosto de você. pare de me procurar ou tentar chamar minha atenção. eu poderia dizer politicagens como “o problema sou eu” ou “nós podemos ser amigos, se você quiser” ou “não é nada pessoal”, mas eu estaria apenas vestindo uma luva de veludo para te empurrar pra longe de mim. eu não posso ser rude, mas também não funcionou muito bem ser sutil. eu não gostei de você, e é extremamente pessoal. sai do meu pé. pare de me ligar. já faz cinco meses, caramba.

- Gabito Nunes in O direito de não gostar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


“então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: 'Sim, acho que eu também te amo.'”
01 de março de 1969

– Clarice Lispector in Quem escreveu isto? pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


nem parece que já vai chegar novembro, ainda nem cumpri as promessas de fevereiro.

- Caio Augusto Leite

terça-feira, 18 de setembro de 2012

a coisa que eu mais queria era estar lá com ele, tomando coca, fumando cigarro, passando a mão naqueles cabelos dele, mordendo aquela boca.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


saudade eu tenho sempre. mas, saudade tristíssima, duas vezes.
11 de janeiro de 1969

– Clarice Lispector in Lúcio Cardoso pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 16 de setembro de 2012

25º dia - "sinto uma falta absurda de você. ficou um vazio que ninguém (pre)enche. e penso e repenso e trepenso em você por aí." (Caio Fernando Abreu)

de repente o que era chão se torna o maior abismo de todo o universo. como acreditar em algo que não dá pra tocar, não dá pra mostrar, não dá pra demonstrar. rezo toda noite pra que o próximo dia seja melhor, pra que no próximo dia você volte e que você me traga algum resquício de paz, que você me traga acima de tudo um pouco de tranquilidade. vai dizer que o fim dos dias não te corrói nem um pouquinho? vai dizer que ele não te mastiga, não te morde a ponto de você se sentir sufocado. sufoco talvez seja isso que tenha acontecido depois que você foi embora.
mas acima de tudo o que me corrompe tenho acreditado que os dias são muito mais do que a gente vê na televisão. até porque nunca passa uma notícia na televisão dizendo que um coração foi partido ou que alguém foi embora sem dizer adeus. coisas da vida, coisas que nem a gente consegue explicar pra gente mesmo.
penso que nosso relacionamento sempre foi um tanto unilateral, acho que era assim que Caio dizia, é tão cansativo carregar uma história de amor inteira nas costas e viver nessa insegurança e dizer que tá tudo bem e que sim, somos felizes desse jeito. nem eu acredito mais em alguma manifestação de amor, acho que tudo é feito pra vender, sempre existe alguém ganhando por trás de tudo. até no amor, tem sempre um que sai vencedor e outro não ganha nem um prêmio de consolação, se é que vocês me entendem.

- Douglas Lenon

sábado, 15 de setembro de 2012


venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim.
28 de maio de 1984

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice.

- Martha Medeiros

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Versos X Versos


ao lado do meu computador tem uma taça de vinho e uma água de coco em caixinha. abro a página em branco e me pergunto: será que eu volto, ou deixo assim, como está? será que quero voltar a me expor, ou deixo assim, no mistério? adoro a escancarada e adoro a que faz as malas e some de vista. adoro e detesto as duas.
minha tv ligada em filme de sacanagem e meu ipod tocando Nina Simone. no chão tenho o jornal do dia e uma manchinha que não conto o que é. nem a pau.
esses drogados de merda, penso isso enquanto me pergunto: será mesmo que minha mão é feita de massinha? esses homens cascas de merda, penso enquanto vou me despelando até não sobrar nada porque não sei exatamente o que sobra quando não estou atuando. quando sou eu mesma, sou a melhor atriz que já conheci. quando não penso sobre ser algo, merecia um Oscar.
aí ele chega, tão lindo. e vai embora, tão feio. e liga, tão bobo. e some, tão especial. e eu morro, ainda que não ligue a mínima. e eu to nem aí, ainda que pense o tempo todo em não estar nem aí. e eu abro a porta, a perna, a alma. e quanto mais abro tudo, mais me fecho. e sigo intacta, ainda que toda esburacada. e tenho a plena certeza que cometo o maior erro do ano, ainda que eu não duvide que todos os acertos são mesmo feitos assim: quando a loucura nos vence de alguma forma.
e enquanto eu explico para o meu melhor amigo que o tipo mais grosso na ponta que afina pro meio, é o melhor, quero chorar porque o Dudu, o garotinho de dois anos com seu carrinho vermelho, me olha curioso. a pureza me destrói, por causa da sujeira. e a sujeira me destrói, por causa da pureza. mas sigo inteira e peço pizza de chocolate com morango. será que a minha mão é feita de massinha?
depois, no dia seguinte, lá vem a ressaca. sempre. adoro minhas dancinhas e gracinhas e loucurinhas. mas no dia seguinte acordo e me pergunto: por que é que você não faz cara de paisagem e permanece fina e permanece intocável? por que é que você não consegue ser difícil, escrota e blasé? adoro que a Grazi apareceu com seu vestido vermelho colante de couro por dez minutos e foi embora. por que é que eu não vou embora?
aí a música começa e quando vou ver já imitei o Michael Jackson, a Madonna e o Tiririca, porque adoro me trair e estragar tudo. e todo mundo ri, mas ninguém me leva a sério. mas será que quero? mas será que alguém leva alguma coisa a sério? eu queria me levar menos a sério. e é isso que faço, quando faço a dança do macaco-galinha-caranguejo pulando cordas. mas no final das contas, acabo chorando no carro depois de ganhar alguns minutos de cafuné no cabelo. qual foi mesmo a última vez que alguém fez carinho em mim sem pedir nada em troca? eu devia ser criança.
um milhão de amigos e chorando sozinha no carro. mas no meu ap de 40 metros quadrados só cabe eu mesma. ainda bem. a coisa que eu menos queria era alguém aqui, agora, me vendo chorar porque não tem ninguém aqui, agora.
e aí o Dom Juan de saias dorme de pijama cor-de-rosa. não peguei ninguém hoje mas ri bastante. e amanhã vou acordar num tremendo mau humor e morrendo de nojo das pessoas que falam “peguei alguém”. e amanhã vou querer acordar depois de dez anos ou há dez anos. e vou querer congelar na vida de agora, que acontece mais do que antes ou depois. e vou querer sair da gaiola da mesmice. e vou me perguntar de novo quando é que o efeito da droga que eu nunca experimentei vai passar. e vou ler esse texto que minha mão de massinha escreveu e querer me esconder ou nas dancinhas de macaco ou no pijama cor-de-rosa. mas vou acabar publicando o que eu nunca deveria ter dito, como sempre.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

um milhão vezes zero é zero. ou seja: não coloque sua intensidade onde não tem nada.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


só que dessa não se morre. mas tudo, menos a angústia, não? quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. e a falta de esperança na esperança. e conformar-se sem se resignar. não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. e então vem o desamparo de se estar vivo. estou falando da angústia mesmo, do mal. porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
30 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Angina Pectoris da Alma pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 9 de setembro de 2012

Baralho

correndo e esperando uma vida de verdade que traga outras verdades pra gente acreditar. de repente você começa a olhar pra quem está constantemente ao seu lado e parece viver com a cabeça a mil milhas longe de você. de um modo ou de outro entendemos que a vida é esse "basear-se em fatos reais" que não tem nada a ver com o que a gente tinha sonhado. as vezes o coração é tão fechado que ele mal sabe dizer o quanto você é importante.
um ser humano de verdade talvez busque um outro que não tenha nada muito parecido com o que se vê a todo tempo. se tudo que um dia a gente combinou for verdade, quem dera por um erro nossas certezas darem certo. tenho pensado que a vida é feita de cartas de baralho e que dá um medo de descartar um valete de coração (copas) e comprar um az de ouros sabe?
verdade mesmo é que eu não sei a que pé estamos ou a que constelação nós fazemos parte só sei que a incerteza de um carinho ou ter que pedir por um beijo vai mostrando que somos um casal de favores, vivemos a mercê de trocas, esperando alguém dar o primeiro passo ou o primeiro deslize. somos casais de ônibus de linha, que se apaixonam só pelo caminho até chegar o ponto em que um dos dois tem que descer. temos a certeza de que estarmos juntos não é uma obrigação, mas que nenhum de nós tem certeza se é realmente certo estarmos juntos, e tenho medo, medo de me entristecer e se decepcionar quanto ao que oferecemos durante esse tempo.
que se for pra ser de mentirinha, eu quero que seja uma mentira que iluda ao menos. se for pra ser de verdade, que exista mais beijos durante essa caminhada, e que se for pra ser de brincadeira, tá na hora de embaralhar as cartas.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


hoje é o primeiro dia que fico só em cerca de 20 dias.
tenho aprendido coisas que ainda estão vagas dentro de mim, mal comecei a elaborá-las. são coisas mais adultas, acho. tem sido bom. amigos cintilam em volta, estendem a mão na hora certa. você vai se enriquecendo em fé.
28 de maio de 1984

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


tudo é uma questão de humor e de atitude: mude. deixe de colocar sua felicidade na mão dos outros.

- Martha Medeiros

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


(06)

preciso contar a vocês que se viram, jantando em uma sexta-feira de céu estrelado na churrascaria Barranco. ele e a namorada, ela e o namorado dela. ambos chegaram a 200 mil batimentos por minuto ao trançar os olhos teimosos em olhar, mas nenhum dos dois lamentou, de alguma forma, estar sentado na mesa errada.

ela ainda lembra dele quando alguém chupa seu dedão do pé. ele se recorda dela toda vez que beberica um drinque com abacaxi e leite condensado. os dois sabem que é perda de tempo tentar esquecer. que sentir saudade não significa que melhoraram como pessoa, que agora magistralmente seus temperamentos são compatíveis e o correto seria viver aquilo tudo de novo, do êxtase à dor.

significa apenas que foi bom, que foi inesquecível. e que qualquer amor que força as cordas vocais a produzirem um eu te amo não tem fim, mesmo acabando sempre do mesmo jeito, dividido por dois.

- Gabito Nunes in O fim (do que não tinha fim)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

que ele tem um rosto que é praticamente um abuso, carregando todos os adjetivos mais belos possíveis.

- Jaya Magalhães

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

o mundo acontece. o mundo gira. as pessoas importantes assinam contratos, ganham dinheiro. as pessoas simples lutam por um lugar na condução, um lugar no mundo. estão todos lutando. estão todos ganhando dinheiro. estão todos fazendo algo mais importante e mais maduro do que suspirar como uma idiota e só pensar em você.

- Tati Bernardi

domingo, 26 de agosto de 2012


deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. e quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. pois o prazer não é de se brincar com ele. ele é nós.
23 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in O Nascimento do prazer (trecho) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 19 de agosto de 2012

24º dia - "de tudo que ele me deu, o melhor foi o pé na bunda." (Tati Bernardi)

a ausência só prova o quanto somos mais fortes sozinhos. desde aquele dia em que você se foi, nunca mais fez sol por aqui e com os dias sem sol a gente aprende muita coisa. aprende que o sol existe sim, mas não vai estar sempre ali pra gente, aprendemos que os dias de chuva e os dias nublados nos fazem crescer muito mais do que a gente esperava. talvez porque na chuva a gente precise de um guarda-chuva e não de um amor. em um dia nublado precisamos de fé, a gente acredita que pode chover ou que possa fazer sol. e nos dias de sol a gente se ilude, só pensa em quanto podia estar mais quente, em quanto podia ser melhor se você tivesse aqui, ou até mesmo em quanto tempo você poderia ficar por aqui, em qualquer canto, ou por enquanto...

- Douglas Lenon

sábado, 18 de agosto de 2012

silêncio, ando obcecado por silêncio. um silêncio que te permita ouvir o ruído do vento. e o bater do coração. e se possível isso que chamamos de Deus, existindo devagarinho em cada coisa. existe sim.
21 de setembro de 1983
 
- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Maria Adelaide Amaral

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

às vezes as pessoas me perguntam: por que os casamentos terminam tão cedo hoje em dia? não terminam mais cedo hoje. é que antes o casal não se separava porque a mulher não tinha como se sustentar, e isso dava a falsa impressão de que eram casais longevos. o casamento acabava, mas o convívio prosseguia. mais do que a separação de corpos, o que pode dar fim a um amor é o distanciamento de percepções: um enxerga o mundo em cores, o outro em preto-e-branco. um percebe a delicadeza e a profundidade de tudo o que existe, o outro não consegue ir além da superfície. pode um casal ser mais desunido do que aquele que, olhando na mesma direção, não consegue enxergar a mesma coisa?
 
- Martha Medeiros in Iolandas e copolas pertencente à obra “Feliz por nada”

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

ele me leva até o quarto pela mão, todo meloso e simpático e convincente. eu sou maleável como a água e nunca consigo manter meu pé firme do chão. a cama, mais revirada do que eu, não me consola. está fedendo a suor, cigarro, vinho choco, porra velha e perfume barato. pra ele está tudo bem, talvez ele precise consultar um otorrinolaringologista, está na cara que ele está com algum problema de olfato. ou é só caradura mesmo. a segunda hipótese não tem tratamento. ele adora minha barriga, tem verdadeiro fascínio pelo meu umbigo. ele vai descendo.

- Gabito Nunes in Um idiota pra chamar de meu

terça-feira, 14 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

que mulher não piraria e não ficaria chata ao lado de um homem cheio de músculos, mas sem nenhuma força para ser um homem melhor? não, eu não queria o homem perfeito que eu idealizei não, eu só queria um homem de verdade. um homem que namora de verdade, que ama de verdade, que tenta de verdade, que encara a vida de verdade, que sofre de verdade, que tem saudade de verdade, que tem dor de verdade, que é humano de verdade.

- Tati Bernardi

domingo, 12 de agosto de 2012

23º dia - "talvez tudo isso seja, quem sabe, um lugar muito próximo da felicidade?" (Caio Fernando Abreu)

você olha em volta e começa a perceber que o amor chegou mas não sabe se realmente é na sua porta que ele anda batendo. talvez hoje não seja o 23º dia sem ele e sim o 1º. se eu pudesse trazer uma praia pro lado da cidade grande, quem dera eu fazer teu coração bater mais forte. de repente a vida nos traz uma escolha que a gente se quer sabia que existia.
saudade de fechar os olhos e sentir teu abraço quentinho, tua respiração próxima ao meu ouvido e teu beijo doce, acordar no meio da manhã e sentir você me puxar com a mão sobre seu peito. só Deus sabe como eu fechei os olhos hoje de manhã e agradeci cada segundo, cada milésimo de segundo perto de você. e eu entendo esse teu jeito quieto, esse teu jeito manso de fazer as coisas com calma e demonstrar nas entrelinhas, eu tenho um mal de pessoas que acreditam no futuro e eu acredito em nós, nós dois.

- Douglas Lenon

sábado, 11 de agosto de 2012


é preciso que você reze por mim. ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.
16 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Mário Quintana e sua Admiradora pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


toma um café, que o mundo acabou faz tempo.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Amigo de si mesmo


em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima. mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana. mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: "perguntas-me qual foi meu maior progresso? comecei a ser amigo de mim mesmo".

como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. a primeira aliada da camaradagem é a humildade. jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível. encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? e chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. e aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: "para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza". é uma frase genial. o bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? ora. faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. não troque sua paz por encenação. não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto "ser amigo de si mesmo".

por fim, pare de pensar. é o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha "sou rebelde porque o mundo quis assim". sem essa. o mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. salve-se dos seus traumas de infância. quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

- Martha Medeiros in Feliz por nada

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

eu sei que as pessoas vão me pedir cuidado. assim me guiei por uma vida toda e foi exatamente isso que hoje me faz uma pessoa contando uma história de amor sem nunca ter protagonizado uma. de um jeito ou de outro, sempre soube que pegar leve era uma forma de me manter todas as minhas metades comigo mesma, até então sem saber pra quê servia isso.

- Gabito Nunes in Apego

terça-feira, 7 de agosto de 2012


independência nada mais é do que ter poder de escolha. conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. independência não é sinônimo de solidão. é sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero e porque quero.

- Martha Medeiros in A mulher independente pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

22º dia - "é duro ter apenas duas alternativas (ficar ou ir embora) e ambas serem terríveis." (Martha Medeiros)

e se fosse tudo um sonho e na verdade você nem tivesse ido embora, que na verdade eu era quem estava em coma e nem percebeu que dormi esse tempo todo com você do meu lado. Deus vai escrevendo nas nossa linhas e a gente vai rabiscando por cima, colocando aqueles post-its de provas sabe? escrevendo em cima "rever essa parte" ou "não vai cair na prova". a vida é um tremendo livro cheio de post-it. nós queremos mudar tudo, mas sempre que a gente faz algo errado, a gente volta para aquela página e coloca um post-it dizendo "repensar", aliás não usamos essa palavra, mas é como se fosse um exame de consciência feito justamente pra gente não errar, ou pra gente errar de novo. chamamos isso de "liberdade de expressão" que a gente usa bastante mas não sabe pra que serve. hoje acho que a gente usa essas alternativas do livro da vida pra escolher entre as opções: ir ou ficar. a gente sempre fica na vida de quem a gente acrescenta algo e a gente sempre vai acrescentando nas pessoas aquilo que a gente queria acrescentar na gente mesmo ficando com elas, ou ficando pra elas.

- Douglas Lenon

sábado, 4 de agosto de 2012

eu sou uma pequena voz em meio a tantas pessoas que sofrem. Deus, eu sei, eu sei, são tantos e maiores os sofrimentos mas, por favor, não deixe de me dar força, me dar força para que pelo menos, ainda que pequena e com vontade de queimar, eu continue ao menos acendendo o meu fogo e fazendo parte da expectativa. eu sou um fio de esperança, um fio de alegria, um fio de amor.

- Tati Bernardi

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

um nome para o que eu sou, importa muito pouco. importa o que eu gostaria de ser.
02 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in O que eu queria ter sido pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. e não darei. não é mais possível. não vou me alimentar de ilusões. prefiro reconhecer com o máximo de tranquilidade possível que estou só do que ficar a mercê de visitas adiadas, encontros transferidos. no plano REAL: que história é essa? no que depende de mim, estou disposto & aberto. perguntei a ele como se sentia. que me dissesse. que eu tomaria o silêncio como um não e ficaria também em silêncio. acho que fiz bem.

não só em relação a ele, mas a muitas outras coisas, quero que daqui pra frente a vida seja hoje. a vida não é adiável. Marilene sempre soube disso, foi nisso que pensou ao deixar o Índio. anyway, me dói a possibilidade de um não, me dói a possibilidade de um silêncio, me dói não saber de que forma chegar a ele, sacudi-lo, dizer me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa? bueno, os dados estão lançados, e agora só me resta lavar as mãos sujas do sangue das canções.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

na ânsia, nossos relacionamentos andam modernos demais, revolucionários demais, experimentais demais, como um filme francês meio nonsense, executado do fim ao início, cuja grande inovação é não ter roteiro nenhum por trás de uma profunda tristeza de seus personagens perdidos, sem saber exatamente qual lente mirar, em que momento, qual o plano, qual o foco. a fotografia denota nosso daltonismo afetivo: enxergamos o amor cor-de-rosa através da câmera, quando na realidade ele é roxo-escuro. como um hematoma.

- Gabito Nunes in Contratempo

segunda-feira, 30 de julho de 2012


e tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. é pra mim mesmo.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

domingo, 29 de julho de 2012

21º dia - "venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim." (Caio Fernando Abreu)

e de repente a gente conta até dois mil quatrocentos e cinquenta e sete, e mesmo assim o mundo parece não parar de girar pra gente sofrer um pouquinho que for. você vai olhando para as paredes e começa a desenhar toda a falta que alguém faz, que alguém anda fazendo. para no meio do quarto e olha embaixo da cama procurando aquele chinelo, que a gente chama de: pessoa que foi embora antes de ser alguma coisa. tenho vontade mesmo de dizer que tudo não passou de um sonho e que a gente ama pra valer mesmo é no aconchego do abraço do outro. os dias parecem chuvosos dentro de nós mesmos, porque o tempo é bom, ah como o tempo é bom. como o tempo cura, lava, seca e estende a gente, parece até máquina de lavar e a gente aquela roupa suja sabe? fim de relacionamento é isso: uma roupa suja que a gente adia muito pra poder lavar.
gostoso mesmo é essa saudade que diz que por mais que a gente esteja longe, os dias correm pra te buscar e te trazer de volta pra mim.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 23 de julho de 2012


internet, cinema, novelas, revistas, livros, música: tudo nos conduz a pensar que a vida não tem o menor sentido se a gente não sentir prazer 25 horas por dia. e onde se esconde esse tal de prazer? se você procurá-lo num casamento, estará renunciando às alternativas. se, ao contrário, passar em revista todo homem ou mulher que lhe der um sorriso promissor, tampouco terá garantia de encontrar o que procura. o que é que a gente procura? a tal festa no outro apartamento, a tal grama mais verde do vizinho, o tal êxtase que parece estar sempre na outra margem do rio.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

sábado, 21 de julho de 2012

as cartas que escrevi pra acabar com ele mandei só pra mim. deve ser por isso que estou acabada.

- Tati Bernardi