terça-feira, 31 de janeiro de 2012

10º dia - "com carinho e muita sutileza (porque vontade mesmo eu tenho é de gritar)" (Martha Medeiros)


nesse início de aulas, volta ao trabalho eu andei escrevendo uma carta pra te enviar mas nem sabia se você iria receber, afinal cartas ao vento não tem destino certo, não é verdade? na carta eu não queria dizer muitas coisas. impulso foi um dos fatores que me fizeram escrevê-la porque eu sinto muita falta de você. chego a sentir raiva de tanta falta que você me faz. ando desperdiçando sorrisos por aí, sorrisos que seriam pra você se você tivesse aqui, risadas que você ouvira se tivesse aqui, carinhos que você sentiria... uma porção de afetos que você sentiria se estivesse aqui. me disseram que saudade a gente deixa dentro de uma caixa a prova de som, igual a caixa de Pandora, que a gente abre e depois não consegue colocar dentro de volta depois, porque tudo na verdade é uma metáfora, a caixa é só um sinônimo de coração.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

desejou que ele estivesse logo de volta, para dizer coisas sem sentido, para se mexer, para ferir e ferir-se, para sorrir de lado, esfregar as mãos, fazendo estalar as juntas dos dedos, uma saudade prévia, para ficar perto e fazê-lo rir de susto, de prazer, de.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sábado, 28 de janeiro de 2012

certo? se está bom pra você, dá um chute. se não, dois. e pode apostar, vamos amar você infinitamente mais e melhor do que a gente já se amou um dia. como assim, quanto é infinito? infinito é infinito. é tudo. é pra sempre. é sem fim. é uma coisa que não dá contar nos dedos. nem na calculadora? não, nem na calculadora, filho.

- Gabito Nunes in Amor sem fim

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

nem nos olhamos, mal trocamos palavras, nem sei o nome dele, só o apelido. mas eu gosto quando ele chuta sem querer a minha cadeira, no meio de uma reunião chata, e pede desculpas. desculpa, e fala meu nome. eu gosto de sentir os poucos centímetros que o pé dele causa no espaço entre a rodinha da cadeira e o meu corpo. gosto de mudar de lugar no mundo por sua distração. eu gosto que o chute é seco e decidido. e curto. e daqui a pouco mais um pouco. e desculpa, e fala meu nome.

- Tati Bernardi

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando chorar


há um tipo de choro bom e há outro ruim. o ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. só esgotam e exaurem. uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com angústia da fome. era. quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar! é melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. é difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

mas nem sempre é necessário tornar-se forte. temos que respeitar a nossa fraqueza. então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. elas correm devagar e quando passam pelos lábios, sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

homem chorar comove. ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. respeito muito o homem que chora. eu já vi homem chorar.
25 de novembro de 1967

- Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

porque viver é ser. e eu sou, meu Deus do céu, eu sou. meio desajeitada, meio apressada, meio abusada, mas sou.

- Fernanda Mello

sábado, 21 de janeiro de 2012

não se preocupe comigo, não irei além destas palavras. fique com o que é seu, com o que restou dele e de mim, esse vazio que não me serve, mas que talvez sirva para ocupar seus dias.

- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu posso ser muito do que você acha e posso ser menos do que você espera


bem-vindo ao ensino médio, é uma merda, mas você vai adorar. certo que a gente se conheceu num desses pagodes — desses poucos pagodes que eu já fui, deixando claro isso — e foi meio que um pré-conhecimento, mal sabia eu que seriamos tão amigos do começo do ensino médio.. até hoje no começo da faculdade.
lembro quando éramos em cinco, você deve lembrar dos 5 inseparáveis amigos do primeiro ano. acho que sempre tivemos um contato mais forte, talvez pela troca de informações e por gostarmos de muitas coisas em comum. naquele ano eu não sabia ainda se eu tava em algum lugar que eu me pertencia, e acabei achando que sim, talvez se eu não tivesse ficado sem estudar um ano, eu não teria uma boa história pra contar.
no segundo ano, caralho! eu não esqueço quando você chegou e disse "piáááá tamo na mesma sala louco! eu olhei meu nome e logo depois fui ver se você tava também." parece uma simples frase, mas significou tanto pra mim. depois disso eu comecei a me acostumar a ter alguém pra contar sobre o que vai acontecer, falar sobre coisas bobas, e inventar até alguns bordões do tipo: "aiiin, esse piá, esse piá é bobo, bobo esse piá". será que na minha nova sala, ou nessa nova fase vai ter alguém assim?
eu vou chorar quando a gente não se ver mais porque eu sempre fui o mais forte de nós dois, eu nunca se quer me emocionei na sua frente pra não parecer fraco demais. eu nunca se quer disse o quanto você me ajudou nesses anos, me ajudou a entender o que é um amigo de verdade. eu quero dizer que o mundo, o mundo não é dos loucos não. o mundo é nosso.
eu não queria que você soubesse que as pessoas vão te machucar, mas você deve ter alguma noção disso. eu não queria falar de sentimentos porque eu quero que você seja feliz, meu amigo. quero que você seja tão mais feliz, tão mais amigo, tão mais, como você sempre foi. não tenho palavras pra dizer o quanto as nossas manhãs por mais tediosas e complicadas que fossem, foram as melhores manhãs que eu tive. talvez eu seja muito menos daquilo que você acha que eu seja, talvez eu seja muito mais.
foram os três anos mais complicados da minha vida, assim posso dizer porque eu aprendi muito, porque eu ensinei muito. eu nunca me lamentei pra você, eu nunca chorei por não ter dado certo algo que eu tenha tentado, não sou o tipo de pessoa que se orgulha de ser assim um pouco frio no dia-a-dia, de ser um pouco sincero, de me perder, mas ainda sim me encontrando. daqui alguns anos acho que a gente nem vai se ver mais, se nos vermos vai ser raro o contato, a gente vai prometer se encontrar todos os meses, e então nossos novos amigos vão começar a ocupar os dias que eram pra ser lembrados. mas espero que fique guardado dentro da mente ou do coração, todas as brincadeiras, todos estresses, todas as alegrias, as risadas, tudo que a gente passou junto. eu espero que tudo se realize pra você. tudo que você sonhou. porque sempre que eu leio aquela frase do Caio: "depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. guardei a minha no bolso. e fui." sempre que eu leio essa frase, eu lembro de você. e pra que você entenda tudo isso, eu queria dizer que.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

não, não, o mundo não me agrada. a maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. e o amor, em vez de dar, exige. e quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. mentir dá remorso. e não mentir é um dom que o mundo não merece.
14 de outubro de 1967

- Clarice Lispector in Dies Irae pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

está tudo bem, tudo zen. - soltou os dedos, desviou os olhos, acendeu um cigarro. - só quero que você se sinta bem, meu bem.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

(...) a cama, o coração, a vida, tá tudo arrumado. falta só alguém capaz de desarrumar.

- Gabito Nunes in A mulher que tinha tudo no lugar (A manhã seguinte sempre chega)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Eu não sei voar


ela pisou sem dó no meu meio sorriso, fazendo ele virar um pavor inteiro e verdadeiro.
eu canso dos meus meio sorrisos tanto, tanto, que prefiro que a vida seja assim mesmo. e aí me pergunto se chorei de tristeza profunda ou alegria libertadora, o que acaba dando no mesmo porque minha profundidade me liberta.
a barata preta, enorme e voadora posou no canto da minha boca. e eu pude chorar todos os meus medos no seu sofá e eu pude ficar curvada do jeito que a minha sombra, que só eu vejo, é. e eu pude borrar todos os meus disfarces e ficar feia sem culpa, porque a dor consegue ser sempre maior do que qualquer culpa, por isso o meu vício em sofrer.
eu chorei a nossa imperfeição, eu chorei a saudade enganada da nossa perfeição, eu chorei a nossa necessidade de não se largar, eu chorei a nossa necessidade de se largar, a nossa necessidade de fugir do mundo em nós e a nossa necessidade de fugir de nós encontrando amigos.
eu chorei o nosso ego que sempre tem respostas para tudo e não pode perder, chorei o nosso silêncio cansado de perguntas e desprovido de interesses, a pobreza do mundo que nos impossibilita de sermos felizes sem culpa, a falta de simplicidade que eu tenho para ser feliz e eu chorei o espaço da nossa alma que ainda falta evoluir.
eu chorei o nosso medo de não sermos o que sonhamos. eu chorei o medo que eu tenho de não ser quem você quer e o medo que eu tenho de ser exatamente o que você quer.
eu chorei porque precisava de colo, porque precisava te mostrar a minha fragilidade escondida no meu mau-humor. eu chorei de birra do meu lado homem.
eu chorei porque vez ou outra ele ainda bate na minha porta e eu o deixo entrar, e eu sei que isso é medo do tanto que você habita todos os lugares.
eu chorei porque eu te amo mas eu não sei amar. eu chorei porque eu sempre canso de tudo e tudo sempre cansa de mim. chorei de cansaço profundo de sempre cansar de tudo e tudo sempre cansar de mim. chorei de apego ao cheiro do novo e principalmente de melancolia pelo cheiro do velho. e chorei porque tudo envelhece com novos cheiros e a vida nunca volta. eu chorei de pavor da rotina, de pavor do fim, de pavor de sair da rotina e começar outros fins.
eu chorei meu medo de submissão, o meu medo de vomitar, o meu medo de me mostrar pra você tanto, tanto, e não ter mais o que mostrar. eu chorei minha infinidade de coisas e o medo de você não querer abrir os mais de um milhão de baús que existem escondidos na caixa cerrada que eu guardo embaixo do meu peito. eu chorei meu fim e o medo do meu infinito.
e eu teria chorado cinco anos se você não me dissesse que já era hora de parar. e eu chorei depois cinco anos escondida, porque eu não sei a hora de parar e não quero que ninguém me diga.
aliás, eu quero sim. eu quero que você me diga quando for a hora de parar, de continuar e de não pensar em nada disso.
eu quero que você me acorde com uma lista de horas e outras lista de anos e outra lista de encarnações. eu quero que você me dê a mão e me ensine o que é um relacionamento porque eu só sei andar de quatro, cheirando xixis nas ruas e rabos alheios.
eu quero que você me ensine a ser uma mulher para você.
ao mesmo tempo eu quero que você suma porque eu só quero ser uma mulher para mim. eu me quero só para mim.
era minha a dor de ser solitariamente para mim. e você a substituiu pela dor de não querer mais ser solitariamente só para mim. mas tudo é dor afinal, e eu não sei ser leve, eu não sei voar, mas a barata que vôou para o canto da minha boca, sabe.
eu carrego o esgoto no meu ventre negro, mas não sei voar como ela. por isso ela ainda consegue ser melhor do que eu.
e com todos os meus poderes para estragar a vida de alguém, eu ainda tenho medo da barata.
porque ela sabe ser misteriosa, ela sabe incomodar sem abrir a boca, ela sabe enojar o mundo com sua meleca branca sem ter que mostrá-la a ninguém.
ela é muito mais misteriosa do que eu.
em comum temos as chineladas do mundo e todos os seres amedrontados que querem acabar com a nossa raça. mas o poder dela ainda é muito maior do que o meu, porque ela não ama, ela não se sente traída pelas chineladas do mundo.
ela não sabe o que é não entender nada desse mundo e ter medo do tempo. ela não sabe o que é ter nas mãos o poder de construir e destruir e ter tanto medo desse poder.
ela vive no esgoto e não sabe o que é ter tanto medo dele.
ela aparece sem ser desejada e não sabe o medo que não ser desejada causa.
ela é uma barata e nunca vai saber o medo que a gente sente de se sentir uma.
e eu chorei tanto que finalmente transformei meu meio canto de boca num bico inteiro. e chorei porque tenho tanto medo de tudo o que é inteiro, que prefiro viver tudo na cabeça, enquanto o corpo relaxa na minha cama, longe de tudo.
eu deito na minha cama e imagino tudo o que pode acontecer, enquanto não toco de verdade na vida para não cansar demais e depois não ter forças para viver de verdade. mas acabo dormindo e deixo pra depois.
mas eu chorei justamente porque descobri que viver na cabeça também é um tipo de coragem, porque eu não protejo a alma de feridas e nem de descanso.
mas aí ela, preta, imunda, nojenta, indesejada, um pedaço do esgoto, vôa em minha direção e me coloca em movimento. e eu corro pra bem longe e não penso, só corro.
e isso é tão diferente para mim, estar em movimento de fora para dentro, que eu choro de emoção.
eu não pensei, eu vivi. eu corri dela, eu vivi o medo. eu vivi o nojo. e eu chorei de dor de sair da minha bolha interna.
ela me fez ter vontade de gritar para o mundo nojento para que ele deixe meu coração em paz. meu coração que quer amar em paz e esquecer que a vida pode ser nojenta.
e eu corri de tudo o que é nojento, e eu chorei porque com tantas coisas lindas me acontecendo, eu precisei de uma barata para me lembrar de sentir a vida fora da minha bolha.
ela perfurou minha proteção e saiu da minha rotina. ela invadiu tudo e me lembrou que as coisas podem dar erradas sim, quando se menos espera, e não adianta nada estar com o chinelo preparado na mão para se defender da vida.
a vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. a não ser lavar o rosto e começar tudo de novo.

- Tati Bernardi

domingo, 15 de janeiro de 2012

o amor percorre territórios devastados da alma com a calma necessária para reflorestar um a um. dissolve neblinas. revela o sol. destece máscaras. reinaugura a humildade. faz ventar. faz chorar. faz sorrir.

- Ana Jácomo

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista.

- Martha Medeiros in A massacrante felicidade dos outros

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

12 de janeiro de 1993: 19 anos


o tempo não para não é verdade? faz 19 anos que estou entre vocês. e olha que faz 19 anos mesmo porque eu nasci as 10:30 da manhã, minha mãe disse que fiz ela sofrer a madrugada inteira. mas ela me ama mesmo assim, aquela linda! vamos pra um questionário sobre mim, o que não é tão importante para os leitores é claro, mas que assim eu me autoconheço nesse dia que eu julgo ser meu.
Quando eu me apaixonei e descobri que estava apaixonado? não tem um dia, ou uma hora especifica que isso acontece e de repente você está apaixonado. tem todo um processo de você querer ver a pessoa a todo momento, de você querer largar tudo por alguém. eu me apaixonei de verdade nos meus 16 anos, acho que posso julgar como uma paixão justamente porque parecia importar tanto. medo, rancor, pena, tristeza, alegria, tudo vai vir com o tempo dentro de relacionamentos que não deram certo.
Do que eu sinto mais falta? de paz, de quando a gente fechava os olhos e se sentia protegido. de todos os 19 anos que passaram, eu sinto falta dos meus 10 anos de idade. naquela época eu acho que as coisas eram tão mais fáceis, aprender era tão fácil, esquecer dava menos trabalho. as pessoas pareciam querer mais o nosso bem do que o nosso mal. hoje em dia é difícil alguém saber que precisamos daquele bem. daquele querer bem.
De quem eu sinto falta? do meu pai. com o tempo as pessoas dizem que a gente vai aprendendo a viver sem. eu queria aprender sabe? porque ela tá em todo lugar. quando eu passo na porta do quarto que era dele e da minha mãe, o lugar onde ele faleceu e lembro de como era bom ter ele por perto e do quanto eu precisava dizer que ele é importante. porque não era importante, é... importante. já se passou meio ano, faz tempo. faz muito tempo e parece que passaram décadas, saudade dói. e ter a certeza de que não tem volta causa menos ilusão e muito mais dor.
Esse ano, qual a maior expectativa? creio que seja estar numa faculdade. expectativa grande mesmo. comecei a fazer mil coisas, academia e tudo mais. são coisas que eu nem imaginava que um dia pudessem acontecer.
o mais legal de fazer aniversário no começo do ano é que você tem o ano inteiro pra desfrutar desse novo ciclo, o ciclo acaba junto com o ano velho. e tem coisas na vida que levamos no coração, outras a gente pode enterrar no passado.

- Douglas Lenon

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

eu te quero branca e você está negra. eu te quero inteira e você está esmiuçada em pedaços de amor quebrado. eu te quero vem, vem, vem e você está tão vai, vai, vai.

- Tati Bernardi

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mas vou esperar. vou esperar comendo com delicadeza e recato e avidez controlada cada mínima migalha de tudo, quero tudo pois nada é bom demais para a minha morte que é a minha vida tão eterna que hoje mesmo ela já existe e já é.
23 de setembro de 1967

- Clarice Lispector in Primavera ao correr da máquina pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

— você sente falta, não é? você sente muita falta dele?
zero hora, trinta e dois minutos, doze graus, zero hora, trinta e três minutos, doze graus, zero hora, trinta e.
— sinto, às vezes. sinto muita falta.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012


um dia, sério mesmo, quero gostar tanto de uma garota como eu gosto de, sei lá, de "Come As You Are" do Nirvana ou de sashimi de atum, de vinho do Porto ou das cartas do Burroughs. quem sabe eu até vá a casamentos de colegas, chás de avós e campeonatos de xadrez de afilhados. ou então serei sempre essa causa perdida. num dia eu acordo e sou só um alguém entediado, e no outro somos duas pessoas numa confusão sem tamanho. não sei salvar ninguém. mas, como dar uma de herói quando o crime a combater é você mesmo?

- Gabito Nunes in Anti-heroi

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

a gente tem fome de vida, de tudo, luta contra a morte o tempo inteiro e esquece que provavelmente o amor é maior que as duas coisas juntas.

- Gabito Nunes

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

olho o céu com paciência. o azul não me cansa. uma ave voando não significa que está partindo. uma ave voando pode estar regressando...

- Fabrício Carpinejar

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Homem de qual sonhos?


começando de novo, novinho em folha. queria um ano sem muito sensacionalismo, um ano mais cheio de emoções do que tradições. me apaixonar não faz parte do que eu peço pra esse ano. viajar talvez seja a solução pra todos os problemas, nesse momento, é claro.
se você começa o ano na praia e de fato começa a andar no calçadão, logo vem na sua mente: vai aparecer um cara com um sorriso perfeito, um corpo de parar o trânsito, um olhar de congelar e o melhor, é lógico que ele vai esbarrar em mim e vai me dar oi, e vai dizer uma sequência de coisas. não se contentando ele vai me levar em um desses quiosques que vendem água de cocô e perguntar se eu quero um e vai dizer que fica por conta dele, depois vamos caminhar e ele vai pedir meu telefone e a gente vai se encontrar no dia seguinte pra conhecer as outras praias da região e então chega o mais esperado beijo de tirar o fôlego. passado esse momento de lucidez, você acorda na sua casinha humilde de frente pra avenida menos movimentada que possa existir no universo.
cansei de sonhar, acho que de tanto sonhar posso começar a escrever um roteiro pra novela das seis, aliás, eu e mais de 50% da população mundial. a gente fantasia o cara, o emprego e os filhos dos sonhos, e realmente é só fantasia – nada sexual, digasse de passagem.
nesses momentos que bate a lucidez é que devemos pensar que o cara sarado não tem um número de telefone pra ligar quando bate a carência, ele tem 6, 12 números. e você tem quantos? não, o do melhor amigo não vale. existe muitos outros caras legais por aí, e posso dizer que nos sarados geralmente encontramos decepções.
nós assim, desse jeitinho do bem de ser, temos poucas opções e as vezes nem opções temos. depois de um tempo você começa a não mais reparar naquele tanquinho, naquele braço forte, mas sim naquele cheiro, no sorriso. homem dos sonhos ficou no ano passado, esse ano eu quero o homem da minha vida mesmo.

- Douglas Lenon

domingo, 1 de janeiro de 2012

a vontade de gostar dele volta tão forte e assustadora que torço para ele falar uma besteira grosseira. ele me abraça e volta a me beijar. fico no colo dele um tempo. ele me olha, olha, eu comento que nunca fiquei tão mole em toda a minha vida, querendo dizer o quanto ele me dava tesão, emoção, o quanto ele tinha poder sobre mim. o quanto eu era frágil ali no colo dele. ele sorri, me dando uma beliscadinha cafajeste na bunda: "e eu nunca fiquei tão duro em toda a minha vida".

- Tati Bernardi