terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando chorar


há um tipo de choro bom e há outro ruim. o ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. só esgotam e exaurem. uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com angústia da fome. era. quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar! é melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. é difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

mas nem sempre é necessário tornar-se forte. temos que respeitar a nossa fraqueza. então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. elas correm devagar e quando passam pelos lábios, sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

homem chorar comove. ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. respeito muito o homem que chora. eu já vi homem chorar.
25 de novembro de 1967

- Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo

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