quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma pequena história de terror

quando me pediram pra contar uma história de terror, dessas que assustam as crianças e deixam elas um pouco inseguras, eu demorei muito pra pensar em uma boa história, ou uma história ruim no caso. então comecei a contar a nossa históra. foi tão engraçado, tão diferente que as pessoas começaram a rir sem entender porque eu contava aquela história. o que eles não sabiam é que aquela era a minha história, porém contextualizada pra amenizar a dor, pra não ser sensacionalista. e fiz comentários ainda por cima, me mostrando narrador e protagonista.
era mais ou menos num reino distante onde um príncipe esqueceu que era príncipe, na verdade ele não esqueceu, ele veio esquecendo. ele tinha um coração que poucas pessoas conseguiam enxergar (existem pessoas que enxergamos o coração porque é compátivel com a nossa sede de amor), os dias foram se passando, e ele parou de me trazer flores, até que um dia ele parou de querer me levar pra outros lugares, e gradativamente o coração ia desaparecendo, e eu nem sabia mais se o que tinha desaparecido era o amor, ou se era ele mesmo, o príncipe, o que se dizia príncipe no caso.
o tempo foi passando e com ele veio à tona as diferenças, o desapego, a falta de consideração (se tiverem tempo peguem um dicionário e leiam o que diz essa palavra: "consideração" o significado dela entrou em desuso), o que era mais importante, se tornou banal, e o amor não se constrói de banalidades, mas sim de compreensões, de cumplicidade sabe? (ta aí, outra palavra pra você buscar no dicionário: "cumplicidade"). engraçado que todas essas palavras começam com C, a mesma letra que começa a palavra "coração". o que eu via tanto e acabou sumindo tão rápido.
a moral da história é que a gente só sabe cuidar do outro, se cuidar-mos de nós mesmos, nós podemos abraçar o mundo, viver pra centenas de pessoas, sorrir todos os dias das nossas vidas, porém uma coisa é certa, a gente só cuida de quem a gente ama, se nós vemos esse alguém na gente, e ver alguém em nós mesmos, vai dizer se não dá vontade de cuidar da gente?

- Douglas Lenon

terça-feira, 29 de maio de 2012

eu só te peço uma coisa: pare de culpar a vida. pare de ter pena de você. se assuma. se aceite. se culpe. se estrepe. se mate. mas se perdoe. pelo amor de Deus, se perdoe. somos todos culpados, se quisermos. somos todos felizes, se deixarmos.

- Fernanda Mello

segunda-feira, 28 de maio de 2012

na sua varanda sem céu, certa vez, você se sentou naquela cadeira sem fundo. me colocou no seu colo e me deu o abraço que disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. e me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu tinha subido todos os seus andares. eu entendi que você era o homem da cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum tipo de chave que se autodestruiria em poucos segundos. e eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo.

- Tati Bernardi

domingo, 27 de maio de 2012

São Paulo, 12 de agosto de 1987

querida mãe, querido pai,
não sei mais conviver com as pessoas. tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. tenho vivido tão só durante tantos — quase 40 — anos. devo estar acostumado.

dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês — que é muito delicado. e também de não perturbar o meu próprio equilíbrio — que é tão ou mais delicado.

estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. e que só sabe escrever. não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". gosto de mim. acho que é o destino dos escritores. e tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. uma pessoa que escreve sobre a vida — como quem olha de uma janela — mas não consegue vivê-la.

amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. o que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. por trás disso, há muito amor. amor louco — todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado — nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. mas amor de verdade. perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. é muito difícil ficar adulto. amo vocês, seu filho,
Caio

- Caio Fernando Abreu in "Cartas" à Nair e Zaél Abreu

sábado, 26 de maio de 2012

há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça.
06 de abril de 1968

- Clarice Lispector in Estado de graça - Trecho pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sexta-feira, 25 de maio de 2012

se eu tivesse que fugir da minha vida seria pra tua casa.

- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer

quinta-feira, 24 de maio de 2012

não importa quando as encontramos no nosso caminho. parece que estão na nossa vida desde sempre e que mesmo depois dela permanecerão conosco.

- Ana Jácomo

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eu só me cansei, entende?

eu só me cansei, entende? entende o que é se cansar? o que é não conseguir mais continuar e ter que simplesmente parar um pouco. não dá pra eu sofrer mais com você, pra alimentar tudo que podia ter sido, não dá pra continuar persistindo. eu tenho fé ainda, eu acredito que a gente pode ser muito pra alguém, que não precisa continuar alimentando esse fluxo de resposta, de coração machucado, de dias perdidos e dizer que é amor.
não consigo chegar em casa e dizer que eu preciso de você pra ser feliz, porque eu não preciso. eu preciso me apoiar em você, e é só isso. eu não quero tentar me apaixonar e te machucar todos os dias e me machucar todos os dias, e a gente pedir perdão e voltar tudo ao normal depois de três dias em abstinência. eu não quero um amor desses, que fica exposto na vitrine só pra dizer que a gente ama sim, e que o coração ali dentro: sangra, mas a gente ama pra fazer parte da roda. e eu não quero mais algo desse tipo.
quando vejo esses casais nas ruas dando um beijo porque estão no meio da rua e precisam mostrar para as pessoas que eles se amam, eu acho tão fraco. acho tão sem autoestima, tão sem autoconfiança e todos esses autos que as pessoas não conseguem alcançar, sabe? bom mesmo são esses amores de manhã cedo, que faz um bem, que cuidam da gente e abraçam a gente em casa, e na rua. é desse amor que eu estou falando, desse amor que não precisa de resposta pra dizer que é amor. que não precisa se esconder pra saber que é amor.
eu te quero feliz, mesmo você pensando que tudo isso é uma forma de te machucar, e não é. não quero que pareça triste pra você eu ter que partir, não demos certo e temos que encarar isso. eu me apoiei em você, você se apoiou em mim e isso não é amor. nós cuidamos um do outro, cuidamos da dor do outro. se ficarmos juntos vamos ter uma nova dor, uma dor nossa, que vai persistir e não vai existir outra pessoa que cure essa outra dor. dor que é só nossa, que só nós podemos curar. é hora de apoiar na gente mesmo agora, hora de curar, curar de verdade, todas aquelas feridas que os antigos amores – supostos amores – deixaram em nós.

- Douglas Lenon

domingo, 20 de maio de 2012

hoje eu estou decidindo não sofrer mais por você. você, que sempre odiou os caras que surgiam na minha vida porque não eram bons o suficiente pra mim (e eu sempre acabava descobrindo que você estava com a razão); você, que me protege e me aconselha como um melhor amigo deve fazer sem esperar nada em troca. e que jamais me negou companhia, mesmo morando longe demais pra me ver. seria injusto sofrer por você, porque isso só me afastaria. e nós não podemos mais viver sem nossa cumplicidade. então hoje eu vou ser mais presente e menos ciumenta. vou dizer a verdade quando você perguntar o que eu acho do que você pretende fazer pra surpreender sua namorada. e ainda que você tenha a fórmula perfeita do que eu procuro, vou me conformar de não ter sido a primeira a encontrar.

- Verônica H.

sábado, 19 de maio de 2012

tenho medo de que tudo seja uma mentira e de verdade sinto que é, mas ainda acordo feliz todos os dias esperando que ao menos você seja verdade.

- Tati Bernardi

sexta-feira, 18 de maio de 2012

— resolveu aceitar aquele chá, Santiago?
— eu não me chamo Santiago - ele disse.
não afastou o corpo para que o outro entrasse. mas ele entrou. fechou a porta às suas costas. estendeu as duas mãos. tocou-o nos ombros. de frente.
— eu também não me chamo Pérsio. portanto não nos conhecemos. o que é que você quer?
ele sorriu. estendeu as mãos, tocou-o também. vontade de pedir silêncio. porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo:
— quero ficar com você.
provaram um do outro no colo da manhã.
e viram que isso era bom.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

quarta-feira, 16 de maio de 2012

mais ou menos é optar pela sobriedade da desilusão, é abandonar a alienação, é abdicar de trombar prazeres e perigos em esquinas, é se esquivar de ser a pista para um avião em pouso de emergência, é descer do trem e dormir agarrado no pilar da estação. te quero acreditando de novo ou ameaçando pular do quinto andar. caminhando nas nuvens ou perdendo o chão. te quero com gosto de kiwi, de boldo, de anchovas ou de leite condensado, de soro fisiológico não.

- Gabito Nunes in Mais ou menos

terça-feira, 15 de maio de 2012

me enxergue com olhos novos também e vamos tornar real o que em nós sempre foi uma fraude, o amor.
- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer

segunda-feira, 14 de maio de 2012

a vida, fosse o que fosse era agora, a vida era já, a vida era aqui, e o aqui e o já e o agora não passavam de uma vontade de chorar sem lágrimas, de vomitar sem náusea, de trepar sem sexo, tantos versos, tantos planos ficados para trás, só os dias rodando sem parar, o de ontem gerando o de amanhã, (…)

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

domingo, 13 de maio de 2012

Minha pequeninha, minha mamãe

quem disse que a mulher mais perfeita do mundo não existe é porque não conheceu minha mãe. ter que crescer e bater asas pra outro lugar faz com que eu me sinta tão culpado em deixá-la, não que eu vá esquecê-la mas que uma hora ou outra eu vou ter que fazer isso. minha mãe é a maior joia que eu tenho, a melhor pessoa do mundo se resumi no único ser que conforta todas nossas dores, que se importa, que se preocupa, que entende, que perdoa, que cuida, que aconselha, que conforta, que acima de tudo isso - que ama.
junto dela a gente vê a simplicidade nas mínimas coisas, até mesmo quando ela fala aquela palavra difícil errado, quando trava a língua dela, e você começa a dar risada deixando ela sem graça, você se pega imaginando que esse é o lado bom da vida. que o coração mais puro vive dentro da sua casa, que deu a luz por você, te coloca em um pedestal todos os dias da sua vida.
não gosto de generalizar as coisas porque sei que existem mães que nem mereciam um dia desses, mas a minha mãe, é diferente, ser mãe não é o ato de ter um filho - de gerar uma vida. ser mãe vai além das expectativas de qualquer estatística, ser mãe é dar a outra metade que sobra do pão pro filho que ainda sente fome, é abrir mão de um futuro propício a ela e deixar que o filho escolha seu caminho e capacite-o para seguir em frente.
quando penso que um dia vai chegar minha hora de ter uma criança nas minhas responsabilidades, não sei o que pensar, melhor que minha mãe, nem uma cópia dela. mas se ao menos fazer com que ela sinta orgulho de ser avó e fazer com que eu consiga retribuir ao menos metade de todo o amor, de todo o carinho, de tudo que ela me deu, eu vou ser inesplicavelmente feliz.
olhar pra frente é o reflexo de tudo que você fez por mim, mãe. eu aprendi a não desistir com você, aprendi a persistir. aprendi que não adianta sofrer pelo que não vai acontecer, e sim que temos que aproveitar tudo que temos agora. aprendi que amor não é só falar "eu te amo", é deixar a comida no prato só pra eu esquentar e não ir dormir com fome. aprendi que quando você dizia que não, não era porque não gostava de mim, mas porque ia doer demais me ver sofrer.
peço desculpas mãe pelas vezes que não deu certo, que eu errei com você, que acabei falhando sem querer falhar contigo, eu amo você minha pequenininha e isso é o mais importante que eu tenho pra te oferecer.

- Douglas Lenon

quinta-feira, 10 de maio de 2012

em algumas circunstâncias, eu disse para mim mesma, toda feliz: "é desta vez". disse para logo em seguida, meio sem graça, precisar desdizer. não era. não, ainda, essa palavra que faz toda diferença para efeitos de esperança. era de mentirinha. rebate falso, propaganda enganosa, miragem no deserto, esses embaraços que existem aqui e ali na vida, e costumam ser do tamanho da nossa expectativa. superáveis, quase todos, mas chatos, muito chatos.

PACIÊNCIA é também esse exercício que renovo todo dia: o de aguardar que uma hora dessas seja a vez de verdade.

- Ana Jácomo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

não que eu seja diferente. eu quero e preciso das mesmas coisas que as outras pessoas. trabalho, dinheiro, casa, amigos, amor. a diferença é que eu quero mais que isso. mais que o trivial, que o comum. muito mais.

- Tati Bernardi

terça-feira, 8 de maio de 2012

Deus

mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. estou precisando. precisando mais do que a força humana. e estou precisando da minha própria força. sou forte mas também sou destrutiva. autodestrutiva. e quem é autodestrutivo também destrói os outros. estou ferindo muita gente. e Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. venha, Deus, venha. mesmo que eu não mereça, venha. ou talvez os que menos merecem precisem mais. só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. e também me dói quando percebo que feri. mas tantos defeitos tenho. sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. embora amor dentro de mim eu tenha. só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. venha antes que seja tarde demais.
10 de fevereiro de 1968

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 7 de maio de 2012

seja ele como for, complicado, fugaz ou platônico, fica decidido: vou me submeter, quantas vezes forem necessárias aos intempéries do amor, azar do estrago que faz, do parco tempo que dura, se sobram poucas canções do Cazuza pra ouvir sem zunidos.

- Gabito Nunes in O amor é bacana, Shopenhauer

domingo, 6 de maio de 2012

caramba, como é que uma mulher como você pode se deixar abater pelo final de um romancezinho à-toa?

- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer

sábado, 5 de maio de 2012

as pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, (…)

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

sexta-feira, 4 de maio de 2012

17º dia - "esperar dói. esquecer dói… e não saber se deve esperar ou esquecer é a pior das dores." (Caio Fernando Abreu)

engraçado que começamos muitos dos nossos desabafos com "eu espero". e não tem como negar, a gente espera mesmo! esperamos na alegria e na tristeza. depois que passa a gente continua esperando, até que começamos a pensar em esquecer, esquecer é o mais difícil, é quando não se dá mais pra esperar. esquecer leva tempo, leva dinheiro, mas elimina um problema. esperar economiza dinheiro, economiza futuros problemas, mas perde tempo. o tempo que você podia usar pra esquecer, que a gente geralmente gasta chorando, e que devíamos encarar como uma liberdade. a liberdade de esquecer. se permitimos a esperar, mas nunca nos permitimos a esquecer. esquecer não desama uma pessoa, esquecer não ameniza uma culpa, esquecer cura uma espera.

- Douglas Lenon

terça-feira, 1 de maio de 2012

voltando ao meu cansaço, estou cansada de tanta gente me achar simpática. quero os que me acham antipática porque com esses eu tenho afinidade: tenho profunda antipatia por mim.
09 de março de 1968

- Clarice Lispector in O Grito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"