domingo, 27 de maio de 2012

São Paulo, 12 de agosto de 1987

querida mãe, querido pai,
não sei mais conviver com as pessoas. tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. tenho vivido tão só durante tantos — quase 40 — anos. devo estar acostumado.

dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês — que é muito delicado. e também de não perturbar o meu próprio equilíbrio — que é tão ou mais delicado.

estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. e que só sabe escrever. não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". gosto de mim. acho que é o destino dos escritores. e tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. uma pessoa que escreve sobre a vida — como quem olha de uma janela — mas não consegue vivê-la.

amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. o que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. por trás disso, há muito amor. amor louco — todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado — nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. mas amor de verdade. perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. é muito difícil ficar adulto. amo vocês, seu filho,
Caio

- Caio Fernando Abreu in "Cartas" à Nair e Zaél Abreu

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