segunda-feira, 30 de julho de 2012


e tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. é pra mim mesmo.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

domingo, 29 de julho de 2012

21º dia - "venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim." (Caio Fernando Abreu)

e de repente a gente conta até dois mil quatrocentos e cinquenta e sete, e mesmo assim o mundo parece não parar de girar pra gente sofrer um pouquinho que for. você vai olhando para as paredes e começa a desenhar toda a falta que alguém faz, que alguém anda fazendo. para no meio do quarto e olha embaixo da cama procurando aquele chinelo, que a gente chama de: pessoa que foi embora antes de ser alguma coisa. tenho vontade mesmo de dizer que tudo não passou de um sonho e que a gente ama pra valer mesmo é no aconchego do abraço do outro. os dias parecem chuvosos dentro de nós mesmos, porque o tempo é bom, ah como o tempo é bom. como o tempo cura, lava, seca e estende a gente, parece até máquina de lavar e a gente aquela roupa suja sabe? fim de relacionamento é isso: uma roupa suja que a gente adia muito pra poder lavar.
gostoso mesmo é essa saudade que diz que por mais que a gente esteja longe, os dias correm pra te buscar e te trazer de volta pra mim.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 23 de julho de 2012


internet, cinema, novelas, revistas, livros, música: tudo nos conduz a pensar que a vida não tem o menor sentido se a gente não sentir prazer 25 horas por dia. e onde se esconde esse tal de prazer? se você procurá-lo num casamento, estará renunciando às alternativas. se, ao contrário, passar em revista todo homem ou mulher que lhe der um sorriso promissor, tampouco terá garantia de encontrar o que procura. o que é que a gente procura? a tal festa no outro apartamento, a tal grama mais verde do vizinho, o tal êxtase que parece estar sempre na outra margem do rio.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

sábado, 21 de julho de 2012

as cartas que escrevi pra acabar com ele mandei só pra mim. deve ser por isso que estou acabada.

- Tati Bernardi

terça-feira, 17 de julho de 2012

aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
sinto que viver é inevitável. posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. ser às vezes sangra. mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. dói. a primavera me dá coisas. dá do que viver. e sinto que um dia na primavera é que vou morrer. de amor pungente e coração enfraquecido.
05 de outubro de 1968

- Clarice Lispector in Eu sei o que é primavera pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 16 de julho de 2012

a raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? ser gente me cansa. e tenho raiva de sentir tanto amor. há dias que vivo de raiva de viver. porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. bem sei que isso vai passar, e que a carência necessária volta. então vou querer tudo, tudo! ah como é bom precisar e ir tendo. como é bom o instante de precisar que antecede o instante de ter. mas ter facilmente, não. porque essa aparente facilidade cansa. até escrever está sendo fácil? por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta dos dedos? é um pecado, bem sei querer a carência. mas a carência de que falo é tão mais plenitude do que esta espécie de fartura. simplesmente não a quero.
14 de setembro de 1968

- Clarice Lispector in Fartura e Carência pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 15 de julho de 2012

quanta coisa a gente faz, depois quer voltar atrás. ♪

- Armandinho
Outra noite que se vai

sexta-feira, 13 de julho de 2012

é isto. eu aqui tenho ido um pouco aos trancos. às vezes duvidando um pouco do acerto das opções que foram sendo feitas nos últimos anos, quando me dou por conta nesta cidade quase sempre árida, sem nenhum amor, sem paz. um ceticismo, umas durezas que eu não tinha antes. deixa pra lá.
16 de novembro de 1982
 
- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Charles Kiefer

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma saudade de amor como se eu já tivesse amado

“uma vida inteira pra te tornar especial e uma meia noite pra te fazer feliz”, lembra-se dessa história? bom, era um final de semana desses frios que fazem por aqui, uma vontade de cheirar seu pescoço, beijar ele até ficar todo marcado, morder bem de mansinho a ponta da sua orelha e sussurrar qualquer coisa besta dessas de casais que vivem um eterno começo de namoro. agora vem a pergunta crucial: e por que essa frase? porque a gente a estruturou. lembro que você me olhou rindo e soltou as palavras como quem solta um desabafo de tempos, falando até meio de mansinho “uma vida inteira pra te tornar especial e...”, já era mais de 11 horas da noite e eu olhei pra você, sorrindo com o teu jeito bobo e o teu sorriso sincero, sem querer acabei terminando ela pra você, segurando na sua mão e olhando nos seus olhos “e... uma meia noite pra te fazer feliz.” você me deu o melhor beijo daquela noite, daquele tempo, daquele segundo e foi assim que tudo começou.
o gosto das noites que vão chegando parece ter um sabor diferente depois que você ficou aqui, dá até vontade de acampar com você na sala da nossa casa, montar uma cabaninha e fazer amor dentro dela, ficar contando piada ruim até tarde da noite e dividindo segredos daqueles dos tempos de ensino médio. você começa a se dar conta de que essas brincadeiras bobas e esse espírito de amizade prevalecem até mesmo em relacionamentos longos. amor mesmo é aquilo vai sobrando em todo fim de dia e não aquilo que falta nele.
de tudo que nós juntamos até hoje de manhã cedo, todas as fotos, todos os jantares, danças, carinhos trocados, amigos, abraços, de tudo que você me deu, não consigo dizer qual foi a melhor coisa, mas posso dizer que toda a preocupação, todo o respeito e selinhos antes de dormir foram e continuarão sendo os melhores. e acima de tudo isso é estar com alguém que te faz feliz: contar as horas do dia pra dormir ao lado de quem você ama e não querer sair dela de manhã cedo pra não sair dos braços da pessoa mais carinhosa do mundo. que é sua, que é só sua.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 9 de julho de 2012

eu já fiz sexo disfarçado de amor e, algumas vezes, fiz amor me enganando que era só sexo. agora estou sem ninguém. é sexta-feira e de forma surpreendente estou sem ninguém. nenhum casinho de nada, o que é abismal porque sou muito fácil. até demais. me apaixono fácil, me entrego fácil, ponho tudo a perder muito fácil. é sexta-feira, eu devia estar me preparando para mais uma expedição romântica pela cidade, nem que seja pra voltar pra casa com um estranho, todo cheio de adrenalina, descompostura e medo do perigo. como um pequeno felino imaturo e sapeca eu me enrolo todo na linha que separa o certo do errado. dia desses eu me enforco sem volta.

- Gabito Nunes in Jazz, chocolate e auto-erotização

domingo, 8 de julho de 2012

e descobri que quando eu vivia de fofoquinha tinha muito tempo livre. e cabeça ficava pensando besteira, então eu tinha tempo de sobra para falar da vida alheia. quem nunca comentou do cabelo da fulaninha? quem nunca especulou sobre a vida do outro? o problema é quando vira esporte e rotina. aí é prejudicial, chato e sem graça. confesso que morro de preguiça disso. é cansativo e desgastante. é tão mais legal cuidar da própria vida e ir atrás dos sonhos. e mais saudável também. de vez em quando me perco dentro de mim. é engraçado, mas fico contando coisas para meus botões. listando tudo que quero fazer até o fim da vida. é tanta coisa que acho que não vai dar tempo.

- Clarissa Côrrea in Uma crônica sem título

sexta-feira, 6 de julho de 2012

venha, não tenha medo. é só o mar. não, eu não sei nadar. eu te ajudo, vem. confia, vem. estica a perna assim, abre o braço assim. respira assim. vem. mas eu não sei. mas eu tô aqui. olhe meus olhos tão arregalados, como posso guardar mentira aqui? eu posso cantar pra você, eu posso te segurar, eu posso ficar aqui até você conseguir. eu não sei. tá perto. vai. solta da borda. eu sei, você já foi parar no fundo. mas agora é diferente. tá mais raso. e eu tô aqui. eu vim do outro lado do oceano. eu vim só por sua causa. vem, larga da borda. pode vir. eu vi você como você é e é por isso que estou aqui.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 4 de julho de 2012

mas de hoje em diante todos saibam através de mim que não estou mentindo: em menos de dois segundos pode-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo.
17 de agosto de 1968

- Clarice Lispector in Morte de uma Baleia pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 2 de julho de 2012

seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar.

- Fabrício Carpinejar

domingo, 1 de julho de 2012

deixa ele: às vezes o que parece um descaminho na verdade é um caminho inaparente que conduz a outro caminho melhor. às vezes não. o que a gente pode fazer é dar crédito ou não à pessoa. frequentemente não vale a pena. frequentemente, vale.
26 de junho de 1981
 
- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore