sábado, 29 de setembro de 2012

ainda não terminei de gostar de você. mas consegui. agora fui. porque comecei isso querendo ser sua companheira, passei a cúmplice das suas maldades, e ficar dessa vez vai me fazer sua comparsa. não é um ‘até amanhã’ nem ‘até breve’ e nem ‘até mais’. é um ‘até você mudar’ ou ‘até você não ser mais quem você é’. até nunca, então.

- Gabito Nunes in O inferno por dentro

sexta-feira, 28 de setembro de 2012



não chegaria a ser erro, era mais um leve estrabismo de pensamento — mas para mim teve a graça de uma queda, e antes que o instante passasse, eu por dentro lhe disse: é assim mesmo que se faz, isso! vá devagar assim, e um dia vai ser mais fácil ou mais difícil para você, mas é assim, vá errando, bem, bem devagar.
16 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (III) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 27 de setembro de 2012



repito sempre: sossega, sossega – o amor não é para o teu bico.
18 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

é isso. só queria ser amada. só isso. precisa casar comigo não, precisa me engravidar não. basta me olhar assim, basta morrer de rir comigo. basta me ler, me decifrar, ser intenso nesse minuto. vamos todos morrer meus amores, vamos então morrer sabendo que demos vida a alguém.

- Tati Bernardi

terça-feira, 25 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada.

- Martha Medeiros in Os ausentes pertencente à obra “Feliz por nada”

domingo, 23 de setembro de 2012

Verdade mesmo é que a gente não sabe machucar

se ao menos a gente fosse verdade dentro de toda essa história. se ao menos eu fosse de verdade. porque você começa a calcular o tempo que você tem a respeito de todos os relacionamentos que não deram certo e vai vendo que sobra cada vez menos tempo pra procurar por alguém. se é que vale a pena procurar por alguém. você descobre que independente de quantas outras relações você vai ter, em todas elas vão existir histórias mal contadas, omissões do que realmente é importante.
acreditar nas pessoas não tem sido uma tarefa tão fácil. não tem sido fácil nem respirar ultimamente. tudo dói, desde a ponta dos dedos dos pés até o último fio de cabelo. você olha pro lado e tenta não pensar, mas a cada vez que você tem que olhar para o lado você vê que não deu certo e que dói. mas o que dói mesmo, o que machuca de verdade, fere a gente dentro da alma: é não conseguir nem olhar nos olhos da pessoa, não conseguir nem ouvir a pessoa.
Ver não é desconfiança. pelo contrário, é dor de quem ama e cuida. ou de quem executou esses dois verbos no passado. uma vida cheia de amores pendurados na estante seria muito mais fácil em vista da que a gente anda levando. vontade de respirar talvez seja o fator que mais chama a atenção dentro de um relacionamento, porque vai sufocando a gente aos poucos.
a ideia principal é que devia existir um manual de como se começar uma vida de casado, ou como sobreviver a uma vida de casado. deveria existir mesmo um manual de como sobreviver a uma vida pós-vida de casado porque mesmo com o final de tudo você sai e se sente preso dentro de você mesmo, olha para as paredes da casa e você parece fazer parte delas devido o tempo que você não sai para procurar alguém ou até mesmo para ser encontrado por alguém.

- Douglas Lenon

sábado, 22 de setembro de 2012


resolvi me afastar, e agora estou tentando tirar da cabeça. não estou conseguindo. estava muito apaixonado. acho que nunca tanto. não consigo mais aceitar relações pela metade. em outras palavras, raspas e restos não me interessam.
12 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

olha, eu não gosto de você. pare de me procurar ou tentar chamar minha atenção. eu poderia dizer politicagens como “o problema sou eu” ou “nós podemos ser amigos, se você quiser” ou “não é nada pessoal”, mas eu estaria apenas vestindo uma luva de veludo para te empurrar pra longe de mim. eu não posso ser rude, mas também não funcionou muito bem ser sutil. eu não gostei de você, e é extremamente pessoal. sai do meu pé. pare de me ligar. já faz cinco meses, caramba.

- Gabito Nunes in O direito de não gostar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


“então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: 'Sim, acho que eu também te amo.'”
01 de março de 1969

– Clarice Lispector in Quem escreveu isto? pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


nem parece que já vai chegar novembro, ainda nem cumpri as promessas de fevereiro.

- Caio Augusto Leite

terça-feira, 18 de setembro de 2012

a coisa que eu mais queria era estar lá com ele, tomando coca, fumando cigarro, passando a mão naqueles cabelos dele, mordendo aquela boca.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


saudade eu tenho sempre. mas, saudade tristíssima, duas vezes.
11 de janeiro de 1969

– Clarice Lispector in Lúcio Cardoso pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 16 de setembro de 2012

25º dia - "sinto uma falta absurda de você. ficou um vazio que ninguém (pre)enche. e penso e repenso e trepenso em você por aí." (Caio Fernando Abreu)

de repente o que era chão se torna o maior abismo de todo o universo. como acreditar em algo que não dá pra tocar, não dá pra mostrar, não dá pra demonstrar. rezo toda noite pra que o próximo dia seja melhor, pra que no próximo dia você volte e que você me traga algum resquício de paz, que você me traga acima de tudo um pouco de tranquilidade. vai dizer que o fim dos dias não te corrói nem um pouquinho? vai dizer que ele não te mastiga, não te morde a ponto de você se sentir sufocado. sufoco talvez seja isso que tenha acontecido depois que você foi embora.
mas acima de tudo o que me corrompe tenho acreditado que os dias são muito mais do que a gente vê na televisão. até porque nunca passa uma notícia na televisão dizendo que um coração foi partido ou que alguém foi embora sem dizer adeus. coisas da vida, coisas que nem a gente consegue explicar pra gente mesmo.
penso que nosso relacionamento sempre foi um tanto unilateral, acho que era assim que Caio dizia, é tão cansativo carregar uma história de amor inteira nas costas e viver nessa insegurança e dizer que tá tudo bem e que sim, somos felizes desse jeito. nem eu acredito mais em alguma manifestação de amor, acho que tudo é feito pra vender, sempre existe alguém ganhando por trás de tudo. até no amor, tem sempre um que sai vencedor e outro não ganha nem um prêmio de consolação, se é que vocês me entendem.

- Douglas Lenon

sábado, 15 de setembro de 2012


venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim.
28 de maio de 1984

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice.

- Martha Medeiros

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Versos X Versos


ao lado do meu computador tem uma taça de vinho e uma água de coco em caixinha. abro a página em branco e me pergunto: será que eu volto, ou deixo assim, como está? será que quero voltar a me expor, ou deixo assim, no mistério? adoro a escancarada e adoro a que faz as malas e some de vista. adoro e detesto as duas.
minha tv ligada em filme de sacanagem e meu ipod tocando Nina Simone. no chão tenho o jornal do dia e uma manchinha que não conto o que é. nem a pau.
esses drogados de merda, penso isso enquanto me pergunto: será mesmo que minha mão é feita de massinha? esses homens cascas de merda, penso enquanto vou me despelando até não sobrar nada porque não sei exatamente o que sobra quando não estou atuando. quando sou eu mesma, sou a melhor atriz que já conheci. quando não penso sobre ser algo, merecia um Oscar.
aí ele chega, tão lindo. e vai embora, tão feio. e liga, tão bobo. e some, tão especial. e eu morro, ainda que não ligue a mínima. e eu to nem aí, ainda que pense o tempo todo em não estar nem aí. e eu abro a porta, a perna, a alma. e quanto mais abro tudo, mais me fecho. e sigo intacta, ainda que toda esburacada. e tenho a plena certeza que cometo o maior erro do ano, ainda que eu não duvide que todos os acertos são mesmo feitos assim: quando a loucura nos vence de alguma forma.
e enquanto eu explico para o meu melhor amigo que o tipo mais grosso na ponta que afina pro meio, é o melhor, quero chorar porque o Dudu, o garotinho de dois anos com seu carrinho vermelho, me olha curioso. a pureza me destrói, por causa da sujeira. e a sujeira me destrói, por causa da pureza. mas sigo inteira e peço pizza de chocolate com morango. será que a minha mão é feita de massinha?
depois, no dia seguinte, lá vem a ressaca. sempre. adoro minhas dancinhas e gracinhas e loucurinhas. mas no dia seguinte acordo e me pergunto: por que é que você não faz cara de paisagem e permanece fina e permanece intocável? por que é que você não consegue ser difícil, escrota e blasé? adoro que a Grazi apareceu com seu vestido vermelho colante de couro por dez minutos e foi embora. por que é que eu não vou embora?
aí a música começa e quando vou ver já imitei o Michael Jackson, a Madonna e o Tiririca, porque adoro me trair e estragar tudo. e todo mundo ri, mas ninguém me leva a sério. mas será que quero? mas será que alguém leva alguma coisa a sério? eu queria me levar menos a sério. e é isso que faço, quando faço a dança do macaco-galinha-caranguejo pulando cordas. mas no final das contas, acabo chorando no carro depois de ganhar alguns minutos de cafuné no cabelo. qual foi mesmo a última vez que alguém fez carinho em mim sem pedir nada em troca? eu devia ser criança.
um milhão de amigos e chorando sozinha no carro. mas no meu ap de 40 metros quadrados só cabe eu mesma. ainda bem. a coisa que eu menos queria era alguém aqui, agora, me vendo chorar porque não tem ninguém aqui, agora.
e aí o Dom Juan de saias dorme de pijama cor-de-rosa. não peguei ninguém hoje mas ri bastante. e amanhã vou acordar num tremendo mau humor e morrendo de nojo das pessoas que falam “peguei alguém”. e amanhã vou querer acordar depois de dez anos ou há dez anos. e vou querer congelar na vida de agora, que acontece mais do que antes ou depois. e vou querer sair da gaiola da mesmice. e vou me perguntar de novo quando é que o efeito da droga que eu nunca experimentei vai passar. e vou ler esse texto que minha mão de massinha escreveu e querer me esconder ou nas dancinhas de macaco ou no pijama cor-de-rosa. mas vou acabar publicando o que eu nunca deveria ter dito, como sempre.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

um milhão vezes zero é zero. ou seja: não coloque sua intensidade onde não tem nada.

- Tati Bernardi

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


só que dessa não se morre. mas tudo, menos a angústia, não? quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. e a falta de esperança na esperança. e conformar-se sem se resignar. não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. e então vem o desamparo de se estar vivo. estou falando da angústia mesmo, do mal. porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
30 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Angina Pectoris da Alma pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 9 de setembro de 2012

Baralho

correndo e esperando uma vida de verdade que traga outras verdades pra gente acreditar. de repente você começa a olhar pra quem está constantemente ao seu lado e parece viver com a cabeça a mil milhas longe de você. de um modo ou de outro entendemos que a vida é esse "basear-se em fatos reais" que não tem nada a ver com o que a gente tinha sonhado. as vezes o coração é tão fechado que ele mal sabe dizer o quanto você é importante.
um ser humano de verdade talvez busque um outro que não tenha nada muito parecido com o que se vê a todo tempo. se tudo que um dia a gente combinou for verdade, quem dera por um erro nossas certezas darem certo. tenho pensado que a vida é feita de cartas de baralho e que dá um medo de descartar um valete de coração (copas) e comprar um az de ouros sabe?
verdade mesmo é que eu não sei a que pé estamos ou a que constelação nós fazemos parte só sei que a incerteza de um carinho ou ter que pedir por um beijo vai mostrando que somos um casal de favores, vivemos a mercê de trocas, esperando alguém dar o primeiro passo ou o primeiro deslize. somos casais de ônibus de linha, que se apaixonam só pelo caminho até chegar o ponto em que um dos dois tem que descer. temos a certeza de que estarmos juntos não é uma obrigação, mas que nenhum de nós tem certeza se é realmente certo estarmos juntos, e tenho medo, medo de me entristecer e se decepcionar quanto ao que oferecemos durante esse tempo.
que se for pra ser de mentirinha, eu quero que seja uma mentira que iluda ao menos. se for pra ser de verdade, que exista mais beijos durante essa caminhada, e que se for pra ser de brincadeira, tá na hora de embaralhar as cartas.

- Douglas Lenon