quarta-feira, 31 de outubro de 2012


mas uma estranha intuição: de que, de alguma forma, este é um período de luta depois do qual tudo deve abrir, ficar mais fácil, menos batalhado.
21 de julho de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando os chatos somos nós


você conhece um chato. ou dois. ou meia-dúzia. e até gosta deles, viraram figuras folclóricas na sua vida. talvez seja um cunhado, um amigo de um amigo, um colega de trabalho. os chatos são bem intencionados, não se pode negar. e é justamente essa boa intenção fora da medida que faz deles... chatos. o chato nada mais é que um exagerado. ele é prestativo demais, ele é piadista demais, ele leva muito tempo para contar algo que lhe aconteceu, ele fica hooooras no telefone, ele se leva a sério além do razoável, ele ocupa o tempo dos outros com histórias que não são interessantes. o chato é, basicamente, um cara (ou uma mulher) sem timing.

estava pensando nisso quando escutei alguém citando uma das coisas mais chatas que existe. tive que concordar: colocar um filho pequeno no telefone pra falar com a dinda, com a vovó, com o titio, é muito chato. a gente ama aquela criança - talvez seja até o nosso filho! - mas ao telefone, esquece. tentamos entabular um diálogo minimamente inteligível e nada rola. ou ele não fala nada que se compreenda, ou não abre o bico, e só nos resta ficar idiotizados do outro lado da linha.

todo mundo sabe que isso é chato. mas todo mundo que já teve um filho comete essa mesma chatice com os outros. por que? porque pai e mãe de primeira viagem são chatos por natureza. ninguém escapa. se não for chato, será considerado um sem-coração. todos irão apontar: olha lá, aquele ali esconde o filho. põe ele no telefone!

outra chatice é mostrar 3.487 fotos do bebê. dá nos nervos quando o filho não é nosso. todos os bebês são iguais, menos para seus pais. seja bem sincero: dá pra aguentar ver foto de bebê pelo celular? basta perguntar educadamente pra alguém: e seu filhinho, vai bem? pronto. num segundo o celular ou iPhone será sacado e apontado direto para seus olhos: veja você mesmo.

a gente sabe que é chato, mas toleramos com sorrisos parcialmente sinceros porque faremos a mesma coisa quando chegar a nossa vez - ou já fizemos um dia. se você passou dessa fase, segure a onda e compreenda os que ainda não passaram. nada de reclamar. aqui se faz, aqui se paga.

outras chatices? quando alguém pergunta: lembra de mim? se está perguntando, é porque a chance é remota. mas já não fizemos isso diante de alguém que gostaríamos muuuuito que lembrasse? e esticar as letras das palavras quando se está escrevendo? e quando a gente começa uma frase com "adivinha". adivinha pra onde eu vou nas próximas férias. adivinha quem me convidou pra jantar. adivinha com quem eu sonhei hoje.

falando em sonho, tem coisa mais chata do que ouvir o sonho dos outros? mas você já contou os seus. váááárias vezes.

agora adivinha qual o próximo exemplo que vou dar (kkkkk). precisamos mesmo colocar risadas entre parênteses para que os outros entendam nossas piadinhas cretinas?

alguns menos, outros mais, chatos somos todos.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

preguiça de começar tudo de novo. o primeiro jantar, a primeira piada sacaninha, o primeiro xixi de porta aberta. cansei.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


então, tranque o carro numa rua escura e também dentro da sua garagem, não entre no quarto de um neanderthal se você não estiver bem certa do que deseja, não deixe uma vela acesa perto de uma janela aberta, pense duas vezes antes de mandar seu chefe para um lugar que você não gostaria de ir, não tenha em casa Doritos, Coca-Cola e Ouro Branco se estiver planejando perder uns quilos e lembre-se do que sua bisavó dizia: regue as plantas, regue suas relações, regue seu futuro, porque sem cuidar, nada floresce.

e, por via das dúvidas, confie em Deus também, que mal não faz.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conselhos para uma vida a sós

pra ser bem sincero com todos vocês, eu só queria a minha vida de volta. aquela vida que você reclama tanto mas é o que tem de mais legal no mundo! reclama de não ter ninguém, e não ter ninguém quem sabe é a maior liberdade que a gente já teve. a maior liberdade que nós temos.
por isso, eu aconselho vocês a serem 100% vocês. não existe outra pessoa melhor que você possa confiar quando chega no fim. você é o que você tem, o que você sente, o que você compra. esse é você. ninguém sai comprar roupa pra você quando as suas começam a se repetir, pior que isso, ninguém se coloca no seu lugar quando você tá doente. ninguém realmente cuida melhor de nós mesmos do que nós próprios.
parece até uma lógica narcisista, mas viver a sós, exige muita louça pra lavar, muita roupa pra passar, muito pó pra tirar, muita paciência pra viver bem. vai dizer que a vida não é um eterno resta um? sempre resta a gente mesmo.
uma vida a sós requer mais livros do que força, então fique atento. estude as possibilidades de viver feliz consigo mesmo, talvez a companhia dos animais de estimação não seja tão ruim assim, uma vez que eles não falam e não te argumentam sabe? eu particularmente prefiro os livros, alguém precisa conversar comigo nesses dias chatos.
portanto comece fazendo hoje o que você queria ter começado quando você deu o primeiro passo, não deixe pra amanhã quem você pode deixar pra sempre, não deixe de lado quem você pode deixar agora, não escute quem fala muito, só um olhar diz muita coisa. afinal o corpo fala. não deixe de lembrar pra sempre quem te esqueceu, um pouco de lembranças a gente guarda numa caixa e desenterra depois de anos e você vê que aprendeu muito mais com essas decepções do que com qualquer outra coisa que possa existir.

- Douglas Lenon