quarta-feira, 21 de novembro de 2012


é possível também que a relação fosse mais racional do que animal: ternura é bem diferente de paixão.

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

existe alguém socorrer o que não tenho? existe pedir ajuda pra simplesmente fazer de conta que nada disso acontece? existe implorar pra parecer que não tô nem aí? existe emprestar pernas e peitos para correr com as minhas de forma a não dever nada? existe ir embora da minha própria cama? existe sair do meu próprio peito? existe tirar você daqui de dentro, vomitar você, matar você? e tudo isso só porque, vai ver, esse medo todo é justamente que você saia?

- Tati Bernardi

domingo, 18 de novembro de 2012

ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. foi por muito pouco. eu senti que a coisa tava vindo. cruzei os dedos. cheguei a implorar ao acaso. vai, meu filho. só um pouquinho. me xinga, vai. me dá uma apertada mais forte no braço. fala de outra mulher. atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. manda eu calar a boca. sei lá. faz alguma coisa! e acabou. já veio com o papo chato de que me ama, começou a melação de novo. eita homem pra me beijar. coisa chata. minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. onde já se viu andar com um homem desses.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


é de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in O Artista perfeito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

26º dia - "a perca é simplória, a perca é distraída, a perca é provisória, logo, logo reencontrarão o que está faltando. a perda é para sempre." (Martha Medeiros)


sinto uma falta imensa de você e a gente mal se fala. você nem pensa em mim e nem sente saudade. você se importa e é justamente isso que você não deveria fazer. você liga e pergunta se está tudo bem e não tá, bem é você perto de mim. tenho medo dessa perca constante virar uma perda e a gente sabe que quando vira perda, não tem volta. de todas as coisas que começam e a acabam, essa falta é a que anda demorando mais pra sanar sabe? tenho convicção de que a gente anda meio longe por não poder estar por perto por motivos que não convém, mas você deve ter o melhor cheiro do mundo quando acorda. eu sei que você toma banho com outro, e sei também que você não sabe sobre o quanto eu penso em você. mas gostaria que os dias fossem mais calmos, que essa perca se tornasse algo vivo, ou que me ensinasse mais alguma coisa sobre a ausência. são dias que eu encaro longe de você. o mais irônico de tudo isso é que eu vou em um show por você, eu canto Cazuza se você me pedir, eu mostro que talvez seja melhor. não tem muito futuro esse romance romântico porque a gente nesse impasse consegue fazer nossa própria distância.

- Douglas Lenon

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


cansado, cansado. quase não dormi. e não consigo tirar você da cabeça. estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. hesito em dizer em qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. mas quero te contar umas coisas. mesmo que a gente não se veja mais. penso em você, penso em você com força e carinho. axé.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


mas quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?

- Martha Medeiros in Em que esquina dobrei errado? pertencente à obra “Feliz por nada”

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ainda é tarde


o mundo é dividido entre as pessoas que romperam com uma Ana e as que não romperam com uma Ana.

honestamente, já não consigo pronunciar direito o nome do sentimento que tenho por ela, após esse amontoado de tempo depois que ela me chutou. meio que já subverteu numa lembrança fosca de tudo o que aconteceu. quantas vezes na sua vida você realmente pensou que amava alguém, mas logo se deu conta de que aquilo tudo era uma outra coisa? só desgosto, solidão, ressentimento, tesão, orgulho, carência, desforra e tantos outros mais da família dos “recolhidos”. não sei, talvez algum psicanalista possa exemplificar melhor esse lance. só estou querendo dizer que todas essas impressões são prolixas demais, e cada sentimento meio que faz parte de um diagrama bizarro. no fim, cada um tem sua definição, mas se você focar o microscópio em todos eles, vai compreender que as coisas estão muito próximas umas das outras. bem, talvez por comodismo, ou porque noite sim e noite não desperto tentando decifrar sonhos difusos com Ana; ou por achar que isso resume toda essa lenga-lenga, eu chamo de amor. atrasado, mas ainda amor.

minha mãe acha que é um traço falho do meu caráter, os amigos definem como fraqueza, a comunidade psíquica vê isso que eu tenho como uma espécie de colecionismo afetivo, uma doença. gosto de chamar de Síndrome de Dom Quixote. uma espécie de bloqueio que me impede de qualquer ascensão pessoal e profissional. por mais que eu trabalhe, por mais que eu me ache bom no que faço, e por mais que as pessoas endossem isso, há sempre uma voz em mim. e não é humildade. é um trauma, dos grandes.

quando você termina um relacionamento, as opções se abrem. você pode dar a volta por cima e recomeçar sua trajetória, você pode tentar recuperar seu amor perdido ou, como eu, você pode optar por fazer nada. nada nada. quer dizer, não exatamente nada, porque eu ocupei muito bem meus dias sentindo pena de mim e lutando bravamente para não me tornar mendigo. o que já é grande coisa, se você parar pra pensar.

Ana me largou há vinte e seis meses como quem descarta um livro de autoajuda, um absorvente usado ou um CD do Paul McCartney com os Wings. de lá pra cá, passo boa parte do meu tempo cultuando meu automartírio. nem todo final de semana é idêntico, nem sempre estou sozinho – digo, sem uma garota de ocasião – mas, em oito a cada dez domingos, tão rápido dou o arremate final nas coxas do frango assado e despejo o prato sujo na pia, visto meu casaco de estimação que me deixa a fuça do Richard Ashcroft (eu acho, algumas namoradas também pensavam do mesmo modo, ao menos as que sabiam quem é Richard Ashcroft – Ana não), procuro minhas chaves, ouço que sou frio e insensível e saio a pé. meus tênis adoram o asfalto.

penso nas merdas que fiz e também nas coisas que não fiz. em todas as longas caminhadas naquele calçadão onde negligenciei andar de mão com Ana, durante o pôr do sol cartão postal da cidade, porque para isso acontecer eu teria que sair mais cedo do trabalho, ter sorte com o horário do ônibus e ir até em casa trocar de roupa, o que seria um saco de tão cansativo. na época eu não tinha grana, eu não vivia de royalties, eu não tinha um patrocínio substancial de um refrigerante, eu não tinha vendido a única música do meu pai para um reclame de telefonia celular, eu não tinha a vida ganha. eu precisava trabalhar com jornalismo, como assessor de imprensa numa fábrica de pão bisnaguinha, se é que isso pode ser considerado o tão sonhado jornalismo dos tempos de universidade. bem, a verdade é que eu não dava a mínima pra Ana. tudo parecia para sempre, por que me preocupar agora? amanhã. ou mais tarde. ou nunca mais.

- Gabito Nunes

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

por um instante quis sentir falta de alguém, mas não consegui me lembrar de ninguém. por outro instante quis inventar uma pessoa, mas eu era tão de verdade naquele momento que me faltou capacidade para ser enganada.

- Tati Bernardi

sábado, 3 de novembro de 2012

ele ri, senta, conta uma história qualquer. eu nem pisco, mas não paro de tentar enxergar o que pode haver ali. não há quase nada. só esse olhar de bala perdida esfuziando no ar atrás de uma vítima. e eu corro pra me defender, torcendo para ele me acertar. ele me dá uma linguarada mecânica e tudo fica meio elétrico, por um tempo. o teto brilha, em baixa voltagem.

- Gabito Nunes in O Troco

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

50 tons de amor

Amor mesmo é fazer massagem nas costas, isso sim é amor. Amor é morder o dedinho mindinho da mão direita e dizer que morder você é mais que uma vontade, é quase uma necessidade. Amor de verdade é amor de verão que fica na praia e que cuida enquanto há tempo pra cuidar. Amor é brincar de ter um filho e ficar escolhendo todos os nomes que você possa imaginar. Amor gostoso é aquele que dorme fazendo carinho no seu cabelo do jeito que só ele sabe fazer. Amor é ensinar andar de roller e rir de todas as vezes que você cair. Amor é te ligar três vezes quando você foi viajar pela primeira vez sozinho. Amor é lembrar a primeira vez que você deu risada e não conseguir negar que se apaixonou ali. Amorzinho é quando eu roubo o halls vermelho da sua boca com um beijo, isso sim é amorzinho. Amor é andar de mãos dadas em cima da plataforma do ônibus, andar em cima da plataforma de mãos dadas rindo, ah aí é amorzão. Amor pra sempre é o amor que entrelaça a mão e fecha com força. Amor é não dormir e perguntar a cada hora se tá tudo bem quando você fica doente. Amor amanhecido é o que te faz acordar nos braços dele. Amor é tropeçar no chinelo do outro e xingar até última geração do malandro.  Amor mesmo é escutar a trilha sonora inteira do Pearl Jam com o rosto encostado no seu peito. Amor é esquentar o pé na tua batata da perna. Amor é fazer a melhor omelete do mundo e dizer que é a melhor pra te agradar, porque na verdade a melhor é a da minha mãe, mas o amor da minha vida é você.  Amor é beijar na boca de ponta cabeça! Amor é acordar com a perna em cima das tuas costas e com a tua mão no meu rosto e o travesseiro na bunda com a coberta jogada nos pés. Amor é falar “desliga você primeiro” e ainda por cima o traste desligar. Amor é desdenhar de tudo o que você tem pra oferecer e comprar tudo no fim da noite. Amor mesmo é deixar a última fatia de queijo pra você, mas amor de verdade é você repartir ela no meio comigo. Amor é dar beijo de boa noite. Amor é começar transando em cima da cama e terminar transando no chão. Amor é se encontrar no meio da avenida e dizer “Estava te olhando faz horas, mas não sabia como chegar em você, imagina que um gostoso como você poderia me dar moral!” e sair os dois rindo feito bobos. Amor é espremer uma espinha sua e dizer que isso é coisa que sua mãe deveria fazer. Amor de verdade é cantar no msn uma música inteira dos Paralamas do Sucesso e dizer que a música foi feita pra nós. Amorzão é você fingir ciúmes até porque você não sente ciúmes. Amor é ser o seu despertador quando você perde a hora. Amor é parar o carro no meio da noite em frente a sua casa e dizer que tá aqui só porque não tem mesmo o que fazer, exceto olhar pra você. Amor é jogar Mario e dizer que você sempre perde o Yoshi porque parece um moleque quando vê um videogame. Amor é saber quando você trocou de perfume. Amor mesmo é saber de cara que você não gostou de algo. Amor é ir ao mercado e involuntariamente comprar duas latinhas de cerveja e logo após passar em um fast food qualquer e pedir dois lanches, e quando chega em casa lembrar que você viajou. Amor é esquecer o primeiro mês de namoro e só lembrar no segundo. Amor de verdade é ouvir o que você gosta pra te agradar. Amor é fazer uma limpa no teu guarda-roupa e dizer que se fosse pelo seu jeito de se vestir a gente nunca teria casado. Amorzinho é fazer aquelas malditas surpresas que te dão um super susto, mas você ri horrores. Amor é pedir pra você engordar porque já não tem mais lugar pra morder. Amor é quando você compra Yakult pra mim e fala em tom de deboche para os seus amigos “É pra minha criança!”. Amor é quando você pede pizza e diz que a parte que vir portuguesa é toda sua, e logo depois mudar de ideia quando eu fico manhoso e te abraço. Amor de verdade é saber que você era o meu amor desde a primeira vez que eu ouvi sua voz. Amor é esquecer quantas vezes você se machucou e saber que daqui pra frente é só ganhar muitos beijos pra sarar. Amor é pensar no futuro com você nele. Amor é te fazer acordar no meio da noite pra pegar água pra mim e você querer me matar por ter tirado seu sono. Amor é tomar banho juntos e não conseguir não se excitar. Amor é escrever sobre amor pensando em você. Amorzinho é procurar você até dentro da panela de pressão, mas amorzão mesmo é te encontrar em cima da minha cama. Amor é brincar de ser solteiro só pra continuar sendo a primeira vez todos os dias. Amor... amor de verdade mesmo é ver amor no dia-a-dia, ver carinho, apreço, cumplicidade, amor é muito mais que amorzinho e amorzão, amor é muito mais do que estar com você, amor é muito mais do que saber que você pensa em mim, amor é muito mais que fechar os olhos enquanto beija, amor é o susto que o coração leva quando a pessoa mais linda de todo o mundo te chama de meu amor.

- Douglas Lenon

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


oh, não se assuste muito! às vezes, a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça, repeti como se pudesse alcançá-la antes que desistindo de servir ao verdadeiro, ela fosse altivamente servir ao nada. eu que não me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. mas juro que isso é a respiração.
30 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (Final) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"