segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


 “não sei o que fazer! fico mal contigo e fico mal sentigo!”

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

Feliz ano novo!

sábado, 29 de dezembro de 2012

tô esperando acabar, passar, morrer, sangrar até o fim. esperando o tempo que acalma chamas com seus ventos de mil pés distantes. esperando alguém que ocupe, distraia, desacorrente, solte, substitua, torne nada demais. esperando não sentir mais ódio e nem tesão e nem ciúme e nem saudade. esperando porque é o que resta mesmo, não é falta de coragem, não é de se fazer, é de se sentir e só.

- Tati Bernardi

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Noveleta


não, eu não era engraçada. sem nem ao menos saber, eu era muito séria. não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. e, por Deus, eu não era um tesouro. mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitável – que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável. mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém — através de alguém. e só eu estivera ali. se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegavam a alcançar. seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos. entendi eu tudo isso? não. e não sei o que na hora entendi. mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascínio o mundo — e mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi — assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. nunca saberei o que eu entendo. o que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. ignorância que ali em pé — numa solidão sem dor, não menor que a das árvores — eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível. ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.
07 de fevereiro de 1970

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

esses dias me chamaram para uma entrevista. aquela fileira de gente engomada do outro lado da mesa, me fazendo perguntas idiotas. se eu tenho namorada, onde quero estar daqui a cinco anos, qual meu pior defeito. porra, como vou saber essas coisas? bem, disse a eles que não gostava muito de falar, que era de ficar na minha. pelas caras tortas, não gostaram muito da minha sinceridade. esse pessoal de recursos humanos não enxerga nada. se sou retraído não é porque sou alheio ao mundo, mas porque sou sensível a ele. vejo coisas que os outros não. sei lá, li isso numa revista aí. minha timidez é como uns óculos de sol, se eu detestasse o verão não haveria por que usar. só que eles vêm com aqueles papos de “vestir a camiseta”, querem que a gente se empolgue com um trabalho que não faz sentido algum. tu salva vidas, não deve ter esse problema. mas por que o mundo todo gosta tanto de mentir para si mesmo, hein Mano?

- Gabito Nunes in Não tenho nada pra dizer

sábado, 22 de dezembro de 2012


depois dirá: nada sonhei. será que basta? basta, sim. e sobretudo essa falta de erro. esse tom de emoção de quem poderia mentir mas não mente. basta? basta, sim.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in Hindemith pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


e uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. destruir antes que cresça. com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. para que não me firam, minto. e tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. não queria fazer mal a você. não queria que você chorasse. não queria cobrar absolutamente nada. por que o zen de repente escapa e se transforma em sem. sem que se consiga controlar.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 16 de dezembro de 2012

Alguém que soubesse sobre você


não é que não dá, é que já deu. as pessoas são assim, elas insistem em viver cada pedacinho de época que tem em suas vidas. tô falando isso porque a gente tem sei lá, quase 20 anos mas tem uns pensamentos de 40 que não tem sentido, sabe? e você vai na balada, vai em barzinhos cults e sei lá, vai no parque procurar ou sai para se permitir e volta pra casa com os bolsos vazios como se tivessem roubado o pedaço de vida ou o pedaço de infância, ou um pedaço de você.
reza a lenda que quanto mais sozinho você fica, menos você sente falta de alguém do seu lado. não é que seja falta, eu sinto falta de sentir falta, entende? porque todo mundo vai embora antes de qualquer coisa, antes de dar tempo de ser alguma coisa. cansado mesmo eu tô dessa gente que só quer começar, começar uma nova amizade, começar uma nova fase, começar uma nova dieta. eu cansei. C-A-N-S-E-I! fiquei craque nesse negócio de começar, dessa vez eu quero algo que passe do segundo mês.
teve o primeiro que foi muito, que continuou, mas a gente começava sempre que dava dois meses porque a gente terminava a cada dois meses. não era recomeço, até porque ninguém recomeça, todo mundo termina e começa de novo.
teve o segundo que sorria demais, paciente demais, e me amava e me esquecia demais. até hoje penso que um pouco da minha loucura vem desse aí. não sei dizer pra vocês quem era ele, mas com toda sinceridade do mundo posso afirmar que ele tinha um puto déficit de atenção. ô homem pra me segurar e me largar, me bater e assoprar, me esquecer e lembrar depois.
e teve o terceiro... que deixava a porta do box do banheiro aberto sempre que tomava banho, que não me deixava ver ele se pentear porque tinha vergonha, porque era tímido. o terceiro que foi a coisa mais sobrenatural e irreal que já aconteceu na minha vida. costumo chamar esse período que eu tive de tempo branco, gente que vem e não consegue desenhar nada na sua vida e só apaga aquilo que você tinha construído, sabe? branco porque lembra borracha.
no final disso tudo, eu queria alguém que soubesse me ler no escuro. soubesse que eu troquei de pizza preferida porque o primeiro cara tinha o mesmo gosto que eu. soubesse que eu tenho mania de dormir com a mão embaixo do travesseiro. soubesse que eu odeio o inverno. soubesse que eu prefiro comida japonesa e que eu detesto comida apimentada. soubesse que eu gosto de cafuné. soubesse que quando eu tô triste eu adoro ouvir "open your eyes" do Snow Patrol. soubesse que eu dou apelido pra todo mundo, mas odeio ganhar apelido. soubesse que quando eu quero, eu quero pra valer.
só queria alguém que pudesse me amar pelos meus defeitos e que conseguisse aceitar cada pedacinho de mim que me faz ser assim, que tivesse pretensão em me querer mais do que me ganhar. alguém que cuidasse de mim ou que ao menos se preocupasse comigo. alguém que me esperaria ou alguém que fosse me buscar. alguém que esteja aqui ou que esteja pensando em mim. alguém que.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

quando crio coragem, o buraco na fruta exibe a carne ressecando e escurecendo de oxidação. ligo, chama-chama e não atende. me sinto enjoado. a secretária eletrônica me encaminha até a caixa postal. deixo recado: – juro, dessa vez estive muito perto de te esquecer.

- Gabito Nunes in Já telefonei por menos