quinta-feira, 22 de agosto de 2013

cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
02 de maio de 1970

– Clarice Lispector in Lembrança da feitura de um romance pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Na terra do se

se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.

se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.

se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos.
se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.

se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.

se todos lessem bons livros.
se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.

se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.

se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.

se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.

se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.
se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.

se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

se.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

terça-feira, 6 de agosto de 2013

mas tenho anotado histórias, anotado sem parar. está vindo algo por aí, está se avolumando. talvez seja o único jeito, não? minhas ficções não me rejeitam. talvez seja sina, essa de escrever, e então ter as respostas da vida real na vida recriada, nunca na própria vida real – como as pessoas que não criam costumam ter. e deve estar certo assim, deve haver uma ordem e um sentido nisso.
27 de janeiro de 1987
       

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

29º dia - "seja eu e por favor veja o que dá pra fazer com isso. porque eu não sei." (Tati Bernardi)

quem sabe o coração esteja aberto a novas negociações nesse período sem você. talvez seja um período em que eu me conheça melhor ou que eu lembre de mim, de quem eu era antes de você aparecer. tento, tento, tento e nada. eu só consigo imaginar como seria se você tivesse aqui de volta, penso quantas vezes será que você vai colocar Open your eyes do Snow Patrol pra tocar dizendo que a música foi escrita pra nós, pra gente não esquecer do nosso amor. eu digo pra mim que não vou mais tolerar esses seus sumiços e que de uma vez por todas vou acabar com tudo isso. mas você me conhece e abusa disso. e hoje aqui sem você... digo que não te quero mais e no fundo estou fazendo mil planos pra quando você voltar. eu só queria teu carinho todas as noites, tua bondade, teu cheiro, teu corpo, teu jeito de falar, tu. queria todos os seus pedaços pra montar você pra mim, construir você de volta e te amar novinho em folha. de repente as coisas parecem que poderiam ser muito mais fáceis, mas a gente acaba complicando tudo, viver sem você parece um eterno agosto que começa prometendo, não cumpre nada e ainda por cima te deixa angustiado.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 17 de maio de 2013


lavo a louça e penso em você. no tanto de carinho que me faz até dormir. em nossas ânsias que não são poucas. no momento em que refogo alho na frigideira ou refogo minha língua na tua. no curioso que é você sempre gostar de mim, justo na fase que nem eu mesmo consigo fazê-lo direito. em quando deságuo em você, toda sexta-feira às oito. e na ressaca, que vem no domingo, no mesmo horário.

casa organizada. casa limpa. casa pronta. casa no lugar. Imagino que daria um bom reality show pra passar na Ana Maria Braga. casa decorada de saudade. agora, se me dão licença, vou correndo e cantando um brega de caminhoneiro buscar a garota dessa cidade inteira que sabe bagunçar tudo outra vez como ninguém mais.

- Gabito Nunes in Bagunça pertencente a obra “A manhã seguinte sempre chega”

segunda-feira, 29 de abril de 2013

se a primeira recaída já é uma re-caída isso significa que enquanto você achava que estava tudo bem você já estava caindo?

- Tati Bernardi

quinta-feira, 11 de abril de 2013

As maravilhas de cada mundo


tenho uma amiga chamada Azaléia, que simplesmente gosta de viver.
viver sem adjetivos. é muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. sua vida é difícil, mas é sua.
um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. quais? dependia da pessoa.
ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.
primeira: ter nascido. ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.
segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.
terceira: sua capacidade de amar. através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.
quarta: sua intuição. a intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.
quinta: sua inteligência. considera-se uma privilegiada por entender. seu raciocínio é agudo e eficaz.
sexta: a harmonia. conseguiu-se através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.
sétima: a morte. ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.
16 de maio de 1970

–  Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

terça-feira, 2 de abril de 2013

Homossexualidade


a homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência à existência de mulheres e homens homossexuais. apesar dessa constatação, ainda hoje esse tipo de comportamento é chamado de antinatural.

os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (ou Deus) criou órgãos sexuais para que os seres humanos procriassem; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? e o sexo oral? e o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
se a homossexualidade fosse apenas perversão humana, não seria encontrada em outros animais. desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de espécies de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

em virtualmente todas as espécies de pássaros, em alguma fase da vida, ocorrem interações homossexuais que envolvem contato genital, que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.

comportamento homossexual envolvendo fêmeas e machos foi documentado em pelo menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

relacionamento homossexual entre primatas não humanos está fartamente documentado na literatura científica. já em 1914, Hamilton publicou no Journal of Animal Behaviour um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre machos dessas espécies. em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

masturbação mútua e penetração anal fazem parte do repertório sexual de todos os primatas não humanos já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas rigorosas.

os que se sentem pessoalmente ofendidos pela simples existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por capricho individual. quer dizer, num belo dia pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas como sou sem vergonha prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

a sexualidade não admite opções, simplesmente é. podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. o desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países fazem com o racismo.

os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais na vizinhança, que procurem dentro das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal costumam aceitar a alheia com respeito e naturalidade.

negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser fascistas a ponto de pretender impor sua vontade aos que não pensam como eles.

afinal, caro leitor, a menos que seus dias sejam atormentados por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? se o vizinho dorme com outro homem? se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu trinta anos?

- Drauzio Varella

sinto uma falta absurda de você. ficou um vazio que ninguém (pre)enche. e penso e repenso e trepenso em você por aí.
27 de janeiro de 1987

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

segunda-feira, 25 de março de 2013

Que a gente...


que a gente nunca esqueça de lembrar e que a gente nunca lembre de esquecer. que a gente nunca sofra por amor e que a gente nunca ame esse sofrer. que a gente chore de tanto rir e que a gente ria de tanto chorar. que a gente cuide do nosso querer, e que a gente queira nos cuidar. que a gente brinque de ser feliz e que a gente seja feliz brincando. que a gente se machuque de tanto tentar e que a gente tente sem medo de se machucar. que a gente espere sem ter pressa e que a gente tenha calma pra poder esperar. que a gente sonhe com o que a vida tem pra nos oferecer, e que a gente viva nesse sonho que a vida nos deu. que a gente escolha para que não escolham por nós. que a gente veja razão e que a gente não se iluda. que a gente se justifique e que a gente nunca se explique. que a gente possa entender que a gente nunca se entende.

- Douglas Lenon

domingo, 17 de março de 2013

entendeu alguma coisa? não? ok, perfeito assim. se você entendesse, eu ficaria triste por ter conseguido explicar algo sem explicação. e é isso: de onde eu vim, sentimentos são inexplicáveis, mas explicam todo o resto. amor é um sem sentido sentir e dar sentido a tudo. e este tudo, agora, é você. juro.

- Hugo Rodrigues

sábado, 16 de março de 2013


e eu encoxo uma das pernas entre as tuas. e com a outra enfeito tua cintura. um abraço acarinha teu cangote. e o outro descansa no teu seio esquerdo. e penso que se eu tivesse mais braços e mais pernas pra dar, estariam todos em volta de ti.

- Gabito Nunes in Mar e Ana pertencente a obra “A manhã seguinte sempre chega”

terça-feira, 12 de março de 2013

você me ensinou muita coisa, a te respeitar, te admirar, te querer, só não me ensinou a te amar, isso aprendi sozinha. sabe, quando estamos distantes, mesmo que por horas, sinto muita saudade, de dormir abraçada, de encaixar o rosto no vão das suas costas e querer ser embalsamada ali por mil anos. eu sei que eu posso muitas coisas sem você, e eu sei que, se eu tomar um banho quente e comprar uma roupa nova, talvez eu possa querer uma coisa que seja, só uma, sem você. nada muda no mundo quando você não caminha ao meu lado, as pessoas quase não percebem que falta metade do meu corpo e que eu não posso ser muito simpática porque toda a minha energia está concentrada para eu não tombar.

- Tati Bernardi

domingo, 10 de março de 2013


lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. e, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. mas um dia hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
25 de abril de 1970

– Clarice Lispector in Ir contra uma maré pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

eu estava pedindo ajuda ao homem mais maduro e vivido e esperto que eu conhecia. ele então olhou com sua cara de águia míope pro garçom “não me interrompa agora caso tenha amor pela vida”. e pegou na minha mão. e apertou minha mão. e ficou muito sério. é agora, eu pensei. o único homem que realmente poderia me ajudar. isso vai mudar a minha vida. vai, fala logo. e ele se aproximou e disse, bem devagar, e baixinho, no meu ouvido: “não olha agora, mas o cara da mesa ao lado é igualzinho o Shrek”.

- Tati Bernardi

domingo, 24 de fevereiro de 2013

28º dia - ‎"a cama, o coração, a vida, tá tudo arrumado. falta só alguém capaz de desarrumar." (Gabito Nunes)

não dizer se foi você quem se foi ou se foi eu quem te esqueceu. não lembro mais de como a gente era feliz e não lembro mais de como a gente sofreu. não lembro de você e isso é dolorido porque você foi importante, o combinado era que eu falaria de você para os meus filhos e que lembraria de nós dois pra sempre. hoje eu tenho lapsos dos nossos momentos, tenho uma música cantada por você gravada no meu computador, juro que não me desfaço dela. juro que quero te lembrar. sei que agora não consigo mais gostar de alguém por inteiro porque gostar de alguém por inteiro é difícil com os pedaços que ficaram em mim. gostar de alguém na verdade é o que tem me ocorrido de mais difícil, ou o que não tem me ocorrido.
nesse tempo que vai passando e vai apagando as lembranças, uma vez ou outra eu tento lembrar de como a gente ria junto e de como tudo era uma bagunça gostosa com você por perto. agora fica esse vazio, essa cama arrumada, esse coração calmo que não tem a pretensão de bater por alguém, essa vida cheia de rotina que me consome, me leva e me envelhece a cada dia que passa. tudo dentro dos conformes, tudo correto. mas eu li por aí que o que vale mesmo a pena na vida é os momentos que a gente perde o fôlego e não os momentos que a gente simplesmente respira.

- Douglas Lenon

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. e eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem.

estou te querendo bem neste minuto. tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas.
fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. mesmo que a gente se perca, não importa. que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. mas que seja bom o que vier, para você, para mim.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 17 de fevereiro de 2013

a gente se entope de açúcar, não usa fio dental e depois vai tratar a cárie, se sentindo privilegiado por poder pagar um dentista. a gente aplaude a arrogância dos filhos e depois vai pagar a fiança na delegacia. a gente fuma três maços por dia e depois processa a indústria tabagista. a gente corre na estrada a 140 km/h, ultrapassa em faixa contínua e depois suborna o guarda, na melhor das hipóteses. ou então morre, ou mata – na pior delas.

- Martha Medeiros in Depois se vê pertencente à obra “Feliz por nada”

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Amar é normal


só ama aquele de coração bom, aquele que gosta de dar, que ainda sorri largo e franzindo os ombros tipo criança. ama só quem merece, quem procura e sabe que achou, quem não vê amar como uma coisa sublime e extraordinária, quem sabe o amor ao alcance das mãos, da boca, das costas, da nuca, dos pés. ama quem provoca os olhos, as vontades, o sabor do outro. porque amar é isso. normal.

amar é sofrer choque térmico quando chega a hora de dar tchau, é implicar com o jeito do outro, brigar no meio da rua, pegar na mão e fazer as pazes ali mesmo. amar é brincar de briguinha, é dizer que vai amar pra sempre, é dar beijos e cheiros em lugares estranhos em locais inadequados, é beber no mesmo copo. todo amante se arrisca meio poliglota "amore mio", "mon amour", "meine liebe" ou "meu amor" mesmo.

amar é ouvir som de luz apagada, carregar na garupa, prestar os primeiros socorros, testar um óleo novo de massagem. amar é beber milk shake de chocolate, alugar filme, cantar no chuveiro enquanto o outro escova os dentes, é dormir abraçadinho até mais tarde. amar é não saber esperar, mas esperar mesmo assim. amar é suspirar alheio, respirar ofegante, ter o peito encaroçado. aquele que ama abusa do "inho". benzinho, docinho, tigrinho, morzinho. amar é dizer "fazer coisinha", mandar SMS de boa noite, escrever cartinha perfumada e todas essas idiotices gostosas.

o olho reluz, a pele melhora, o corpo reage, o coração bate feliz. amar é mandar, achar que manda, obedecer, fingir que obedece. amar é fazer vitamina de banana com nescau, é dar bom dia espreguiçando as vértebras com os braços esticados, sorrindo envergonhado de remela nos olhos. amar é dizer "vem cá", ter os pés aquecidos sem pedir, comemorar o dia do primeiro beijo, chegar da festa e comer pizza gelada. só ama aquele que começa a falar pelo fim, que diz sim sem saber a pergunta, que discute o namoro sem lugar-comum.

ama quem sai na rua pra tirar fotos, pra ver estrela riscar o céu, pra pisar na grama descalço, pra pegar um cineminha na terça. amar é perguntar "tá dormindo?", é descer do ônibus com o outro à espera, é cantar "she loves you yeah yeah yeah", é morder queixo, orelha, cotovelo, panturrilha, lábio. amar é comer uma coisa diferente e lembrar o outro, é ficar de mal, é arrumar tempo pra pensar no outro na correria do dia.

o cúmulo da saudade é amar. você a sente mesmo estando juntinho. amar é todas essas bobagens e muito mais. amar é cotidiano. amar é humano. amar é instinto. amar é necessário. amar acontece. amar é escrever. pois gente, afinal, quem foi que começou que essa história de que amar não é uma coisa normal?

- Gabito Nunes in “A manhã seguinte sempre chega”

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


e é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência revolta e tristeza. essa guerra nos humilha.
25 de abril de 1970

– Clarice Lispector in Vietcong pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 10 de fevereiro de 2013

eu queria morrer ali, ao lado do outro homem. ainda que nenhuma célula do meu corpo permitisse a proximidade de outro batimento cardíaco, outro bafo e outro estalar de dedos do pé. eu queria congelar aquele momento sem luz, aquele momento em que, aos poucos, eu sentia meu corpo e todo o resto feito de espírito voltar ao meu centro. a nossa morte que me retornava à minha vida. eu queria que a manhã chegasse aos poucos, matando você sem que eu acordasse e, finalmente, no café da manhã, eu tomaria um suco de laranjas com a minha existência livre da sua.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tanto faz e tanto fez


sinto sua falta. acho que não havia outra forma de começar essa carta pra você, como dessa forma que eu começo. sinto sua falta e não consigo te dizer isso. já viu alguém não conseguir dizer que sente falta de alguém? eu queria sentir sua falta e não me sentir culpado por sentir sua falta. eu sinto falta da tua risada e das tuas piadas. principalmente das tuas piadas! sinto falta de desenhar um futuro com a gente bem velho juntos. eu prometi que nessa virada de ano tudo que eu mais quero desejar é saúde e desejo em dobro pra você!
queria as coisas novamente como sempre foram e queria mais. queria que a gente desse risada de tudo isso e queria tanto que fosse hoje e queria tanto que fosse agora. eu tenho um milhão de motivos para deixar as coisas como elas são, mas o fato é que eu parecia ser mais legal com você por perto ou você parecia ser mais legal comigo por perto ou nós parecíamos mil vezes mais legais perto um do outro.
sinto sua falta. e queria que as coisas soassem tão mais sinceras. sinto sua falta como quem perdeu o par do tênis preferido. sinto sua falta e sinto ainda mais falta de quando a gente começava a sonhar coisas dentro do seu carro e ficar horas pensando em qual passo dar no próximo dia, ou na próxima semana, ou no próximo mês.
sinto falta de ver você bêbado! sinto uma puta falta disso e sei que você vai dar risada quando ler isso. sinto falta de passar por uma rua bem famosa da Praça Osório, não que eu tenha parado, mas eu sinto falta de fazer isso junto com você. sinto falta das neuras do Lu misturadas com as tuas sinceridades ácidas. sinto falta porque ficou um vazio que ninguém preenche. reza uma lenda de que vaga de melhor amigo não se preenche, não é emprego que entra outro no lugar e também não é vaga. é... cargo. porque só existe ele e é direcionado pra pessoa certa ou pra pessoa errada, depende do ponto de vista.
hoje, no seu aniversário, esquece tudo que doeu, esquece tudo que fez mal. queira o bem , pois estou te querendo muito bem nesse momento. de tudo isso, tudo que eu sinto falta, me ficou uma coisa tão boa de você, tão sincera e por que não doce?
sinto falta de me contar pra você. sinto falta de beber no Guabi porque os amigos de verdade costumavam beber lá. sinto falta do macarrão com molho branco ou seja lá o que foi que você fez aqui na minha casa. sinto falta de começar a fazer academia com você e não começar a fazer academia com você, se é que você me entende. sinto falta de ser mais louco que biarticulado na graciosa.
creio que essa carta foi muito mais pra mim, que precisava dizer ou que precisava contar, do que pra você. espero que exista em algum lugar por aí um meio da gente continuar, ou da gente crescer sem deixar as coisas saírem dos seus devidos lugares. muita força pelo que há de vir, muita fé pelo que há de se sonhar e muito foco no que há de mais especial no mundo: os amigos.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. de não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. ser novo.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 3 de fevereiro de 2013


cortejo o mar em prata e penso se é feito de pingos de lágrimas de todos os amores do mundo que não são como o nosso. dou os ombros e lembro do amasso que usei para te confundir. e lembro da tua gargalhada alta apostando corrida pra ver quem entrava antes no banheiro depois da viagem. e lembro de mim desatando o riso também porque a chave de casa estava comigo.

- Gabito Nunes in Mar e Ana pertencente a obra "A manhã seguinte sempre chega"

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sons que confortam


eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. chamaram o médico da família. e aguardaram. e aguardaram. e aguardaram. até que o garoto escutou um barulho lá fora. é ele que conta, hoje, adulto: nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. a começar pelo choro na sala de parto. seu filho nasceu. e o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. seu filho voltou.

e pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

o sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

o telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

o barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. e estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

o toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. ou mesmo a chegada da pizza.

o aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

a sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

o sinal da hora do recreio.

a música que você mais gosta tocando no rádio do carro. aumente o volume.

o aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

o primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

e o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


sabe qual é a triste verdade? as pessoas gostam do sentimento de saber que alguém corre por elas. as pessoas gostam de saber que tem o domínio sobre outra pessoa. as pessoas fingem precisar de quem não precisam, pelo simples fato de quererem se sentir amadas. as pessoas apaixonam umas as outras, sem a intenção de estar junto. as pessoas gostam dos finais, e fazem de tudo pra jogar a culpa do outro lado. a maioria não ama, faz amar. e nunca são o que se dizem ser.

- Sean Wilhelm

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


mas Cris Guerra, não deixou a peteca cair e, além de um belo livro, nos deixou um recado valioso: a vida não apenas continua, ela sempre recomeça.

- Martha Medeiros in Para Francisco e todos nós pertencente à obra “Feliz por nada”

domingo, 13 de janeiro de 2013

Crise dos 20

mais um ano que se inicia e ontem o completei meus 20 anos no dia 12 e amanhã dia 14 o blog segue para o seu 4º ano de existência. só tenho a agradecer a presença de cada um, as dicas dos blogs, o carinho de vocês, os e-mails, os desabafos, os conselhos. afinal o que seria do "eu te toco também" sem cada um de vocês. obrigado por mais um ano! obrigado por tudo!

- Douglas Lenon

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

e aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. e todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. e eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você?

- Tati Bernardi

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


aliás ele é uma pessoa inteira. seus olhos muito negros não se desviam: ele não tem medo de olhar os homens no profundo dos olhos. dá vontade de sorrir com ele. se eu soubesse. aliás, preciso me habituar a sorrir mais, senão pensam que estou com problemas e não com o rosto apenas sério ou concentrado. voltando ao homem: quando ele diz até amanhã, sabe-se que o amanhã vira. ele tem um ligeiro mau gosto na escolha dos objetos de adorno que compra. isso me dá ternura. ele é inconsciente que eu o vejo tanto, não tantas vezes, mas tanto.
11 de abril de 1970

- Clarice Lispector in Um homem pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


eu te amei muito. nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver nem medo nem coisas falsas. há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. são coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas – se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi elas, caso contrário não será preciso.
21 de março de 1972

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Vera Antoun

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

não tenho nada pra dizer, como pode ver. só acho que estamos nos vendo pouco, em momentos demasiado formais, com montes de gente na volta. queria jogar umas pedras no rio contigo, sem precisar falar nada. não curto muito falar, tu sabe.

- Gabito Nunes in Não tenho nada pra dizer

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

domingo, 6 de janeiro de 2013


e eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

sábado, 5 de janeiro de 2013

27º dia - "lembra de você a cada manhã. pensar em você para dormir melhor." (Tati Bernardi)

fim de tarde de um sábado, pra quem não sabe esse é o momento de desespero para os casais de anos. o que fazer? onde ir? tem que dormir tarde mesmo?
não lembro de termos passado por isso. éramos tão criativos, até mesmo pra ir em casas de tios chatos, em relação ao que fazer no sábado a noite e olha só que ironia: o tempo passou e você foi junto sem me dar a mão. confesso que sinto mil e um tipo de saudade de você. se existissem tipos de saudade, é claro. fica um vazio de sempre nesses sábados a noite os quais a gente tinha sempre uma fuga, mais conhecida como o corpo do outro pra se esconder.
fica só o que a gente pensa que não iria ficar. fica a saudade dos dias que não voltam e dos lugares que tinham um outro significado quando a gente ia juntos. fica você no pensamento. fica a lembrança do tempo da nossa felicidade. fica o fim do nosso felizes para sempre.

- Douglas Lenon