segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

eu estava pedindo ajuda ao homem mais maduro e vivido e esperto que eu conhecia. ele então olhou com sua cara de águia míope pro garçom “não me interrompa agora caso tenha amor pela vida”. e pegou na minha mão. e apertou minha mão. e ficou muito sério. é agora, eu pensei. o único homem que realmente poderia me ajudar. isso vai mudar a minha vida. vai, fala logo. e ele se aproximou e disse, bem devagar, e baixinho, no meu ouvido: “não olha agora, mas o cara da mesa ao lado é igualzinho o Shrek”.

- Tati Bernardi

domingo, 24 de fevereiro de 2013

28º dia - ‎"a cama, o coração, a vida, tá tudo arrumado. falta só alguém capaz de desarrumar." (Gabito Nunes)

não dizer se foi você quem se foi ou se foi eu quem te esqueceu. não lembro mais de como a gente era feliz e não lembro mais de como a gente sofreu. não lembro de você e isso é dolorido porque você foi importante, o combinado era que eu falaria de você para os meus filhos e que lembraria de nós dois pra sempre. hoje eu tenho lapsos dos nossos momentos, tenho uma música cantada por você gravada no meu computador, juro que não me desfaço dela. juro que quero te lembrar. sei que agora não consigo mais gostar de alguém por inteiro porque gostar de alguém por inteiro é difícil com os pedaços que ficaram em mim. gostar de alguém na verdade é o que tem me ocorrido de mais difícil, ou o que não tem me ocorrido.
nesse tempo que vai passando e vai apagando as lembranças, uma vez ou outra eu tento lembrar de como a gente ria junto e de como tudo era uma bagunça gostosa com você por perto. agora fica esse vazio, essa cama arrumada, esse coração calmo que não tem a pretensão de bater por alguém, essa vida cheia de rotina que me consome, me leva e me envelhece a cada dia que passa. tudo dentro dos conformes, tudo correto. mas eu li por aí que o que vale mesmo a pena na vida é os momentos que a gente perde o fôlego e não os momentos que a gente simplesmente respira.

- Douglas Lenon

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. e eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem.

estou te querendo bem neste minuto. tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas.
fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. mesmo que a gente se perca, não importa. que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. mas que seja bom o que vier, para você, para mim.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 17 de fevereiro de 2013

a gente se entope de açúcar, não usa fio dental e depois vai tratar a cárie, se sentindo privilegiado por poder pagar um dentista. a gente aplaude a arrogância dos filhos e depois vai pagar a fiança na delegacia. a gente fuma três maços por dia e depois processa a indústria tabagista. a gente corre na estrada a 140 km/h, ultrapassa em faixa contínua e depois suborna o guarda, na melhor das hipóteses. ou então morre, ou mata – na pior delas.

- Martha Medeiros in Depois se vê pertencente à obra “Feliz por nada”

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Amar é normal


só ama aquele de coração bom, aquele que gosta de dar, que ainda sorri largo e franzindo os ombros tipo criança. ama só quem merece, quem procura e sabe que achou, quem não vê amar como uma coisa sublime e extraordinária, quem sabe o amor ao alcance das mãos, da boca, das costas, da nuca, dos pés. ama quem provoca os olhos, as vontades, o sabor do outro. porque amar é isso. normal.

amar é sofrer choque térmico quando chega a hora de dar tchau, é implicar com o jeito do outro, brigar no meio da rua, pegar na mão e fazer as pazes ali mesmo. amar é brincar de briguinha, é dizer que vai amar pra sempre, é dar beijos e cheiros em lugares estranhos em locais inadequados, é beber no mesmo copo. todo amante se arrisca meio poliglota "amore mio", "mon amour", "meine liebe" ou "meu amor" mesmo.

amar é ouvir som de luz apagada, carregar na garupa, prestar os primeiros socorros, testar um óleo novo de massagem. amar é beber milk shake de chocolate, alugar filme, cantar no chuveiro enquanto o outro escova os dentes, é dormir abraçadinho até mais tarde. amar é não saber esperar, mas esperar mesmo assim. amar é suspirar alheio, respirar ofegante, ter o peito encaroçado. aquele que ama abusa do "inho". benzinho, docinho, tigrinho, morzinho. amar é dizer "fazer coisinha", mandar SMS de boa noite, escrever cartinha perfumada e todas essas idiotices gostosas.

o olho reluz, a pele melhora, o corpo reage, o coração bate feliz. amar é mandar, achar que manda, obedecer, fingir que obedece. amar é fazer vitamina de banana com nescau, é dar bom dia espreguiçando as vértebras com os braços esticados, sorrindo envergonhado de remela nos olhos. amar é dizer "vem cá", ter os pés aquecidos sem pedir, comemorar o dia do primeiro beijo, chegar da festa e comer pizza gelada. só ama aquele que começa a falar pelo fim, que diz sim sem saber a pergunta, que discute o namoro sem lugar-comum.

ama quem sai na rua pra tirar fotos, pra ver estrela riscar o céu, pra pisar na grama descalço, pra pegar um cineminha na terça. amar é perguntar "tá dormindo?", é descer do ônibus com o outro à espera, é cantar "she loves you yeah yeah yeah", é morder queixo, orelha, cotovelo, panturrilha, lábio. amar é comer uma coisa diferente e lembrar o outro, é ficar de mal, é arrumar tempo pra pensar no outro na correria do dia.

o cúmulo da saudade é amar. você a sente mesmo estando juntinho. amar é todas essas bobagens e muito mais. amar é cotidiano. amar é humano. amar é instinto. amar é necessário. amar acontece. amar é escrever. pois gente, afinal, quem foi que começou que essa história de que amar não é uma coisa normal?

- Gabito Nunes in “A manhã seguinte sempre chega”

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


e é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência revolta e tristeza. essa guerra nos humilha.
25 de abril de 1970

– Clarice Lispector in Vietcong pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 10 de fevereiro de 2013

eu queria morrer ali, ao lado do outro homem. ainda que nenhuma célula do meu corpo permitisse a proximidade de outro batimento cardíaco, outro bafo e outro estalar de dedos do pé. eu queria congelar aquele momento sem luz, aquele momento em que, aos poucos, eu sentia meu corpo e todo o resto feito de espírito voltar ao meu centro. a nossa morte que me retornava à minha vida. eu queria que a manhã chegasse aos poucos, matando você sem que eu acordasse e, finalmente, no café da manhã, eu tomaria um suco de laranjas com a minha existência livre da sua.

- Tati Bernardi

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tanto faz e tanto fez


sinto sua falta. acho que não havia outra forma de começar essa carta pra você, como dessa forma que eu começo. sinto sua falta e não consigo te dizer isso. já viu alguém não conseguir dizer que sente falta de alguém? eu queria sentir sua falta e não me sentir culpado por sentir sua falta. eu sinto falta da tua risada e das tuas piadas. principalmente das tuas piadas! sinto falta de desenhar um futuro com a gente bem velho juntos. eu prometi que nessa virada de ano tudo que eu mais quero desejar é saúde e desejo em dobro pra você!
queria as coisas novamente como sempre foram e queria mais. queria que a gente desse risada de tudo isso e queria tanto que fosse hoje e queria tanto que fosse agora. eu tenho um milhão de motivos para deixar as coisas como elas são, mas o fato é que eu parecia ser mais legal com você por perto ou você parecia ser mais legal comigo por perto ou nós parecíamos mil vezes mais legais perto um do outro.
sinto sua falta. e queria que as coisas soassem tão mais sinceras. sinto sua falta como quem perdeu o par do tênis preferido. sinto sua falta e sinto ainda mais falta de quando a gente começava a sonhar coisas dentro do seu carro e ficar horas pensando em qual passo dar no próximo dia, ou na próxima semana, ou no próximo mês.
sinto falta de ver você bêbado! sinto uma puta falta disso e sei que você vai dar risada quando ler isso. sinto falta de passar por uma rua bem famosa da Praça Osório, não que eu tenha parado, mas eu sinto falta de fazer isso junto com você. sinto falta das neuras do Lu misturadas com as tuas sinceridades ácidas. sinto falta porque ficou um vazio que ninguém preenche. reza uma lenda de que vaga de melhor amigo não se preenche, não é emprego que entra outro no lugar e também não é vaga. é... cargo. porque só existe ele e é direcionado pra pessoa certa ou pra pessoa errada, depende do ponto de vista.
hoje, no seu aniversário, esquece tudo que doeu, esquece tudo que fez mal. queira o bem , pois estou te querendo muito bem nesse momento. de tudo isso, tudo que eu sinto falta, me ficou uma coisa tão boa de você, tão sincera e por que não doce?
sinto falta de me contar pra você. sinto falta de beber no Guabi porque os amigos de verdade costumavam beber lá. sinto falta do macarrão com molho branco ou seja lá o que foi que você fez aqui na minha casa. sinto falta de começar a fazer academia com você e não começar a fazer academia com você, se é que você me entende. sinto falta de ser mais louco que biarticulado na graciosa.
creio que essa carta foi muito mais pra mim, que precisava dizer ou que precisava contar, do que pra você. espero que exista em algum lugar por aí um meio da gente continuar, ou da gente crescer sem deixar as coisas saírem dos seus devidos lugares. muita força pelo que há de vir, muita fé pelo que há de se sonhar e muito foco no que há de mais especial no mundo: os amigos.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. de não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. ser novo.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

domingo, 3 de fevereiro de 2013


cortejo o mar em prata e penso se é feito de pingos de lágrimas de todos os amores do mundo que não são como o nosso. dou os ombros e lembro do amasso que usei para te confundir. e lembro da tua gargalhada alta apostando corrida pra ver quem entrava antes no banheiro depois da viagem. e lembro de mim desatando o riso também porque a chave de casa estava comigo.

- Gabito Nunes in Mar e Ana pertencente a obra "A manhã seguinte sempre chega"

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sons que confortam


eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. chamaram o médico da família. e aguardaram. e aguardaram. e aguardaram. até que o garoto escutou um barulho lá fora. é ele que conta, hoje, adulto: nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. a começar pelo choro na sala de parto. seu filho nasceu. e o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. seu filho voltou.

e pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

o sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

o telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

o barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. e estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

o toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. ou mesmo a chegada da pizza.

o aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

a sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

o sinal da hora do recreio.

a música que você mais gosta tocando no rádio do carro. aumente o volume.

o aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

o primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

e o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”