sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sons que confortam


eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. chamaram o médico da família. e aguardaram. e aguardaram. e aguardaram. até que o garoto escutou um barulho lá fora. é ele que conta, hoje, adulto: nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. a começar pelo choro na sala de parto. seu filho nasceu. e o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. seu filho voltou.

e pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

o sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

o telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

o barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. e estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

o toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. ou mesmo a chegada da pizza.

o aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

a sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

o sinal da hora do recreio.

a música que você mais gosta tocando no rádio do carro. aumente o volume.

o aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

o primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

e o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

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