quinta-feira, 22 de agosto de 2013

cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
02 de maio de 1970

– Clarice Lispector in Lembrança da feitura de um romance pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Na terra do se

se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.

se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.

se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos.
se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.

se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.

se todos lessem bons livros.
se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.

se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.

se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.

se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.

se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.
se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.

se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

se.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

terça-feira, 6 de agosto de 2013

mas tenho anotado histórias, anotado sem parar. está vindo algo por aí, está se avolumando. talvez seja o único jeito, não? minhas ficções não me rejeitam. talvez seja sina, essa de escrever, e então ter as respostas da vida real na vida recriada, nunca na própria vida real – como as pessoas que não criam costumam ter. e deve estar certo assim, deve haver uma ordem e um sentido nisso.
27 de janeiro de 1987
       

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

29º dia - "seja eu e por favor veja o que dá pra fazer com isso. porque eu não sei." (Tati Bernardi)

quem sabe o coração esteja aberto a novas negociações nesse período sem você. talvez seja um período em que eu me conheça melhor ou que eu lembre de mim, de quem eu era antes de você aparecer. tento, tento, tento e nada. eu só consigo imaginar como seria se você tivesse aqui de volta, penso quantas vezes será que você vai colocar Open your eyes do Snow Patrol pra tocar dizendo que a música foi escrita pra nós, pra gente não esquecer do nosso amor. eu digo pra mim que não vou mais tolerar esses seus sumiços e que de uma vez por todas vou acabar com tudo isso. mas você me conhece e abusa disso. e hoje aqui sem você... digo que não te quero mais e no fundo estou fazendo mil planos pra quando você voltar. eu só queria teu carinho todas as noites, tua bondade, teu cheiro, teu corpo, teu jeito de falar, tu. queria todos os seus pedaços pra montar você pra mim, construir você de volta e te amar novinho em folha. de repente as coisas parecem que poderiam ser muito mais fáceis, mas a gente acaba complicando tudo, viver sem você parece um eterno agosto que começa prometendo, não cumpre nada e ainda por cima te deixa angustiado.

- Douglas Lenon