quarta-feira, 31 de março de 2010
- Martha Medeiros in Homens que se aproveitam pertencente a obra "Trem-bala"
terça-feira, 30 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
quando estou no seu corpo não me apresso. tranco a porta e jogo fora a chave. só concordo em fazer o caminho de volta se for para começar tudo outra vez. porque no seu corpo o meu corpo fica completo.
quando estou no seu corpo tudo fica bem. é como se minha alma estivesse em casa. porque o seu corpo é o lugar para onde eu sempre quero voltar.
- Gabito Nunes in Você diz que não sabe dançar
- Gabi Gomes.
para muita gente, é difícil administrar tantos "eus" num único corpo. ao depararmo-nos com nossas contradições diárias, ficamos com a impressão de sermos meio mascarados, pessoas de múltipla identidade, em quem não se deve confiar. bobagem. ninguém é 100% uma coisa só. a contradição é o sintoma de que você não pára de se questionar, de que reavalia constantemente suas escolhas, de que optou pela flexibilidade e pela renovação de intenções. nascer e morrer sem nunca mudar de idéia é muito monótono. seja sempre você mesmo, mas não seja o mesmo para sempre.
- Martha Medeiros in Censo Interno pertencente a obra "Trem-bala"
segunda-feira, 29 de março de 2010
ela — gosto. parece uma coisa que eu sinto às vezes por dentro e nem sei bem como é. nem o que é. acho que se um dia eu me matasse seria no mar. queria ir entrando na água bem devagarinho, vestida de branco, descalça, cabelos soltos.
eu — poesia fácil.
ela — vá à merda.
- Caio Fernando Abreu
para Aline minha gayzinha *-*
- Tati Bernardi.
Dissertação 42
- Douglas Lenon
29 de março de 2010

eu — é possível um rio secar completamente?
ela — claro que é.
eu — mas será que ele não enche depois? nunca mais?
ela — alguns sim, outros não.
eu — mas nunca mais?
ela — sei lá, acho que não.
eu — você tem certeza?
ela — certeza eu não tenho. só estou dizendo que acho. afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
eu — sabe?
ela — o quê?
eu — eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.
- Caio Fernando Abreu
domingo, 28 de março de 2010
- Martha Medeiros in Beijo na Boca pertencente a obra "Trem-bala"
Amor de inverno
- Douglas Lenon
28 de março de 2010
- Clarice Lispector.
- Caio Fernando Abreu
Toca o foda-se
- Douglas Lenon
28 de março de 2010
- Martha Medeiros in Maníacas pela Fama pertencente a obra "Trem-bala"
Dissertação 41
sábado, 27 de março de 2010
- Tati Bernardi
- Clarice Lispector
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in Palavras Mortas pertencente a obra "Trem-bala"
sexta-feira, 26 de março de 2010
Eu só queria cuidar de você
te ver dormindo assim me da vontade de te abraçar, de cuidar de você. esse rosto não pode ser seu — ele tem que ser meu. não eu não sou tão possessivo assim. mais de alguma forma parece que você não existe, até mesmo existindo eu tenho medo de que a qualquer momento você possa desaparecer sem deixar rastros. te jurei amor eterno veja que loucura, você deveria ter me internado quando eu disse isso. eu disse que se eu não conseguiria ficar um mês sem te ouvir, me mataria por medo de esquecer tua voz. e quando começamos a discutir sobre a falta que você me fazia, você sempre achou um absurdo eu sentir tanta falta assim de você.
trilhando um novo caminho você começa a aprender outras coisas, e vê que a conversa tem que ser outra, nessa história de 'eu cuido de você', eu fico de escanteio. eu apenas cuido. parece que só sei lidar com a espada, e onde fica meu escudo? eu também quero alguém pra cuidar de mim. eu preciso de alguém tanto quanto você, eu mereço alguém tanto quanto você. e chega de promessas porque eu espero você, com tristeza não vou negar, lembra o lance de você entrar com a felicidade eu entrar com a tristeza pra balancear o relacionamento. mais se apresse porque os 45 do segundo tempo já passou e você tem os acréscimos pra me fazer acreditar em tudo de novo.
- Douglas Lenon
26 de março de 2010
- Clarice Lispector

era bonito? sacudiu a cabeça em negativa de indecisão, como explicar, como formular que ele apenas era, sem adjetivos, era, estava sendo, embora sem saber, sem esforço algum — era.
- Caio Fernando Abreu
- Tati Bernardi
Dissertação 40
- Douglas Lenon
26 de março de 2010
- Martha Medeiros in Vencer sem se perder pertencente a obra "Trem-bala"
quinta-feira, 25 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Tati Bernardi
ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. isso são só referências. ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
- Martha Medeiros in As razões que o amor desconhece pertencente a obra "Trem-bala"
No silêncio, eu ouço o barulho que a gente faz

há pouco tempo atrás eu era só um compositor de araque, fazia músicas pra mim mesmo. dizendo e não dizendo o que se passava comigo, mais hoje tendo se passado mais de meio ano eu posso re-contar a história mal contada. era julho e eu vi alguem na plateia, pô eu era só um compositor e nada mais. ela tinha olhos de mel, um sorriso inacreditável, uma pele excepcional, e nem o nome dela eu perguntei. eu sei que ela tinha um rosto, mais nada além disso. a partir daí eu comecei a compor músicas pra ela, mas o que eu não sabia — ou sabia, era que eu não sabia cantar. eu tinha todas as notas das músicas no meu corpo feita para um rosto na plateia, ela sabe que eu existo porque não tirei os olhos dela em momento algum, mais além dela saber que eu existo, eu queria tocá-la. e como minha boca não pode responder por mim, toda noite meu corpo canta pra ela.
- Douglas Lenon
25 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Tati Bernardi
saudade é não saber. não saber mais se ele continua se gripando no inverno, não saber mais se ela continua nua pintando o cabelo de caju. não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
saudade é não saber. não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
saudade é não querer saber. não querer saber se ele esta com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. saudade é nunca mais querer saber de quem ama, e ainda sim, doer.
- Martha Medeiros in A dor que dói mais pertencente a obra "Trem-bala"
- Caio Fernando Abreu
terça-feira, 23 de março de 2010
Dissertação 39
a vida segue na maneira dela
nada é por acaso,
nada vai mudar.
vocês são muito jovens
pra entender o que eu digo agora,
que certos caminhos
não tem volta.
- Douglas Lenon
23 de março de 2010
- Martha Medeiros in Sozinha no restaurante pertecente a obra "Trem-bala"

mas era nos olhos, só nos olhos, que se fixava aquele mudo apelo, aquele grito. nem sei. aquela clara maldição. saí, saiu. não dissemos nada. eu só tenho esperas. ele traz a tranqüilidade de mais nada esperar.
- Caio Fernando Abreu
Na porta de casa

— eu vim buscar as minhas roupas que eu disse que viria buscar depois.
— então pode dar meia volta, eu já recolhi tudo que era seu e mandei pra tua menina na casa dela.
— por que você fez isso? e você ainda me chama de infantil.
— você não me entendeu.
— como assim?
— eu já recolhi tudo que era seu e mandei pra tua menina. - repito.
— sim, você já disse isso, eu não consigo entender.
— até porque você nunca me entendeu mesmo não é? eu entreguei pra ela tudo que era seu, até os presentes que ganhei de ti, desde os abraços que você me deu até a vida que você me prometeu. então a única coisa que tem aqui que você um dia poderia ter levado sou eu.
— a gente tinha tudo pra dar certo, mas..
— mas eu faço dramas demais, e eu não sei competir.
— não era isso que eu ia dizer.
— mas é isso que você pensa. agora é minha vez de ser infantil, bater o pé e não querer nunca mais te ver, ou seja, vai buscar o que é teu, e eu não to falando das tuas roupas.
vou fechando a porta, deixando que o vento leve as minhas palavras. então ele empurra a porta levemente e diz:
— me deixa tentar de novo? eu prometo que vai ser diferente, eu me prometo a você.
— de novo? tudo isso de novo. já não da mais pra acreditar.
— me desculpa, eu te amo de uma maneira que eu não sei explicar, e às vezes te machuco.
— mas eu não quero tudo de novo, tudo de novo ia ser repetitivo demais, iria doer demais.
- Douglas Lenon
23 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
- Martha Medeiros in Resorts flutuantes pertecente a obra "Trem-bala"
- Caio Fernando Abreu
- Clarice Lispector
- Gabito Nunes in Amor tão maior?
domingo, 21 de março de 2010
Tempo é vida

posso dizer que estou vivendo o melhor momento da minha vida, nada de compromissos, férias do trabalho, vida acontecendo, vocês leram isso? eu disse VIDA ACONTECENDO, como uma pessoa consegue evoluir em tão pouco tempo. acho que evolução tem nome e sobrenome, o nome pode ser melhores? e como nos Estados Unidos o sobrenome é o que marca, podemos chamar o sobrenome de amigos então?
melhores amigos, como é bom ter vocês por perto, como é bom me sentir vivo, sentir que eu posso crescer com vocês, sentir que vocês me amam exatamente da maneira que eu sou, chegam até a amar meus defeitos de tão amigos que são. e a minha vida acontece, porque vocês fazem com que ela aconteça. eu sozinho, sou só eu, eu com vocês, somos nós. veja o quão forte e imbatível somos juntos.
lembra de quando me falaram, você é um merda, um cara que vai ficar sozinho até saber se comportar, se colocar no seu devido lugar. e agora eu me sinto mais forte que eles - os quais eu julgava tão mais forte que eu. porque eu posso não ter lá um bom emprego, uma boa vida, um amor, mais eu tenho tempo, e tempo, tempo é vida.
- Douglas Lenon
21 de março de 2010
para todas as pessoas que não desistiram de mim.
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in A Idade de casar pertencente a obra "Trem-bala"
Dissertação 38
- Douglas Lenon
21 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
sábado, 20 de março de 2010
Preso a liberdade
talvez eu tenha pegado a trilha errada, e vou ter que voltar pra escolher outro caminho, mais durante essa trilha eu fui me permitindo a tantas coisas, a tantas pessoas, que se eu voltar, terei que me privar novamente do que eu havia me libertado. terei que retroceder de forma que eu pegue o caminho certo, me permitindo e me valorizando novamente. passa um tempo e, você acha que perdeu todo valor, que as pessoas te olham de uma maneira diferente, se sente sujo.
eu apresento a vocês a liberdade, depois que você fica preso a ela, você não consegue mais dizer sim para relacionamentos mais longos, você só consegue aproveitar e se aproveitar. se aproveitar de coisas boas, de mundos diferentes. mais lidar com a liberdade não é algo fácil. ser preso a liberdade é para poucos, mais ser solto por ela te deixa encurralado.
- Douglas Lenon
20 de março de 2010

quero os melhores óleos e perfumes, quero a vida da melhor espécie, quero as esperas mais delicadas, quero as melhores carnes finas e também as pesadas para comer, quero a quebra de minha carne em espírito e do espírito se quebrando em carne, quero essas finas misturas - tudo o que secretamente me adestrará para aqueles primeiros momentos que virão.
- Clarice Lispector
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in Atrasados e Orgulhosos pertencente a obra "Trem-bala"
- Fernanda Young
- Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 19 de março de 2010
- Tati Bernardi.

compreenda, eu só preciso falar com você. não importam as palavras, os gestos, não importa mesmo se você continua a fugir e se empareda assim, se olha para longe e não me ouve nem vê ou sente. eu só quero falar com você, escute.
- Caio Fernando Abreu
quinta-feira, 18 de março de 2010
seria mais alegre e romântico um discurso assim:
ela: "prometo nunca sair da cama sem antes dar bom-dia, deixar você ver os jogos de futebol na tevê sem reclamar, ter paciência para ouvir você falar dos problemas do escritório, ter arroz e feijão todo dia no cardápio, acompanhar você nas caminhadas matinais de sábado, deixá-lo em silêncio quando estiver de mau humor, dançar só pra você, fazer massagens quando você estiver cansado, rir das suas piadas, apoiá-lo nas suas decisões e tirar o batom antes ser beijada".
ele: "prometo deixar você sentar na janelinha do avião, emprestar aquele blusão que você adora, não reclamar quando você ficar quarenta minutos no telefone com uma amiga, provar a comida tailandesa que você preparou, abrir um champanhe no final de tarde de domingo, assistir junto o capítulo final da novela, ouvir seus argumentos, respeitar sua sensibilidade, não ter vergonha de chorar na sua frente, dividir vitórias e derrotas e passar todos os Natais do seu lado".
sim, sim, sim!!!
- Martha Medeiros in Casamento na Igreja pertencente a obra "Trem-bala"
Dissertação 37
- Douglas Lenon
18 de março de 2010
ele sorriu para mim. e perguntou:
— você vai para a Liberdade?
— não, eu vou para o Paraíso.
ele sentou-se ao meu lado. e disse:
— então eu vou com você.
- Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 17 de março de 2010
- ainda te amo
mas não possuo caradura o suficiente para jogar no lixo todo tempo que levei pra superar o baque da sua ausência. sem garantias, simplesmente já não dá mais pra acreditar no amor.
- Gabito Nunes in Um ano e meio
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in Viajar para dentro pertencente a obra "Trem-bala"
para Léticia minha diva master :*
- Caio Fernando Abreu

a avalanche foi sem querer.
- Martha Medeiros in A Avalanche foi sem querer pertencente a obra "Trem-bala"
terça-feira, 16 de março de 2010
Fechei os olhos na hora errada
ouço uma voz do quarto ao lado.
- shiu...
- Douglas Lenon
16 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
segunda-feira, 15 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
Dissertação 36
- Douglas Lenon
15 de março de 2010
- Martha Medeiros in Quando um não quer pertencente a obra "Trem-bala"
- Caio Fernando Abreu
domingo, 14 de março de 2010

ir embora é fácil. ficar é a prova que estamos crescendo. por isso que eu não vou embora atrás da felicidade que não encontro. eu parto quando consigo caminhar de mãos dadas com essa felicidade. não sei se a levo comigo sempre. às vezes, ela solta da minha mão e eu da dela. o que sei é que a felicidade não combina com perfeição.
- Thatiana Pimentel
- Tati Bernardi
- Martha Medeiros in Não basta amar pertencente a obra "Trem-bala"
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in Crônica do Imediato pertencente a obra "Trem-bala"
- Caio Fernando Abreu
- Tati Bernardi.
sábado, 13 de março de 2010

de repente, estou só. dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia — dentro do universo, eu estou só. de repente. com a mesma intensidade estou em mim. dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa sequência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. mas estar dentro de mim é muito vasto.
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros in Sur-pre-sa pertencente a obra "Trem-bala"
Como ver televisão e não dormir
- Douglas Lenon
13 de março de 2010
sentada aqui, desde não sei quando, olho à esquerda, olho em frente, em cima olho quase tonta de não encontrar, olham também da mesa ao lado, já perguntei as horas duas vezes, não, três, o cara respondeu direito da primeira vez, da segunda me olhou oblíquo, na terceira comentou qualquer coisa com a mulher, deve ter dito coitada, levou o bolo, me deu nojo, não exatamente nojo, que é uma coisa de estômago que se derrama viscosa pelos outros, atingindo tudo em torno, esverdeada, não, nem ódio, que grande demais, não cabe dentro de mim, da minha arquitetura frágil de mulher magra, as pernas finas suportando não sei como os ombros e o tamanho dos olhos, o ódio seria demais, eu tropeçaria toda atrapalhada com meu próprio peso, a raiva é mais mansa e eu me sinto capaz de suportá-la, a raiva cabe em mim porque não permanece, e as coisas só adentram em mim quando podem escapar em seguida, eu sufoco, sei bem, sufoco e quase esmago a coisas, as gentes também, apenas ultrapassam num, rapidez de quem não olha para trás e vai seguindo em frente, fraca demais para ser barreira, transparente, porosa feito cortina de fumaça, não, não exata mente, a fumaça ao menos faz os olhos ficarem vermelhos, provoca tosse, eu não consigo abala ninguém, um plástico, material sintético, teve pena certa, eu não quero que tenham pena de mim dói mais que tudo os outros olhando de cima, constatando a fraqueza nossa, a nossa inferioridade, quero que me olhem do mesmo plano, se ele quer comentar alguma coisa com sua companheira que diga lembra? uma vez que eu também esperei por você assim, você não vinha, não vinha nunca, eu fumava, eu bebia, eu esperava e você não vinha, mas acabou vindo e está aqui, agora, vendo uma moça que espera como eu esperei você naquele dia parece que daqui a pouco ele vai me dizer as horas sem eu perguntar, não como se estivesse se dobrando num jeito de amigo, mas como se me agredisse lançando a espera inútil no meu rosto, esqueci completamente as horas, não sei se estou aqui desde ontem, desde sempre, parece que já choveu, já fez vento e garoa, que o amarelo das folhas sobre a calçada é do outono passado, não deste, parece que já é inverno gelando agente por dentro, que o verão pesa nas pálpebras tornando lentos os gestos, dessa preguiça no andar como se a cada instante agente morresse, mas esse salto por dentro é primavera impulsionando para um verde renascido, garoa morna, fina, quieta nesse jeito de colocar os olhos longe, um longe despido de barreiras, ah essa toalha azul axadrezada de branco, o círculo úmido do copo onde uma mosca se debate, a minha bolsa, o maço quase vazio de cigarros, duas garrafas vazias de coca-cola, o cinzeiro cheio de pontas, essa música indefinida machucando por dentro, como se estivesse desde sempre aqui, escorregando devagar, as notas feito pingos de chuva na vidraça abaixada, vontade de dizer um palavrão, esses dois me olhando, assim, gozando, rindo da minha espera, mesmo o garçom de paletó branco, um dente de ouro na frente, vai escurecendo, trinta e duas tábuas no teto, gente saindo, passando, tivesse ao menos um jornal para disfarçar, não adianta, que horas serão, meu Deus, não quero perguntar outra vez, vai ficar muito evidente, já mudei mil vezes de posição na cadeira, não encontro o jeito, seria necessário um jeito específico de esperar, é medo o que eu tenho? não sei, de repente me encolho toda; um movimento interior de defesa eriçado por um sentimento que desconheço, da mesa ao lado eles levantam, vão saindo, indo embora lentos, o garçom desaparece ao lado do balcão, começa a anoitecer, todos os relógios estão parados, não sei se é ontem, se hoje ou amanhã, se é sempre, se nunca mais, estou solta aqui, completamente só, não há relógios e o tempo avança liberto, sem fronteiras nem limitações, uma bola de arame farpado, o sentimento vai se adensando em mim, transborda dos olhos, das mãos, sai pela boca em forma de fumaça, sinto meus lábios ressequidos, machucados, o gosto amargo, a bola cresce estendendo tentáculos, no meio dela eu me encolho cada vez mais, presa num círculo que cresce até explodir na vontade contida de gritar bem alto, bem fundo, rouca, exausta, correndo, esmagando as folhas de um outro outono, de um outro tempo, ainda este, o tempo, o outono, a tarde, o mundo, a esfera, a espera em que estou para sempre presa.
- Caio Fernando Abreu
- Caio Fernando Abreu.
sexta-feira, 12 de março de 2010
- Clarice Lispector
Dissertação 35
— eu sou muito perceptivo, se é que você percebeu isso.
- Douglas Lenon
12 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Caio Fernando Abreu
quinta-feira, 11 de março de 2010

às vezes me dá enjoô de gente. depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. e é só.
- Clarice Lispector
- Caio Fernando Abreu
- Caio Fernando Abreu
- Fernanda Young
quarta-feira, 10 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu

e também meu medo era agora diferente: não o medo de quem ainda vai entrar, mas o medo tão mais largo de quem já entrou.
tão mais largo: era o medo de minha falta de medo.
- Clarice Lispector.
terça-feira, 9 de março de 2010
Pega de supresa
- Douglas Lenon
09 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Clarice Lispector
segunda-feira, 8 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Clarice Lispector
Dissertação 34
- Douglas Lenon
08 de março de 2010
- Clarice Lispector
- Caio Fernando Abreu
domingo, 7 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Caio Fernando Abreu
- Martha Medeiros
- Caio Fernando Abreu
sábado, 6 de março de 2010

boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de fruta em qualquer lugar. assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e o do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você.
- Caio Fernando Abreu
Dissertação 33
- Douglas Lenon
06 de março de 2010
- Clarice Lispector in Os desastres de Sofia pertencente a obra "A Legião Estrangeira"
- Caio Fernando Abreu
- Clarice Lispector.
sexta-feira, 5 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
Demorei muito pra me encontrar
- Douglas Lenon
05 de março de 2010

mas agora eu não vou mais poder transcender, vou ter que saber, e irei sem ti, a quem eu quis pedir socorro.
- Clarice Lispector.
quinta-feira, 4 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
- Verônica H.
- Caio Fernando Abreu.
Depende de nós
- Douglas Lenon
04 de março de 2010
- Caio Fernando Abreu
é fim de tarde. e, você sabe, eu te amava.
- Fernanda Young
quarta-feira, 3 de março de 2010

por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. é uma metamorfose em que perco tudo o que tinha, e o que tinha era eu - só tenho o que sou.
- Clarice Lispector.
- Tati Bernardi
- Caio Fernando Abreu
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
- Martha Medeiros
— eu não sei mais, agora que eu te conheci, eu não sei mais o que eu faço.
- Caio Fernando Abreu
terça-feira, 2 de março de 2010

tristeza é quando chove
quando está calor demais
quando o corpo dói
e os olhos pesam
tristeza é quando se dorme pouco
quando a voz sai fraca
quando as palavras cessam
e o corpo desobedece
tristeza é quando não se acha graça
quando não se sente fome
quando qualquer bobagem
nos faz chorar
tristeza é quando parece
que não vai acabar
- Martha Medeiros
- Tati Bernardi
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
- Martha Medeiros
- Caio Fernando Abreu
Dissertação 31
- Douglas Lenon
02 de março de 2010
mais do que dura um orgasmo
menos que um comercial de tevê
"não posso mais viver com você
me apaixonei por outra mulher/pessoa"
você disse pausado, com a voz embargada
e levou treze segundos
para dizer duas frases
tivesse mais pressa ou menos remorso
teria sido mais rápido
mas você estava angustiado
e levou treze segundos
pra desocupar meu lugar
como quem desfaz um negócio
tivesse escrito uma carta
haveria de ser mais sutil
tivesse telefonado
seria obrigado a um olá e a um adeus
mas olhando nos olhos
e sem divórcio ou fiasco
mudaste em treze segundos meu estado civil
desarrumando a vida
que eu havia inventado
- Martha Medeiros
- Caio Fernando Abreu.
segunda-feira, 1 de março de 2010

era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
- Martha Medeiros
- Caio Fernando Abreu
perdem o lugar, o sono, o poder
corrompem o amor, perdem sua vez
há mães que perdem seus filhos
então não há mais nada a perder
- Martha Medeiros
- Caio Fernando Abreu.
em todas as palavras que você ia me dizendo
me custava muito acreditar que aquilo tudo
estava acontecendo
eu sentia que você não queria me magoar
escolhia cada letra e cada pausa e desviava o olhar
nas horas em que era inevitável dizer o que pretendia
você pretendia me deixar, deixava claro
que juntos fomos ótimos parceiros mas que de agora em diante
era cada um para o seu lado, e apesar da saudade
era assim que tinha que ser
você não respondeu minhas perguntas, foi evasivo, gaguejou
fugiu do assunto várias vezes e quando voltava era pra repetir:
não dá mais
não dá mais, não posso mais,
não vou deixar você tirar minha paz, eu concordo
aceito, assino a separação, não vou fazer escândalo
e quando eu te encontrar com essa que tomou o meu lugar
(é evidente, não venha negar), vou ser civilizada
não vou quebrar os pratos nem te constranger
você não vai me reconhecer, não vai mais me proteger
não vai mais me amar, não vai mais telefonar,
não vai mais aparecer. não vai mais dizer meu nome,
não, eu agora já não estou te ouvindo mais
- Martha Medeiros
Palavras ao vento
- Douglas Lenon
01 de março de 2010



