então deito, bebo devagar o leite pensando em escrever para minha mãe, em mudar de vida, de emprego, de cidade, de país, que vontade, querida mamãe, de ser feliz, de ter um grande amor bem limpinho, bem clarinho, um amor de manhã bem cedo, não diga nada a ninguém, não é preciso, mas cá-entre-nós-que-ninguém-nos-ouça, não vem dando muito certo, tenho tentado, juro, beijos no pai, que ele não saiba que estou ficando velho, não conte a tia Flora que perdi as ilusões, que já nem lembro mais, e encho o saco disso e apago a luz e durmo e sonho.
- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
domingo, 29 de abril de 2012
sábado, 28 de abril de 2012
a maneira que você tem de pedir perdão por ser mais um cara que parte
assim, que rouba um coração. você é o mocinho que se desculpa
pelo próprio bandido. finjo que aceito suas considerações mas é
apenas pra ter novamente o segundo. como o segundo do meu nariz na
sua nuca quando consigo, por um segundo, te abraçar sem dor. o
segundo do seu nome na tela do meu celular. o segundo da sua voz do
outro lado como se fosse possível começar tudo de novo e eu
charmosa e você me fazendo rir e tudo o que poderia ser. então
aceito a sua enorme consideração pequena, responsável, curta,
cortante. aceito você de longe. não se digere amor, não se cospe
amor, amor é o engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. aceito
sua consideração de carinho no topo da minha cabeça, seu dedilhar
de dedos nos meus ombros, seu tchauzinho do bem partindo para algo
que não me leva junto e nunca mais levará, seu beijinho profundo de
perdão pela falta de profundidade. aceito apenas porque toda a lama,
toda a raiva, todo o nojo e toda a indignação se calam para ver
você passar.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
não, não foi a primeira vez e provavelmente não seria a última. eu confiei, sim, e não me arrependo nem um centímetro, olhando daqui. pra confiar é preciso viver com o coração. eu vivo.
- Ana Jácomo in Traição
quinta-feira, 26 de abril de 2012
e amigo é isso, aquele que a presença conforta sem precisar de muito gesto ou dramatização.
- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer
- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer
quarta-feira, 25 de abril de 2012
E de todos esses, nós
só dói quando a gente lembra que foi bom, e como foi bom! não gostava de alguém com essa intensidade fazia tempo. eu não amava, creio eu. de repente começou a sumir, sumia um dia, sumia dois dias, até sumir de uma vez por todas. eu sinto saudade daquelas brincadeiras de chegar em casa e ver quem chegava no banheiro primeiro. de todas aquelas festas que a gente foi e de todas aquelas bebidas que a gente bebeu e de todas as encarnações que a gente esteve junto e de todas as outras coisas que trazem esses "ex" - se é que você me entende. nós fomos um casal diferente, um pouco ciumento demais de ambos os lados, mas fomos.
de repente temo que não seremos mais esse tipo de gente que termina e nunca mais se fala depois, até nisso somos diferentes, acho que vou te ligar pra contar do meu futuro namorado, e vou te dizer como tá sendo bom contar com você. vou pensar que a gente poderia ter sido mais, um pouco mais implicante um com o outro, um pouco menos amoroso, vou pensar melhor que isso, pensar que a gente vai estar junto pra sempre só que enroscados em corpos diferentes.
nessa noite, aliás na última noite que estivemos juntos, eu sonhei que a gente era um casal feliz, que não
precisávamos passar por isso tudo, entende? cá estamos, e o nosso fim é selado com um abraço, diferente de outros fins, e nossas músicas são de séries, diferentes de outras músicas, e nosso amor é único, foi único.
tem pessoas que vivem de ar, outras que vivem de esperanças, algumas que vivem de amores, entre uma infinidade que vive por prazer, eu - diferente de todos esses - vivo de expectativas, eu sento na primeira fila do filme da minha vida pra ser telespectador de mim mesmo. lembrar de tudo isso é como se eu me desmontasse e construísse na sua frente, é como se eu me deletasse e me reinventasse pra tentar descobrir alguma razão nesse existir, e isso tudo foi por você. foi pelo que a gente podia ter sido, pelo que ficou inacabado. e eu tenho tanta, mas tanta coisa pra te dizer que eu.
de repente temo que não seremos mais esse tipo de gente que termina e nunca mais se fala depois, até nisso somos diferentes, acho que vou te ligar pra contar do meu futuro namorado, e vou te dizer como tá sendo bom contar com você. vou pensar que a gente poderia ter sido mais, um pouco mais implicante um com o outro, um pouco menos amoroso, vou pensar melhor que isso, pensar que a gente vai estar junto pra sempre só que enroscados em corpos diferentes.
nessa noite, aliás na última noite que estivemos juntos, eu sonhei que a gente era um casal feliz, que não
precisávamos passar por isso tudo, entende? cá estamos, e o nosso fim é selado com um abraço, diferente de outros fins, e nossas músicas são de séries, diferentes de outras músicas, e nosso amor é único, foi único.
tem pessoas que vivem de ar, outras que vivem de esperanças, algumas que vivem de amores, entre uma infinidade que vive por prazer, eu - diferente de todos esses - vivo de expectativas, eu sento na primeira fila do filme da minha vida pra ser telespectador de mim mesmo. lembrar de tudo isso é como se eu me desmontasse e construísse na sua frente, é como se eu me deletasse e me reinventasse pra tentar descobrir alguma razão nesse existir, e isso tudo foi por você. foi pelo que a gente podia ter sido, pelo que ficou inacabado. e eu tenho tanta, mas tanta coisa pra te dizer que eu.
- Douglas Lenon
terça-feira, 24 de abril de 2012
porque a gente sabe que jamais daremos certo, mas continuamos insistindo no erro. ou melhor, eu quero continuar insistindo, por que com minha alma de criança eu peço a Deus que me deixe ser um pouco feliz ao seu lado. não me adianta o homem mais perfeito do mundo se o meu imperfeito não viver o resto da vida ao meu lado.
- Tati Bernardi
segunda-feira, 23 de abril de 2012
mas sei que hoje é um grito. um grito! de cansaço. estou cansada! é óbvio que o meu amor pelo mundo nunca impediu guerras e mortes. amar nunca impediu que por dentro eu chorasse lágrimas de sangue. nem impediu separações mortais. filhos dão muita alegria. mas também tenho dores de parto todos os dias. o mundo falhou pra mim, eu falhei para o mundo. portanto não quero mais amar. o que me resta? viver automaticamente até que a morte natural chegue. mas sei que não posso viver automaticamente: preciso de amparo e é do amparo do amor.
09 de março de 1968
- Clarice Lispector in O Grito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"
09 de março de 1968
- Clarice Lispector in O Grito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"
domingo, 22 de abril de 2012
um toque, uma palavra mágica, um beijo no sapo, desencantaria.
- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Me liga, qualquer coisa
o tédio me agarra pela traqueia. o jornal na tevê apresenta manchetes do mês passado e eu já vi todos os filmes do mundo. cataloguei todas as cores do meu quarto. os entorpecentes não são mais engraçados. você precisa cortar esses cabelos, rapaz. parece um daqueles franceses pirados. dois dedos de uísque feito de milho e uma espiada pela janela na mercearia da esquina. o vento sujo varrendo os calcanhares do povo, tentando erguer a minissaia das meninas, jogando areia nos olhos. será que vai chover?
ouço a canção que o Morrissey fez pra mim. os vizinhos de baixo gritam quando a luz falta. sacolas plásticas de supermercado cruzam planando no esquadro da minha alma. o fim de tarde chega assobiando pra mudar bruscamente o humor do dia. corre-corre. ouvi alguém gritando – olha o temporal. corri e fechei as janelas. só que você entrou pela porta. encharcada até os ossos e a primeira peça de roupa, aquele velho medo de relâmpago, o rímel grafite escorrendo para o ralo no decote, precisando de ajuda para subir a bicicleta, reclamando o tempo todo.
seu olhar – vitrine dos meus melhores dias. fica, eu digo. me ajuda a matar o tempo até a luz voltar. fica e come da minha comida. pelo menos até a chuva acabar de cair. deu agora na televisão que a cidade está debaixo d’água, mandaram ninguém se mexer. consegue? tenta, vai. empresto uma toalha, uma camiseta G, um par de meias e a minha boca quente. você já bateu recorde de permanência, de toda maneira. vamos lá, fica, na minha geladeira tem o resto de um frango de padaria, a gente abre um vinho bom. juro fazer rolinhos na sua franja até você pegar no sono.
aí você gasta um de seus preciosos sins e deixa pra depois mais um daqueles seus adeus, que, aliás, tem de sobra na sua bolsa de pano, sempre à mão, para casos de emergência. e eu me pergunto: você vai ficar porque está chovendo, ou está chovendo porque você vai ficar? tanto faz. se eu bem te conheço, basta me despedir usando a tática do me-liga-qualquer-coisa. foi assim, desse jeito, que até hoje nenhum dos seus adeus durou para sempre.
- Gabito Nunes
quinta-feira, 19 de abril de 2012
não saber. existe troço pior que não ter notícias da pessoa amada, agora que ela vaga por aí cheia de vida enquanto você tenta soterrá-la no seu peito com pás e mais pás de festas chatas e romances sem ciúmes?
- Gabito Nunes in Não saber
- Gabito Nunes in Não saber
quarta-feira, 18 de abril de 2012
amor é dor. amor é dor. amor é dor. e você foi um filho-da-puta.
- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer
- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer
segunda-feira, 16 de abril de 2012
16º dia - "quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz." (Tati Bernardi)
o resto, o que sobre do seu tempo é o que tem pra mim. você arruma tempo pra tudo nesses seus "meios tempos", eu sou só aquilo que sobra. de todo a diversidade de amigos e problemas que você tem na sua vida, eu posso ajudar você a solucionar, isso é lógico, se você tiver um tempo pra mim. então a gente tenta se reconciliar, conversamos, e entramos em um consenso, o qual sempre acaba resolvendo o que já estava resolvido. eu disponibilizo grande parte do meu tempo pra você, e você se quer guardaria dois dias pra mim. só pra mim. não é amor, é carência. não é amor, é vontade de amar. não é amor, é o que sobra.
- Douglas Lenon
Um anjo chamado
50 dias sem ele,
DouglasL.,
TatiB.
sábado, 14 de abril de 2012
eu tenho medo de tudo isso apagar e o vento levar suas cinzas, desse fogo todo ser de palha, como dizem. da dor que se dissipa a cada respirada mais funda e cheia de coragem de ser só. eu tenho medo da força absurda que eu sinto sem você, de como eu tenho muito mais certeza de mim sem você, de como eu posso ser até mais feliz sem você.
- Tati Bernardi
sexta-feira, 13 de abril de 2012
não entendo de sonhos. mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. não precisa ser feliz sequer. basta ano novo. e é tão difícil mudar. às vezes escorre sangue.
10 de fevereiro de 1968
- Clarice Lispector in Um Sonho pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"
10 de fevereiro de 1968
- Clarice Lispector in Um Sonho pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"
quinta-feira, 12 de abril de 2012
— você é que sabe. - riu, de lado. no canto da boca, o vinco, marca funda, um talho. - então o que digo? me liga, está bem? ou nos vemos. ou pinta aí. o que você prefere? quem sabe como foi moda em Ipanema há uns dois verões, tchau, su-ces-so, hein? ou.
— não precisa dizer nada. - Santiago estendeu a mão, segurou na mão dele. acariciou a parte interna do pulso com a ponta do dedo. - eu penso devagar. não sei dizer coisas. estou cansado. preciso ficar só. a gente se vê. até.
Pérsio desceu.
— a gente se vê é perfeito.
- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
— não precisa dizer nada. - Santiago estendeu a mão, segurou na mão dele. acariciou a parte interna do pulso com a ponta do dedo. - eu penso devagar. não sei dizer coisas. estou cansado. preciso ficar só. a gente se vê. até.
Pérsio desceu.
— a gente se vê é perfeito.
- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas
quarta-feira, 11 de abril de 2012
você tem toda razão: é tudo vasto. essencialmente vasto. generosamente vasto. assustadoramente, também. Inclusive, o próprio amor. que não tem limites. que tudo pode curar. que tudo pode abraçar. que tudo pode transformar, contrariando as perspectivas apertadas e assustadíssimas das temporadas nos cárceres.
- Ana Jácomo
- Ana Jácomo
segunda-feira, 9 de abril de 2012
mas quem liga pra dizer que não liga? todo alô é a renovação de uma expectativa, e entre expectativa e esperança, honestamente, não sei a diferença.
- Gabito Nunes in Reticências
- Gabito Nunes in Reticências
domingo, 8 de abril de 2012
15º dia - "me faz muita falta ouvir sobre sua vida, suas histórias, seus medos, seus desejos, suas angústias." (Tati Bernardi)
o erro foi ter aceitado o seu pedido namoro. sim, esse foi o erro. eu sabia que se eu aceitasse eu ia me apaixonar por você, eu ia te querer todos os dias, ia me sentir inseguro a cada vento que soprasse, e tudo isso tá acontecendo. sei que se você for e conseguir alguém nós não seremos mais os mesmos, e ando só pensando em nós, só pensando nesse carinho de fim de noite que eu podia ganhar se você tivesse aqui, pensando no teu beijo de boa noite e na minha cabeça encostada no teu peito pra dormir melhor sabe? o medo é tanto que já tenho receio de ganhar ele, mesmo sabendo que posso tê-lo, sinto tua falta mesmo com seu cheiro no meu quarto e sua presença todas as manhãs, sinto falta de todos os segredos seus e de todos seus desejos, que eram tantos, que eram meus.
- Douglas Lenon
- Douglas Lenon
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