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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
02 de maio de 1970

– Clarice Lispector in Lembrança da feitura de um romance pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 11 de abril de 2013

As maravilhas de cada mundo


tenho uma amiga chamada Azaléia, que simplesmente gosta de viver.
viver sem adjetivos. é muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. sua vida é difícil, mas é sua.
um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. quais? dependia da pessoa.
ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.
primeira: ter nascido. ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.
segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.
terceira: sua capacidade de amar. através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.
quarta: sua intuição. a intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.
quinta: sua inteligência. considera-se uma privilegiada por entender. seu raciocínio é agudo e eficaz.
sexta: a harmonia. conseguiu-se através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.
sétima: a morte. ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.
16 de maio de 1970

–  Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

domingo, 10 de março de 2013


lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas. mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. e, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. mas um dia hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
25 de abril de 1970

– Clarice Lispector in Ir contra uma maré pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


e é isso que a maioria de nós faz a respeito: sentir com impotência revolta e tristeza. essa guerra nos humilha.
25 de abril de 1970

– Clarice Lispector in Vietcong pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


aliás ele é uma pessoa inteira. seus olhos muito negros não se desviam: ele não tem medo de olhar os homens no profundo dos olhos. dá vontade de sorrir com ele. se eu soubesse. aliás, preciso me habituar a sorrir mais, senão pensam que estou com problemas e não com o rosto apenas sério ou concentrado. voltando ao homem: quando ele diz até amanhã, sabe-se que o amanhã vira. ele tem um ligeiro mau gosto na escolha dos objetos de adorno que compra. isso me dá ternura. ele é inconsciente que eu o vejo tanto, não tantas vezes, mas tanto.
11 de abril de 1970

- Clarice Lispector in Um homem pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Noveleta


não, eu não era engraçada. sem nem ao menos saber, eu era muito séria. não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. e, por Deus, eu não era um tesouro. mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitável – que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável. mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém — através de alguém. e só eu estivera ali. se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegavam a alcançar. seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos. entendi eu tudo isso? não. e não sei o que na hora entendi. mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascínio o mundo — e mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi — assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. nunca saberei o que eu entendo. o que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. ignorância que ali em pé — numa solidão sem dor, não menor que a das árvores — eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível. ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.
07 de fevereiro de 1970

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

sábado, 22 de dezembro de 2012


depois dirá: nada sonhei. será que basta? basta, sim. e sobretudo essa falta de erro. esse tom de emoção de quem poderia mentir mas não mente. basta? basta, sim.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in Hindemith pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


é de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.
06 de setembro de 1969

- Clarice Lispector in O Artista perfeito pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


oh, não se assuste muito! às vezes, a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça, repeti como se pudesse alcançá-la antes que desistindo de servir ao verdadeiro, ela fosse altivamente servir ao nada. eu que não me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. mas juro que isso é a respiração.
30 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (Final) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sexta-feira, 28 de setembro de 2012



não chegaria a ser erro, era mais um leve estrabismo de pensamento — mas para mim teve a graça de uma queda, e antes que o instante passasse, eu por dentro lhe disse: é assim mesmo que se faz, isso! vá devagar assim, e um dia vai ser mais fácil ou mais difícil para você, mas é assim, vá errando, bem, bem devagar.
16 de agosto de 1969

- Clarice Lispector in A Princesa (III) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quinta-feira, 20 de setembro de 2012


“então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: 'Sim, acho que eu também te amo.'”
01 de março de 1969

– Clarice Lispector in Quem escreveu isto? pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


saudade eu tenho sempre. mas, saudade tristíssima, duas vezes.
11 de janeiro de 1969

– Clarice Lispector in Lúcio Cardoso pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


só que dessa não se morre. mas tudo, menos a angústia, não? quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. e a falta de esperança na esperança. e conformar-se sem se resignar. não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. e então vem o desamparo de se estar vivo. estou falando da angústia mesmo, do mal. porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
30 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Angina Pectoris da Alma pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

domingo, 26 de agosto de 2012


deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. e quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. pois o prazer não é de se brincar com ele. ele é nós.
23 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in O Nascimento do prazer (trecho) pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sábado, 11 de agosto de 2012


é preciso que você reze por mim. ando desnorteada, sem compreender o que me acontece e sobretudo o que não me acontece.
16 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Mário Quintana e sua Admiradora pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

um nome para o que eu sou, importa muito pouco. importa o que eu gostaria de ser.
02 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in O que eu queria ter sido pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

terça-feira, 17 de julho de 2012

aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
sinto que viver é inevitável. posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. ser às vezes sangra. mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. dói. a primavera me dá coisas. dá do que viver. e sinto que um dia na primavera é que vou morrer. de amor pungente e coração enfraquecido.
05 de outubro de 1968

- Clarice Lispector in Eu sei o que é primavera pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

segunda-feira, 16 de julho de 2012

a raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? ser gente me cansa. e tenho raiva de sentir tanto amor. há dias que vivo de raiva de viver. porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. bem sei que isso vai passar, e que a carência necessária volta. então vou querer tudo, tudo! ah como é bom precisar e ir tendo. como é bom o instante de precisar que antecede o instante de ter. mas ter facilmente, não. porque essa aparente facilidade cansa. até escrever está sendo fácil? por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta dos dedos? é um pecado, bem sei querer a carência. mas a carência de que falo é tão mais plenitude do que esta espécie de fartura. simplesmente não a quero.
14 de setembro de 1968

- Clarice Lispector in Fartura e Carência pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 4 de julho de 2012

mas de hoje em diante todos saibam através de mim que não estou mentindo: em menos de dois segundos pode-se viver uma vida e uma morte e uma vida de novo.
17 de agosto de 1968

- Clarice Lispector in Morte de uma Baleia pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

sábado, 30 de junho de 2012

20º dia - "cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor." (Clarice Lispector)

incrível como a gente se contradiz a toda manhã, a toda noite, a todo dia. como a gente conta com aquilo que a gente não tem, como a gente compra aquilo que a gente não usa, como a gente joga fora aquilo que faz falta. fechamos os olhos e contamos quantas vezes a gente decepcionou a gente mesmo. somos feito de pressas necessárias e esperas desnecessárias. engraçado que a gente tem paciência pra esperar todo aquele carinho que a gente não vai ter e temos pressa que nos amem sem nos amarem. tudo se contradiz, eu mesmo me contradigo. tem vezes que olho pra tudo que está em volta e penso que talvez eu deva ter mais paciência comigo e amar um pouco mais o outro. não sou o tipo de pessoa que esperaria por mim, mas tudo aquilo que aconteceu, tudo o que passou por mim, me deixou tão apegado ao meu eu, que eu amo e não te espero.

- Douglas Lenon