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terça-feira, 6 de agosto de 2013

mas tenho anotado histórias, anotado sem parar. está vindo algo por aí, está se avolumando. talvez seja o único jeito, não? minhas ficções não me rejeitam. talvez seja sina, essa de escrever, e então ter as respostas da vida real na vida recriada, nunca na própria vida real – como as pessoas que não criam costumam ter. e deve estar certo assim, deve haver uma ordem e um sentido nisso.
27 de janeiro de 1987
       

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

terça-feira, 2 de abril de 2013


sinto uma falta absurda de você. ficou um vazio que ninguém (pre)enche. e penso e repenso e trepenso em você por aí.
27 de janeiro de 1987

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. e eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem.

estou te querendo bem neste minuto. tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas.
fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. mesmo que a gente se perca, não importa. que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. mas que seja bom o que vier, para você, para mim.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. de não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. ser novo.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


eu te amei muito. nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver nem medo nem coisas falsas. há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. são coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas – se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi elas, caso contrário não será preciso.
21 de março de 1972

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Vera Antoun

domingo, 6 de janeiro de 2013


e eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


e uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. destruir antes que cresça. com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. para que não me firam, minto. e tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. não queria fazer mal a você. não queria que você chorasse. não queria cobrar absolutamente nada. por que o zen de repente escapa e se transforma em sem. sem que se consiga controlar.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quinta-feira, 8 de novembro de 2012


cansado, cansado. quase não dormi. e não consigo tirar você da cabeça. estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. hesito em dizer em qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. mas quero te contar umas coisas. mesmo que a gente não se veja mais. penso em você, penso em você com força e carinho. axé.
10 de agosto de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Sérgio Keuchgerian

quarta-feira, 31 de outubro de 2012


mas uma estranha intuição: de que, de alguma forma, este é um período de luta depois do qual tudo deve abrir, ficar mais fácil, menos batalhado.
21 de julho de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

quinta-feira, 27 de setembro de 2012



repito sempre: sossega, sossega – o amor não é para o teu bico.
18 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

sábado, 22 de setembro de 2012


resolvi me afastar, e agora estou tentando tirar da cabeça. não estou conseguindo. estava muito apaixonado. acho que nunca tanto. não consigo mais aceitar relações pela metade. em outras palavras, raspas e restos não me interessam.
12 de abril de 1985

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

domingo, 16 de setembro de 2012

25º dia - "sinto uma falta absurda de você. ficou um vazio que ninguém (pre)enche. e penso e repenso e trepenso em você por aí." (Caio Fernando Abreu)

de repente o que era chão se torna o maior abismo de todo o universo. como acreditar em algo que não dá pra tocar, não dá pra mostrar, não dá pra demonstrar. rezo toda noite pra que o próximo dia seja melhor, pra que no próximo dia você volte e que você me traga algum resquício de paz, que você me traga acima de tudo um pouco de tranquilidade. vai dizer que o fim dos dias não te corrói nem um pouquinho? vai dizer que ele não te mastiga, não te morde a ponto de você se sentir sufocado. sufoco talvez seja isso que tenha acontecido depois que você foi embora.
mas acima de tudo o que me corrompe tenho acreditado que os dias são muito mais do que a gente vê na televisão. até porque nunca passa uma notícia na televisão dizendo que um coração foi partido ou que alguém foi embora sem dizer adeus. coisas da vida, coisas que nem a gente consegue explicar pra gente mesmo.
penso que nosso relacionamento sempre foi um tanto unilateral, acho que era assim que Caio dizia, é tão cansativo carregar uma história de amor inteira nas costas e viver nessa insegurança e dizer que tá tudo bem e que sim, somos felizes desse jeito. nem eu acredito mais em alguma manifestação de amor, acho que tudo é feito pra vender, sempre existe alguém ganhando por trás de tudo. até no amor, tem sempre um que sai vencedor e outro não ganha nem um prêmio de consolação, se é que vocês me entendem.

- Douglas Lenon

sábado, 15 de setembro de 2012


venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim.
28 de maio de 1984

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


hoje é o primeiro dia que fico só em cerca de 20 dias.
tenho aprendido coisas que ainda estão vagas dentro de mim, mal comecei a elaborá-las. são coisas mais adultas, acho. tem sido bom. amigos cintilam em volta, estendem a mão na hora certa. você vai se enriquecendo em fé.
28 de maio de 1984

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Luciano Alabarse

sábado, 18 de agosto de 2012

silêncio, ando obcecado por silêncio. um silêncio que te permita ouvir o ruído do vento. e o bater do coração. e se possível isso que chamamos de Deus, existindo devagarinho em cada coisa. existe sim.
21 de setembro de 1983
 
- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Maria Adelaide Amaral

domingo, 12 de agosto de 2012

23º dia - "talvez tudo isso seja, quem sabe, um lugar muito próximo da felicidade?" (Caio Fernando Abreu)

você olha em volta e começa a perceber que o amor chegou mas não sabe se realmente é na sua porta que ele anda batendo. talvez hoje não seja o 23º dia sem ele e sim o 1º. se eu pudesse trazer uma praia pro lado da cidade grande, quem dera eu fazer teu coração bater mais forte. de repente a vida nos traz uma escolha que a gente se quer sabia que existia.
saudade de fechar os olhos e sentir teu abraço quentinho, tua respiração próxima ao meu ouvido e teu beijo doce, acordar no meio da manhã e sentir você me puxar com a mão sobre seu peito. só Deus sabe como eu fechei os olhos hoje de manhã e agradeci cada segundo, cada milésimo de segundo perto de você. e eu entendo esse teu jeito quieto, esse teu jeito manso de fazer as coisas com calma e demonstrar nas entrelinhas, eu tenho um mal de pessoas que acreditam no futuro e eu acredito em nós, nós dois.

- Douglas Lenon

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


toma um café, que o mundo acabou faz tempo.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. avisei que não dou mais nenhum sinal de vida. e não darei. não é mais possível. não vou me alimentar de ilusões. prefiro reconhecer com o máximo de tranquilidade possível que estou só do que ficar a mercê de visitas adiadas, encontros transferidos. no plano REAL: que história é essa? no que depende de mim, estou disposto & aberto. perguntei a ele como se sentia. que me dissesse. que eu tomaria o silêncio como um não e ficaria também em silêncio. acho que fiz bem.

não só em relação a ele, mas a muitas outras coisas, quero que daqui pra frente a vida seja hoje. a vida não é adiável. Marilene sempre soube disso, foi nisso que pensou ao deixar o Índio. anyway, me dói a possibilidade de um não, me dói a possibilidade de um silêncio, me dói não saber de que forma chegar a ele, sacudi-lo, dizer me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa? bueno, os dados estão lançados, e agora só me resta lavar as mãos sujas do sangue das canções.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

segunda-feira, 30 de julho de 2012


e tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. é pra mim mesmo.
20 de maio de 1983

- Caio Fernando Abreu in “Cartas” à Jacqueline Cantore

domingo, 29 de julho de 2012

21º dia - "venha quando quiser, ligue, chame, escreva – tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim." (Caio Fernando Abreu)

e de repente a gente conta até dois mil quatrocentos e cinquenta e sete, e mesmo assim o mundo parece não parar de girar pra gente sofrer um pouquinho que for. você vai olhando para as paredes e começa a desenhar toda a falta que alguém faz, que alguém anda fazendo. para no meio do quarto e olha embaixo da cama procurando aquele chinelo, que a gente chama de: pessoa que foi embora antes de ser alguma coisa. tenho vontade mesmo de dizer que tudo não passou de um sonho e que a gente ama pra valer mesmo é no aconchego do abraço do outro. os dias parecem chuvosos dentro de nós mesmos, porque o tempo é bom, ah como o tempo é bom. como o tempo cura, lava, seca e estende a gente, parece até máquina de lavar e a gente aquela roupa suja sabe? fim de relacionamento é isso: uma roupa suja que a gente adia muito pra poder lavar.
gostoso mesmo é essa saudade que diz que por mais que a gente esteja longe, os dias correm pra te buscar e te trazer de volta pra mim.

- Douglas Lenon