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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Na terra do se

se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.

se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.

se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos.
se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.

se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.

se todos lessem bons livros.
se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.

se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.

se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.
se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.

se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.

se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.
se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.

se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

se.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

domingo, 17 de fevereiro de 2013

a gente se entope de açúcar, não usa fio dental e depois vai tratar a cárie, se sentindo privilegiado por poder pagar um dentista. a gente aplaude a arrogância dos filhos e depois vai pagar a fiança na delegacia. a gente fuma três maços por dia e depois processa a indústria tabagista. a gente corre na estrada a 140 km/h, ultrapassa em faixa contínua e depois suborna o guarda, na melhor das hipóteses. ou então morre, ou mata – na pior delas.

- Martha Medeiros in Depois se vê pertencente à obra “Feliz por nada”

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sons que confortam


eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. chamaram o médico da família. e aguardaram. e aguardaram. e aguardaram. até que o garoto escutou um barulho lá fora. é ele que conta, hoje, adulto: nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. a começar pelo choro na sala de parto. seu filho nasceu. e o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. seu filho voltou.

e pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

o sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

o telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

o barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. e estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

o toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. ou mesmo a chegada da pizza.

o aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

a sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

o sinal da hora do recreio.

a música que você mais gosta tocando no rádio do carro. aumente o volume.

o aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

o primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

e o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


mas Cris Guerra, não deixou a peteca cair e, além de um belo livro, nos deixou um recado valioso: a vida não apenas continua, ela sempre recomeça.

- Martha Medeiros in Para Francisco e todos nós pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


 “não sei o que fazer! fico mal contigo e fico mal sentigo!”

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

Feliz ano novo!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


é possível também que a relação fosse mais racional do que animal: ternura é bem diferente de paixão.

- Martha Medeiros in Contigo e sentigo pertencente à obra “Feliz por nada”

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


mas quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?

- Martha Medeiros in Em que esquina dobrei errado? pertencente à obra “Feliz por nada”

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Quando os chatos somos nós


você conhece um chato. ou dois. ou meia-dúzia. e até gosta deles, viraram figuras folclóricas na sua vida. talvez seja um cunhado, um amigo de um amigo, um colega de trabalho. os chatos são bem intencionados, não se pode negar. e é justamente essa boa intenção fora da medida que faz deles... chatos. o chato nada mais é que um exagerado. ele é prestativo demais, ele é piadista demais, ele leva muito tempo para contar algo que lhe aconteceu, ele fica hooooras no telefone, ele se leva a sério além do razoável, ele ocupa o tempo dos outros com histórias que não são interessantes. o chato é, basicamente, um cara (ou uma mulher) sem timing.

estava pensando nisso quando escutei alguém citando uma das coisas mais chatas que existe. tive que concordar: colocar um filho pequeno no telefone pra falar com a dinda, com a vovó, com o titio, é muito chato. a gente ama aquela criança - talvez seja até o nosso filho! - mas ao telefone, esquece. tentamos entabular um diálogo minimamente inteligível e nada rola. ou ele não fala nada que se compreenda, ou não abre o bico, e só nos resta ficar idiotizados do outro lado da linha.

todo mundo sabe que isso é chato. mas todo mundo que já teve um filho comete essa mesma chatice com os outros. por que? porque pai e mãe de primeira viagem são chatos por natureza. ninguém escapa. se não for chato, será considerado um sem-coração. todos irão apontar: olha lá, aquele ali esconde o filho. põe ele no telefone!

outra chatice é mostrar 3.487 fotos do bebê. dá nos nervos quando o filho não é nosso. todos os bebês são iguais, menos para seus pais. seja bem sincero: dá pra aguentar ver foto de bebê pelo celular? basta perguntar educadamente pra alguém: e seu filhinho, vai bem? pronto. num segundo o celular ou iPhone será sacado e apontado direto para seus olhos: veja você mesmo.

a gente sabe que é chato, mas toleramos com sorrisos parcialmente sinceros porque faremos a mesma coisa quando chegar a nossa vez - ou já fizemos um dia. se você passou dessa fase, segure a onda e compreenda os que ainda não passaram. nada de reclamar. aqui se faz, aqui se paga.

outras chatices? quando alguém pergunta: lembra de mim? se está perguntando, é porque a chance é remota. mas já não fizemos isso diante de alguém que gostaríamos muuuuito que lembrasse? e esticar as letras das palavras quando se está escrevendo? e quando a gente começa uma frase com "adivinha". adivinha pra onde eu vou nas próximas férias. adivinha quem me convidou pra jantar. adivinha com quem eu sonhei hoje.

falando em sonho, tem coisa mais chata do que ouvir o sonho dos outros? mas você já contou os seus. váááárias vezes.

agora adivinha qual o próximo exemplo que vou dar (kkkkk). precisamos mesmo colocar risadas entre parênteses para que os outros entendam nossas piadinhas cretinas?

alguns menos, outros mais, chatos somos todos.

- Martha Medeiros in “Feliz por nada”

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


então, tranque o carro numa rua escura e também dentro da sua garagem, não entre no quarto de um neanderthal se você não estiver bem certa do que deseja, não deixe uma vela acesa perto de uma janela aberta, pense duas vezes antes de mandar seu chefe para um lugar que você não gostaria de ir, não tenha em casa Doritos, Coca-Cola e Ouro Branco se estiver planejando perder uns quilos e lembre-se do que sua bisavó dizia: regue as plantas, regue suas relações, regue seu futuro, porque sem cuidar, nada floresce.

e, por via das dúvidas, confie em Deus também, que mal não faz.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

segunda-feira, 24 de setembro de 2012


se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada.

- Martha Medeiros in Os ausentes pertencente à obra “Feliz por nada”

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice.

- Martha Medeiros

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


tudo é uma questão de humor e de atitude: mude. deixe de colocar sua felicidade na mão dos outros.

- Martha Medeiros

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

às vezes as pessoas me perguntam: por que os casamentos terminam tão cedo hoje em dia? não terminam mais cedo hoje. é que antes o casal não se separava porque a mulher não tinha como se sustentar, e isso dava a falsa impressão de que eram casais longevos. o casamento acabava, mas o convívio prosseguia. mais do que a separação de corpos, o que pode dar fim a um amor é o distanciamento de percepções: um enxerga o mundo em cores, o outro em preto-e-branco. um percebe a delicadeza e a profundidade de tudo o que existe, o outro não consegue ir além da superfície. pode um casal ser mais desunido do que aquele que, olhando na mesma direção, não consegue enxergar a mesma coisa?
 
- Martha Medeiros in Iolandas e copolas pertencente à obra “Feliz por nada”

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Amigo de si mesmo


em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima. mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana. mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: "perguntas-me qual foi meu maior progresso? comecei a ser amigo de mim mesmo".

como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. a primeira aliada da camaradagem é a humildade. jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível. encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? e chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. e aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: "para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza". é uma frase genial. o bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? ora. faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. não troque sua paz por encenação. não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto "ser amigo de si mesmo".

por fim, pare de pensar. é o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha "sou rebelde porque o mundo quis assim". sem essa. o mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. salve-se dos seus traumas de infância. quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

- Martha Medeiros in Feliz por nada

terça-feira, 7 de agosto de 2012


independência nada mais é do que ter poder de escolha. conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. independência não é sinônimo de solidão. é sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero e porque quero.

- Martha Medeiros in A mulher independente pertencente à obra “Feliz por nada”

domingo, 5 de agosto de 2012

22º dia - "é duro ter apenas duas alternativas (ficar ou ir embora) e ambas serem terríveis." (Martha Medeiros)

e se fosse tudo um sonho e na verdade você nem tivesse ido embora, que na verdade eu era quem estava em coma e nem percebeu que dormi esse tempo todo com você do meu lado. Deus vai escrevendo nas nossa linhas e a gente vai rabiscando por cima, colocando aqueles post-its de provas sabe? escrevendo em cima "rever essa parte" ou "não vai cair na prova". a vida é um tremendo livro cheio de post-it. nós queremos mudar tudo, mas sempre que a gente faz algo errado, a gente volta para aquela página e coloca um post-it dizendo "repensar", aliás não usamos essa palavra, mas é como se fosse um exame de consciência feito justamente pra gente não errar, ou pra gente errar de novo. chamamos isso de "liberdade de expressão" que a gente usa bastante mas não sabe pra que serve. hoje acho que a gente usa essas alternativas do livro da vida pra escolher entre as opções: ir ou ficar. a gente sempre fica na vida de quem a gente acrescenta algo e a gente sempre vai acrescentando nas pessoas aquilo que a gente queria acrescentar na gente mesmo ficando com elas, ou ficando pra elas.

- Douglas Lenon

segunda-feira, 23 de julho de 2012


internet, cinema, novelas, revistas, livros, música: tudo nos conduz a pensar que a vida não tem o menor sentido se a gente não sentir prazer 25 horas por dia. e onde se esconde esse tal de prazer? se você procurá-lo num casamento, estará renunciando às alternativas. se, ao contrário, passar em revista todo homem ou mulher que lhe der um sorriso promissor, tampouco terá garantia de encontrar o que procura. o que é que a gente procura? a tal festa no outro apartamento, a tal grama mais verde do vizinho, o tal êxtase que parece estar sempre na outra margem do rio.

- Martha Medeiros in Insatisfação Crônica pertencente à obra “Feliz por nada”

terça-feira, 12 de junho de 2012

o amor é grande mas não é dois. é preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. o amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

- Martha Medeiros in Trem bala

terça-feira, 5 de junho de 2012

quem é que, possuindo mais de dois neurônios, não se aflinge com suas escolhas, não se pergunta duzentas vezes se é realmente feliz, não tem vontade de entregar os pontos por puro cansaço?

- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer

domingo, 3 de junho de 2012

derrota é quando a gente ganha dos outros, mas desiste de si mesma.
ao seu lado, mesmo que você não veja.

- Martha Medeiros in Tudo que eu queria te dizer