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domingo, 5 de dezembro de 2010

sempre caminhávamos até a escola bem devagar. eu gostava das caminhadas porque conseguia pensar um pouco sobre a direção que minha vida, estava tomando. eu tinha certeza de que nada podia ficar pior do que já havia sido, e aquilo me fazia sorrir um bocado. eu ainda estava me acostumando a ser de novo parte de uma família. também havia começado a dizer às pessoas que Mohamed era meu irmão, para que não fosse preciso explicar nada. eu sabia que nunca conseguiria esquecer meu passado, mas queria parar de falar sobre ele para que pudesse estar totalmente no presente em minha nova vida.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

terça-feira, 30 de novembro de 2010

— sou de Serra Leoa, e o problema que afeta nós, crianças, é que a guerra nos força a fugir de nossas casas, a perder nossas famílias e a vagar sem rumo pelas florestas. o resultado disso é que acabamos envolvidos no conflito como soldados, transportando cargas e fazendo muitas outras tarefas difíceis. tudo por causa da fome, da perda das nossas famílias e da necessidade de nos sentirmos seguros e parte de alguma coisa, quando tudo mais está destruído. rntrei para o exército, na verdade, por causa do assassinato da minha família. ru também tinha que conseguir comida para sobreviver, e o único jeito era fazer parte de um pelotão. não era fácil ser soldado, mas tínhamos que fazer aquilo. estou reabilitado agora, então não tenham medo de mim. não sou mais um soldado; sou uma criança. somos todos irmãos e irmãs. o que eu aprendi com minhas experiências é que a vingança não é boa. entrei para o exército para vingar as mortes da minha família e para sobreviver, mas aprendi que, se vou me vingar, durante o processo vou matar outra pessoa que tem uma família, que também vai querer se vingar; e se vingar, se vingar, se vingar, até que a vingança nunca chegue ao fim...

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

— nós podemos ser reabilitados – eu enfatizava, e me apontava como um exemplo. eu sempre dizia às pessoas que acreditava que as crianças tinham a capacidade de recuperação necessária para superar seus sofrimentos, se tivessem a chance.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

domingo, 21 de novembro de 2010


um dia, no meu quinto mês no Lar Benin, eu estava sentado numa pedra atrás das salas de aula quando Esther chegou. ela sentou ao meu lado em silêncio. tinha meu caderno de letras de música na mão.
— sinto como se não houvesse mais motivo para eu continuar vivo – eu disse, devagar. – não tenho família, sou sozinho. não tenho mais ninguém que conte histórias sobre quando eu era pequeno. – funguei um pouco.
Esther colocou os braços em volta de mim e me puxou para perto. ela me deu uma sacudida de leve para conseguir minha atenção completa antes de começar.
— pense em mim como sua família, sua irmã.
— mas eu não tinha irmã – respondi.
bom, agora você tem. sabe, é isso que é bonito em começar uma família nova. você pode ter outro tipos de parentes. – ela olhou para mim diretamente nos olhos, esperando que eu dissesse alguma coisa.
— ok, você pode ser minha irmã, provisoriamente – falei, enfatizando a última palavra.
— por mim tudo bem. então, amanhã você vem visitar sua irmã provisória, por favor? – ela cobriu o rosto como se fosse ficar triste se eu dissesse que não.
— ok, ok, não tem motivo para ficar triste – eu disse, e nós dois rimos um pouco.
a risada de Esther sempre me lembrou de Abigail, a garota com quem eu saía durante meus dois primeiros semestres na escola em Bo Town. às vezes eu queria que Esther fosse Abigail, para que pudesse falar com ela sobre antigamente, antes da guerra. queria que nós ríssemos com todo o nosso ser, por mais tempo e sem quaisquer preocupações, como tinha feito com Abigail, mas não podia mais fazer. ao final de cada risada havia sempre uma ponta de tristeza de que eu não conseguia escapar. às vezes eu observava Esther enquanto ela estava ocupada com a parte burocrática do trabalho. sempre que sentia meus olhos sobre ela, ela atirava um papel amassado na minha direção sem me olhar. eu sorria e guardava o pedaço de papel no meu bolso, fingindo que o papel em branco era um bilhete especial que ela tinha escrito para mim.
naquela tarde, enquanto Esther se afastava da pedra em que eu estava sentado, ela virou várias vezes para trás para acenar para mim, até que desapareceu atrás de um dos muros. sorri de volta e esqueci por um momento da minha solidão.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

esse é um dos trechos mais lindos desse livro, não sei porque
mas imaginei a cena detalhadamente, recomendo demais esse livro!

domingo, 14 de novembro de 2010

— no céu estão sempre todas as respostas e explicações para tudo: cada dor, cada sofrimento, alegria e confusão.
naquela noite eu quis que o céu falasse comigo.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

naquela época eu não me achava sortudo, eu me achava corajoso e bom de combate. mal sabia que sobreviver à guerra em que eu estava, ou a qualquer outro tipo de guerra, não era questão de se sentir bem treinado ou valente. essas coisas só me faziam sentir imune à morte.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sábado, 6 de novembro de 2010

aquela excitação toda fazia meu coração pular, e eu suava em bicas. podia sentir o salgado das gotas que corriam da minha testa até a boca. naquele momento, com a minha família, eu me senti leve, como se estivesse pronto para voar. queria segurar o momento por mais tempo, não para celebrar nossa vitória, mas porque o sorriso no rosto dos meus pais fazia com que cada nervo do meu corpo acordasse e se movesse na corrente suava que passava dentro de mim.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


— quantas vezes mais vamos ter que enfrentar a morte até encontrarmos segurança? – perguntou. ele esperou alguns minutos, mas nenhum de nós três disse qualquer coisa. ele continuou: – toda vez que somos perseguidos por gente que quer nos matar, fecho os olhos e espero pela morte. apesar de ainda estar vivo, sinto como se, a cada vez que aceito a morte, parte de mim morresse. muito em breve eu vou morrer completamente e tudo que sobrar de mim será meu corpo vazio, andando com vocês. ele será mais silencioso do que eu.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sábado, 30 de outubro de 2010

coloquei as mãos por trás da cabeça e deitei de costas, tentando me agarrar às lembranças de que tinha da minha família. seus rostos pareciam estar em um lugar distante da minha mente, e para chegar até eles eu tinha que trazer à tona lembranças dolorosas. tinha saudade das mãos compridas, escuras e brilhantes da minha avó; do abraço apertado da minha mãe, quando eu a visitava, como se estivesse me escondendo e protegendo de alguma coisa; da risada do meu pai quando jogávamos futebol juntos ou quando ele me perseguia à noite com um balde d'água para me obrigar a tomar banho; dos braços do meu irmão mais velho em volta de mim quando caminhávamos para a escola e quando ele me dava uma cotovelada de leve para me impedir de dizer coisas de que eu me arrependeria; e de meu irmãozinho, que se parecia muito comigo e que às vezes, quando fazia alguma coisa errada, dizia para as pessoas que seu nome era Ishmael.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

terça-feira, 26 de outubro de 2010

à noite parecia que caminhávamos junto com a lua. ela nos seguia sob nuvens densas e esperava por nós do outro lado das trilhas em florestas escuras. desaparecia com o nascer do sol, mas sempre voltava a pairar sobre nosso caminho na noite seguinte. seu brilho tornava-se mais sutil conforme as noites passavam. certas noites no céu era varrido por estrelas que flutuavam e desapareciam rapidamente na escuridão antes que nossos desejos pudessem encontrá-las. eu costumava ouvir histórias debaixo daquelas estrelas e do céu, mas agora parecia que o céu é que nos contava histórias enquanto suas estrelas caíam, colidindo violentamente umas contras as outras. a lua havia se escondido detrás das nuvens para não ver o que acontecia.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sábado, 23 de outubro de 2010

foi Junior quem me ensinou a fazer pedras pularem no rio. uma vez fomos buscar água e ele me disse que tinha aprendido uma mágica nova que fazia as pedras andarem na água. dobrando o corpo de lado, ele jogava pedrinhas e cada uma andava na água mais rápido que a outra. ele me disse para tentar, mas eu não consegui. ele prometeu me ensinar o truque noutro dia. quando voltávamos para casa com baldes na cabela, escorreguei e caí, derramando a água. Junior me deu o balde dele, pegou o meu e voltou ao rio. a primeira coisa que ele me perguntou quando chegou em casa foi se eu tinha me machucado quando caí. eu disse que estava bem, mas, de qualquer maneira, ele fez questão de examinar meus joelhos e meus cotovelos, e, quando terminou, fez cócegas em mim. enquanto olhava para ele naquela noite, sentado na varanda de uma casa numa aldeia desconhecida, quis que ele me perguntasse se eu estava bem.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

terça-feira, 19 de outubro de 2010

toda manhã eu decidia meu destino escolhendo em qual direção seguir. meu objetivo era evitar a direção de onde eu tinha vindo.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sábado, 16 de outubro de 2010


levantei do chão, molhei uma toalha branca com um copo d'água e a amarrei em volta da cabeça. eu estava com medo de dormir, mas ficar acordado também me trazia lembranças dolorosas. lembranças das quais às vezes eu gostaria de me livrar, apesar de saber que são uma parte importante do que é minha vida, de quem sou agora. fiquei acordado a noite inteira, esperando ansiosamente pela luz do dia, para que eu pudesse retornar por inteiro à minha nova vida e re-encontrar a felicidade que conheci quando criança, a alegria que havia permanecido viva em mim mesmo em épocas quando estar vivo havia se transformado em um fardo. hoje vivo em três mundos: meus sonhos, e as experiências da minha nova vida, que desencadeiam memórias do passado.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa

sábado, 9 de outubro de 2010

toda noite em que a lua aparecia no céu eu me deitava no chão e ficava quieto, olhando para ela. queria descobrir por que era tão atraente e adorada. fiquei fascinado com os diferentes desenhos que distinguia dentro da lua. certas noites eu conseguia ver a cabeça de um homem. ele tinha uma barba de tamanho mediano e usava um chapéu de marinheiro. noutras ocasiões eu via um homem com um machado cortando madeira, e às vezes uma mulher ninando um bebê no peito. sempre que tenho uma chance de observar a lua agora, ainda vejo as mesmas imagens que enxergava quando tinha seis anos, e me agrada saber que aquela parte da minha infância ainda está guardada em mim.

- Ishmael Beah in Muito longe de casa