quinta-feira, 11 de abril de 2013

As maravilhas de cada mundo


tenho uma amiga chamada Azaléia, que simplesmente gosta de viver.
viver sem adjetivos. é muito doente de corpo, mas seus risos são claros e constantes. sua vida é difícil, mas é sua.
um dia desses me disse que cada pessoa tinha em seu mundo sete maravilhas. quais? dependia da pessoa.
ela então resolveu classificar as sete maravilhas de seu mundo.
primeira: ter nascido. ter nascido é um dom, existir, digo eu, é um milagre.
segunda: seus cinco sentidos que incluem em forte dose o sexto. com eles ela toca e sente e ouve e se comunica e tem prazer e experimenta a dor.
terceira: sua capacidade de amar. através dessa capacidade, menos comum do que se pensa, ela está sempre repleta de amor por alguns e por muitos, o que lhe alarga o peito.
quarta: sua intuição. a intuição alcança-lhe o que o raciocínio não toca e que os sentidos não percebem.
quinta: sua inteligência. considera-se uma privilegiada por entender. seu raciocínio é agudo e eficaz.
sexta: a harmonia. conseguiu-se através de seus esforços, e realmente ela é toda harmoniosa, em relação ao mundo em geral, e a seu próprio mundo.
sétima: a morte. ela crê, teosoficamente, que depois da morte a alma se encarna em outro corpo, e tudo começa de novo, com a alegria das sete maravilhas renovadas.
16 de maio de 1970

–  Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

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