quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Como terminar um namoro da forma certa



A forma certa de terminar um namoro começa no início da relação. Você não precisa cantar alguém para ser sua namorada já pensando no fim. Não se trata disso. Você entenderá quando eu lhe contar sobre meu romance com a Ana e como ele foi concluído. Sim, a palavra é concluído. Nosso amor é como um livro. Ele acabou de ser escrito, mas vende até hoje.

Eu e a Ana fizemos um pacto, como todo par recém-apaixonado. Nos amaremos para sempre? Não, eu não era príncipe, nem ela cinderela. Fizemos um tratado de virarmos as costas assim que o prazer de estarmos juntos escapasse entre os dedos. Rápido, indolor e sem dramas.

O formalizamos em um restaurante, ao assistir um casal sentado de frente pro outro devorar um filé ao molho de champignon sem emitir uma palavra, além de “me passa o sal”. Havia uma tristeza mórbida naqueles olhares que mal se cruzavam. Sentados lado a lado, entre cheiros no pescoço, mordiscadas no lóbulo da orelha e risadinhas irônicas e debochadas, convencionamos que aquela cena seria nossa linha de chegada. Seria o indício do fim, concordamos Ana e eu.

Simples, contudo nada fácil. Durante três anos, eu e Ana servimos como modelo de namorados. Eu era louco pela Ana e só conseguia demonstrar plenamente quando mordia ela forte no queixo. Ela vertia lágrima, mas eu não podia traduzir minha paixão silabicamente. Ana era fissurada por mim. Sempre que o fim de semana desembocava no domingo à noite. Ana tentava esconder o choro no banco do caroneiro quando eu a levava em direção à rodoviária. Tinha dias que a gente simplesmente se respirava.

Ana foi meu amor mais amigo, meu relacionamento mais tranquilo, a garota pela qual eu abriria mão de morar sozinho. Ana foi meu abraço mais sincero, meu mais sério e divertido namoro, e estar longe dela me dava uma agonia que eu gostava de ter. Ana foi meu sexo mais ardente, minha risada mais gostosa, a mais deliciosa teia que já me prendeu. Aonde meus olhos iam, levavam Ana à tiracolo. Ana me mostrou que eu não preciso ser sozinho. Ana me fazia admitir ter motivos para viver por alguém. Ana foi uma noite com sol.

Ana foi. Assim que detectamos que nada mais havia a dizer. Logo que começamos a vasculhar razões para sorrir. Pouco depois que nossa transa deixou de significar poesia, taquicardia, suor e descoberta. Ana foi quando o silêncio pairou entre nós dois no meio de uma pizzaria. Quando provavelmente outros casais apontavam nossa embaraçosa quietude. Ana chorou baixinho e eu ri de nervoso.

Nenhum namoro termina em comum acordo. Você e sua namorada não chegam a conclusão que no dia 23 de julho, às 19 horas, três minutos e 40 segundos, o amor acabou. Todo namoro acaba porque o amado põe a mochila nas costas e dá um beijo de adeus na testa do amante.

Mas até hoje nossa paixão é lembrada com alegria por quem testemunhou. Até hoje ninguém acredita que um amor assim tenha prazo de validade. Eu e Ana fomos o Pelé dos namoros. Encantamos a todos e paramos no auge. Muito antes da frustração, de traição, da falta de respeito, da agressão, da ânsia de vômito e de criarmos parentesco.

E é por isso que hoje eu ainda acredito no amor e quero vivê-lo de novo. Porque com a Ana, eu tive tempo suficiente para aprender que namoro é sinônimo de alegria, tesão e paz. E também porque me faltou tempo para me entranhar que amar não vale a pena.

- Gabito Nunes in A manhã seguinte sempre chega

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