terça-feira, 26 de junho de 2012

Amor é droga

na calçada presenciei um fato incomum. um singelo rapaz, no auge da subconsciência motivada por uma encantadora paixonite pela recém-namorada – a primeira garota que o aceitou, provavelmente –, a presenteia com uma (grande, enorme, vexatoriamente estratosférica) almofadinha no formato de um coração, cor vermelho-sangue. e o palco cercado de desconhecidos transeuntes, todos empaticamente envergonhados por ele, como eu.

na hora pensei o que, aposto, você está pensando agora: “que imbecil, será que ele não percebe que está se expondo? será que ele não se dá conta que mulher nenhuma recebe bem uma manifestação pública e revolucionária desse quilate? será que ele não antevê que se continuar gelatinoso desse jeito ela o trocará pelo primeiro babaca de marca maior que conhecer? será que ele não desconfia que tudo isso terminará em frustração, dor, arrependimento, traumatismo e pão-durismo do cérebro na liberação da dopamina futura?”. isso tudo eu pensei sóbrio.

mas quer saber a verdade? amar sem nenhum ato insano não é amar. é outra coisa qualquer, normal. e o amor não é normal – a falta dele sim. vai ver é por isso que cometemos as maiores “besteiras” da nossa vida quando estamos sob o efeito da dopamina que a paixão libera no cérebro. cientistas já divulgaram, em algum periódico da área, que o amor romântico produz no apaixonado efeitos parecidos com a cocaína na mente. faz sentido, eu poderia jurar que o garoto da almofadinha estava mais batizado que o Jim Morrison em dia de show.

talvez o amor seja uma necessidade tão básica quanto a fome e a sede. os blockbusters água-com-açúcar, sobretudo com galã gentil e grisalho envolvido, faturam tanto quanto a água mineral e os bons restaurantes. o que os sedentos e famintos fazem em nome da saciedade? lutam, se expoem, vão à luta. sem medo. sem vergonha. sem noção. correndo cegos atrás do ruído estridente de um alarme biológico, o guiando em pântanos incertos, a fim de se satisfazer. por isso tanta gente sofrendo a abstinência da má distribuição.

o mundo é divido entre as pessoas que sabem que amar é uma necessidade básica, e as pessoas que fingem que não – talvez nasceram sem fome, sem paladar, sem boca para o amor. só quem já fez sexo e amou ao mesmo tempo, na mesma cama, com a mesma pessoa, entende a pequena diferença entre os homens e os chimpanzés. esse experimento comprova que basta uma só vez, e você se torna um adicto. de hoje em diante, ao garoto viciado da almofadinha, todas as bobagens que cometer estarão perdoadas, pois o amor é uma droga, a mais poderosa do mundo.

- Gabito Nunes

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