quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Noveleta


não, eu não era engraçada. sem nem ao menos saber, eu era muito séria. não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. e, por Deus, eu não era um tesouro. mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitável – que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável. mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento. pelo menos uma vez ele teria que amar, e sem ser a ninguém — através de alguém. e só eu estivera ali. se bem que esta fosse a sua única vantagem: tendo apenas a mim, e obrigado a iniciar-se amando o ruim, ele começara pelo que poucos chegavam a alcançar. seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. através de mim, a difícil de se amar, ele recebera, com grande caridade por si mesmo, aquilo de que somos feitos. entendi eu tudo isso? não. e não sei o que na hora entendi. mas assim como por um instante no professor eu vira com aterrorizado fascínio o mundo — e mesmo agora ainda não sei o que vi, só que para sempre e em um segundo eu vi — assim eu nos entendi, e nunca saberei o que entendi. nunca saberei o que eu entendo. o que quer que eu tenha entendido no parque foi, com um choque de doçura, entendido pela minha ignorância. ignorância que ali em pé — numa solidão sem dor, não menor que a das árvores — eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível. ali estava eu, a menina esperta demais, e eis que tudo o que em mim não prestava servia a Deus e aos homens. tudo o que em mim não prestava era o meu tesouro.
07 de fevereiro de 1970

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

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