segunda-feira, 10 de setembro de 2012


só que dessa não se morre. mas tudo, menos a angústia, não? quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. e a falta de esperança na esperança. e conformar-se sem se resignar. não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. e então vem o desamparo de se estar vivo. estou falando da angústia mesmo, do mal. porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
30 de novembro de 1968

- Clarice Lispector in Angina Pectoris da Alma pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

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