quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Versos X Versos


ao lado do meu computador tem uma taça de vinho e uma água de coco em caixinha. abro a página em branco e me pergunto: será que eu volto, ou deixo assim, como está? será que quero voltar a me expor, ou deixo assim, no mistério? adoro a escancarada e adoro a que faz as malas e some de vista. adoro e detesto as duas.
minha tv ligada em filme de sacanagem e meu ipod tocando Nina Simone. no chão tenho o jornal do dia e uma manchinha que não conto o que é. nem a pau.
esses drogados de merda, penso isso enquanto me pergunto: será mesmo que minha mão é feita de massinha? esses homens cascas de merda, penso enquanto vou me despelando até não sobrar nada porque não sei exatamente o que sobra quando não estou atuando. quando sou eu mesma, sou a melhor atriz que já conheci. quando não penso sobre ser algo, merecia um Oscar.
aí ele chega, tão lindo. e vai embora, tão feio. e liga, tão bobo. e some, tão especial. e eu morro, ainda que não ligue a mínima. e eu to nem aí, ainda que pense o tempo todo em não estar nem aí. e eu abro a porta, a perna, a alma. e quanto mais abro tudo, mais me fecho. e sigo intacta, ainda que toda esburacada. e tenho a plena certeza que cometo o maior erro do ano, ainda que eu não duvide que todos os acertos são mesmo feitos assim: quando a loucura nos vence de alguma forma.
e enquanto eu explico para o meu melhor amigo que o tipo mais grosso na ponta que afina pro meio, é o melhor, quero chorar porque o Dudu, o garotinho de dois anos com seu carrinho vermelho, me olha curioso. a pureza me destrói, por causa da sujeira. e a sujeira me destrói, por causa da pureza. mas sigo inteira e peço pizza de chocolate com morango. será que a minha mão é feita de massinha?
depois, no dia seguinte, lá vem a ressaca. sempre. adoro minhas dancinhas e gracinhas e loucurinhas. mas no dia seguinte acordo e me pergunto: por que é que você não faz cara de paisagem e permanece fina e permanece intocável? por que é que você não consegue ser difícil, escrota e blasé? adoro que a Grazi apareceu com seu vestido vermelho colante de couro por dez minutos e foi embora. por que é que eu não vou embora?
aí a música começa e quando vou ver já imitei o Michael Jackson, a Madonna e o Tiririca, porque adoro me trair e estragar tudo. e todo mundo ri, mas ninguém me leva a sério. mas será que quero? mas será que alguém leva alguma coisa a sério? eu queria me levar menos a sério. e é isso que faço, quando faço a dança do macaco-galinha-caranguejo pulando cordas. mas no final das contas, acabo chorando no carro depois de ganhar alguns minutos de cafuné no cabelo. qual foi mesmo a última vez que alguém fez carinho em mim sem pedir nada em troca? eu devia ser criança.
um milhão de amigos e chorando sozinha no carro. mas no meu ap de 40 metros quadrados só cabe eu mesma. ainda bem. a coisa que eu menos queria era alguém aqui, agora, me vendo chorar porque não tem ninguém aqui, agora.
e aí o Dom Juan de saias dorme de pijama cor-de-rosa. não peguei ninguém hoje mas ri bastante. e amanhã vou acordar num tremendo mau humor e morrendo de nojo das pessoas que falam “peguei alguém”. e amanhã vou querer acordar depois de dez anos ou há dez anos. e vou querer congelar na vida de agora, que acontece mais do que antes ou depois. e vou querer sair da gaiola da mesmice. e vou me perguntar de novo quando é que o efeito da droga que eu nunca experimentei vai passar. e vou ler esse texto que minha mão de massinha escreveu e querer me esconder ou nas dancinhas de macaco ou no pijama cor-de-rosa. mas vou acabar publicando o que eu nunca deveria ter dito, como sempre.

- Tati Bernardi

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