terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ainda é tarde


o mundo é dividido entre as pessoas que romperam com uma Ana e as que não romperam com uma Ana.

honestamente, já não consigo pronunciar direito o nome do sentimento que tenho por ela, após esse amontoado de tempo depois que ela me chutou. meio que já subverteu numa lembrança fosca de tudo o que aconteceu. quantas vezes na sua vida você realmente pensou que amava alguém, mas logo se deu conta de que aquilo tudo era uma outra coisa? só desgosto, solidão, ressentimento, tesão, orgulho, carência, desforra e tantos outros mais da família dos “recolhidos”. não sei, talvez algum psicanalista possa exemplificar melhor esse lance. só estou querendo dizer que todas essas impressões são prolixas demais, e cada sentimento meio que faz parte de um diagrama bizarro. no fim, cada um tem sua definição, mas se você focar o microscópio em todos eles, vai compreender que as coisas estão muito próximas umas das outras. bem, talvez por comodismo, ou porque noite sim e noite não desperto tentando decifrar sonhos difusos com Ana; ou por achar que isso resume toda essa lenga-lenga, eu chamo de amor. atrasado, mas ainda amor.

minha mãe acha que é um traço falho do meu caráter, os amigos definem como fraqueza, a comunidade psíquica vê isso que eu tenho como uma espécie de colecionismo afetivo, uma doença. gosto de chamar de Síndrome de Dom Quixote. uma espécie de bloqueio que me impede de qualquer ascensão pessoal e profissional. por mais que eu trabalhe, por mais que eu me ache bom no que faço, e por mais que as pessoas endossem isso, há sempre uma voz em mim. e não é humildade. é um trauma, dos grandes.

quando você termina um relacionamento, as opções se abrem. você pode dar a volta por cima e recomeçar sua trajetória, você pode tentar recuperar seu amor perdido ou, como eu, você pode optar por fazer nada. nada nada. quer dizer, não exatamente nada, porque eu ocupei muito bem meus dias sentindo pena de mim e lutando bravamente para não me tornar mendigo. o que já é grande coisa, se você parar pra pensar.

Ana me largou há vinte e seis meses como quem descarta um livro de autoajuda, um absorvente usado ou um CD do Paul McCartney com os Wings. de lá pra cá, passo boa parte do meu tempo cultuando meu automartírio. nem todo final de semana é idêntico, nem sempre estou sozinho – digo, sem uma garota de ocasião – mas, em oito a cada dez domingos, tão rápido dou o arremate final nas coxas do frango assado e despejo o prato sujo na pia, visto meu casaco de estimação que me deixa a fuça do Richard Ashcroft (eu acho, algumas namoradas também pensavam do mesmo modo, ao menos as que sabiam quem é Richard Ashcroft – Ana não), procuro minhas chaves, ouço que sou frio e insensível e saio a pé. meus tênis adoram o asfalto.

penso nas merdas que fiz e também nas coisas que não fiz. em todas as longas caminhadas naquele calçadão onde negligenciei andar de mão com Ana, durante o pôr do sol cartão postal da cidade, porque para isso acontecer eu teria que sair mais cedo do trabalho, ter sorte com o horário do ônibus e ir até em casa trocar de roupa, o que seria um saco de tão cansativo. na época eu não tinha grana, eu não vivia de royalties, eu não tinha um patrocínio substancial de um refrigerante, eu não tinha vendido a única música do meu pai para um reclame de telefonia celular, eu não tinha a vida ganha. eu precisava trabalhar com jornalismo, como assessor de imprensa numa fábrica de pão bisnaguinha, se é que isso pode ser considerado o tão sonhado jornalismo dos tempos de universidade. bem, a verdade é que eu não dava a mínima pra Ana. tudo parecia para sempre, por que me preocupar agora? amanhã. ou mais tarde. ou nunca mais.

- Gabito Nunes

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