segunda-feira, 26 de março de 2012

convido ao pecado a senhora respeitável
que sabe o que não se deve fazer depois da meia-noite
hora dos anjos e santos e só deles
não serão eles nós mesmos disfarçados?

convido ao pecado o homem que se declara honesto
que se intitula um sábio, que se confere nobreza
a humildade é a anticachaça, venha servir-se, gênio
da dose que lhe falta, o humano declarado

convido ao pecado a moça ingênua que por dinheiro
é capaz dos aos mais violentos contra si própria
boba metida a esperta, dona de coisa nenhuma
que tenha coragem para resgatar o amor que lhe tem sido confiscado

convido ao pecado o sargento, o coronel, o rei das fardas
que baixe o tom de voz, vista uma bermuda surrada
que leia livros, ouça música, mande e desmande sorrindo
e faça sexo como qualquer soldado

convido ao pecado as paredes que escutam tudo errado
convido ao pecado as igrejas que às evidências se têm negado
convido ao pecado um certo silêncio contaminado
convido ao pecado todas as regras de mercado


- Martha Medeiros in Cartas Extraviadas e outros poemas

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