terça-feira, 8 de maio de 2012

Deus

mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. estou precisando. precisando mais do que a força humana. e estou precisando da minha própria força. sou forte mas também sou destrutiva. autodestrutiva. e quem é autodestrutivo também destrói os outros. estou ferindo muita gente. e Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. venha, Deus, venha. mesmo que eu não mereça, venha. ou talvez os que menos merecem precisem mais. só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. e também me dói quando percebo que feri. mas tantos defeitos tenho. sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. embora amor dentro de mim eu tenha. só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. venha antes que seja tarde demais.
10 de fevereiro de 1968

- Clarice Lispector in "A Descoberta do Mundo"

Nenhum comentário:

Postar um comentário