terça-feira, 17 de julho de 2012

aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
sinto que viver é inevitável. posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. ser às vezes sangra. mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. dói. a primavera me dá coisas. dá do que viver. e sinto que um dia na primavera é que vou morrer. de amor pungente e coração enfraquecido.
05 de outubro de 1968

- Clarice Lispector in Eu sei o que é primavera pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

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