segunda-feira, 16 de julho de 2012

a raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? ser gente me cansa. e tenho raiva de sentir tanto amor. há dias que vivo de raiva de viver. porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. bem sei que isso vai passar, e que a carência necessária volta. então vou querer tudo, tudo! ah como é bom precisar e ir tendo. como é bom o instante de precisar que antecede o instante de ter. mas ter facilmente, não. porque essa aparente facilidade cansa. até escrever está sendo fácil? por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta dos dedos? é um pecado, bem sei querer a carência. mas a carência de que falo é tão mais plenitude do que esta espécie de fartura. simplesmente não a quero.
14 de setembro de 1968

- Clarice Lispector in Fartura e Carência pertencente a obra "A Descoberta do Mundo"

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