só ama aquele de coração bom, aquele que gosta de dar, que
ainda sorri largo e franzindo os ombros tipo criança. ama só quem merece, quem
procura e sabe que achou, quem não vê amar como uma coisa sublime e
extraordinária, quem sabe o amor ao alcance das mãos, da boca, das costas, da
nuca, dos pés. ama quem provoca os olhos, as vontades, o sabor do outro. porque
amar é isso. normal.
amar é sofrer choque térmico quando chega a hora de dar
tchau, é implicar com o jeito do outro, brigar no meio da rua, pegar na mão e
fazer as pazes ali mesmo. amar é brincar de briguinha, é dizer que vai amar pra
sempre, é dar beijos e cheiros em lugares estranhos em locais inadequados, é
beber no mesmo copo. todo amante se arrisca meio poliglota "amore
mio", "mon amour", "meine liebe" ou "meu
amor" mesmo.
amar é ouvir som de luz apagada, carregar na garupa, prestar
os primeiros socorros, testar um óleo novo de massagem. amar é beber milk shake
de chocolate, alugar filme, cantar no chuveiro enquanto o outro escova os
dentes, é dormir abraçadinho até mais tarde. amar é não saber esperar, mas
esperar mesmo assim. amar é suspirar alheio, respirar ofegante, ter o peito
encaroçado. aquele que ama abusa do "inho". benzinho, docinho,
tigrinho, morzinho. amar é dizer "fazer coisinha", mandar SMS de boa
noite, escrever cartinha perfumada e todas essas idiotices gostosas.
o olho reluz, a pele melhora, o corpo reage, o coração bate
feliz. amar é mandar, achar que manda, obedecer, fingir que obedece. amar é
fazer vitamina de banana com nescau, é dar bom dia espreguiçando as vértebras
com os braços esticados, sorrindo envergonhado de remela nos olhos. amar é
dizer "vem cá", ter os pés aquecidos sem pedir, comemorar o dia do
primeiro beijo, chegar da festa e comer pizza gelada. só ama aquele que começa
a falar pelo fim, que diz sim sem saber a pergunta, que discute o namoro sem
lugar-comum.
ama quem sai na rua pra tirar fotos, pra ver estrela riscar
o céu, pra pisar na grama descalço, pra pegar um cineminha na terça. amar é
perguntar "tá dormindo?", é descer do ônibus com o outro à espera, é
cantar "she loves you yeah yeah yeah", é morder queixo, orelha,
cotovelo, panturrilha, lábio. amar é comer uma coisa diferente e lembrar o
outro, é ficar de mal, é arrumar tempo pra pensar no outro na correria do dia.
o cúmulo da saudade é amar. você a sente mesmo estando
juntinho. amar é todas essas bobagens e muito mais. amar é cotidiano. amar é
humano. amar é instinto. amar é necessário. amar acontece. amar é escrever. pois gente, afinal, quem foi que começou que essa história de que amar não é
uma coisa normal?
- Gabito Nunes in “A manhã
seguinte sempre chega”

Nenhum comentário:
Postar um comentário