quinta-feira, 2 de junho de 2011

eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. ele tocou. calçou os sapatos, apanhou o chapéu. eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. estendi a mão. ele não podia aceitá-la. eu não devia estendê-la.

- Caio Fernando Abreu in Triângulo das águas

Nenhum comentário:

Postar um comentário