segunda-feira, 24 de maio de 2010

há temporadas em que sofro, sofro, sofro. quanto até vejo a beleza e crio, tornando-me menos ruim; mas então queria que América estivesse aqui para presenciar isso. na casa onde moro. onde exponho à visitação as coisas que consegui recolher pelos anos. onde tenho, por decisão de projeto, uma janela só para se ver a lua. e todos os livros que eu escrevi. essas imensas janelas pelas quais revelo minha parca luz de luar. queria que ela visse tudo isso, e visse como eu vejo. como vi, muitas vezes, no céu, pois sou capaz de infinitos instantes de pura contemplação. durante os quais acredito que ela aponta seus olhos para a mesma estrela que eu. e busco a mais longínqua lembrança dela; a maneira como a conheci, seus incríveis cabelos grossos e negros. suas frases, todas as que elas me disse, e todas as que eu gostaria de ter para ela, mas não disse. por isso afirmo: sou, por culpa dela, o escritor que sou e por causa dela o infeliz que me tornei. uma vez que acabei o que acabei para curar-me dela. pretendo, porém, esgotar toda essa angústia, antes de encontrá-la. ofereço em troca, para que essa pretensão seja possível, o conteúdo do meu espírito neste instante. essa energia esparsa e estranha, só agora descrita, que toma conta de uma pessoa, quando ela aguarda uma inteira maioridade para rever a pessoa amada.

- Fernanda Young in Aritmética

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