sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011


ela contou, entre lençóis, que trabalhar na tevê é uma profissão como as outras, que o estrelato é uma percepção do público e que no fundo ela era uma mulher quase banal. ele contou, durante uma viagem que fizeram juntos, da relação que tinha com os avós, da importância deles na sua infância e em como seu passado de garoto do interior havia definido seu caráter. ela contou, enquanto cozinhavam um macarrão, que havia sido uma menina bem gordinha e que implicavam muito com ela na escola. ele contou, enquanto procurava uma música no rádio, que havia morado em Lisboa e que seu sonho era ser pai. ela contou, enquanto penteava o cabelo dele, que às vezes chorava mais de felicidade do que de tristeza e que ainda não sabia o que dar a ele de aniversário. ele contou, num dia em que assistiam a um filme no DVD, que ela ia rir mas era verdade: quando garoto, ele chegou a pensar em ser padre. ela contou, enquanto retocava o esmalte, que já havia se atrevido a escrever poemas, mas eram horríveis. ele pediu para ler. um dia ela mostrou. eram horríveis mesmo. ele mostrou os versos dele. não é que o safado escrevia bem?

- Martha Medeiros in O cara do outro lado da rua pertencente a obra “Doidas e Santas”

3 comentários:

  1. Nossa que literatura fantástica, gostei muito, me encatei e li em voz alta.
    Fora que gostei do blog.
    Voltarei.

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  2. essa troca e convivência com o outro é impagável... gosto muito!


    bjsmeus

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  3. hahahah. Amei! Mesmo!
    Esse tipo de convivência que a gente tem com o outro é especial demais.
    Se quiser dar um pulinho no meu blog, ficarei feliz. Um beijo.

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