terça-feira, 29 de março de 2011

É para lá que eu vou


para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
à ponta do lápis o traço.
onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
na ponta dos pés o salto.
parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.
ou não vou? vou, sim. e volto para ver como estão as coisas. se continuam mágicas. realidade? eu vos espero. e para lá que eu vou.
na ponta da palavra está a palavra. quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. à beira da tertúlia está a família. à beira da família estou eu. à beira de eu estou mim. é para mim que eu vou. e de mim saio para ver. ver o quê? ver o que existe. depois de morta é para a realidade que vou. por enquanto é sonho. sonho fatídico. mas depois - depois tudo é real. e a alma livre procura um canto para se acomodar. mim é um eu que anuncio.
não sei sobre o que estou falando. estou falando de nada. eu sou nada. depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
é para o meu pobre nome que vou.
e de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. eles me responderão. enfim terei uma resposta. que resposta? a do amor. amor: eu vos amo tanto. eu amo o amor. o amor é vermelho. o ciúme é verde. meus olhos são verdes. mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
à extremidade de mim estou eu. eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. mas a que canta. a que diz palavras. palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
eu à beira do vento. o morro dos ventos uivantes me chama. vou, bruxa que sou. e me transmuto.
oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? eu estou à beira de meu corpo. e feneço lentamente.
que estou eu a dizer? estou dizendo amor. e à beira do amor estamos nós.

- Clarice Lispector in Onde estivestes de noite

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