quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


porque eu me imaginava mais forte. porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. não sabia que somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. é porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. e é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. é porque sempre tento chegar pelo meu modo. é porque ainda não sei ceder. é porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. é porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. é também porque eu me ofendo à toa. é porque talvez eu precisa que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. é porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.

- Clarice Lispector in Perdoando Deus pertencente a obra "Felicidade Clandestina"

Nenhum comentário:

Postar um comentário