sábado, 24 de abril de 2010

Pai Nosso

Pai nosso que estais no céu
, dê uma espiada aqui para baixo e veja com seus próprios olhos, as coisas continuam bem para quem está bem e seguem um descalabro para quem sempre esteve mal, anda cada vez mais difícil acreditar que alguém um dia terá competência para acabar com a miséria, os homens andam desacreditados, as mulheres desenxabidas e as crianças sofrem em jejum.
Santificado seja o vosso nome que tem sido usado em vão para nominar outros deuses que habitam a Bahia e o Planalto, que habitam palácios e manchetes, que nada mais fazem que transferir o poder uns para os outros e inventar frases que serão reproduzidas nos jornais mas que só alteram pra pior a trajetória de quem não sabe ler.
Venha a nós o vosso reino que parece um lugar clássico e de bom gosto, onde as harpas estão em primeiro lugar nas paradas em vez de Reginaldo Rossi, um lugar onde as pessoas não perdem a cabeça por causa de uma freada e nem matam a família por causa de uma enxaqueca, um lugar onde todos têm saúde e a previdência funciona, e o que é melhor, oferece cobertura.
Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, mas principalmente na Terra, onde tem mãe vendendo o filho para pagar divida de aluguel, pai dando sopa de capim pra recém-nascido, criança que não sabe juntar uma letra com a outra e que fica impossibilitada para sempre de trabalhar, viver e sonhar, todas essas coisas terrenas.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, amanhã, terça, quarta e quinta, nos dai também leite, feijão, tomates e um pouco de fé, e se o senhor não puder entregar pessoalmente, mande um de seus emissários, quem sabe o Fernando Henrique, que sabidamente não acredita no Senhor mas que deveria ao menos acreditar nele mesmo, ou no que ele foi um dia.
Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não são poucos: nos ofendem os diretores de hospitais que não conseguem manter seus médicos nos plantões, nos ofendem os ministros que fazem olho branco para a verba desviada, nos ofendem os que não querem MUDAR O PAÍS, e ofendo a mim mesma, iludida de que escrever ajuda, ajuda quase nada, e seu perdão ainda menos.
Não nos deixeis cair em tentação de fingir que nada acontece, que o país está progredindo e que temos muito o que comemorar nesses 500 anos de atraso, corrupção e excesso de malandragem, instituída e aceita como traço de personalidade, livrai-nos de perder o bom senso e a atenção, livrai-nos desse ceticismo que a cada dia se justifica e de todo o mal que temos feito a nós mesmos, amém.

- Martha Medeiros in Trem-bala

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