sábado, 4 de setembro de 2010

bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. e então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. eu queria, ah como eu queria. e não havia jeito de obtê-la. se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. não havia jardineiro à vista, ninguém. e as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. no meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. eu queria poder pegar nela. queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

- Clarice Lispector in Cem anos de perdão pertencente a obra "A Descoberta do mundo"

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